Completei trinta anos sem passar por qualquer tipo de crise. Estava realizada profissionalmente, curtindo minha casa em Salvador. Comemorei a chegada da nova idade na casa dos meus pais, no Rio de Janeiro, cercada dos amigos cariocas.
Nessa época os reajustes salariais mensais, as horas-extras e os rendimentos da conta bancária, que eram diários, permitiram que meu salário chegasse a patamares sensacionais.
Em outubro do mesmo ano, consegui comprar meu segundo apartamento, na Avenida Manoel Dias da Silva, em Amaralina. Também troquei meu carro, a Parati, por um Voyage preto GLS 1.8 com dupla carburação – um carro super desejado naquela época!
Voltei a treinar natação no Iate Clube da Bahia. Como quem um dia aprendeu a nadar não costuma perder o estilo, em pouco tempo recuperei boa parte da minha forma e fui convidada para competir na categoria Master. Nessa época, eu sofria muito com dores de coluna e o caso estava mais difícil porque eu estava com algum problema que me tirou a capacidade de sustentar o equilíbrio do tronco quando eu tentava flexionar o corpo de forma a encostar as mãos nos meus pés. Assim, nas competições, o maior problema era a posição de largada porque eu tinha que ficar apoiando as mãos nos joelhos até o último momento, o que me deixava em desvantagem. Se eu não fizesse assim, cairia na água antes das outras competidoras e seria desclassificada.
Ainda assim consegui algumas medalhas e fui campeã baiana de Master na minha categoria.
A compra do apartamento aconteceu debaixo de muitos imprevistos. Eu estava procurando um quarto e sala. Depois de visitar vários apartamentos, um corretor insistiu para que eu visse mais um, mas eu não gostava da localização, principalmente porque ficava numa grande avenida, muito movimentada.
Ele insistiu muito, e como era caminho passar na porta do prédio, resolvi ceder. Aconteceu que gostei da “cara” do prédio e resolvi entrar. Foi uma agradável surpresa. O apartamento era maravilhoso! Para começar era um dois quartos com cômodos enormes, uma sala em L muito maior que as salas que costumamos ver em apartamentos de dois quartos. Tinha uma vista maravilhosa para o mar de Amaralina, cozinha, área de serviço e dependências de empregada espaçosas! Fiquei entusiasmada!
Além disso, tinha estrutura de prédio de luxo, com aquecimento de água por meio de aquecedor elétrico, dois elevadores, garagem, “play-ground”, acabamento das áreas comuns em mármore branco. Melhor que isso seria impossível. O problema era o preço, mais alto do que eu podia pagar.
Busquei uma solução alternativa. Nessa época, a inflação alcançava índices inacreditáveis, do tipo 80% a 90% ao mês. Assim, a cada virada de mês, a UPC – Unidade Padrão de Capital que atualizava os valores para financiamentos habitacionais, era reajustada por índices desses níveis. Os preços dos imóveis eram atrelados ao valor da UPC, portanto, apesar de eu não ter renda suficiente para pegar o valor necessário ao financiamento, além de não dispor dos 20% do valor do imóvel que eu teria que dar de entrada, fiz a seguinte proposta para o proprietário: digamos que o valor do imóvel fosse, em setembro de 1989, algo em torno de $ 100.000,00 eu ofereci pagar $ 120.000,00 na primeira semana do mês seguinte. A CAIXA tinha a rotina de postergar a liberação dos financiamentos para o final do mês, mas, no meu caso, a liberação foi acertada para o dia 6. O detalhe é que aquele era o último mês em que esse “jeitinho” poderia ser dado, pois acabara de sair uma norma interna vetando a liberação antes do dia 20 de cada mês. Ou seja, ou eu fechava negócio naquele mês ou então...babau.
O apartamento era de um casal que estava separado; ele morava no Rio e ela em Porto Alegre. Eles não se entendiam e volta e meia o corretor ligava dizendo que a mulher tinha desistido da venda. A documentação era extensa e enfrentei enormes dificuldades para juntar tantas certidões, sendo que a mais difícil foi a de quitação do IPTU – quase chorei na Secretaria da Fazenda para conseguir, me propus, inclusive a pagar tudo que constava lá em aberto, mesmo que já tivessem sido pagos. Ainda assim, como não existia informática em órgão público, a dificuldade era encontrar uma tabela que permitisse calcular o valor atualizado da dívida. Mas como Deus é pai, a funcionária, quase que sem querer, enquanto manuseava uma pilha de papéis que se acumulavam numa bandeja, encontrou a tal tabela.
Finalmente chegou o dia 6 de outubro. Marquei com o vendedor às 15 horas na agência das Mercês, no centro de Salvador. Até a manhã daquele dia, estava correndo atrás da solução de problemas com documentos.
Mamãe estava comigo e percorreu toda aquela “via crucis”, sequer pudemos almoçar. Havia um agravante: o apartamento estava hipotecado ao Banco Econômico, assim, parte do valor liberado pela CAIXA, precisava entrar no caixa daquele banco no mesmo dia.
Estávamos com tudo pronto, os contratos já preparados aguardavam apenas as assinaturas. O procurador da esposa-vendedora já tinha chegado, mas faltava o vendedor.
Já era quase quatro da tarde e ele não aparecia. Será que ele desistiu? O grande problema era que havia um saldo devedor a ser quitado em outro banco e essa quitação tinha que ser naquele dia porque, caso contrário, o valor devido sofreria os reajustes naturais em épocas de inflação alta. Os ponteiros do relógio insistiam em andar e o irresponsável do vendedor não aparecia!!!!
