quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Mudando da Tijuca para o Corte do Cantagalo

Depois que comecei a trabalhar no BNH e a sair com a Márcia, o fato de morar na Tijuca começou a me incomodar. Por causa da distância, todos os finais de semana eu me mudava para a casa da Márcia – só que o apartamento dela não tinha garagem, um transtorno em se tratando de Copacabana. Além disso, minhas novas amizades no banco moravam quase todas da zona sul.
Perturbei tanto o juízo de minha mãe que ela resolveu defender minha causa e começamos a procurar apartamento na Zona Sul. Meu pai e irmãos foram contra. Eduardo e Edinho estavam bem adaptados à Tijuca e, se tivessem que mudar, preferiam a Barra. Papai, a muito custo, foi seduzido pela idéia da mudança, mas cada apartamento que eu e mamãe conseguíamos convencê-lo a visitar era motivo de discussão: ele nunca concordava.
Um dia, um domingo ensolarado, papai mesmo viu no jornal o anúncio de um prédio que acabara de ficar pronto na Av. Henrique Dodsworth, 64, bem no Corte do Cantagalo (o Corte do Cantagalo é uma passagem que liga Copacabana à Lagoa Rodrigo de Freitas).
Vimos o anúncio e percebemos que tratava-se de um imóvel de valor muito, mas muito superior ao do apartamento que nós morávamos, na Rua Haddock Lobo, e também quase três vezes maior do que o valor de imóvel que eu e mamãe estávamos procurando.
A diferença é que a forma de pagamento era muito facilitada, assim como o valor financiado pela CAIXA que juntava duas operações de crédito para o mesmo imóvel (SFH e Hipotecário). Saímos de casa para ver o apartamento e qual não foi nossa surpresa quando papai fechou o negócio.
Parecia um sonho! A varanda dava de frente para o morro e a gente podia ter uma boa vista do mar de Copacabana e da Lagoa Rodrigo de Freitas. O prédio tinha piscina, sauna e quadra de futebol, sendo que a área de lazer ficava em cima do morro e era necessário subir uma enorme escadaria para chegar até la, mas a vista que se tinha lá de cima era maravilhosa.
O apartamento tinha uma grande sala de estar e jantar, três quartos (pequenos), dois banheiros e lavabo – uma beleza para nosso padrão até então.
Mudamos em maio de 1982. Por incrível que pareça, apesar de ter sido eu a pessoa mais feliz da família com a mudança de bairro, quem mais aproveitou a localização desse apartamento foi papai. Ele, tão logo se aposentou, aderiu ao costume de caminhar na Av Atlântica ou em volta da Lagoa, além de curtir as comprinhas diárias de frutas e legumes no comércio da redondeza.
Com o tempo, Eduardo e Edinho passaram a gostar muito de morar ali e a família ganhou mais espaço e mais comodidade.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Noites Cariocas

Em meados de 1981, minha amiga de colégio Márcia Berino, que estava morando em Brasília havia três anos, voltou para o Rio, indo morar em Copacabana.
Em Brasília, ela havia se acostumado a sair quase todas as noites. Frequentava as melhores boates, bares e restaurantes. Portanto, quando voltou para o Rio, tratou de buscar a mesma rotina e me apresentou às noites cariocas.
Íamos à Hippopotamus, a boate mais badalada da época, todos os finais de semana e também durante a semana. Aprendi a beber “Screw Driver” – vodka com suco de laranja, com o objetivo de me animar e ficar menos tímida.
Lembro das músicas que marcaram essa época e que, até hoje, quando as ouço, me leva de volta no tempo à pista de dança da Hippo – “Dance a Little Bit Closer”, “New York, New York”, “Can't Take My Eyes Off Of You”, “I'm So Glad That I'm a Woman”, músicas de Barry White e vários roquinhos de Rita Lee.
Algumas vezes íamos à Hippo várias vezes na mesma semana. Chegava em casa de madrugada e ia trabalhar no dia seguinte e à noite estava de volta à balada. Não sei onde arrumava tanta disposição!
