quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Minha vida com mamãe (e papai)

 






Hoje, 21 de outubro de 2021, mamãe estaria completando 88 anos de vida. Penso nela todos os dias e sempre lembro de atitudes incríveis que ela teve durante nossos 56 anos de convivência, o que faz com que, na maioria das vezes, junto com a saudade, um sorriso surja em meu rosto.

Apesar de todo esse tempo, ainda me surpreendo com a enorme capacidade que ela teve de me amar, me cuidar e me amparar em tantos momentos, desde a infância mais tenra, até a fase adulta, mesmo depois que a doença de Alzheimer começou a apagar sua memória, mas ainda permitia que ela mantivesse algumas lembranças.

Resolvi escrever esse texto com a intenção de prestar minha homenagem por meio do registro de algumas passagens de nossas vidas como que para tentar preservar do esquecimento natural que o tempo traz. Foram situações especiais que me afagam o coração saber que eu tive a sorte e o privilégio de ser filha de Maria do Socorro Gonçalves de Souza.

Não me lembro de mamãe me criticando, julgando ou dizendo: faça isso ou aquilo. Ela ouvia, ponderava e dava a opinião dela, que servia como conselho, mas aceitava minhas decisões sobre qual caminho seguir, sem recriminações.

Ela queria muito que eu fosse engenheira e quando passei para a faculdade de engenharia Santa Úrsula em um vestibular feito antes do tempo (e me inscrevi para engenharia porque achava que não seria aprovada), apenas para “ensaiar” a realização da prova um ano antes da época adequada, ela quis me convencer a entrar com uma ação judicial para tentar segurar a vaga até obter o certificado de conclusão do segundo grau. A essa altura, eu já sabia que queria cursar a faculdade de jornalismo e não concordei com o projeto dela. Ela lamentou, mas nunca brigou comigo por causa disso. Tinha uma sabedoria maternal admirável.

Mamãe nasceu em São José do Egito, Pernambuco, em 1933, filha de um caixeiro viajante (para os mais novos: comerciante que vende mercadoria de porta em porta) nascido no Pará de nome Eduardo Daniel e de uma professora pernambucana chamada Roselvira, ou Rosinha, como era chamada pela família.

Ainda pequena foi morar no Recife. Minha avó ficou viúva aos 26 anos. Meu avô (poeta por vocação) morreu devido à tuberculose e, além de minha mãe, deixou também minha tia Therezinha e meu tio Romero. Viúva com três filhos em 1936, era quase que uma sentença de vida extremamente difícil, mas minha avó causou-se novamente com um funcionário do Banco do Brasil e, ainda em Recife, nasceu meu tio Roseli, em 1939.

De Recife a família foi morar em Minas Gerais, onde nasceu mais um filho, Eliakim e depois mudaram para o Rio de Janeiro, onde minha avó teve mais dois filhos, Cid Ney e Vânia.

Mamãe só estudou até o primeiro grau, adorava ler e sabia fazer contas de somar com uma rapidez impressionante. Aprendeu na prática adquirida a partir dos 15 anos de idade, quando começou a trabalhar como balconista em um mercado do SESI que ficava em Madureira, onde morava, no Rio de Janeiro.

Conheceu meu pai, Edison Borges de Souza aos 15 anos durante um passeio com as amigas à Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, onde meu pai morava.

Namoraram por quase oito anos, sendo que ficaram separados por um ano enquanto ele servia o Exército (ela disse que não era mulher de namorar soldado raso! Kkk). Logo que ele deu baixa do serviço militar eles voltaram a namorar e se casaram em 8 de dezembro de 1956.

Sou a filha mais velha, nasci em 6 de agosto de 1959, no bairro carioca da Glória, e fui recebida nesse mundo por um casal que se amava e que desejava intensamente ter filhos.

Em 1962 nasceu Eduardo e em 1963 chegava Edison Jr.

Mamãe continuava trabalhando no SESI. Trabalhava nos escritórios do serviço médico do SESI, na Rua Araújo Porto Alegre no período da tarde datilografando resultados de exames laboratoriais.

Papai trabalhava no Banco da Prefeitura, que depois, com a transferência da Capital Federal para Brasília, virou Banco do Estado da Guanabara – BEG (que mais tarde passou a ser o Banco do Estado do Rio de Janeiro, BANERJ).

Mas vamos às lembranças especiais:

Meus pais tinham salários razoáveis, mas nada que permitisse extravagâncias dispendiosas. Morávamos em apartamento alugado na Rua Campos Sales, 144, na Tijuca. Ainda assim, minha mãe comprava meus vestidos de festa nas melhores boutiques de Ipanema. Ela me vestia com vestidos belíssimos comprados à prestação e eu me lembro bem de algumas mulheres que pediam para ver de perto o modelo e o bordado, em especial de um vestido de veludo azul marinho que eu ainda hoje me lembro bem.

O vestido azul marinho

Quando eu tinha quatro anos ela me inscreveu no concurso de Miss Boneca do América Futebol Club. Além das fotos em P&B do desfile, lembro da tarde que passamos naquele salão de beleza improvisado no mesmo local onde o seria o desfile. Mamãe queria que meu cabelo lisinho ficasse cacheado. A cabelereira esqueceu os protetores de orelha e eu tive que secar o permanente que fizeram no meu cabelo ultra liso enquanto minhas orelhinhas assavam naquele ar super quente dos secadores utilizados nos salões de beleza de antigamente. Fiquei em terceiro lugar no concurso. Segundo a minha mãe, isso foi uma grande injustiça porque eu era a mais bonita. (Claro! Aos olhos dela eu sempre era a mais bonita rsrsrsrs).

