terça-feira, 29 de outubro de 2013

A compra de meu apartamento em Salvador

Completei trinta anos sem passar por qualquer tipo de crise. Estava realizada profissionalmente, curtindo minha casa em Salvador. Comemorei a chegada da nova idade na casa dos meus pais, no Rio de Janeiro, cercada dos amigos cariocas.
Nessa época os reajustes salariais mensais, as horas-extras e os rendimentos da conta bancária, que eram diários, permitiram que meu salário chegasse a patamares sensacionais.
Em outubro do mesmo ano, consegui comprar meu segundo apartamento, na Avenida Manoel Dias da Silva, em Amaralina. Também troquei meu carro, a Parati, por um Voyage preto GLS 1.8 com dupla carburação – um carro super desejado naquela época!
Voltei a treinar natação no Iate Clube da Bahia. Como quem um dia aprendeu a nadar não costuma perder o estilo, em pouco tempo recuperei boa parte da minha forma e fui convidada para competir na categoria Master. Nessa época, eu sofria muito com dores de coluna e o caso estava mais difícil porque eu estava com algum problema que me tirou a capacidade de sustentar o equilíbrio do tronco quando eu tentava flexionar o corpo de forma a encostar as mãos nos meus pés. Assim, nas competições, o maior problema era a posição de largada porque eu tinha que ficar apoiando as mãos nos joelhos até o último momento, o que me deixava em desvantagem. Se eu não fizesse assim, cairia na água antes das outras competidoras e seria desclassificada.
Ainda assim consegui algumas medalhas e fui campeã baiana de Master na minha categoria.
A compra do apartamento aconteceu debaixo de muitos imprevistos. Eu estava procurando um quarto e sala. Depois de visitar vários apartamentos, um corretor insistiu para que eu visse mais um, mas eu não gostava da localização, principalmente porque ficava numa grande avenida, muito movimentada.
Ele insistiu muito, e como era caminho passar na porta do prédio, resolvi ceder. Aconteceu que gostei da “cara” do prédio e resolvi entrar. Foi uma agradável surpresa. O apartamento era maravilhoso! Para começar era um dois quartos com cômodos enormes, uma sala em L muito maior que as salas que costumamos ver em apartamentos de dois quartos. Tinha uma vista maravilhosa para o mar de Amaralina, cozinha, área de serviço e dependências de empregada espaçosas! Fiquei entusiasmada!
Além disso, tinha estrutura de prédio de luxo, com aquecimento de água por meio de aquecedor elétrico, dois elevadores, garagem, “play-ground”, acabamento das áreas comuns em mármore branco. Melhor que isso seria impossível. O problema era o preço, mais alto do que eu podia pagar.
Busquei uma solução alternativa. Nessa época, a inflação alcançava índices inacreditáveis, do tipo 80% a 90% ao mês. Assim, a cada virada de mês, a UPC – Unidade Padrão de Capital que atualizava os valores para financiamentos habitacionais, era reajustada por índices desses níveis. Os preços dos imóveis eram atrelados ao valor da UPC, portanto, apesar de eu não ter renda suficiente para pegar o valor necessário ao financiamento, além de não dispor dos 20% do valor do imóvel que eu teria que dar de entrada, fiz a seguinte proposta para o proprietário: digamos que o valor do imóvel fosse, em setembro de 1989, algo em torno de $ 100.000,00 eu ofereci pagar $ 120.000,00 na primeira semana do mês seguinte. A CAIXA tinha a rotina de postergar a liberação dos financiamentos para o final do mês, mas, no meu caso, a liberação foi acertada para o dia 6. O detalhe é que aquele era o último mês em que esse “jeitinho” poderia ser dado, pois acabara de sair uma norma interna vetando a liberação antes do dia 20 de cada mês. Ou seja, ou eu fechava negócio naquele mês ou então...babau.
O apartamento era de um casal que estava separado; ele morava no Rio e ela em Porto Alegre. Eles não se entendiam e volta e meia o corretor ligava dizendo que a mulher tinha desistido da venda. A documentação era extensa e enfrentei enormes dificuldades para juntar tantas certidões, sendo que a mais difícil foi a de quitação do IPTU – quase chorei na Secretaria da Fazenda para conseguir, me propus, inclusive a pagar tudo que constava lá em aberto, mesmo que já tivessem sido pagos. Ainda assim, como não existia informática em órgão público, a dificuldade era encontrar uma tabela que permitisse calcular o valor atualizado da dívida. Mas como Deus é pai, a funcionária, quase que sem querer, enquanto manuseava uma pilha de papéis que se acumulavam numa bandeja, encontrou a tal tabela.
Finalmente chegou o dia 6 de outubro. Marquei com o vendedor às 15 horas na agência das Mercês, no centro de Salvador. Até a manhã daquele dia, estava correndo atrás da solução de problemas com documentos.
Mamãe estava comigo e percorreu toda aquela “via crucis”, sequer pudemos almoçar. Havia um agravante: o apartamento estava hipotecado ao Banco Econômico, assim, parte do valor liberado pela CAIXA, precisava entrar no caixa daquele banco no mesmo dia.
Estávamos com tudo pronto, os contratos já preparados aguardavam apenas as assinaturas. O procurador da esposa-vendedora já tinha chegado, mas faltava o vendedor.
Já era quase quatro da tarde e ele não aparecia. Será que ele desistiu? O grande problema era que havia um saldo devedor a ser quitado em outro banco e essa quitação tinha que ser naquele dia porque, caso contrário, o valor devido sofreria os reajustes naturais em épocas de inflação alta. Os ponteiros do relógio insistiam em andar e o irresponsável do vendedor não aparecia!!!!
A agência fechou. Desci e fiquei olhando para as pessoas que estavam na porta da agência tentando convencer o segurança a deixá-las entrar depois do horário.
Foi quando vi Rogério. Dei um jeito de fazê-lo entrar e já quase querendo esganá-lo perguntei por que estava tão atrasado. Ele disse que estava na praia e que pensava que os bancos fechassem às 16 horas e 30 minutos, como acontecia no Rio naquela época. Em Salvador, as agências já fechavam às 16 horas em ponto!
Não havia tempo para discutir sobre o atraso. Corri com ele para o setor de habitação e assinamos os contratos com enorme rapidez.
Enquanto isso, uma colega ligava para o Banco Econômico para avisar que estávamos de saída com o cheque administrativo para quitar o saldo existente. De repente, essa colega chega junto de nós e diz que o outro banco não aceitaria mais o recebimento naquele horário.
Não dava para acreditar! Tanto esforço, tanto trabalho, tanto estresse, tanto desejo de ter aquele apartamento e tudo iria por água abaixo por causa do atraso do vendedor.
O silencio que se seguiu foi sepulcral.
Eu queria chorar, gritar, xingar o infeliz, bater na mesa ou me jogar no chão, mas tudo o que fiz foi abaixar a cabeça e rezar por um milagre.
E o milagre veio na pessoa de um corretor que trabalhava na mesma corretora - Julio Bogoricin do corretor que intermediava a venda. Em meio ao silêncio, ele disse:
– Eu conheço um dos diretores do Banco Econômico. Vocês querem que eu tente falar com ele?
O interessante é que esse outro corretor, que conhecia o diretor do outro banco, estava ali por puro acaso. Sem que nem por quê, foi até lá apenas para fazer companhia ao colega que estava envolvido na compra/venda do apartamento. Depois tem gente que não acredita em  destino, em forças ocultas e no poder dos Anjos...
Corremos para o telefone. Ele conseguiu falar com o tal diretor, mas a resposta foi negativa. Pedi que me deixasse falar com ele. Peguei no telefone e, com a voz serena, mas que deixava perceber um verdadeiro desespero, expliquei que aquela seria minha última oportunidade de comprar aquele imóvel, pois a Caixa não mais liberaria empréstimos no início do mês. Eu praticamente miava no telefone.
Ele ouviu em silêncio e pediu um minuto. Conversou com alguém que estava perto que ligou para outro alguém. Foram minutos de intensa expectativa para todos. Eu aguardava o veredicto ao telefone, cercada por todos os envolvidos. O coração quase não batia, a respiração parecia não existir.
Finalmente ele perguntou se eu poderia chegar lá em cinco minutos, e eu garanti que sim.
Eu e os dois corretores descemos as escadas aos saltos. Meu carro estava longe, mas, mais uma vez por sorte, o carro do outro corretor estava estacionado em frente à porta lateral da agência.
Ele arrancou com o carro dirigindo como se estivéssemos numa ambulância, buzinando e correndo muito. Descemos da cidade alta para o Comércio pela Ladeira da Conceição em questão de minutos. Quando chegamos à sede do Banco Econômico, um prédio antigo na Praça da Inglaterra, eu desci do carro e eles foram estacionar. O gabinete do diretor ficava no 4º andar e eu não esperei o elevador, subi pela escada correndo. Quando cheguei, mal conseguia falar.
Esperei um bom tempo até que preparassem o documento que atestava a baixa da hipoteca. Quando voltei para a Caixa, onde mamãe me esperava, estava tão exausta que não tinha ânimo nem para comemorar. Vale lembrar que estávamos sem almoço!
Para completar a história, meu carro, que ainda era a Parati branca, apresentou problemas no carburador e não pegava de jeito nenhum. Além disso, sei lá por que razão, o trânsito foi fechado para que um trio elétrico desfilasse pela Avenida Sete de Setembro. Não esperei para entender a razão daquele desfile num dia comum do mês de outubro. (vai ver era para comemorar a compra do meu apartamento, he he).
Peguei um táxi antes que o trio chegasse mais perto e fui falar com o meu superintendente e chefe Carlos Siqueira, que foi o responsável por autorizar a liberação do financiamento no início do mês. Voltamos de carona no carro da Caixa e meu chefe em pessoa, desceu para ajudar a empurrar meu carro até a ladeira mais próxima. Fiquei super envergonhada e agradecida. Aquele homem super vaidoso, perfumado e elegante, na maior simplicidade, suou para empurrar a Parati. Valeu chefe!
O apartamento era muito bom, mas estava maltratado. Precisava de uma boa reforma. Não pude fazer tudo que gostaria, mas instalei um ótimo armário do meu quarto, mandei pintar, trocar todas as portas e rodapé (estava tudo com cupim!). A pia da cozinha que estava enferrujada também foi substituída e o carpete da suíte foi trocado por outro cor de rosa bastante felpudo (nada a ver com o clima baiano, mas eu achava lindo...). 
Novas cortinas e instalação de ar condicionado completaram a pequena reforma.
A mudança aconteceu em janeiro de 1990, quando toda a família estava em Salvador, mas como eu não tinha tanta coisa assim para carregar, ninguém foi prejudicado.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Chegando na Caixa em Salvador e Trio Dodô e Osmar