Conhecemos muita gente, na verdade muitos homens diferentes. Pouco namorei nessa época. Nossos amigos eram homens mais velhos e não me atraíam, exceto um deles por quem eu tive uma “paixonite” e que se dizia separado, mas depois descobri que era casado. Ele dizia que tinha mudado de endereço a pouco tempo e por isso não tinha telefone em casa. Naquela época essa desculpa era aceitável, pelo menos por algum tempo. Um dia, decidi tirar a história a limpo e fui atrás dele na Rua Canning; uma rua pequena de Ipanema onde ele dizia morar, mas eu não sabia o prédio. Dei uma de detetive e um dos porteiros com quem falei apontou onde ele morava e afirmou que ele estava em casa. Perguntei se a esposa também estava em casa e ele confirmou. Joguei verde ao perguntar pela esposa e levei um choque com a resposta. A adrenalina circulou a mil pelas minha veias e o coração parecia que ia sair pela minha boca.
Esperei dentro do meu carro até que ele saísse da garagem no carro dele e o segui pelas ruas de Ipanema. Chegando à Av. Vieira Souto, fechei o carro dele e o obriguei a parar o carro no canteiro central (na época havia vagas para carros ali). Não me lembro o que eu disse, mas fui dura, descasquei em cima dele. Depois descobri que custei demais a descobrir a verdade; eu já estava apaixonada.
Que golpe! Esse homem tripudiou em cima de mim, uma menina de 22 anos. Quando eu disse que não o queria mais pelo fato dele ser casado, apareceu com uma menina bonita e ainda mais nova que eu. Eu era muito inexperiente no relacionamento com os homens. Como eu sofria! Chorava muito e achava sempre que estava diante do grande amor da minha vida! Quanta ingenuidade! Quanto tempo desperdiçado!
Nossos amigos das baladas se acostumaram com nossa companhia, minha e da Márcia Berino, e passaram a nos tratar como “amiguinhas mais novas”. Assim, eles passaram a conversar na nossa frente sobre as outras mulheres que conheciam a cada dia. Ouvindo as conversas deles, percebi que eram muito galinhas, falsos e que era muito comum falar mal das mulheres que ficavam com eles.
Eram assuntos do tipo:
- "Você conheceu a fulana? Aquela mulher é boa! Vai lá cara, vai lá que você vai gostar. Eu achei ótima!"
Quase cai dura quando ouvi isso. Estávamos numa das mesas do "Pizza Palace", que ficava ao lado da Hippo. Era um comportamento tão oposto ao que eu estava acostumada.... recomendar a caça! Para muitas mulheres, principalmente na adolescência, basta olhar e gostar de um cara para sentir-se dona do bofe. E ai da amiga que se envolver com ele ou até mesmo com algum ex-namorado. Exageros à parte, é lamentável ver um homem recomendando ao amigo que vá para a cama com uma mulher que ele acabou de transar. Nossos amigos eram motoqueiros, donos de máquinas possantes, geralmente 750 cc. Algumas vezes, saíamos da Hippo com o dia já amanhecendo e íamos de carona na garupa das motos, voando pela Av. Vieira Souto e Av. Atlântica, para tomar café da manhã no Othon Hotel.
Hoje vejo que eu e Márcia tivemos muita sorte nas nossas andanças noturnas. Nunca apareceu ninguém que sequer tentasse nos seduzir com drogas e, apesar de nossa ingenuidade, nunca nos aconteceu coisas semelhantes àquelas que ouvíamos os rapazes comentando a respeito de outras mulheres.
Nessa época, nos domingos à tarde, o quente era passear no Arpoador. A galera mais bonita da cidade desfilava por lá e a azaração era geral.
Frequentávamos também a boate Regine’s, no Hotel Le Meridien, a Mikonos, no Leblon, e o Pizza Palace – ponto de encontro da Praça Nossa Senhora da Paz. Também adorávamos jantar em bons restaurantes como o Florentino, o Antiquarius e o restaurante da Hippo. Nessa época havia uma turma de rapazes que organizava festas nas melhores boates e salões de festa do Rio. Os homens cotizavam as despesas e a mulherada ia de graça. Era ótimo!
Uma dessas festas aconteceu na recém inaugurada boate do Hotel Nacional. Era a “Noite do Crown Salute” e essa marca de scoth era servida sem parcimônia. Eu, que nem gostava de whisky, bebi a noite inteira. O porre foi geral. Eu, Márcia Berino, Magali e Rosangela dançamos, rimos e brincamos muito.
Uma cena inesquecível foi encontrar Rosangela, que estava sentada a uma das cadeiras, conversando com um jornalista americano (gastando todo o seu inglês). Quando ela levantou, usando um vestido curto, pudemos ver que sua meia, tão perfeita quando chegamos, estava reduzida a um trapo. Praticamente não era mais uma meia-calça e sim um conjunto de vários buracos separados por alguns fios de meia que insistiam em não se romper. Uma lástima! Ela explicou que havia uma farpa na cadeira na qual estava sentada....