O desfile de Miss Boneca

Nessa mesma época, fui matriculada no Instituto Menino Jesus, na Rua Ibituruna, para cursar o primeiro ano do jardim de infância. Uma escola particular onde conheci meu primeiro “namorado”, Alexandre Castanheira. Éramos da turma da professora Celi, a quem eu adorava. Mamãe sempre procurava me colocar em destaque nas diversas festas e comemorações da escola. Lembro que me vestiram de “noiva”, confeccionada com papel crepom, em uma encenação que comemorava o Dia das Mães. Também me vesti de anjo em duas ocasiões, sendo que uma delas era uma missa na Igreja da Candelária.

Uma anja!

No final do ano de 1965, na festa de encerramento realizada no Auditório da ABI – Associação Brasileira de Imprensa, ela bordou uma jardineira azul com paetês coloridos para que eu atuasse juntamente com outra menina em um número em que imitávamos a Rita Pavone cantando La Bamba! A outra menina quase não aparecia na escola. Era filha de gente endinheirada e quando ela chegou na festa de fim de ano, usava uma fantasia muito mais bem bordada e mais bonita que a minha. Mamãe ficou desgostosa... Ela passou dias estudando como bordar minha jardineira, mas a outra menina usava uma jardineira de cetim bordada por profissional com detalhes em dourado! Arrasou!

Como a outra menina não frequentava a escola com assiduidade e a cada apresentação uma criança tinha que falar um versinho, pelo menos a criança encarregada de recitar o verso fui eu. Mamãe passou dias e dias ensaiando comigo com medo que eu tivesse um branco ao ver o auditório cheio. Decorei tanto que nunca esqueci; “Imitar Rita Pavone, per que? Per que? La Bamba eu vou dançar para você! Só para você! (apontando o dedo para a plateia).

As festas de aniversário lá de casa eram famosas entre a vizinhança. Os bolos, os doces, os enfeites da mesa e os salgadinhos eram tão gostosos e bonitos que, com o tempo, foram fazendo a fama das habilidades de mamãe como confeiteira e ela passou a ajudar a fazer os bolos de muitas outras crianças, filhas das muitas amigas que ela sempre teve.

Uma das muitas festas. Nessa o bolo era um piano.

A verdade é que ela não tinha tanta habilidade assim para trabalhos manuais (com exceção das costuras feitas com pontos perfeitos). Os bolos eram moldados por ela com muito esforço. Importante lembrar que, naquela época, não existiam as facilidades encontradas pelos confeiteiros de hoje. Lembro de uma escolinha de bichinhos com uma sala redonda que ficava em cima de uma haste e era iluminada por dentro, de um queijo cheio de ratinhos, de um circo, de uma borboleta colorida, de um piano de cauda, de uma piscina com água de gelatina azul, de um navio de nome TETÉ (apelido do meu irmão Edinho), de um campo de futebol.... entre outros. Tudo feito por ela!

Outra paixão de mamãe era produzir fantasias para mim. Aos seis meses de idade eu já estava fantasiada de bailarina. Depois foram tantas outras... baiana, índia, colombina, tirolesa, grega, havaiana, melindrosa e outras mais elaboradas quando eu já era jovem adulta e nas quais ela passou o verão inteiro bordando para que eu brilhasse no carnaval.

A bailarina

Grega
Baianinha


            Também caprichava nas caipiras para o São João.

A baianinha virou a caipira

E a luta dela com o garfo na hora de mergulhar os doces na calda quente para fazer os caramelados? Ela ficava muito nervosa... passava dias preparando e enrolando os brigadeiros, os cajuzinhos, os docinhos de coco, de ovo, de uva... ficavam maravilhosos! Além dos rissoles, croquetes, canudinhos de queijo, ovinhos de codorna envolvidos em creme de milho e envoltos por massa cabelo de anjo picadinha .... que saudades!

Outra passagem inesquecível foram os preparativos para a festa em comemoração da minha primeira comunhão. Ela, como sempre, confeccionava os enfeites em casa. Pois ela inventou de fazer terços de papel laminado colocados dentro de caixinhas de fósforos encapadas com papel prateado e enfeitadas com pequenas figurinhas de ilustrações de santinhos. Ela trabalhava à tarde inteira no SESI e passava as noites enrolando bolinhas de papel laminado diante da televisão para fazer as contas dos muitos terços que ela fez. Chegou a criar feridas nos dedos de tantas bolinhas que ela enrolou. Eu lembro perfeitamente dela fazendo esses tercinhos... fez também anjos de cartolina e outros enfeites para a linda mesa que ela preparou.

Depois que parou de trabalhar no SESI mamãe passou a se ocupar de várias outras atividades. Vendia roupas compradas na Rua Tereza em Petrópolis ou no Saara e também vendia AVON. Passou a ser a “mãe representante” de turmas no Instituto de Educação, onde participava da organização de festas e das reuniões de pais. Acabou sendo mãe representante de todas as turmas do Grupo Escolar do Instituto de Educação. A essa altura eu já estava no ginásio do Colégio Estadual Antônio Prado Júnior, mas Eduardo e Edinho desfrutaram desse status de serem filhos da mãe representante.