Enquanto exercia a profissão de repórter, não dei muita atenção ao trabalho que fazia na Caixa. Levava em banho-maria, pois chegava sempre um pouco atrasada, o que me deixava preocupada e acelerada. A rua em que morava, Oito de Dezembro, no bairro da Graça, é uma ladeira das boas. Todos os dias eu chegava da TV, deixava o carro na garagem e subia a pé para pegar o ônibus que me levava para a Caixa, que ficava na Rua da Ajuda, próximo da prefeitura e da Praça Castro Alves. O ônibus se deslocava lentamente pelo sempre congestionado trânsito do Corredor da Vitória, Campo Grande e Avenida Sete de Setembro.
Meu trabalho, na maior parte dos dias, se resumia a fazer o “clipping” – para quem não tem intimidade com a linguagem da área de Comunicação Social, “clipping” é o recorte das matérias veiculadas nos principais jornais nas quais a Caixa é mencionada. Naquela época, o clipping era na base do recorta e cola, pois só existia jornal de papel. Redigia também alguns “releases” - matéria que as empresas preparam para buscar espaços com divulgação espontânea da marca nos veículos de comunicação.
Minha chefe era uma moça pouco mais nova que eu e totalmente inexperiente nos assuntos da área de Comunicação Social, já que sua formação era na área de Recursos Humanos. Entretanto, gestão de pessoas também não era o seu forte. Havia muitas queixas por parte da equipe formada por várias estagiárias e um empregado já perto de se aposentar, ex-assessor de comunicação do BNH, e revoltado com os procedimentos e com falta de prestígio que ele tinha com o gerente geral da Caixa na Bahia. Outro ponto fraco dela era a desorganização e a pouca habilidade para identificar prioridades.
Tempos depois, quando deixei a TV, evidentemente, passei a me dedicar mais à Caixa, até porque passei a trabalhar o dia todo para ganhar as horas-extras.
Com o tempo, meu trabalho e minha experiência na área começaram a fazer diferença no atendimento às demandas do Gerente Geral (cargo que hoje corresponde ao de um superintendente regional). Além disso, por causa do relacionamento que criei com profissionais e personalidades locais durante o tempo em que fui repórter, passei a conseguir acesso privilegiado aos profissionais das editorias de jornais e emissoras de TV.
Minha convivência com a chefe começou a ficar complicada. Ela foi ficando cada vez mais insegura. Manuel Alfredo trabalhava com grande velocidade, era um entusiasta da área de comunicação, criativo e empreendedor. Aprendi muita coisa com ele.
Para minha chefe, isso era um problema. Ela não conseguia dar conta de tantas demandas, tentava não me passar muitos trabalhos para que eu não me sobressaísse aos olhos do chefão. Chegou a engavetar algumas propostas que apresentei, como o Projeto Golfinho de Natação (marketing esportivo na Caixa em 1989 era uma novidade) e o "Cliente do Futuro". Pobre chefinha.... Se ela tivesse me dado carta branca para implantar esse projeto, o mérito teria sido dela também, mas sua visão era muito curta.
Por outro lado, ela gostava de viajar de férias ou para participar de cursos e congressos. Nas duas vezes que isso aconteceu, eu a substitui e executei meu trabalho com o empenho e a dedicação que me são característicos.
Em julho de 1989, suas deficiências foram se evidenciando e todos os dias havia uma cobrança irritada do Gerente Geral. Um dia ele ficou muito irado com uma demanda não atendida e dispensou a moça do cargo  Ela foi dispensada e eu nomeada a nova Gerente de Comunicação Social. UAU!!! Fiquei muito feliz!
Ela nunca se conformou. Cismou que eu tinha armado, chegou a falar que eu tinha um “caso” com o Manuel Alfredo. Utilizou seus contatos na Matriz para denegrir minha imagem a tal ponto que fiquei conhecida, durante muito tempo, como “a bruxa da Bahia”.
Apesar dessa campanha desmoralizadora, minha consciência sempre esteve muito tranquila. Ela caiu sozinha porque tropeçou nas próprias pernas de sua pouca eficiência. Sua grande qualidade era ser uma pessoa criativa e ela tinha habilidade para vender suas idéias (falar ela falava muito. Mas executar...) Ela não tinha iniciativa para implementar as ações necessárias para viabilizar suas boas idéias. Isso, com o tempo, queima qualquer executivo.
Infelizmente, o pessoal da Matriz não me conhecia, e só percebia o lado criativo da ex-gerente. Fiquei estigmatizada por muito tempo. Todavia, nessa época, as regionais tinham alguma liberdade de atuação, com verbas próprias e isso foi suficiente para que eu fizesse meu trabalho de uma forma que me proporcionou muita realização pessoal.
Esse era o nosso jornal interno.
O Projeto Golfinho saiu do papel e a CAIXA patrocinou quatro jovens nadadores baianos que alcançavam bom desempenho nas competições de suas respectivas faixas etárias, o que colaborou para divulgação de marca Caixa associada à saúde e ao esporte. O Projeto acabou quando o Governo Collor assumiu e a nova administração da Caixa extinguiu as verbas regionais – aliás, acabou com as verbas da matriz também. Pouco depois, antes do final de 89, mudou o Gerente Geral da Bahia, assumindo um novo chefe, chamado Carlos Siqueira.
Esse era um bonachão... vaidoso e tranquilão. Com ele as palavras pressa e urgência simplesmente não existiam. Para mim, ele foi um cara muito legal, mas não costumava perdoar seus desafetos e era um tanto cruel em suas revanches. 
O ComunicAtivo graficamente melhorado