Em outra dessas festas, no Golden Room do Copacabana Palace, quem pagou o mico fomos eu e Luciene.
Era uma festa pré-carnavalesca, à fantasia. Tudo muito bem organizado, ótima banda e muita gente bonita e animada.
Lá pelas tantas, perdi uma grossa pulseira de ouro em estilo corrente que eu adorava. Perdi um tempão procurando e, por incrível que pareça, com a ajuda do pé da Luciene, achei-a em baixo de um monte de confetes e serpentinas. Feliz da vida, fiquei com a pulseira na mão já que, por força da fantasia, estava sem bolsa e o fecho da pulseira estava quebrado.
De repente, alguém apertou um lenço com lança-perfume no meu nariz e logo depois no nariz de Luciene – desmaiamos praticamente ao mesmo tempo. Ficamos ali, caídas no chão. Que vexame... Lembro que quando acordei, não sabia onde me esconder de tanta vergonha.
Quase na hora de ir embora, deixei a pulseira sobre a mesa para ajeitar a sandália. E lá se foi minha adorada pulseirinha...não sei se a esqueci ali ou se a roubaram.
Naquele dia, fui para casa com Luciene. Dirigi meu "poderoso" Chevette e consegui estacioná-lo na garagem em perfeito estado. Nunca soube o caminho que fiz de volta para casa: se pela Av. Atlântica, Barata Ribeiro ou Toneleros. Tão pouco onde encontrei lucidez para escalar o corredor em espiral de nove andares que precisava vencer para chegar no andar onde ficava a vaga do carro. Meu anjo da guarda devia estar de plantão. Nesse dia, Luciene criou um trauma que ela nunca mais esqeuceu: pegou pavor a gatos. Tínhamos uma gata pequena, recém chegada na família, que era meio maluca. Ela atacou a Luciene, mordeu e arranhou as pernas dela. Pensamos que era ciúme porque a Lu estava deitando na cama que era do Eduardo e a gata adorava meu irmão. Mas tempos depois, ela atacou o Edu também. Após um período de quarentena, essa gata teve que voltar para as ruas de Muriqui.
Outras garotas saíam conosco de vez em quando: Magali, irmã da Márcia que na época estava morando em Curitiba e voltou para o Rio, minhas primas Luciene e Rosangela - que já estava em processo de separação do primeiro marido.
Sair aos sábados à noite era um compromisso sagrado. Algumas vezes, se não houvesse nada combinado, saíamos em quatro ou cinco garotas, parávamos no Popeye, um boteco de Ipanema especializado em batidas e comprávamos uma garrafa. Tomávamos toda a bebida no gargalo, dentro do carro e depois seguíamos para algum lugar da moda onde já chegávamos embaladas.
Numa dessas saídas, quando estávamos no carro da Márcia Berino, quase sofremos um grave acidente. Saindo da Av Vieira Souto, entramos na Av Epitácio Pessoa com a intenção de dobrar à direita na Av Visconde de Pirajá. Paramos no sinal fechado que fica na esquina da Epitácio Pessoa com a Prudente de Morais e quando o sinal abriu, Márcia se enganou, achou que já estava no cruzamento com a Visconde e entrou com tudo na contramão da Rua Prudente de Morais. Ficamos de frente para para os faróis de um ônibus. Márcia desviou para a direita e por muita sorte, o ônibus desviou para o outro lado. Ainda levamos alguns segundos para perceber que tínhamos entrado na rua errada. Essa foi a última vez que paramos no Popeye para beber e depois sair passeando de carro.
Uma outra vez, chegamos no boteco "Caneco 70", que ficava na Delfim Moreira, tão embaladas que nossa chegada foi muito escandalosa. Lá, encontramos com o Ginho, um cara bem formado e educado que morava numa casa na Gávea. Ginho, vendo nossa animação, perguntou se tínhamos bebido. Puts!!!!
A resposta da Márcia foi um mico ainda maior: - "Por que você está perguntando isso? Sentiu o bafo?" kkkkkkkk Que jeito pouco elegante de falar, não? Ginho fez uma expressão meio espantada e disse:
- "Não! É porque vocês estão muito animadinhas."