A casa de bonecas rosa de janelas azuis
Quando eu completei seis ou sete anos, eles resolveram realizar minha vontade de ter uma casa de bonecas. Papai tirou férias e passou o mês inteiro entre tábuas, pregos, martelo e tintas para construir uma casa rosa com sala e quarto, janelas azuis, luz e campainha  que era um sonho! Muitas crianças brincaram naquela casinha de boneca. 

Quando eu estava com cerca de oito anos, eu comecei a engordar. Tudo por causa de um remédio para abrir meu apetite de nome “Vitaminer S”. Que remédio eficiente! E gostoso.... tomei mais do que precisava. Fique bem gorducha e ela não conseguia mais comprar meus vestidos nas lojas de Ipanema. Ela ficou desgostosa porque precisou passar a comprar roupas de adulto que ficavam horríveis em mim. Aos 11 anos, eu já media 1,63 m e pesava 63 quilos.

Lembro da tristeza de minha mãe ao me ver passar as tardes no sofá vendo televisão e, frequentemente, acompanhada de uma lata de leite condensado comprada para fazer os doces de aniversário. Ela não me criticava, mas dava sugestões de outras atividades que eu podia fazer além de estudar e engordar.

Até que em um dia de 1971 ela me convenceu a praticar natação. Não me lembro que argumento ela usou para me convencer a treinar todos os dias, mas sei que foi muito eficiente (ela usou uma chantagem amorosa que lamentavelmente não lembro). Acabei me tornando atleta federada. Competi em campeonatos interclubes, carioca, estadual e até no brasileiro. Com isso, emagreci sem fazer dieta e criando músculos numa idade em que o corpo cresce rapidamente. Voltei a ter boa forma sem qualquer sequela (exceto uma gordurinha localizada na barriga devidamente expulsa anos mais tarde com o advento da lipoaspiração).

Depois que tomei gosto pela natação, passei a treinar como atleta na equipe do América Futebol Clube. No começo éramos eu e Eduardo participando de competições. Eduardo era um ótimo nadador, mas detestava treinar e isso decretou o fim de sua carreira de atleta. Mamãe nos acompanhava em todas as competições. Para quem não sabe, competições de natação de crianças têm uma plateia enorme e são muitas séries em inúmeras provas. A pessoa precisa estar atenta porque as provas costumam ser rápidas e se você se distrair um pouco, a criança nada e você não vê. Mamãe, que tinha um enorme talento para fazer amizades e adorava conversar, passava horas no desconforto da arquibancada das piscinas do Fluminense ou do Vasco ou de vários outros clubes e não raramente estava distraída e não nos via nadar.

A família mudou os hábitos. Os passeios foram reduzidos por causa dos treinos e das competições dos finais de semana que sempre começavam bem cedo. A dieta da família também mudou, pois todos passaram a comer pão e arroz integrais e o consumo de refrigerantes foi reduzido. Naquela época só se encontrava arroz integral em casas de comida macrobiótica. Mamãe tinha que ir de ônibus até a Praça Saens Pena para comprar cinco quilos de arroz que trazia no braço. Só hoje percebo a chatice e o amor necessário para adotar dessa rotina.

Devo também a mamãe os meus conhecimentos da língua inglesa. Digo mamãe porque a iniciativa de nos matricular no curso de inglês foi dela, embora papai sempre concordasse com as ideias e os investimentos em nossa educação. Numa época em que saber inglês não era algo fundamental, ela matriculou a nós três no cursinho. Depois passamos para o IBEU e eu imagino que, naquela época, início dos anos 70, devia ser muito caro manter três filhos nas aulas de inglês do IBEU. Terminei o curso, formada aos 19 anos e Deus sabe o quanto esse conhecimento contribuiu na minha carreira e na minha vida, permitindo que hoje eu esteja casada com um homem que não fala português, apenas inglês e francês.

Papai passou a trabalhar no período noturno no BEG para ganhar o adicional de 25%. Assim, por um tempo, cuidava da gente enquanto mamãe trabalhava no período da tarde. Isso durou até mamãe deixar o SESI, em 1971. Então, com o dinheiro da indenização da mamãe, ele comprou um Ford Corcel 1969 0Km e passou a trabalhar também como motorista de taxi. Mamãe passou a cuidar da gente em tempo integral.

Foi nesse tempo que ela teve algumas crises nervosas por causa das nossas brincadeiras e bagunças. Mas o que a deixava mesmo nervosa eram nossas brigas – e a gente brigava muito! Principalmente Eduardo e Edinho. Eduardo era muito implicante e transtornava Edinho com suas brincadeiras ao estilo bullying. Ela sofria tentando organizar a bagunça e acalmar nossos ânimos, mas frequentemente ela perdia a calma. E a gente ainda ria dos destemperos dela... uma crueldade dessas que só crianças sabem fazer...

Apesar de viverem com orçamento sempre apertado, eles nunca nos deixaram passar férias em casa. Todos os anos, no verão e no inverno, passávamos algumas semanas em hotéis do sul de Minas. Começamos por São Lourenço e Caxambu, depois passamos várias férias em Cambuquira e Lambari. Meus pais sempre procuravam passar férias em lugares que fossem bons para crianças. Nossas necessidades eram sempre a prioridade deles.

Mesmo acompanhados de três crianças, eles recebiam muitos convites para passar dias e feriados nas casas de campo e praia de amigos. Foram várias temporadas em Muriqui, na casa da Luiza e Fritz Eisenlohr, dias em uma fazenda em São Jose do Rio Preto, na serra fluminense, convidados por Cilene e Otaviano, semanas na Praia do Saco, em Mangaratiba e semanas na Fazenda Simpatia, em Cambuquira, a convite de Nilza e Dauro.