Logo que ele chegou, entusiasmado com os elogios que Manuel Alfredo havia feito sobre mim, foi logo me prestigiando e me escalando para acompanhá-lo em suas visitas de apresentação ao Governador da Bahia, Prefeito de Salvador e Presidente da Assembléia Legislativa. Como eu havia entrevistado todos esses políticos enquanto fui repórter, todos me cumprimentavam com entusiasmo e alguma intimidade. Siqueira ficava cada vez mais encantado comigo. Foi uma época gloriosa em termos profissionais!
No início de 1990, assaltaram uma agência e roubaram t-o-d-a-s as jóias dadas em garantia do empréstimo sob penhor. É uma situação complicada, onde a imagem da Caixa associada à segurança/confiança, fica comprometida. Os jornais batiam na Caixa todos os dias e eu, Gerente de Comunicação, tentava amenizar os ataques. Durante vários dias, mostraram a porta do cofre arrombada com maçarico (os assaltantes agiram durante o final de semana, passaram o domingo “trabalhando” dentro da agência Baixa dos Sapateiros) e as entrevistas com clientes desolados por haverem perdido suas jóias se repetiam todos os dias...
O carnaval estava chegando. Recebi na minha sala uma visita inesquecível, o Velho Osmar Macedo, inventor, junto com Dodô, da guitarra baiana e do Trio Elétrico – uma inovação que alterou completamente o carnaval, primeiro o da Bahia, depois o de várias outras cidades que passaram a organizar seus carnavais fora de época como Fortal, CarNatal, CarnaSampa, CarnaGoiânia, entre outros. 
Osmar, juntamente com César Tripodi, dono do "Trio Espacial", apresentaram uma proposta de patrocínio. O valor era alto e encaminhei para a matriz, que não aprovou a proposta.
No dia em que recebi a negativa, por coincidência, Osmar voltou a me visitar em busca de uma resposta. Eu já havia tentado falar com o responsável pela aprovação de patrocínios na matriz, mas sem sucesso. Por sorte, na frente de Osmar, consegui falar com Régis e argumentei com base no desgaste que a Caixa vinha passando provocado pelo assalto ao penhor.
Aconteceu o inesperado: o patrocínio foi autorizado por telefone. Osmar pensou que todo o mérito era meu. Não posso negar que me empenhei, mas considero que tivemos sorte, muita sorte mesmo! Depois disso a Caixa ficou muitos anos fora do carnaval. Só em 2012 a Caixa voltou a patrocinar e começou justamente com o Trio de Dodô e Osmar!!! Imagino que o fato do atual presidente da Caixa ser baiano ajudou muito nessa mudança da matriz em relação ao carnaval da Bahia.
Assim, voltando a 1990, ganhei um fã do qual eu também era e sou uma super-fã - Osmar Macedo. Nunca me esqueço de uma propaganda criada pela agência de publicidade que nos atendia na época e que foi veiculada no maior jornal da Bahia – "A Tarde". No anúncio aparecia a foto de Osmar sorrindo, segurando uma caderneta de poupança da Caixa com um texto que dizia: “OSMAR, CAIXA E VOCÊ – O TRIO DESTE CARNAVAL”.
Passei mais um carnaval em grande estilo. Ganhei de um amigo da TV Aratu uma “mortalha” do Bloco Eva, na época comandado por Ricardo Chaves.
Nestor era diretor na TV Aratu. Embora eu não trabalhasse mais na TV, mantinha contato com algumas pessoas de lá. Quem me apresentou a ele foi Denis, que era editora e apresentadora do Bom Dia Bahia, uma ótima profissional que pecava por se achar ainda melhor do que já era. O que eu não sabia era que ela nutria uma paixão antiga por Nestor e ficou aborrecidíssima quando percebeu o interesse dele por mim. 
Nestor é inteligentíssimo, competente, alegre, extrovertido, alto, sempre com a barba bem aparada, enfim, um homem atraente. Ficamos juntos algumas vezes, mas nada mais sério.
Não consegui ninguém para sair comigo no Bloco Eva porque era muito caro. Fui sozinha mesmo. Brinquei sozinha os três dias de carnaval. Depois que o desfile do bloco terminava eu pegava um táxi e ia para o ponto de partida do Trio de Armandinho, Dodô e Osmar.
Foi maravilhoso! Era tratada com os paparicos que só patrocinadores recebem. Ficava na parte da frente do trio, junto com as famílias dos músicos. A toda hora perguntavam se desejava beber ou comer alguma coisa. Mordomia mesmo.
Amanheci a quarta-feira de cinzas em cima do trio elétrico, em plena Praça Castro Alves. Ao nascer do sol, Armandinho tocava “Ave-Maria” e o Hino ao Senhor do Bonfim em sua guitarra baiana. Uma visão, uma sensação e uma emoção indescritíveis. A multidão que lotava a praça parava de pular carnaval para rezar, cantar e admirar a música sacra.
Caetano, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Baby Consuelo (ainda não era Do Brasil), Pepeu Gomes e Daniela Mercury costumavam aparecer por lá, seja subindo no Trio Espacial ou em outros trios elétricos.
Brinquei com Dodô e Osmar até 1997, ano da morte do Velho Osmar, um homem inteligentíssimo, brilhantemente criativo que me deu a honra de ser meu amigo, uma história que merece um capítulo à parte.
Depois disso, só voltei a subir no trio, que agora é o "Fobicão" no carnaval de 2013. Não que a banda tenha me dado a camiseta de acesso, mas como a Caixa estava patrocinando, o atual superintendente de Salvador desceu do trio em frente ao camarote da Caixa e eu, que estava no camarote, praticamente arranquei a camiseta dele, pois não dei muito espaço para que ele se negasse a atender meu pedido. Vesti a camiseta meio suada e saí correndo para subir no trio. Uauuuuu!! Foi uma noite maravilhosa! Como conheço bem algumas das pessoas da produção, não fiquei junto com os demais convidados da Caixa. Fiquei junto da banda e com um bom espaço para dançar. Ainda voltei de carona para a casa na van da produção, graças ao carinho da Lilian. 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Tempos de repórter na TV Aratu