Eu saí de perto cheia de vergonha.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Guilherme - Uma história de amor que durou 17 anos

            Logo que retornei das minhas férias no nordeste, em julho de 1981, Arnaldo, o chefinho maluquinho, inventou de me mandar para Bahia à trabalho juntamente com alguns engenheiros. Entre eles estava Guilherme Campos – um engenheiro de 26 anos, com cerca de 1,85 m de altura, corpo perfeito de ex-remador da seleção brasileira que competiu em jogos Pan-Americamos e na Olimpíada de 1976, em Montreal.
Guilherme morava em Ipanema, tinha uma moto Honda CB 400 cc e um carro que era o charme da época, um Passat TS. Além disso, ele era, e ainda é, um homem muito bonito. Sua beleza, no entanto, apresenta uma característica interessante: ele usa óculos e nunca quis operar a miopia. Entretanto, os óculos o deixam com um jeito de bobo. Sem os óculos ele fica muito lindo! Essa característica é tão evidente que ele recebeu dos amigos o apelido de “Clark Kent”, em referência a essa mesma característica do Super Homem.
No início da viagem, enquanto trabalhávamos, ele me dava bastante atenção e ficava implicando muito comigo. Eu, sinceramente, não estava muito interessada nele.
Tudo mudou no último dia da viagem, quando já estávamos de volta à Salvador e o dono de uma das empreiteiras ofereceu um passeio em sua escuna particular. Quando vi o Guilherme de sunga e sem óculos, quase não o reconheci. Meu queixo não caiu – despencou! Tudo em minha volta mudou naquele momento – eu estava hipnotizada por ele.
O passeio foi até a Ilha de Ponta de Nossa Senhora, uma praia que, naquela época, era quase deserta. Era um lugar maravilhoso, com um mar calmo, morno e transparente, e que tinha uma igreja pequenina no topo de um pequeno morro.
Foi um dia muito agradável. Passamos muito tempo na água conversando amenidades. O responsável pelo único barzinho existente na ilha, nos servia deliciosos petiscos.
Voltamos ao Rio no mesmo dia. Quase perdermos o avião porque o passeio terminou quando já tinha anoitecido e, antes de seguir para o aeroporto eu ainda precisei passar na casa da prima Marisa, no bairro de Brotas, onde eu havia pernoitado, para pegar minha mala. Pegamos um trânsito muito congestionado e acabei atrasando. Guilherme, um dos que mais tinha argumentado a favor de voltar para o Rio naquele mesmo dia, fez questão de me acompanhar e foi comigo até o apartamento da Marisa enquanto os outros seguiram direto para o aeroporto a fim de adiantar o check-in. Arrumei minhas coisas rapidamente e seguimos de táxi para o aeroporto. Quando chegamos, nosso nome já estava sendo chamado no sistema de som. Nunca embarquei tão rapidamente!
Cheguei em casa em estado de graça e neste mesmo dia, fiz meu primeiro verso inspirado em Guilherme – um acróstico com o nome dele:


G uiei meu pensamento
U nicamente para o material
I maginanva que o amor
L egava apenas dor
H oje mudei de opinião
E ntendi que a principal
R azão, é o amor no coração
M udei porque
E ncontrei você


C omo criança
A mo você à distância
M esmo sabendo os riscos do amor
P ouço me importo em sofrer
O uço apenas
S inos ao ver você.


            Daí em diante, passei a pagar grandes micos diante do pessoal do trabalho. O BNH inteiro – com destaque para o pessoal que trabalhava nas áreas de engenharia e comunicação social, percebeu que eu estava completamente apaixonada por ele. Arrumava os pretextos mais infantis para estar perto dele. Levava docinhos ou subia de um andar para outro para pedir uma régua emprestada (como se em toda a área de comunicação ninguém tivesse uma régua para emprestar..). A paixão deixa a gente cega e é um ótimo “emburrecedor”. Para completar, passei de mandar cartas anônimas, apaixonadas e perfumadas. Durante mais de um mês, ele recebia duas, três e até quatro cartinhas por semana. Claro que não foi difícil para ele adivinhar quem era a remetente. Alguns meses depois descobri que ele era apaixonado por uma tal de Márcia. Uma lambisgóia que todos apelidavam de Mortícia (por causa da semelhança com a personagem do seriado “Família Adams”). Minha paixão foi serenando, mas esteve presente em minha vida durante muitos e muitos anos. Depois que a primeira onda de paixão foi abrandada, entrei na fase das noites cariocas e Guilherme permaneceu como um amor e um sonho inatingível. A vantagem dessa paixão foi ter despertado minha veia poética através das inúmeras cartas e versos que escrevi para ele. Até então, eu desconhecia essa habilidade que depois rendeu a publicação de dois livros em conjunto com mais três amigas do BNH.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O melancólico final do curso de jornalismo na faculdade

Fiz a faculdade de jornalismo em quatro anos, mas estudei pra valer apenas até o quinto período, quando ainda não estava trabalhando. Depois que assumi no BNH tive que mudar para o horário noturno. Nunca mais fui a mesma aluna. Mal conhecia os colegas da turma – que era muito, mas muito mais fraca que a turma do turno da manhã.