Quando passamos a frequentar Lambari, onde tinha um parque especialmente dedicado às bicicletas, meu pai se viu em uma situação delicada porque era caro alugar bicicletas todos os dias para três crianças. Decidiu trocar o carro, vendeu o Fusca e comprou uma Kombi e passamos a viajar na companhia de nossas três bicicletas!

Com a Kombi, era comum papai lotar o carro com nossos amiguinhos para passearmos em Petrópolis. Comprou um título do Quitandinha Santapaula Clube, que passamos a frequentar nos finais de semana. Lá aprendemos a jogar boliche e a tentar patinar no gelo. Eram domingos maravilhosos. Chegávamos em casa exaustos.

Nessa mesma época papai trocou o taxi por uma sociedade em uma empresa de transporte que usava Kombis para frete – Bis Kombi Transportes, em Botafogo. A empresa foi bem até que o sócio começou a aprontar e papai vendeu sua participação no final de 1973.

 Aos 13 anos eu viajei para a recém inaugurada Disney World. Claro que foi ideia de mamãe... Nem posso imaginar o custo de uma viagem para Miami e Orlando em julho de 1973. Fui com minhas primas, Elaine e Luciene e passamos 15 dias maravilhosos em atrações bem diferentes das atuais. Só existia o Magic Kingdon em Orlando. Então fomos à Cabo Canaveral ver a base de foguetes da Nasa, ao Parrot Jungle e Seaquarium em Miami, a um parque de Flamingos, a outro que imitava o velho oeste, além de um passeio de barco por ilhas de Miami. Juntas fizemos muitas estripulias nas compras em Miami Downtown e nas noites no Hotel Barcelona de Miami Beach e Court of Flags, em Orlando. Até essa época, meus pais só tinham saído do Brasil uma vez, em viagem de carro junto com os filhos para irmos até o Uruguai e à fronteira com Argentina e Paraguai, em Foz do Iguaçu, em julho de 1972.

Essa viagem foi inesquecível! Foram cerca de 15 dias de estrada, dentro de uma kombi na companhia de três fuscas onde estavam Luiza, Fritz e outras pessoas das famílias deles. Fomos do Rio à Punta Del Leste, no Uruguai, passando por São Paulo, Curitiba, Blumenau, Joinville, Florianópolis, Porto Alegre, Chuí e, na volta, Caxias do Sul, Canelas, novamente Curitiba, Foz do Iguaçu, fronteiras do Paraguai e Argentina e retorno ao Rio.

Em dezembro de 1973 deixei meus pais no Rio e fui passar o final do ano em Muriqui, na casa de uma amiga de infância, Valéria, filha da Luiza e do Fritz. Eu não imaginei que meu pai ficaria tão triste com isso. Nem me dei conta de que era aniversário dele no dia 31 de dezembro e que eu deixei de comemorar com ele para estar em Muriqui.

Pois no dia seguinte, 01 de janeiro de 1974, ele estava em Muriqui procurando uma casa de praia para comprar. No dia 11 de janeiro estávamos de mudança, com um caminhãozinho pequeno cheio de coisas compradas de segunda mão para a nova velha casa de Muriqui, uma bela construção na Rua São Paulo, 275, adquirida por um preço razoável, mas com forma de pagamento muito facilitada.

Eles ficaram muito apertados financeiramente, mas muito felizes de ver nossa alegria em desfrutar de nosso primeiro verão inteiro em Muriqui.


Para tornar a casa habitável, já que o imóvel tinha ficado fechado e sem manutenção por vários anos, papai se tornou pintor, encanador, marceneiro, jardineiro e pedreiro durante as férias. Reformou a casa sozinho porque não tinha sobrado dinheiro para pagar a mão de obra. Mamãe cozinhava, limpava, lavava roupa e arrumava a casa enquanto os filhos curtiam a vida...

Muitas histórias felizes nessa casa. Entretanto, a casa deu também motivos para mágoas com amigos e familiares. Casa de praia atrai muitos hóspedes, que nem sempre sabem valorizar e retribuir a gentileza dos anfitriões. Muitos agem como se quem os recebe fosse também seus serviçais porque nada fazem para contribuir com os trabalhos de arrumação da casa ou com as despesas. Além disso, na adolescência, é muito comum desentendimentos com amigos, e a convivência de vários dias, hóspedes ou não, acabava facilitando algumas desavenças.

Apesar da dívida que contraíram com a compra da casa de Muriqui, e do acordo estabelecido de que eu abriria mão da festa de 15 anos para poder viajar para a Disney um ano antes, quando foi chegando a época do meu aniversário, eu e mamãe começamos a imaginar uma forma de comemorar o aniversário.

Eles não tinham dinheiro disponível, mas tinham crédito na praça. Com isso, apoiada e estimulada pela mãe festeira, a ideia foi tomando corpo, cresceu muito, e eu ganhei uma linda festa de 15 anos com a presença de cerca de 400 convidados. Depois da missa, realizada na Igreja de São Sebastião (Capuchinhos) na Rua Haddock Lobo e com a presença das 14 meninas com vestidos longos idênticos confeccionados especialmente para a festa, aconteceu a recepção no recém inaugurado salão do restaurante do Clube Municipal, também na Rua Haddock Lobo, na Tijuca.