Mudei para Salvador em novembro de 1988.
Uma sensação de independência e auto-suficiência que muito me agradou. Estava então com 29 anos e ansiava por ter meu canto, minha casa e ser dona do meu nariz.
Aluguei um lindo apartamento em Salvador. Muito bem localizado, fresco, iluminado! Era um quarto e sala com suíte, varanda, cozinha, quarto e banheiro de empregada. Ficava no oitavo andar e tinha uma vista muito legal.
Minha rotina era acordar às 4 e meia da madrugada e me arrumar bem para estar na TV Aratu às seis horas da manhã pronta e maquiada para fazer a primeira materinha do dia, que entrava sem cortes do Jornal Bom Dia Bahia, apresentado pela Denis.

Depois das oito da manhã, voltava para a rua a fim de fazer a matéria (ou as matérias porque a TV tinha poucos repórteres) para o jornal do meio-dia. 
Quando voltava com folga, acompanhava a edição da matéria. Quando atrasava, entregava a matéria e corria para deixar o carro em casa, engolir alguma coisa e correr para a Caixa. EU tinha que ir de ônibus para a Caixa porque não tinha estacionamento. Nessa época a sede da Caixa na Bahia ficava perto da Rua da Ajuda, perto da Praça Municipal, na cidade alta. Só mesmo chegando muito cedo para conseguir vaga para o carro nas ruas em volta, e eu chegava perto das 13 horas. Um sufoco diário!
O Editor Chefe da TV Aratu em 1988/89 era José Amílcar, um tirano que vivia me dizendo que não gostava de trabalhar com repórter que não pudesse se dedicar integralmente à televisão. Ele reconhecia que seria um absurdo eu me desligar da Caixa para investir na carreira de repórter (até porque o salário era muito menor), mas implicava demais comigo por causa disso.
Como “vingança”, ele me escalava quase todos os finais de semana para “compensar” as horas a mais que eu não podia dedicar durante a semana. Eu cumpria a jornada normal de cinco horas, como é até hoje para o pessoal de rádio e TV, mas nunca podia dobrar para fazer o horário da tarde porque saía correndo para a Caixa. Assim, era comum eu trabalhar de domingo a domingo. O detalhe sórdido é que eles nunca assinaram minha carteira de trabalho, ou seja, trabalhei o tempo todo como autônoma, sem reajustes no salário numa época em que a inflação rondava a casa dos 80% ao mês! Sem a proteção das leis trabalhistas, o salário que combinei quando cheguei à TV Aratu não era reajustado e a cada mês que passava eu perdia poder de compra equivalente à metade do que havia recebido no mês anterior.
Por outro lado, o exercício da função de repórter abriu inúmeras portas para mim em meus primeiros tempos de Salvador.
Entrevistei personalidades inesquecíveis como Antônio Carlos Magalhães, Luis Eduardo Magalhães, Waldir Pires, então Governador do Estado da Bahia, o Prefeito Fernando José, que era um ex-radialista, Juca Chaves, Gonzaguinha, Neguinho do Samba da banda Olodum, além de vários deputados, vereadores, artistas e autoridades locais.
Mas de todas as pessoas que entrevistei, uma foi extremamente marcante: Irmã Dulce. Ela já estava bem doente, dormia sentada em um pequeno quarto localizado no Hospital Santo Antônio, criado e dirigido por ela. Sua voz era quase inaudível e ela atendeu à equipe de reportagem com toda a paciência e boa vontade. Fiquei muito emocionada, pois tinha a certeza que estava diante de uma santa. Ela fez questão de autografar e me dar um livro onde sua vida de tantas lutas é contada. Guardo esse livro com muito carinho.
Uma de minhas primeiras matérias foi a cobertura das eleições para prefeito de Salvador em 1988. Nessa época, ACM andava com a popularidade em baixa e ele já sabia que seu candidato, Manoel Castro, não seria eleito. Na eleição anterior havia ocorrido uma situação insólita entre o repórter da TV Aratu, Antônio Fraga, e o então ex-Ministro das Comunicações. Aborrecido com a pergunta do repórter sobre as vaias que ele estava recebendo, ACM afirmou não estar ouvindo vaia alguma, ao mesmo tempo em que dava pontapés nas pernas do repórter de forma que a câmera não pudesse registrar a agressão, apenas a fisionomia espantada do repórter que mantinha o microfone direcionado para ACM.  Com essa informação, parti para o Clube Bahiano de Tênis, onde ACM costumava votar, sabendo que deveria maneirar nas minhas perguntas.
Logo que ACM desceu do carro em frente ao clube ele recebeu muitas, mas muitas vaias. Fui acompanhando seus passos juntamente com o câmera da minha equipe e repórteres de outras emissoras de TV, rádio e jornais. ACM estava disposto a não se aborrecer, e respondia às vaias com acenos e sorrisos, bem ao seu estilo. De repente, na ânsia de demonstrar sua boa vontade, puxou o rosto de uma das moças que o vaiavam na tentativa de beijar seu rosto. Ela reagiu para impedir o beijo tentando se afastar dele e então ele perdeu a paciência e, com a mesma mão que havia tentado puxar o rosto da moça, empurrou a eleitora com uma violência que quase a fez cair no chão. Na verdade ele deu um safanão naquela mulher.
Nesse clima, fiz apenas as perguntas de praxe do tipo: como ele via as pesquisas que apontavam para o resultado desfavorável de seu candidato, e dei o trabalho por encerrado.
As imagens capturadas pelo câmera que me acompanhava não deixavam dúvidas sobre a violência de ACM. Essas imagens foram muito utilizadas na eleição seguinte, mas “curiosamente” a moça passou a negar que tivesse sido agredida.
Outro encontro que tive com ACM foi no enterro de um deputado estadual que era apadrinhado por ele e muito amigo de Luiz Eduardo Magalhães, que se chamava Luiz Cabral. Ele morreu um acidente de carro, num domingo à tarde quando voltava de um churrasco onde havia bebido demais. Era um homem que tinha pouco mais de 30 anos de idade.
No enterro, fiquei impressionada com a intensidade do choro de ACM. Tudo bem que se tratava de uma morte acidental muito triste, mas ele estava com o rosto muito vermelho, inchado e molhado de tantas lágrimas. Não pude deixar de pensar que a reação me parecia um tanto exagerada e teatral. Luiz Eduardo também chorava, mas de forma mais natural.
Conheci de perto todas as festas de largo do verão baiano, desde a comemoração do dia das Baianas do Acarajé, em 25 de novembro, até o carnaval de 1989, passando pela Festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia, Procissão de Nosso Senhor Bom Jesus dos Navegantes, Lavagem do Bonfim, Festa de Iemanjá e outras inúmeras lavagens que acontecem pela cidade. (hoje já não se “lavam” ruas e bairros com a mesma intensidade).
Trabalhando como repórter no carnaval de Salvador
Precisei estudar para poder trabalhar durante o carnaval. Eu, que só conhecia samba e frevo, aprendi muito naquele carnaval. Para poder transmitir informações sobre o carnaval baiano, precisei aprender o que era ijexá, afoxé, blocos de índio, blocos de trio, blocos afro, trios independentes, mamãe - sacode, mortalha, além de aprender a reconhecer cada artista e cada bloco com suas respectivas histórias e importância como o Araketu, o Olodum, o Ilê Aiye, o Muzenza, Filhos de Gandhy, os Internacionais, Camaleão, Coruja, Crocodilo, Beijo, Pinel, Cheiro de Amor, Eva, Mel, Papa-Léguas e tantos outros. 
Minha equipe em ação


Gravando passagem na sede do Filhos de Gandhy (depois eu soube que os rituais tradicionais impedem mulheres de colocar esse turbante... Ops! já foi!)
Esses nomes, que hoje são familiares aos brasileiros, em 1989 eram totalmente estranhos aos meus ouvidos cariocas e não foi fácil aprender tudo em tão pouco tempo.
Foi maravilhoso conhecer o carnaval baiano como repórter. Com camiseta e crachá da TV Aratu, entrei em muitos blocos, entrevistei muitos artistas, conheci os segredos e os becos de acesso ao circuito. Trabalhava na maior alegria. Foram os melhores trabalhos de minha curta experiência como repórter.
Aprendi muito, trabalhei muito, mas não suportei a falta de profissionalismo do editor que manteve meu salário defasado. Desisti da profissão seduzida por uma oferta do Gerente Geral da Caixa, Manuel Alfredo, para ganhar duas horas extras por dia, o que resultava em mais que o dobro do salário de repórter e me deixava livre nos finais de semana.