Trabalhava das 10 horas da manhã até às 19 horas. Como eu precisava dividir o carro com Eduardo, ele ficava com “Lucélia” (a Fiat) durante o dia e no final da tarde ia me buscar no BNH. Eu o deixava em casa e seguia para a UGF pegando um trânsito terrível por toda a Avenida 24 de Maio.

Chegava na sala de aula muito cansada, sem paciência para fazer os trabalhos necessários e os fazia sem muito capricho. Sequer recordo o nome de qualquer dos colegas dessa turma. Tão logo era possível, corria para casa.
Como fui muito boa aluna nos primeiros semestres, enrolei o suficiente para me formar, o que aconteceu no final de 1981, sendo a colação de grau em março de 1982.
Minha formatura não teve nada de especial. Foi no auditório da própria faculdade e sem festa. O convite foi simplérrimo e, que me lembre, apenas meu tio-padrinho Roseli e minha tia-madrinha Ediléia marcaram presença, além de meus pais e Eduardo.
Apenas uma coisa foi marcante nesse final de curso.
No dia em que prestei a última de todas as provas, um sábado à tarde, vinha voltando para casa muito aliviada por ter terminado a faculdade. Estava leve, livre e feliz como raramente a gente se sente na vida. Sabe aquela sensação de dever cumprido? Eu voltava dirigindo com toda a calma do mundo quando, sem mais nem menos, apareceu o “louco”.
Eu estava parada num sinal que cruza a Rua Dias da Cruz quando um Chevette branco meio velho começou a piscar os faróis desesperadamente atrás de mim. Eu nada podia fazer porque o sinal estava fechado e a Dias da Cruz é uma rua muito movimentada. Além disso, é claro que eu não avançaria o sinal apenas porque alguém atrás de mim queria que eu fizesse isso. Quando o sinal abriu e eu arranquei, o “louco” continuava atrás de mim, buzinado muito e piscando o farol. Puxei o carro para a direita e fiz sinal para ele passar – queria me livrar daquele maluco.
Quando ele estava me ultrapassando, sem mais nem menos, o doido jogou o carro em cima do meu, chegando a encostar a lateral direita do carro dele na lateral esquerda do meu. Fez isso me olhando e xingando, acelerou bastante e foi embora. Fiquei muito assustada, sem entender nada do que estava acontecendo. Segui mais um pouco e decidi parar para ver se meu carro estava amassado. Parei o carro no lado esquerdo da rua (era uma rua bem larga e do lado direito havia os ônibus) apenas para verificar se tudo estava bem.
Pois o louco não voltou de ré, parou o carro na frente do meu e desceu para me xingar? Vestia apenas short, estava descalço e sem camisa – uma figura! Eu apenas perguntei:
- “Você está maluco?”
O infeliz gritava as maiores barbaridades, juntou gente rapidamente e eu nada mais falei ou respondi. Ele certamente estava muito bêbedo ou drogado. Quando percebi que o carro estava inteiro e que não adiantava discutir com aquele “coisa”, voltei para o volante e tirei o carro de onde havia parado.`Para isso tive que passar por ele, já que o carro dele estava parado na frente do meu. Enquanto isso, o doido continuava berrando muitos palavrões. Quando percebi que ele estava fora do carro e eu já no meio da rua com a marcha engatada e a pista livre à minha frente, dei uma rápida parada e gritei:
-VIADO!
Em seguida, logicamente, arranquei com o carro a toda velocidade. Pelo espelho, ainda vi o maluco correndo para o carro e arrancando em velocidade para me perseguir. Mas, por sorte, um sinal fechou atrás de mim e ele ficou preso tempo suficiente para eu ganhar distância e pegar um caminho secundário.