As meninas que dançaram a valsa na festa dos meus 15 anos


Salgadinhos, doces e bolo feitos em casa. Mesinhas ornamentadas, garçons experientes, fotógrafo profissional, som de boa qualidade e a valsa ensaiada e muito bem organizada por mamãe. A festa foi inesquecível para muita gente.

Claro que eles ficaram endividados porque mesmo feita com economia, a despesa com convites, roupas, bebidas de boa qualidade (vinho alemão, whisky 8 anos, cervejas e refrigerantes à vontade), comida farta, técnico de som, fotógrafo, álbum de fotografias, garçons e etc, foi alta. Foi então que entrou a divina providência, pois, naquele mesmo mês de agosto de 1974, papai foi sorteado numa rifa de formandos de medicina da turma do Rui, marido de minha tia mais nova, Vânia, e ganhou um fusca 0Km, que papai vendeu e reorganizou as finanças!

Bom deixar claro que mamãe era quem tomava as iniciativas de atender às minhas vontades, mas papai, depois de convencido, fazia tudo com a maior boa vontade e amor.

Em todas as vezes em que me envolvi em problemas de relacionamento, mamãe estava sempre pronta a defender meu ponto de vista, o que é normal para a maioria das mães. A diferença é que ela “comprava a briga”! Por isso, acabou se afastando até de amigas dela, pelo menos por algum tempo.

Em 1974, quando comecei a ter namorados, mamãe os recebia de braços abertos e com um baita sorriso. Aliás, sorriso no rosto era a marca principal de sua fisionomia. Eles eram recebidos em Muriqui e, pelo visto, se sentiam confortáveis porque as estadas eram prolongadas, tipo um verão inteiro e não me lembro de reclamarem da convivência com meus pais, embora meu pai, ciumento de carteirinha, procurava não dar muita intimidade, tratava meus namorados com gentileza.

Por outro lado, no momento em que mamãe percebia que eu estava sofrendo pelo fim do namoro, me acolhia e “ninava” como se eu fosse mesmo uma bebê.

Mamãe era mesmo minha melhor amiga. Até mesmo quando comecei a ter intimidades com meu primeiro namorado e não sabia ao certo até onde deveria deixar que ele chegasse. Foi com ela que conversei para buscar orientação. Perguntei claramente se deveria ou não deixar ele passar as mãos nos meus seios. A resposta dela foi: faça o que lhe dá prazer. Se você acha que gosta dele o suficiente e sentir a mão dele em você lhe dá prazer, você pode deixar.

Cerca de um ano depois que papai comprou a casa de Muriqui, houve uma situação em que uma amiga, talvez movida pelo ciúme de outras amizades que eu mantinha, começou a fazer intrigas que me afastaram de algumas amizades. Eu estranhava o que acontecia, mas não tinha maturidade para perceber a origem daqueles fatos. Mamãe descobriu e, junto com a mãe de uma das meninas que também estava sendo atingida pelas intrigas, arquitetaram um plano que me permitisse constatar as más intenções da amiga da onça. E não deu outra... ela mordeu a isca e demonstrou que estava realmente agindo para me envenenar com outras amizades. Com isso, mamãe acabou se afastando das mães dessas duas meninas, inconformada por terem acreditado que eu seria capaz de cometer aquelas atitudes.

Ela agia como um escudo protetor.

Foi na minha adolescência que a relação de meus pais passou por um abalo que ameaçou a paz do casal. Como é normal para todas as adolescentes, eu queria sair nos finais de semana, ir a festas e chegar em casa de madrugada. Papai não aceitava.

Aliás, ele era bem antiquado. Quando eu tinha quatro anos, mamãe me inscreveu nas aulas de ballet. Papai não aceitou de jeito nenhum porque bailarina “era porta de entrada para mulher de vida fácil”... e ela teve que cancelar a inscrição. Depois, quando eu tinha seis ou oito anos de idade, ele insistia que eu não deveria usar biquíni e eu passei a usar maiô. Como eu já começara a engordar, achei a ideia boa.

Voltando à adolescência, eles brigaram muito porque ela me autorizava a sair. Uma vez ele me esperou em plena madrugada na calçada em frente ao edifício em que morávamos na Campos Sales. Eu voltava de uma festa de quinze anos acompanhada do Mauro, meu primeiro namorado firme. Ele não me bateu, mas fez um escândalo e tratou o Mauro de forma pouco amistosa. As brigas deles continuaram, mas eu nunca perdi uma festa por causa disso. Tudo piorou quando comecei a namorar o Jorge que, ainda com 19 anos, já tinha carro. Eu tinha 17 anos e ele ficava inconformado de me ver saindo com ela e chegando de madrugada. As brigas foram piorando até que um dia mamãe me chamou para uma conversa séria: “minha filha, eu não aguento mais brigar com seu pai por sua causa. Então, eu e ele fizemos um acordo. Eu agora sou totalmente responsável pelos seus atos, mas se você fizer alguma coisa errada, nós duas teremos que sair de casa juntas. Por isso eu te falo: você está livre para fazer o que quiser, sair e voltar para casa a hora que quiser, mas, por favor, tenha juízo porque se você não tiver juízo você pode destruir a sua vida e a minha também. Mamãe confiou em mim o suficiente para colocar a vida dela em minhas mãos.

Bem, eu não posso dizer que fiz tudo certo, pelo menos não o certo que meu pai achava certo, mas fui suficientemente responsável para manter minha mãe em casa. Com isso a paz do casal foi restaurada.