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Viagem para Salvador, Curso de Reportagem na TV Manchete e Mudança para Salvador

Na Semana Santa de 1988, Nazira, uma colega do BNH/Caixa ganhou passagens para duas pessoas com destino à Salvador, além de estadia numa casa da Praia de Jauá com direito a carro alugado por quatro dias. Ela me convidou e Márcia B resolveu comprar a passagem dela e vir com a gente.
A casa onde nos hospedamos era grande, mas não muito confortável. O tempo não estava lá essas coisas, como acontece normalmente no outono em Salvador. Chegamos na quinta-feira à noite e passamos a sexta-feira revendo os principais pontos turísticos, como o Mercado Modelo e rodando de carro pelas avenidas e vales soteropolitanos.
Márcia B levou o contato de um rapaz que Magali conhecera anos antes numa viagem que fez à Bahia, chamado Estácio. Telefonamos para ele e seu irmão, Eduardo, nos convidou para irmos até o restaurante que eles tinham e que ficava num shopping do bairro do Itaigara.  Assim, no final do dia, fomos até lá. Estácio não estava, mas Eduardo nos recebeu muito bem e fez questão de nos levar à casa do irmão, no bairro da Graça. Estácio era um homem bonitão, com 32 anos e foi muito atencioso. Atencioso até demais.... Foi com a gente até Jauá, esperou que trocássemos de roupa e nos levou para jantar. Depois nos levou para à boate Regine’s, no antigo Hotel Le Meridien, no bairro do Rio Vermelho. Na boate, acabei ficando com Estácio e isso deixou Nazira visivelmente irritada, o que criou um clima desagradável entre nós duas pelo resto da viagem.
 Antes da viagem, eu consegui convites para passarmos um dia no Club Med de Itaparica. Márcia B e Nazira não conheciam o resort, mas eu já tinha estado lá por três vezes. Chegamos tarde da boate e não dava tempo de irmos à Jauá, então, Estácio ofereceu para trocarmos de roupa em sua casa antes de seguirmos para Itaparica. Eu estava empolgada com Estácio e Márcia B deu força para que eu ficasse com ele em Salvador enquanto elas passavam o sábado no Club Med. Adorei a sugestão e fiquei em Salvador com Estácio. No domingo, fomos à praia de Itapuã.
De volta ao Rio, fiquei muito animada quando soube que a Gerência de Comunicação Social da CAIXA em Salvador estava vaga, já que andava empolgadíssima com os frequentes telefonemas do baiano que havia conhecido.
Tanto fiz que o chefão da CAIXA na Bahia me convocou para uma temporada de trabalho a fim de nos conhecermos e permitir que ele avaliasse meu desempenho profissional. Infelizmente, a essa altura, a vaga de gerente já havia sido ocupada, mas a viagem era uma ótima chance de mudar a desagradável rotina de pouco serviço e muita fofoca do gabinete de diretoria onde estava lotada.
Pouco antes de embarcar para Salvador, fiz um concurso de seleção para participar de um curso de telejornalismo na extinta TV Manchete, no Rio de Janeiro.
Ainda em Salvador, onde permaneci por mais de um mês, soube que tinha sido aprovada e precisei retornar ao Rio. Nessa altura, meu envolvimento com o baiano já estava prejudicado.
Fiz o curso coordenado por Mauro Costa. A professora foi a repórter Eliane Furtado. Passamos semanas produzindo matérias pelo Rio de Janeiro, uma experiência muito legal. Ao final do curso, fui classificada como a segunda melhor repórter da turma.
Convidada pelo Gerente Geral da Bahia, Manuel Alfredo para trabalhar na área de Comunicação Social, perguntei ao editor de jornalismo da TV Manchete se eu poderia trabalhar como repórter em Salvador.
Assim, tão logo terminei o curso, providenciei minha mudança para Salvador. Era o mês de outubro de 1988.
Apesar de participar a meus pais a minha intenção de deixar o Rio de Janeiro, eles não acreditaram nessa possibilidade. Foi um susto para eles quando a hora chegou e eu viajei para Salvador a fim de providenciar o aluguel de um apartamento.
Foi nessa viagem que me desentendi de vez com o baiano, um homem que me magoou muito por sua insensibilidade e grosseria.
Aluguei um apartamento de suíte, sala, varanda, cozinha e dependências completas de empregada no bairro da Graça, Rua Oito de Dezembro, Edifico Franz Schubert. Era um lugar muito agradável, com vista para o Clube Bahiano de Tênis.
Trabalhei duro em meu primeiro verão baiano. Acordava às quatro e meia da madrugada e as seis já estava na TV Aratu, então retransmissora da rede Manchete.
Fazia o telejornal "Bom Dia Bahia" na função de "repórter da madrugada". Diariamente, saía com a equipe, que eram conhecidos pelos apelidos: Para-Brisa (câmera) e Tripinha (assistente e iluminador), para gravação de uma tomada rápida que não podia ter cortes porque não havia tempo para edição. Tinha que ser gravada de uma só vez e precisávamos estar de volta à emissora antes das sete horas para que a matéria fosse veiculada. Geralmente era uma entrevista ou um “stand-up” – uma passagem do tipo que se faz ao vivo.
Acordava às quatro e meia da madrugada e ia para a TV Aratu, no bairro da Federação, onde trabalhava até o meio dia. Voltava para casa, engolia alguma coisa no almoço, deixava o carro na garagem e pegava um ônibus para chegar na Caixa às 13 horas. A sede da Caixa na Bahia ficava perto da Rua da Ajuda, próxima à Prefeitura, um local onde estacionar é quase impossível.
          Ficava na Caixa até depois das 19 horas e voltava a pegar ônibus para chegar em casa. Era apenas o tempo de comer alguma coisa e cair na cama para começar tudo de novo na manhã seguinte.

Namoreando - segundo livro de poesias

“Namoreando” foi o nome do meu segundo livro de poesias, escrito também em conjunto com Cláudia, Kiki e Ângela, com ilustrações de Andreia Azevedo.
Quem ler os dois livros vai perceber que houve uma grande mudança no conteúdo de minhas poesias. Ficaram menos românticas, menos sonhadoras, mais realistas e talvez um pouco mais amargas.
Era o reflexo das experiências vividas: extinção do BNH, desilusão amorosa, informações sobre histórias da vida de outras pessoas, amizades que me decepcionaram, insatisfação profissional, e mais algumas outras.
O lançamento foi no Teatro do BNH no dia 2 de agosto de 1988. No dia do lançamento soubemos da morte de um colega do banco, Eustáquio - Tatá. Ele já vinha doente, mas a extinção do BNH acelerou a evolução da doença.
Cláudia Arêas, Ângela Guimarães, eu e Cristina Medeiros

A divulgação da noite de autógrafos foi caprichada. Na tarde do mesmo dia fomos ao programa "Sem Censura" na TVE, na época comandado por Lucia Leme (Lúcia é amiga pessoal da Cláudia). A TV Manchete também deu cobertura por força de meu relacionamento com Mauro Costa, que coordenava o curso de telejornalismo que eu fazia. A TV Globo, veiculou matéria no Jornal da Globo, apresentado pelos tios Eliakim Araújo e Leila Cordeiro. Quem tem padrinho não morre pagão...
Por outro lado, a vendagem da enorme edição de mil exemplares não repetiu o sucesso do Tchibum...Tchuá.... Logo em seguida nasceu Carolina, filha da Kiki, e eu mudei para Salvador. Até hoje mantenho relações de amizade com Cláudia e Cristina, mas pouco vejo Angela. De qualquer forma, temos um sentimento de sincera amizade e confiança; sempre que nos encontramos acontece um momento de muita alegria. Nossas conversas são sempre maravilhosas; especiais mesmo. 