Até hoje me pergunto o que foi que fiz para irritar tanto aquela fera?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Meu chefe muito doido

Logo que cheguei à SECOM, transferida do Departamento de Planejamento, fui alocada no setor de produção de áudio-visual. Foi quando percebi que meu chefe Arnaldo era doidinho! Logo no primeiro mês trabalhando com ele, e assim que voltei das férias na Bahia, Arnaldo escalou-me para viajar para o interior da Bahia, visitando conjuntos habitacionais que estavam sendo construídos em cidades localizadas às margens do Rio São Francisco e que haviam sido atingidas pela cheia do rio e deixado muitos desabrigados.
Assim, parti com mais nove engenheiros do BNH para Salvador e depois para Juazeiro e Xique-Xique. Não me lembro porque, não pude levar a máquina fotográfica do banco, e por isso, improvisei fotos com minha câmera particular, uma simples Olympus Trip. Arnaldo, sem nem saber se eu tinha ou não talento como fotógrafa, pediu que eu providenciasse material para um áudio-visual institucional do BNH, mas esqueceu de me dar a câmera profissional adequada para o trabalho. Por isso digo que ele era meio doido.
Felizmente o material que colhi tinha qualidade suficiente para ser aproveitado.
Arnaldo apareceu no interior da Bahia alguns dias depois com uma câmera melhor, mas já não dava tempo de fotografar mais nada. Estávamos na carona com os engenheiros que faziam vistoria nas obras e era preciso seguir viagem para dar conta do roteiro planejado.

Foi nessa ocasião que conheci Guilherme Campos, um engenheiro do BNH. Uma história para ser contada num capítulo a parte.
A viagem foi tranquila, foi a primeira vez que voei em um avião bimotor. Passamos alguns dias em Juazeiro, e jantávamos sempre num restaurante que ficava numa antiga gaiola (um barco típico da região) encaixada numa praça à beira do rio.
Ao final dessa viagem, já em Salvador, fizemos um passeio de escuna pela Bahia de Todos os Santos. A escuna era do dono de uma das construtoras envolvidas no projeto e era um luxo! Fomos à praia da Ponta de Nossa Senhora, ainda quase deserta naquela época. Havia apenas uma casa, do homem que tomava conta da ilha, e que servia petiscos e bebidas. O dono da construtora, e nosso anfitrião, era também o dono dessa praia. Vou contar mais sobre essa viagem em outra postagem.
Das dezenas de bobagens que vi Arnaldo praticar, uma delas ficou na história.
O BNH ia lançar o Projeto João de Barro no Rio de Janeiro, no lugar que depois se transformou na ampliação da Favela da Maré, próximo à Linha Vermelha. Para a cerimônia de lançamento, que contaria com a presença do então Presidente da República, João Figueiredo, do Ministro do Interior, Mário Andreazza e do Presidente do BNH, José Lopes de Oliveira, a SECOM ficou encarregada de apresentar um áudio-visual sobre o projeto.
Relembro aos mais novos: áudio-visual era uma apresentação de fotos em slides ordenados no projetor e sincronizados com um bip sonoro gravado em fita K-7 que também tinha o áudio com o texto gravado por um locutor profissional (que coisa antiga!).

Nas vésperas do evento, fomos ao local onde seria a cerimônia para fazer uma apresentação especial a fim de submeter o trabalho à aprovação da assessoria do Ministro.
Os figurões da presidência da república chegaram de Brasília e foram recebidos pela chefe Lúcia de Biase.
Até poucos momentos antes do início da apresentação, ansioso e com medo da avaliação, Arnaldo estava pendurado em cima do projetor trocando slides de lugar. Eram dois projetores que trabalhavam no sistema de retroprojeção e estavam escondidos atrás da cortina e da tela.
A apresentação começou e nós estávamos atrás da cortina. Eu, Arnaldo e Nilo, acompanhávamos a projeção do áudio-visual.
De repente, um slide ficou preso e um dos equipamentos travou. Essa era uma ocorrência comum e de fácil solução. Na ânsia de resolver o problema, Arnaldo pulou na frente do técnico responsável e tirou o carrossel onde estavam metade dos slides. Nervoso, virou o carrossel de cabeça para baixo e como ele estava mexendo ali até pouco antes do início da apresentação, ele se esqueceu de colocar o anel que travava os slides e os prendia ao carrossel.
Todos os slides que estavam naquele carrossel caíram no chão.

Os homens da presidência passaram a ver a apresentação sem as fotos que estavam no chão. Na tela, aparecia uma foto e depois apenas a luz do projetor, ou seja, tela em branco. Em seguida, outra foto e novamente a tela em branco...