Hoje eu entendo que ele jamais deixaria dela por causa de um eventual passo em falso que eu desse, mas, naquela época, eu acreditava que ele cumpriria a risca todas as suas ameaças e aquele compromisso foi muito forte para nós duas.

Apesar de toda a sua modernidade para aquela época, mamãe guardava ensinamentos compatíveis com a sua geração. Lembro dela muito preocupada me explicando a razão pela qual uma moça deveria manter a virgindade até o casamento: “se você se casar com esse mesmo homem ele pode não confiar em você porque se você cedeu a ele poderá ceder a um outro. Por outro lado, se você não casar com ele, como você vai explicar para o próximo namorado que você não é mais virgem? Ele não vai querer levar você a sério porque você já teve outro”.

Em 1976 comecei a namorar Jorge Roberto. Jorge foi um ótimo namorado e mamãe gostava dele, apesar de não gostar nada do costume que ele tinha de passar horas em botequim bebendo cerveja com amigos.

Ficou marcado na minha cabeça e na cabeça dela uma atitude do Jorge no verão de 1978. Estávamos viajando em carros diferentes entre Muriqui e Rio de Janeiro, já que eu voltaria para Muriqui logo após me inscrever na faculdade de jornalismo Gama Filho. Com apenas 18 anos de idade, eu já tinha receio de dirigir à noite e por isso queria sair de Muriqui mais cedo. Ele me tranquilizou dizendo que bastaria eu seguir o carro dele, que estaria atento. Quando deixamos a BR 101 para a Avenida Brasil, ele tomou a dianteira na estrada e desapareceu, me deixando sozinha na estrada escura e bastante movimentada. Quando consegui chegar ao Rio, assustada e nervosa, pois, dirigi acima da velocidade habitual na tentativa de alcançá-lo, o encontrei no botequim tomando cerveja, sem demonstrar qualquer preocupação com a minha segurança. Isso foi um balde de gelo no meu sentimento por ele e na percepção de mamãe a respeito dele. Ainda assim o namoro continuou depois disso e mamãe respeitou minha decisão.

Com o passar do tempo e por causa das dificuldades enfrentadas por Jorge para passar no vestibular e definir a vida profissional dele, embora ele já trabalhasse como agente de reservas da Varig, mamãe começou a se preocupar com a qualidade de nosso futuro casamento. Ela nunca me aconselhou a romper o namoro, mas achava que era cedo para casar e que talvez eu devesse pensar melhor.

Para complicar, no verão de 1979 eu ganhei o concurso de Miss Muriqui, e depois de Miss Mangaratiba (Muriqui é distrito de Mangaratiba). Mamãe não cabia em si de orgulho e alegria. Para o primeiro concurso, que pensávamos ser apenas uma brincadeira, eu me arrumei sozinha, com minha maquiagem de festa. Apesar de concorrer com uma moça que era ligada à diretoria do clube e de eu ser filha do diretor social da gestão anterior, ou seja, nada próximo da gestão que acabou com o Country Club e comandou a fusão com o Iate Clube de Muriqui, eu ganhei o concurso. Para o concurso seguinte, mamãe investiu em vestido novo e trouxe do Rio uma maquiadora profissional que me deixou com cara de boneca congelada. Enfim, ganhei o concurso e com isso o ciúme do Jorge tornou-se insuportável.



             Mamãe assumiu o papel de “mãe de miss” e negociou com o clube a minha preparação para a próxima etapa: concurso a miss Rio de Janeiro, que aconteceu em maio de 79 no Hotel Nacional do Rio de Janeiro, com transmissão ao vivo pela TV Tupi. Fiz tratamento estético na Socila para tentar disfarçar minhas gordurinhas localizadas e reduzir a acne que estragava a pele do meu rosto. Fiz preparação para o desfile com uma especialista em postura e mamãe me ajudou a escolher o modelo do vestido que, por sugestão da especialista da Socila, foi na cor vermelha. O problema foi que o vestido realmente me deu um destaque em meio as várias outras garotas que usavam branco ou preto, mas quando o desfile passou para o maiô, a maquiagem pesada adequada ao tom do vestido me deixou com o rosto muito artificial. Além disso, provavelmente por causa do nervoso, esqueci de sorrir. Fui logo desclassificada...

Foram três anos e meio de namoro com o Jorge, até que ficamos noivos no dia do aniversário de mamãe, em outubro de 1979, em uma bonita festa em nosso apartamento da Rua Haddock Lobo.

As coisas entre nós pioraram depois de um feriado quando os primos e as namoradas dos primos do Jorge foram para Muriqui e se comportaram de forma bastante egoísta. Eu acabei fazendo às vezes de cozinheira da turma, sem ajuda das outras três moças, enquanto Jorge aturava as brincadeiras dos primos que debochavam do fato dele estar sozinho enquanto eu cuidava da cozinha. Essa situação se repetiu todos os dias do feriado. O detalhe é que eu só estava na cozinha por causa deles. Mamãe disse que estaria sem empregada naquele feriado e porque eu insisti em levar mais seis pessoas, disse a ela que nos responsabilizaríamos pelas despesas e faríamos a comida.