Carnaval de 1988 no Recife, Passeio à Maceió

Magali casou em março de 1987 e foi morar no Recife porque Marco Antônio, seu marido, tinha sido aprovado no concurso para engenheiro da Petrobrás e transferido para Pernambuco.
Foi a oportunidade de ouro para conhecermos o carnaval de Recife. Helenice, que é de Curitiba foi com a gente uma semana antes do carnaval.
Foi a primeira vez que vi um trio elétrico e fui definitivamente conquistada por essa máquina. Nessa época, havia um pequeno carnaval em Boa Viagem animado por trios elétricos. Ficava perto do Othon Hotel de Recife e havia uns camarotes erguidos na avenida  à beira da praia.
 A primeira música que ouvi no trio foi um dos primeiros sucessos do Chiclete com Banana: Fé Brasileira, “Se liga Brasil, eu sou brasileiro”.
Na quinta feira, primeira noite do carnaval, encontramos um rapaz que Márcia e Magali conheciam de Curitiba, Gino, e ele nos levou para o camarote do Othon, onde estava hospedado.
Na sexta-feira, novamente em Boa Viagem, Márcia B conheceu um rapaz que nos convidou para o camarote armado em frente ao Othon. Ela logo se entendeu com ele e nós ficamos por lá. Lembro que já tinha bebido whisky, estava um pouco embriagada, mas perfeitamente consciente. Aconteceu que o tal rapaz estava com lança-perfume e sem perguntar se eu estava a fim ou não, apertou o lenço encharcado na minha cara. Não tive como escapar e o resultado foi que não me lembro de nada do que aconteceu naquele camarote.
Quando recobrei a consciência eu estava encostada na parte da frente do camarote olhando o pessoal que brincava na rua ao som do trio e me dei conta de que estava tonta, muito tonta. Tão tonta que resolvi voltar para casa imediatamente e sem pedir a opinião da Marcia para saber se ela também queria ir embora, fui saindo sem me despedir de ninguém. Saí andando completamente bêbeda pela rua em direção à casa de Magali (Graças à Deus sempre tive facilidade de me localizar em cidades diferentes). Entrei no apartamento e fui direto para o banheiro, onde vomitei muito. Que porre! Márcia B, que veio atrás de mim quando daí do camarote quando percebeu que eu estava muito ruim, chegou logo depois e me ajudou a trocar de roupa e a deitar.
No dia seguinte era sábado de carnaval. Dia do desfile do Galo da Madrugada! Acordamos cedo, pelo menos para quem foi dormir tão tarde, nove da manhã é muito cedo. Sentindo os efeitos da ressaca, mal conseguia acreditar que precisava me arrumar para ir atrás de um bloco.
Conhecemos um outro rapaz (um bando de mulher junta.... já viu, né? Conhece muitos rapazes), chamado Guilherme, que nos convidou para ir ao desfile com ele em cima de sua pick-up D20 (na época era possível acompanhar com carros e caminhões desfilando dentro do bloco Galo da Madrugada).
Por causa da ressaca terrível, eu só conseguia beber água. Fazia um calor terrível. Eu me sentia amassada, arrasada e muito desanimada. De cima da pick-up via o povo tomando cachaça Pitu pura, que era vendida em lata com uma tampinha que servia de copinho. Isso aumentava meu enjoo.
O desfile ainda não tinha começado. Eu estava em cima da caçamba da pick-up quando um rapaz começou a fazer sinais para mim pedindo para subir no carro. Eu expliquei que o carro não era meu e, portanto, não me cabia autorizar a subida de ninguém. Tinha um senhor sentado perto da gente que veio me explicar que o tal rapaz conhecia do dono da pick-up, mas que ele só subiria se eu quisesse que ele subisse. Não entendi nada. Eu? Ele sobe se ele quiser e não por minha causa, expliquei.
Passamos o dia brincando o carnaval no bloco Galo da Madrugada.
De volta para casa, fui arrumar a roupa da véspera - a noite do porre, e achei no bolso um torpedinho com o nome e telefone de alguém. Li o papel e fiquei tentando lembrar quem era aquela pessoa e comentei com Márcia a respeito. Ela então disse que aquele telefone era do rapaz com quem eu tinha ficado no camarote, e que era o mesmo rapaz que queria subir na pick-up e eu não quis.
Como assim? Eu fiquei com alguém ontem? Lembrei que o rapaz que estava querendo subir na pick-up era bonitinho, mas eu não lembro de nada do que aconteceu naquele camarote. A lança-perfume detonou minha lucidez. Pior foi saber que o tal rapaz foi o mesmo que nos colocou no camarote, beijou primeiro a Márcia B, e eu lembro de ver os dois se beijando, e depois botou o lenço com a lança no meu nariz
Quer saber? Bem feito que eu não lembrava dele! Se não fosse pelo efeito da lança, eu jamais ficaria com um cara que tinha acabado de beijar outra, ainda mais sendo minha amiga. Tudo aconteceu porque ele me dopou com a lança.
No domingo fomos conhecer o carnaval de Olinda. Foi então que vimos as bandinhas de frevo subindo e descendo as ladeiras, além das numerosas barraquinhas que vendiam comidas e bebidas. Provei “Retetel” – vinho com cachaça (acreditem, é bom!), “Capeta” (uma bebida doce) e “Pau-do-Índio”, uma bebida tradicional do carnaval pernambucano cuja receita, segundo dizem, é guaraná em pó, trinta e duas ervas e cachaça. Imagina o estado em que ficou minha alma.
Voltamos para Boa Viagem (adorei mesmo foi o som do trio). Nesse dia, discuti com um barraqueiro que vendia cachorro quente. O motivo da discussão foi porque ele cobrou um valor menor da coca-cola para alguém que pechinchou. Eu reivindiquei pagar o mesmo preço, só que eu já tinha pago pelo meu lanche, ou seja, queria que ele me devolvesse o valor pago a maior – que eram poucos centavos. Ele disse que não ia devolver nada e eu, como forma de protesto, quebrei o casco da garrafa de Coca-Cola de propósito e saí correndo. O homem veio atrás de mim e Márcia B, para evitar maiores problemas, pagou pelo prejuízo da garrafa. Eu ainda me aborreci com ela por causa disso.
Acho que o tal do “Pau-do-Índio” me transformou numa guerreira, afinal esse não é o meu padrão de comportamento. Brigar por causa de poucos centavos! Afffff o que fartas doses de cachaça são capazes de fazer com um ser humano!
No último dia fomos a um baile de carnaval num clube do Recife. As músicas tradicionais do frevo nunca mais saíram de minha lembrança:
“Voltei Recife,
Foi a saudade que me trouxe pelo braço,
Quero ver novamente na rua o frevo tocando, 
Tomar umas e outras e cair no passo”.
Ou ainda:
“Balança o saco, Balança do saco, Balança o saco de confete e serpentina,
Eu vou meter o dedo, Eu vou meter o dedo, Eu vou meter o dedo nas cordas do violão...”.
E não podia faltar:
“Êh pessoal, Êh moçada, Carnaval começa no Galo da Madrugada...”.
Nunca mais passei carnaval no Recife, mas um dia ainda quero voltar.
Depois do carnaval Helenice voltou para Curitiba e eu segui com Márcia para uma semana em Maceió. Muita praia, muito sol. Alugamos um bugre, e passeamos de São Miguel à Praia da Sereia. Noites de muita agitação no bar Lampião. Conhecemos também um restaurante maravilhoso que ficava em cima da boate Gstaad, onde dançamos muito.
Não tenho uma única foto do carnaval de Recife. Mas tenho algumas poucas de Maceió.

A caminho das piscinas naturais de Pajuçara
No balanço das ondas em cima da Jangada


          Foram férias maravilhosas!

