Logo que cheguei a Salvador estava tão preocupada com minha carreira que a vida amorosa ficou em segundo plano.
Apesar disso, conheci um grande empresário baiano que mexeu bastante comigo.
Tudo começou com um representante da empresa dele que atuava junto à diretoria da Caixa na qual eu trabalhava, no Rio de Janeiro. Primeiro ele soube que eu estava lançando o livro “Namoreando” e para agradar (tipo fazer “lobby” mesmo) ele comprou alguns exemplares e chegou a enviar um para o Saulo Ramos, na época Ministro da Justiça que me enviou um exemplar de um livro que ele havia lançado pouco tempo antes.
Depois ele soube que eu estava de mudança para Salvador e disse que um grande amigo dele na Bahia iria me procurar e que eu podia contar com ele para qualquer necessidade.
Não dei muita atenção a isso, mas pouco tempo depois da minha chegada à Bahia, esse amigo dele me ligou e se colocou à disposição.
Continuei sem dar importância, mas o tal homem ligou mais algumas vezes e foi sempre tão gentil que um dia aceitei seu convite para jantar. Como eu estava aceitando aquele convite meio que por obrigação, fui logo avisando que não poderia ficar até muito tarde porque no dia seguinte precisava acordar bem cedo para trabalhar na TV Aratu. Ele disse que isso não era problema e que passaria na minha casa antes das oito da noite.
Lembro que quando escolhi a roupa e o perfume naquela noite, pensei em algo que fosse elegante, mas o menos sensual possível. Economizei meu perfume “Paloma Picasso” e optei por um outro mais suave. Não queria mesmo provocar nada de diferente naquele desconhecido que provavelmente, por ser um empresário tão famoso, deveria ter idade para ser meu pai.
Conforme combinado, ele chegou cedo. Pedi que ele me aguardasse na portaria e desci rezando para que ele fosse simpático e tivesse um papo agradável para que a noite não fosse longa demais, afinal, acordando sempre às 4h30min da madrugada, eu estava sempre cansada.
Quando desci, vi aquele homem alto, louro, super bem vestido e mal pude acreditar. A princípio não consegui olhar bem para ele porque estávamos na penumbra. Ele me pegou pelo braço e me conduziu até seu carro. Ele mesmo estava dirigindo (depois eu soube que ele havia dispensado o motorista).
Entrei e não tinha como olhar direto no rosto dele, pois teria que virar o rosto de maneira muito evidente, mas percebi que estava acompanhada de um homem jovem e muito charmoso.
Fomos jantar no Hotel Quatro Rodas, em Itapuã e foi uma noite maravilhosa que passou muito, muito depressa. Ele se comportou como um “gentleman”.
Acordei ainda encantada com ele. Foi paixão a primeira vista.
No dia seguinte ele ligou para dizer que tinha gostado muito e me perguntando se eu aceitaria jantar novamente com ele na semana seguinte, pois estava com viagem marcada.
Nem preciso dizer que esperei ansiosamente pelo novo encontro.
Quando ele me ligou, pediu que eu usasse uma roupa mais esportiva e sem salto alto, mas não disse o porquê dessa recomendação.
Segui suas instruções, mas dessa vez usei meu perfume Paloma Picasso.
Novamente ele veio me buscar sem o motorista e me levou diretamente para um píer que ficava na Avenida do Contorno (onde hoje está localizado o restaurante Trapiche Adelaide).
Embarcamos numa lancha maravilhosa. Já na lancha, ele trocou o terno por uma roupa esportiva. Íamos no andar de cima, com ele conduzindo o barco, enquanto dois marinheiros preparavam nosso jantar na parte de baixo.
O mar estava muito calmo, o céu estava limpo, cheio de estrelas e a lua iluminava a baia de Todos os Santos. Conversávamos sem parar até que ele parou a lancha atrás de um quebra-mar que fica na praia de Ponta de Nossa Senhora, a mesma que eu fui anos antes no passeio de escuna com o pessoal do BNH.