Papai e mamãe almoçaram fora todos os dias e ficaram muito aborrecidos em testemunhar a situação de me ver trabalhando para os hóspedes. A coisa ficou pior quando Jorge brigou comigo porque viu um minúsculo pedacinho de cebola na panela. Ele odiava cebola, mas comia a comida feita com o tempero desde que não visse a cebola no prato. Estávamos sem liquidificador e eu passei horas tentando fazer a cebola desaparecer, mas ele viu aquele pedacinho e disse que não comeria ... papai, vendo a briga, me obrigou a parar de cozinhar imediatamente. Claro que o clima ficou pesado e o feriado terminou mais cedo.

No final de semana seguinte, mamãe teve uma conversa séria e tranquila com o Jorge, dizendo que ele continuaria sendo bem-vindo à nossa casa, mas os primos dele não seriam mais recebidos. O noivado continuou por pouco mais de um mês. Sem qualquer pressão de meus pais, percebi que aquela relação não fazia mais sentido. Entendi que, apesar de ser uma ótima pessoa, Jorge parecia não ser capaz de me valorizar do jeito que eu queria, e o noivado terminou em janeiro de 1980.

Foi uma decisão difícil. Não tive coragem de contar a mamãe que eu havia perdido minha virgindade com Jorge e o fantasma dos seus ensinamentos a respeito desse assunto quase me levaram a casar sem amor. E como não contei e terminei o noivado, mamão passou anos acreditando que eu ainda era virgem. Só em 1987, enquanto passeávamos sozinhas porque papai estava em viagem a trabalho e porque ela finalmente perguntou, pude “confessar” meu pecado. Ela ficou surpresa, e provavelmente decepcionada com o meu silêncio por tanto tempo, mas, como sempre, não me criticou, não me repreendeu, nem alterou sua relação comigo. Simplesmente compreendeu.

No mês seguinte, fevereiro de 1980, saiu o resultado de um concurso que eu e Jorge havíamos feito ainda no final de 1979 para trabalhar no BNH, Banco Nacional da Habitação. Eu estava aprovada; ele não.

Mamãe ficou muito mais feliz do que eu com o resultado. Passou o dia com o jornal na mão mostrando para todas as amigas que encontrava nas ruas de Muriqui. Era verão e a cidade estava lotada. Já papai ficou completamente dividido. Ele não sabia se comemorava ou não minha aprovação para um emprego em uma estatal, o quê, ao mesmo tempo em que representava estabilidade para o resto da minha vida, também significava perda de poder de controle sobre mim. Ele ficou bem assustado, afinal, eu tinha apenas 20 anos e o novo emprego era a minha carta de alforria.

Comecei a trabalhar no BNH em junho de 1980 e passei a estudar à noite. Chegava em casa perto das 11 horas da noite louca de fome e cansaço. Mamãe estava todas as noites me esperando para esquentar o jantar e me fazer companhia enquanto eu jantava. Ela sempre se interessava por tudo que estava acontecendo na minha vida.

Quando completei um ano no BNH e pude tirar férias, mamãe se interessou em saber meus planos de viagem. Eu sequer tinha pensado nisso e não estava muito animada para viajar porque nenhuma das minhas amigas tinha condições de viajar comigo. Ela rapidamente se ofereceu para viajar comigo. Ela ainda não conhecia Salvador e nunca tinha retornado ao Recife desde que saiu de lá quando criança. E lá fomos nós conhecer as duas maiores cidades do nordeste. Em Salvador ficamos hospedadas na casa da filha de uma prima dela, Marisa, recém casada com um baiano, e no Recife ficamos com o tio João, irmão do pai dela, que faleceu no final daquele mesmo ano. Ela ficou super feliz de rever a família do pai e conhecer vários primos. Eles se revezavam para nos mostrar toda a cidade. Foi uma ótima viagem.

No ano seguinte, chegando novamente o mês em que eu ganhava direito a férias, lá veio ela com o anúncio de um cruzeiro que sairia do Rio e iria até Buenos Aires. Em 1982 não era comum fazer viagens de navios, mas a ideia me agradou muito. Ela mobilizou a família e embarcamos no Federico C. Era um navio de cruzeiro no modelo antigo, ainda dividido em primeira classe, classe turística e terceira classe, onde viajavam os emigrantes. As piscinas, os restaurantes e os bares da primeira classe e da classe turística eram diferentes e as pessoas não se “misturavam”. Assim como a terceira classe não tinha acesso às áreas da classe turística. Algo impensável nos dias de hoje. Nós duas nos divertimos muito! Não sei bem porque motivo em Buenos Aires nós duas passeamos sozinhas. Foi uma viagem maravilhosa!

Em 1983, papai fez uma grande reforma na casa de Muriqui, tanto na área interna, modernizando cozinha, construindo mais um quarto e um banheiro, como também na área externa, com novos jardins e instalação de piscina. A obra já era uma tentativa de nos atrair para voltarmos a frequentar a casa, que vinha perdendo a preferência desde que nos mudamos para o Corte do Cantagalo, em Copacabana, e passamos a ter nossos próprios carros e nosso dinheiro, já que meus irmãos também começaram a trabalhar cedo. A casa de Muriqui terminou sendo vendida em 1984.

Em 1985, em conjunto com amigas do BNH, lançamos nosso primeiro livro de poesias, “Tchibum...Tchuá... Um mergulho no amor e na poesia”. Nunca me senti verdadeiramente uma poeta. O lançamento foi no restaurante O Botequim, em Botafogo, no dia do aniversário da mamãe. Muitas vezes eu “roubava” o aniversário dela, e nem me dava conta. Era uma forma de homenagear a ela e eu acho que ela entendia e também enxergava assim porque parecia gostar disso. Ela convidou muita gente e curtiu muito aquele dia. Éramos quatro mulheres bem relacionadas, eu, Cristina, Cláudia e Ângela e, ainda com a ajuda das amizades de mamãe, o evento foi um sucesso. Mais de 300 livros vendidos na primeira noite. Além de espaço no noticiário e em colunas sociais.