Instintivamente, joguei-me ao chão e comecei a recolher alguns slides que estavam esparramados – como se ainda fosse possível organizar alguma coisa e salvar a catástrofe. Arnaldo e Nilo fizeram a mesma coisa. Ficamos os três na posição que Napoleão perdeu a guerra - de quatro, recolhendo os slides.
Outro colega, que estava do outro lado de fora da cortina, não percebeu o problema. Assim que a apresentação terminou, ele abriu a cortina. Eu, Arnaldo e Nilo, agachados de quatro no chão, apenas pudemos observar os pés dos assessores da presidência. Fomos levantando com um sorriso mais do que amarelo no rosto. Eu ainda tentei pisar em alguns slides que permaneciam no chão para tentar esconder o fiasco.
Em seguida, vi a cara de quem comeu e não gostou de todos que estavam sentados na platéia olhando para nós. Parecíamos estar brincando de cachorrinho. Foi um mal estar terrível.
Dona Lúcia tentou contornar a situação, mas ela estava, com toda razão, “soltando fogo pelas ventas”. Tão logo o pessoal de Brasília saiu, com mil recomendações para que nada semelhante acontecesse na presença do Presidente da República, João Figueiredo, ela deu uma bronca irada no Arnaldo na nossa frente. Eu fiquei muito sem graça.

Arnaldo, pouco depois, perdeu a função de confiança na SECOM, e eu, em 1982, fui transferida para o setor de Publicidade.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Primeiras férias no BNH - julho 1981

Mal cheguei à SECOM - Secretaria de Comunicação Social do BNH, vinda do Departamento de Planejamento, saí de férias.
Viajei com mamãe para conhecer Salvador, Recife e Natal. Essa viagem sacramentou o fim do namoro com Ronaldo.
Conheci Ronaldo na ACAPX e namoramos por alguns meses. Era bem alto, moreno, bonitão, tinha 33 anos, um ótimo senso de humor e trabalhava como propagandista do laboratório Ciba Geygi.
Ronaldo era um homem absolutamente ciumento e possessivo. Brigamos muito porque quando eu precisava trabalhar até mais tarde ele achava que era pretexto do meu chefe para ficar mais tempo do meu lado. Ele achava que eu não deveria ter vontade de viajar nas férias sem a companhia dele – só que ele não podia tirar férias e meu pai não me deixaria viajar com um namorado. Assim, dei fim ao namoro e embarquei com mamãe.
Em Salvador, ficamos hospedadas na casa da Marisa, uma prima que eu não conhecia muito bem e que na única vez em que convivemos, no carnaval de 1976 em Muriqui, juntou-se com minha outra prima Elaine para me sacanear. O tempo passou, ela estava recém casada e nos recebeu com carinho. Eu tinha paixão por Salvador, mesmo antes de conhecer a cidade, por causa das muitas paisagens que havia visto em filmes e novelas, especialmente na novela “Verão Vermelho”, quando era ainda criança.
Adorei a cidade. Eu e mamãe conhecemos os pontos mais famosos.
Lembro que o acesso às praias da orla era por uma estradinha de mão dupla e sem acostamento e que o coqueiral de Piatã era maior e mais bonito do que é agora.
No dia em que marcamos o passeio pela praia, fomos para o Othon Hotel, em Ondina, esperar o transporte que nos levaria juntamente com um grupo de turistas. Nos enganamos com o horário e chegamos com uma hora de antecedência. Nessa época não existia o Ondina Apart Hotel, cuja construção criou um verdadeiro muro que prejudicou muito a vista do Othon, que nessa época dava de frente para a praia. Para fazermos hora, fomos passear e fotografar a praia de Ondina.
Eu estava vestindo calça comprida, sapato fechado e blusa de manga comprida. Era julho e não estava muito quente, além disso,o tempo estava meio chuvoso. Como a areia estava dura, fomos caminhando pela beira mar. Avistamos uma formação rochosa com uma piscina natural que existe do lado direito da praia. A maré estava baixa e resolvi ir até lá para tirar uma foto pegando a praia do ângulo a favor do sol da manhã, que nasce no mar.
Quando lá chegamos, havia um grupo de pessoas ocupando a parte mais alta da formação de pedras e resolvi esperar que eles saíssem para então subir e fotografar. Eles demoraram um pouco e quando eu finalmente consegui chegar até lá, vi uma onda enorme que vinha em minha direção.
Saí correndo, passei por mamãe, que estava parada mais atrás de mim, avisando que vinha uma onda grande. Não deu tempo de reagir ou fugir. A onda tomou conta das pedras, encheu a piscina e me fez escorregar nas pedras. Caí de cara no chão.