Conversamos bastante enquanto apreciávamos alguns cálices de vinho branco. Ele estava extremamente sedutor. Soube que ele estava com 36 anos, que era nascido em Salvador, que trabalhava muito e que seu trabalho exigia constantes viagens. Era um homem poderoso, intimamente relacionado com os governos estadual e federal. Chegou a dizer que eu poderia pedir o que quisesse, ou melhor, o cargo que eu quisesse na Caixa que ele conseguiria para mim. Nunca quis trilhar meu caminho profissional por meio de indicações políticas, até porque temia ficar “endividada”, e não me deixei seduzir pela oferta, ainda mais eu estava bastante satisfeita com meu trabalho de repórter. Além disso, tinha muito claro, e o tempo demonstrou que eu estava certa, de que quem sobe muito rápido e por meio de caminhos como esse, tem que enfrentar uma queda logo em seguida e, às vezes, não consegue recuperar-se depois.
Descemos para jantar uma moqueca de peixe deliciosa, daquelas feitas por quem pesca e sabe tratar um peixe.
Foi realmente uma noite de sonhos – inesquecível.
Ele me deixou no portão do prédio com um beijo no rosto demorado e apertado.
Alguns dias depois fomos novamente jantar no Hotel Quatro Rodas e aí veio a notícia que eu não queria receber: ele era casado.
Disse que toda a sua fortuna tinha sido gerada quando ele já era casado e, portanto, não haveria hipótese de se separar da esposa. Fiquei muito triste.
Mesmo assim, continuamos nos encontrando. Uma noite, preparei um jantar para nós dois. Ele levou o vinho tinto e eu preparei um “espaguete ao gorgonzola”. Minha pouca prática na cozinha fez com que o molho ficasse muito seco. Ele comeu com toda a educação e ainda elogiou.
Logo que fui morar sozinha, passei muito mal com um cachorro quente que comi no Shopping Barra e precisei ser internada. Passei muito mal sozinha em casa e não ainda tinha telefone. Naquela época, os telefones residenciais eram caríssimos e eu não tinha dinheiro, cerca de US$ 1.500. Por causa desse mal estar, priorizei a compra do telefone e pedi dinheiro a papai que pediu que eu aguardasse apenas alguns dias até que vencesse o prazo da aplicação onde estava o dinheiro dele.
Eu já tinha encontrado uma linha que estava a venda por um bom preço e não queria perder o negócio, o que ocorreria se tivesse que aguardar o prazo necessário para receber o dinheiro de meu pai. Assim, me enchi de coragem e pedi o dinehiro empresado a esse “namorado”. Ele me atendeu rapidamente.
Alguns dias depois, assim que o dinheiro enviado por papai entrou na minha conta, procurei devolver o valor que ele havia me emprestado. Preenchi um cheque e fui entregar a ele no meio de um evento da empresa dele que estava acontecendo num dos auditórios do Centro de Convenções do Othon Hotel de Salvador. Ele me recebeu, pegou o cheque e nunca descontou esse cheque.
Isso me deixou constrangida e todas as vezes que eu perguntava por que ele não tinha depositado meu cheque ele ria e dizia que eu não me preocupasse porque ele iria fazer o depósito. Ele achava a maior graça na minha preocupação de devolver um dinheiro que ele não precisava.
O tempo foi passando e eu mantendo na minha conta o saldo necessário para pagar o cheque que estava na mão dele. Até que um dia ele disse que já tinha rasgado o cheque e que era um presente que ele queria me dar. Ainda se divertiu dizendo que guardou o cheque por algum tempo porque gostava de ficar olhando para minha assinatura e lembrando da minha grande preocupação em pagar o empréstimo. Aí a gente entende quando dizem que rico ri à toa...
O fato de saber que ele era casado serviu para que eu me esforçasse para não me deixar levar pela paixão. Aos poucos as coisas foram perdendo o “glamour”. A gente ainda se encontrou algumas vezes, nos falamos muitas outras vezes. Continuamos a trocar uns beijos, mas nada mais forte.
No dia dos namorados do ano seguinte, a gente já não se via fazia meses, mas ele mandou o motorista lá em casa, já tarde da noite, com um lindo buquê de rosas vermelhas e um cartão carinhoso.
Nunca mais tive contato com ele, exceto por uns poucos encontros casuais, sendo que num deles, num vôo entre Salvador e São Paulo, fiquei sabendo que tinha se separado da esposa e estava casado com outra e que também tinha tido grandes decepções com amigos que ele considerava como irmãos.