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Histórias nem sempre divertidas de Edison e Socorro

O mistério da calça jeans da DIJON
Em 1985 meus pais decidiram fazer uma grande viagem pela Europa. Visitaram muitos países, inclusive alguns que eu não conhecia na época, como Grécia, Portugal e Áustria.
Mamãe programou a viagem com todo cuidado, pois era um sonho que ela chegou a achar impossível e que finalmente iria realizar.
Empolgada, comprou algumas peças de roupas novas, inclusive uma calça jeans da Dijon – uma marca cara e valorizada, embora, em 1985, já estivesse em decadência.
Ela ficou toda orgulhosa de sua nova calça comprada especialmente para a viagem.
Aconteceu que quando começou a preparar a mala da viagem ela não conseguia encontrar a nova calça jeans.
Foi um estresse! Durante toda aquela semana ela se mobilizou para achar a tal calça. Lembrou que havia levado a calça para Rio das Ostras no final de semana anterior, quando ainda ficava hospedada na casa da minha tia Therezinha e pediu que minha tia verificasse se estava nas coisas dela ou no carro, e chegou a pensar em voltar a Rio das Ostras, que fica a cerca de 200 Km do Rio para ver se a calça tinha ficado lá. Só não insistiu na ideia porque tinha quase certeza de ter visto a calça pendurada numa cadeira que existia em seu quarto já depois da viagem.
Todos os dias daquela semana, depois que meu pai saía para trabalhar, ela e a empregada esvaziavam os armários em busca da calça. Procuravam e procuravam novamente nos mesmos lugares. Vasculhou os armários de toda a família e nada de encontrar a calça.
Quando me pai chegava em casa do trabalho, ouvia as lamentações de minha mãe e os comentários sobre o quanto aquele desaparecimento era intrigante e sobre todo o trabalho que teve durante o dia na tentativa de localizar a calça.
Até que ela desistiu e chegou o dia do embarque.
Nessa época, meu pai tinha um opala bege, quatro portas, já antigo e eu fui sozinha levá-los ao aeroporto. Papai dirigia o carro e parou para abastecer no posto que fica em frente ao parque da Catacumba. Ele desceu do carro e ficou olhando para a bomba, o que deixou seu bumbum bem perto de meu rosto, já que eu estava sentada no banco de trás do opala.
Foi quando vi que ele estava usando uma calça jeans que tinha uma etiqueta grande no bolso traseiro. Adivinha qual a marca da calça que papai usava?Dijon!
Perguntei a mamãe se ela havia comprado uma calça nova da Dijon para o papai e ela se assustou dizendo que não. Foi aí que descobrimos o mistério. Papai viu a calça em cima da cadeira e vestiu, como os dois usavam manequim 46, a calça coube perfeitamente nele. Papai, apesar de ser mais alto, usava a calça abaixo da cintura, o que compensou a diferença.
Assim, ele passou a semana toda indo trabalhar com a mesma calça. Bastava papai sair de casa para mamãe iniciar as buscas e quando ele voltava, ela estava cansada e já tinha desistido de procurar. No dia seguinte, tão logo ele voltava a sair para trabalhar, ela  recomeçava a busca.
Seguimos para o aeroporto enquanto os dois discutiam quem ficaria com a calça. 
A viagem dos Periquitos
Depois do caso Rambinho, e incomodados com a barulheira que os periquitos fazem logo ao raiar do dia, papai combinou com um amigo, dono de um sítio em Cambuquira, o mesmo que tinha a fazenda Simpatia com uma cachoeira particular, de dar o viveiro e os periquitos para ele.
Eu e meu priminho Nando com os periquitos ao fundo na varanda do apartamento do Corte do Cantagalo
Nessa época, eu tinha uma Parati branca e papai pediu que eu a emprestasse para ele levar os periquitos para o sul de minas.
Abaixou o banco de trás, criando um espaço maior para bagagem, e deitou a grande gaiola  com os periquitos lá dentro. S esqueceu de um pequeno detalhe: amarrar as portinhas do viveiro.....
No meio do caminho, com o balanço do carro, uma das portas da gaiola deslizou e alguns passarinhos escaparam. Quando percebeu que havia periquitos soltos no carro, ele fechou as janelas e continuou a viagem com os periquitinhos voando lá dentro.
O tempo estava quente e eles resolveram ligar a ventilação da parati. Nessa época, era raro um carro com ar-condicionado, mas os carros da volks ofereciam ar quente. Como meu pai não tinha intimidade com o painel daquele carro, ao ligar a ventilação, antes ele mexeu no botão de ajuste da temperatura do ar, e não percebeu que o havia alterado para "ar quente". Claro que a temperatura esquentou dentro do carro. Só que eles não tinham ideia de que tratava-se do sistema de aquecimento, pensaram que o clima é que estava mesmo muito quente.
Mamãe reclamava do calor excessivo, mas eles não podiam abrir a janela porque os pássaros seriam atingidos pelo forte vento e talvez fugissem ou se machucassem.
Continuaram a viagem suando em bicas e com os pés sendo torrados pelas saídas de ar que ficavam na parte de baixo do painel.
Mamãe pedia para o papai parar o carro em algum lugar porque ela estava com muita sede, mas ele dizia que não poderiam parar e abrir as portas porque os passarinhos certamente voariam para longe.
Chegou um momento em que minha mãe não suportou mais e disse que se meu pai não parasse o carro para ela beber um pouco de água, ela abriria a janela de qualquer maneira, pouco se importando com o destino dos passarinhos.
Quando meu pai finalmente parou o carro e eles abriram as portas com todo cuidado para manter os bichinhos no carro, perceberam que a temperatura externa estava amena, nada parecida com o calor que sentiam dentro do carro. Até os passarinhos estavam muito quietos,. Na verdade, estavam sendo assados lentamente e ficaram paralisados e com as asas abertas, abatidos pelo calor.
Depois de se refrescarem com água gelada, seguiram viagem sem a ventilação aquecida.
O choro de meu pai
Em maio de 1987, depois de nove meses esperando, a concessionária volkswagem finalmente me ofereceu um carro. Havia falta de carros para entrega a consorciados contemplados. Eu queria um voyage sedan vinho e eles me ofereceram uma parati branca. Avisaram que se eu não ficasse com a parati, eu teria que esperar muito mais tempo. Então resolvi pegar a parati.
Nessa mesma época, mamãe marcou uma cirurgia para retirada dos ovários (o útero já tinha sido retirado nove anos antes). O problema foi que havia aderências entre seus órgãos e a operação acabou se complicando. Por causa disso, o médico, sem querer, deu um pequeno corte no intestino de minha mãe, aumentando consideravelmente o risco de uma infecção.
Quando cheguei ao hospital, mamãe tinha acabado de sair da sala de cirurgia e encontrei meu pai aos prantos no corredor (foi a única vez na vida até hoje que vi meu pai chorar). Papai não tem a característica de ser otimista, mas além do problema que realmente ocorrera durante a cirurgia, o infeliz do médico disse a ele que havia possibilidades de que ele estivesse com câncer no intestino.
Papai me contou sobre o que o médico havia dito e eu fiquei muito preocupada, mas alertei a papai de que precisávamos poupar mamãe dessa informação. Assim, teríamos que manter segredo e esconder nossa aflição, tanto da mamãe como dos meus irmãos para reduzirmos os riscos de vazamento da informação.
O pós-operatório foi difícil e a recuperação foi lenta.
Lembro que uma colega do banco havia me dito que um carro parati branco lembrava uma ambulância. Fiquei fula da vida com ela, mas pensava que desde que tinha recebido meu carro novo, vivia fazendo o caminho entre nossa casa e o hospital.  Por causa disso, assim que pude, troquei as rodas do carro por outras, de liga leve, a fim de torná-lo mais esportivo e menos parecido com uma ambulância.
Felizmente mamãe se recuperou e tudo não passou de um susto.