Por sorte, consegui manter a máquina fotográfica fora da água, mas me molhei toda, ralei o joelho e fiquei com a calça molhada e puída, e com os sapatos encharcados. Voltei para o hotel muito sem graça.
Na Lagoa do Abaeté, muito mais bonita do que é hoje porque praticamente não havia construções ao redor, fomos abordadas pelas ciganas, que levaram um dinheirinho da mamãe. Quase que caí naquela armação também, mas mamãe me avisou e guardei minha grana.
Comemos acarajé em Piatã, fomos à Igreja do Senhor do Bonfim, Mercado Modelo, Pelourinho, Farol da Barra, enfim, conhecemos o básico de Salvador.
Seguimos para Recife e tive a oportunidade de conhecer tios e primos da mamãe. Ficamos na casa do Tio João – que já estava cego por causa da diabetes. Toda a família se revezava na tarefa de nos mostrar os encantos de Recife; uma hospitalidade maravilhosa!
Lembro da esposa atenciosa do Tio João, a Tia Lourdinha, assim como da Tia Maria – que nos levou para conhecer o centro do Recife e suas inúmeras igrejas, além do Tio Antônio e Tia Lúcia, que vi muito rapidamente.
Conhecemos Itamaracá, Boa Viagem e a praia de Piedade, onde eles tinham uma casa de praia. Vendo o litoral sul de Recife nos dias de hoje, mal dá pra acreditar que naquela época era tudo tão diferente.
Seguimos então para Natal, onde ficamos hospedadas na casa de Marly e do marido, Wellington, um casal que mamãe conheceu em Muriqui e que haviam sido transferidos para Natal.
Passeamos muito na ainda pequena cidade. Ponta Negra era uma praia distante, assim como Pirangi e seu “maior cajuzeiro do mundo” que ficava no meio do nada. Tenho a impressão que a famosa duna de Genipabu era bem mais alta em julho de 1981.
De volta ao Rio, ainda no aeroporto, recebi uma notícia maravilhosa. Papai foi me buscar com um telegrama na mão que comunicava que eu havia sido sorteada no consórcio de automóveis.
Assim, passei a rodar com um carro só meu, um Chevette Hatch 1981, na cor bege.
Quando voltei de Natal, fui procurada por Marcus Vinícius que me contou ter ido à Natal na esperança de encontrar comigo. Fiquei pasma! Ele pegou um avião do Rio a Natal sem sequer saber onde eu estava hospedada. Ficou percorrendo praias, bares e restaurantes de Natal atrás de mim. Pode? Evidentemente, não me encontrou e perdeu a viagem. Como ele trabalhava na VARIG, não deve ter tido prejuízo.
Nosso namoro havia terminado havia mais de seis meses e eu nem pensava mais nele. Acho que, percebendo que tinha me perdido de vez, ele se descobriu apaixonado e tentava recuperar o espaço perdido. Até em noivado e casamento ele falou! Aquilo parecia surreal; eu tinha sido tão apaixonada por ele...mas....tinha passado!
Eu não sentia mais nada por ele. Marcus ficou me procurando durante muito tempo. Aparecia nos lugares quando eu menos esperava. Até no carnaval de Muriqui ele apareceu e tive que usar de soluções não muito agradáveis para fazê-lo entender que eu não estava mais interessada em namorar com ele. Confesso que fui mais dura do que gostaria, mas não estava disposta a perder meu carnaval, afinal estava no esplendor dos meus 22 anos.
Marcus voltou a me procurar em outras ocasiões. Em 1985, quando lancei um livro, resolvi mandar um convite para a noite de autógrafos. Ele foi e passou boa parte da noite alugando minha atenção e me impedindo de dar atenção a outras pessoas.
Em 1996, quando eu já morava em Salvador, encontrei com ele por acaso num vôo Rio-Brasília. Sentamos lado a lado e, por educação, dei meu telefone – afinal, éramos velhos conhecidos e muitos anos haviam se passado desde o último encontro.
Pois o homem não apareceu pouco tempo depois em Salvador me convidando para jantar?
Mais uma vez, por educação, aceitei o convite. A conversa não foi desagradável, mas a energia do encontro não foi legal; cheguei em casa exausta!
Logo depois ele apareceu de novo em Salvador, e aí eu arrumei uma desculpa e não aceitei o convite. Foi a última vez que tive contato com ele.