A agência fechou. Desci e fiquei olhando para as pessoas que estavam na porta da agência tentando convencer o segurança a deixá-las entrar depois do horário.
Foi quando vi Rogério. Dei um jeito de fazê-lo entrar e já quase querendo esganá-lo perguntei por que estava tão atrasado. Ele disse que estava na praia e que pensava que os bancos fechassem às 16 horas e 30 minutos, como acontecia no Rio naquela época. Em Salvador, as agências já fechavam às 16 horas em ponto!
Não havia tempo para discutir sobre o atraso. Corri com ele para o setor de habitação e assinamos os contratos com enorme rapidez.
Enquanto isso, uma colega ligava para o Banco Econômico para avisar que estávamos de saída com o cheque administrativo para quitar o saldo existente. De repente, essa colega chega junto de nós e diz que o outro banco não aceitaria mais o recebimento naquele horário.
Não dava para acreditar! Tanto esforço, tanto trabalho, tanto estresse, tanto desejo de ter aquele apartamento e tudo iria por água abaixo por causa do atraso do vendedor.
O silencio que se seguiu foi sepulcral.
Eu queria chorar, gritar, xingar o infeliz, bater na mesa ou me jogar no chão, mas tudo o que fiz foi abaixar a cabeça e rezar por um milagre.
E o milagre veio na pessoa de um corretor que trabalhava na mesma corretora - Julio Bogoricin do corretor que intermediava a venda. Em meio ao silêncio, ele disse:
– Eu conheço um dos diretores do Banco Econômico. Vocês querem que eu tente falar com ele?
O interessante é que esse outro corretor, que conhecia o diretor do outro banco, estava ali por puro acaso. Sem que nem por quê, foi até lá apenas para fazer companhia ao colega que estava envolvido na compra/venda do apartamento. Depois tem gente que não acredita em destino, em forças ocultas e no poder dos Anjos...
Corremos para o telefone. Ele conseguiu falar com o tal diretor, mas a resposta foi negativa. Pedi que me deixasse falar com ele. Peguei no telefone e, com a voz serena, mas que deixava perceber um verdadeiro desespero, expliquei que aquela seria minha última oportunidade de comprar aquele imóvel, pois a Caixa não mais liberaria empréstimos no início do mês. Eu praticamente miava no telefone.
Ele ouviu em silêncio e pediu um minuto. Conversou com alguém que estava perto que ligou para outro alguém. Foram minutos de intensa expectativa para todos. Eu aguardava o veredicto ao telefone, cercada por todos os envolvidos. O coração quase não batia, a respiração parecia não existir.
Finalmente ele perguntou se eu poderia chegar lá em cinco minutos, e eu garanti que sim.
Eu e os dois corretores descemos as escadas aos saltos. Meu carro estava longe, mas, mais uma vez por sorte, o carro do outro corretor estava estacionado em frente à porta lateral da agência.
Ele arrancou com o carro dirigindo como se estivéssemos numa ambulância, buzinando e correndo muito. Descemos da cidade alta para o Comércio pela Ladeira da Conceição em questão de minutos. Quando chegamos à sede do Banco Econômico, um prédio antigo na Praça da Inglaterra, eu desci do carro e eles foram estacionar. O gabinete do diretor ficava no 4º andar e eu não esperei o elevador, subi pela escada correndo. Quando cheguei, mal conseguia falar.
Esperei um bom tempo até que preparassem o documento que atestava a baixa da hipoteca. Quando voltei para a Caixa, onde mamãe me esperava, estava tão exausta que não tinha ânimo nem para comemorar. Vale lembrar que estávamos sem almoço!
Para completar a história, meu carro, que ainda era a Parati branca, apresentou problemas no carburador e não pegava de jeito nenhum. Além disso, sei lá por que razão, o trânsito foi fechado para que um trio elétrico desfilasse pela Avenida Sete de Setembro. Não esperei para entender a razão daquele desfile num dia comum do mês de outubro. (vai ver era para comemorar a compra do meu apartamento, he he).
Peguei um táxi antes que o trio chegasse mais perto e fui falar com o meu superintendente e chefe Carlos Siqueira, que foi o responsável por autorizar a liberação do financiamento no início do mês. Voltamos de carona no carro da Caixa e meu chefe em pessoa, desceu para ajudar a empurrar meu carro até a ladeira mais próxima. Fiquei super envergonhada e agradecida. Aquele homem super vaidoso, perfumado e elegante, na maior simplicidade, suou para empurrar a Parati. Valeu chefe!
O apartamento era muito bom, mas estava maltratado. Precisava de uma boa reforma. Não pude fazer tudo que gostaria, mas instalei um ótimo armário do meu quarto, mandei pintar, trocar todas as portas e rodapé (estava tudo com cupim!). A pia da cozinha que estava enferrujada também foi substituída e o carpete da suíte foi trocado por outro cor de rosa bastante felpudo (nada a ver com o clima baiano, mas eu achava lindo...).
Novas cortinas e instalação de ar condicionado completaram a pequena reforma.
A mudança aconteceu em janeiro de 1990, quando toda a família estava em Salvador, mas como eu não tinha tanta coisa assim para carregar, ninguém foi prejudicado.