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Tempos vividos no Corte do Cantagalo

          Os seis anos que morei no Corte do Cantagalo, entre Copacabana e Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro, foram tempos muito gostosos. Trabalhava no BNH, um trabalho que amava fazer, com baixo nível de estresse (exceto pelas questões de relacionamentos, vaidades, disputa de poder, essas coisas pequenas que tanto desgastam as pessoas). 
          Era uma época de baladas com as amigas, em especial com Márcia e Magali B. Fizemos algumas viagens curtas à Belo Horizonte e Curitiba. Nessas viagens, a gente se divertia e ria muito. Estávamos na fase de muita azaração, muita festa e muita disposição para festas e baladas.
Foto dessa época

          Fomos de ônibus para Belo Horizonte e um dos rapazes que nos recebeu reservou um hotel dos mais simples que já fiquei. Muito ruim. Márcia e Magali haviam arrumado namorados mineiros e por isso fomos até lá. Eles passearam bastante com a gente e nos levaram às boates Le Gallop e Tom Marrom, que eram moda naquela época.
          Numa tarde, enquanto passeávamos pela Avenida Afonso Pena, na altura do Savassi, ponto de encontro da galera bonita de Belo Horizonte, um rapaz numa super moto parou para conversar com a gente. Envergonhadas para dizer o nome do hotel mixuruca onde estávamos hospedadas (frescura mesmo!), combinamos dizer que estávamos hospedadas no Othon, que ficava bem perto do nosso hotelzinho. Quando o bonitão da moto perguntou onde estávamos hospedadas,tentamos responder conforme o combinado. Mas..... eu sou mesmo um fracasso para mentiras bobas e falei o nome do hotel já sem conseguir segurar o riso. Caí na gargalhada logo em seguida. Márcia também não se segurou e começou a rir junto comigo. Na verdade, a gente gargalhava.
          Vendo nossas gargalhadas, o rapaz perguntou o porquê de tanto riso. Quanto mais ele perguntava, mais a gente ria. Eu cheguei ao ponto de me encostar na parede e me contorcer de tanto rir. Magali, altiva como uma rainha e sem expressar a menor dificuldade em manter a mentira, afirmava tranquilamente que não sabia o motivo de nosso ataque de risos, pois estávamos realmente hospedadas no Othon. Ela segurou legal e não se deixou contagiar. Que bobagem.....
          Adorávamos jantar em bons restaurantes, vestíamos roupas de grife como Spy&Great, Yes Brazil, Chocolate, Cantão e Krishna. Era mesmo um vidão, pois o salário era só para ser gasto com minhas vontades! Frequentávamos a praia de Ipanema nos finais de semana, geralmente em frente à Garcia D'Ávila.
          Em casa, as coisas eram quase sempre tranquilas. Eduardo já trabalhava no Banerj e Edinho vivia as voltas com namoros enrolados e cursava a faculdade de Direito.
          Edinho não se dava bem com a Tootsie, nossa gatinha, mas adorava criar periquitos e peixes e acabou botando um pequeno viveiro na varanda do apartamento e um aquário em seu quarto. Existe tortura maior para uma gata? Tootsie olhava gulosamente os passarinhos e os peixes, mas nunca tentou caçá-los.
          Até que Edinho limpava a gaiola, mas a sujeira do chão ficava mesmo para a empregada, Janete, uma jovem mulher negra que acabou engravidando de algum namorado. Tainá nasceu em junho de 1987. Eu e Edinho somos os padrinhos, mas pouco convivi com minha afilhada depois que mudei para Salvador e Janete deixou de trabalhar na casa de minha mãe.
          Uma situação inesperada foi quando nasceram três filhotes de periquito, sendo que o terceiro nasceu dias depois dos dois primeiros.
          Num domingo, acordamos com meu pai aos berros. O periquito pai estava tentando matar o filhote mais novo dando bicadas em sua cabecinha ainda pelada.
          Pulamos todos da cama e Edinho conseguiu tirar o passarinho das garras do pai assassino. Separou o macho para outra gaiola e voltou a depositar o filhotinho no ninho, juntamente com os outros dois filhotes maiores e a mãe periquita. Logo depois, nova gritaria. Agora era a mãe que tentava assassinar o pobre filhote.
          Edinho tirou da gaiola o pequeno periquitinho e ficamos com aquele micro bichinho, ainda totalmente sem penas, em nossas mãos sem saber como fazer para evitar que ele morresse. Sua cabeça estava muito ferida.
       
Rambinho
   Ligamos para um veterinário que nos orientou a cuidar dele por meio de uma mistura de fubá e água, fazendo uma massa que introduzíamos em sua boca. Abríamos seu bico com um palito de fósforo e ele puxava a mistura.
          Tootsie ficava olhando e a gente temia que ela resolvesse se divertir com aquele “brinquedinho”, já que tivemos que criar o periquitinho fora da gaiola.
          Eu mesma quase que acabei por sacrificar o filhote. Bem intencionada e considerando que estávamos no inverno, resolvi colocá-lo numa caixa de sapatos com uma lâmpada direcionada para aquecê-lo. Deixei-o no quarto de meus irmãos. Felizmente retornei pouco tempo depois e percebi que ele estava sendo assado vivo. Eu o tinha deixado debaixo da luz de uma lâmpada de 100 watts!!! Ele estava caído, quase desmaiado, com as asas abertas e com o corpinho muito quente!
Rambinho sobreviveu comendo essa papinha
          Mais uma vez ele sobreviveu. Passamos a chamá-lo de “Rambinho” inspirados num filme de sucesso da época chamado Rambo, com Silvester Stalone, um lutador que sobrevivia a muitas tentativas de assassinato.
          Rambinho foi criado solto pela casa e quando cresceu e criou penas amarelas clarinhas, ficou careca. Foi com a gente para Rio das Ostras e brincávamos com ele até na beira da piscina.
          Era muito engraçado, um passarinho totalmente amarelinho, mas com um tipo de auréola formada pela falta de penas no lugar onde antes havia a ferida do ataque sofrido.
          Um dia, enquanto atendia ao telefone da cozinha, Rambinho voou do meu ombro e ganhou o mundo. Despediu-se de mim empoleirado na janela de um vizinho e depois voou em direção ao bosque que havia nos fundos do prédio. Fiquei muito triste.
         Nessa época, Edinho nos apresentou uma namorada que estudava com ele na faculdade de Direito da Universidade Santa Úrsula. Lilian não era uma moça bonita. Na verdade, era meio desengonçada. Sabe-se lá o que Edinho viu naquela garota porque, além de sem graça, ela era muito complexada. Um dia, por um motivo mais do que ridículo, ela fez com que Edinho deixasse a casa de um casal de amigos dos meus pais em Cambuquira sem dizer "até logo" a ninguém. Fugiram! Ela fez um "inferno" porque mamãe elogiou Edinho dizendo que ele era bonito quando alguém começou a falar sobre a beleza de meu outro irmão, Eduardo. Ela cismou que mamãe, ao elogiar Edinho, o estava empurrando para cima de uma outra moça que estava lá! Pode? Mamãe me ligou muito chateada porque ninguém entendeu a razão daquela grosseria. Eu tinha ficado no Rio e quando Lilian, chegando de viagem, entrou na sala e me cumprimentou, eu estava com muita raiva por ela ter tido a capacidade de estragar o feriado dos meus pais por causa de nada! Assim, não respondi ao cumprimento dela, continuei lendo jornal. Ela, então, fez uma cena descendo para a garagem. Depois disso, aos prantos, fez um drama mexicano com meu irmão. Por causa disso, eu e Edinho ficamos sem nos falar durante o tempo que durou aquele namoro. Nem sei como conseguíamos morar na mesma casa sem nos falarmos.... e olha que essa situação durou quase dois anos!!!! Vibrei quando esse namoro acabou e Edinho voltou a falar comigo.