Em 1986 decidi fazer uma viagem de carro do Rio até Florianópolis, voltando depois por Belo Horizonte em direção a Porto Seguro. Combinei com uma amiga que havia conhecido na viagem de férias do ano anterior, no Club Med de Salvador, Gisela. Meu pai ficou tenso quando soube que eu pretendia rodar cerca de 6.000 Km com meu chevette hatch 1981, mas quem me segurava? Lá fomos nós e mamãe, apesar de igualmente preocupada, me dava a maior força dizendo: vai mesmo filha! Você tem mais é que aproveitar a vida!

Apesar de eu ter meu emprego e ser totalmente independente, mamãe gostava de estar a par de toda a minha vida. Era comum ela sentar ao meu lado para ouvir minhas conversas enquanto eu estava no telefone com alguma amiga. Quase sempre isso não me incomodava, mas se, eventualmente eu quisesse falar de algum assunto mais íntimo com minha amiga, às vezes algo pertinente à vida da amiga, e pedia para mamãe sair de perto, era crise que se formava. Isso aconteceu poucas vezes, até porque eu também procurava evitar magoar mamãe, mas como na época a gente só tinha mesmo o telefone fixo, nem sempre era possível evitar esse desgaste. Nada que ela não perdoasse pouco depois.

Lembro que uma vez cheguei ao BNH reclamando que faltava iogurte na geladeira de casa e eu estava reclamando de minha mãe. Quase apanhei da minha amiga Claudia... mãe de quatro meninos. Agradeço a bronca que Claudia me deu porque me ajudou a perceber o quanto fui injusta com mamãe.

Eu fui demasiadamente mimada. Nem sei como consigo ser uma dona de casa razoável porque mamãe nunca me pediu para lavar louças ou fazer a própria cama... o máximo, pedia para que eu mantivesse meu quarto arrumado.

Fui tão beneficiada por seu zelo, por sua proteção e tão mimada que enfrentei dificuldades maiores quando precisei sair para a vida. Mamãe teve a sorte de conhecer papai muito cedo, foi poupada da sordidez humana e transmitiu para mim uma ingenuidade que tornou as coisas mais difíceis quando a realidade bateu na porta. Demorei muito a entender a maldade humana, principalmente aquela provocada pela inveja.

Até hoje tenho a tendência de acreditar que as pessoas fiquem felizes com a nossa felicidade, como ela ficava feliz com a minha felicidade. Não é bem assim que a banda toca. Hoje estou aprendendo a me preservar, principalmente tentando manter a boca fechada em relação às coisas que acontecem comigo, boas ou más.

Em 1988 decidi ir morar em Salvador. O BNH havia sido extinto e incorporado à Caixa Econômica Federal. Não fui bem recebida pela então chefe da comunicação social da Caixa, estava matando o tempo no gabinete do diretor da área de saneamento urbano. Era um “gueto” do BNH que se mantinha no Rio de Janeiro e que estava com os dias contados. As outras opções seriam ir trabalhar numa agência ou em Brasília.

Eu já tinha rejeitado ir para Brasília com muitas vantagens para trabalhar na área de comunicação da Caixa, imagina se eu queria ir para a área de saneamento urbano? Nem pensar...

Quando o BNH acabou, fiz um concurso para fazer um curso de repórter e editora de telejornais na TV Manchete e fui aprovada. Adorava a ideia de trabalhar em TV. Sempre fui meio exibida e essa minha tendência era bastante estimulada por mamãe.

Fui aprovada e fiz o curso de repórter de TV. Pouco antes, em uma viagem que fiz a Salvador durante a Semana Santa de 1988, me encantei com a Bahia e com um baiano. Por causa disso, usei o relacionamento do gabinete da diretoria para fazer contato com a direção da Caixa na Bahia e falei do meu interesse em trabalhar na comunicação social de Salvador. Ao mesmo tempo, o então diretor de jornalismo da TV Manchete no Rio, Mauro Costa, me apresentou aos editores da afiliada da Manchete na Bahia na época, a TV Aratu, que havia perdido a concessão da TV Globo apenas dois anos antes. Juntei as duas pontas e comuniquei a mamãe minha decisão de mudar para Salvador.

Ela demorou a acreditar. Na verdade, ela não queria acreditar. Entretanto, quando percebeu que a decisão estava tomada, foi comigo comprar móveis e convenceu meu pai a me ajudar comprando a geladeira, o fogão e utensílios. Também organizou uma espécie de “Chá de Panela” para solteiras que estão montando casa e o evento foi marcado para o dia do aniversário dela, 21 de outubro de 1988. Mais uma vez nós duas dividimos a festa. Só que dessa vez ela não devia estar realmente feliz, mas não demonstrou qualquer tristeza.

A única vez que realmente a vi chorar copiosamente foi no dia em que o caminhão saiu de Copacabana com minha mudança. Ela cuidou de tudo e depois deitou na cama e chorou. Não foi fácil... sentei ao lado dela, reforcei os meus motivos, mas ela estava sofrendo. Doeu meu coração.

Ainda assim, muito triste, embarcou comigo para Salvador, me ajudou a arrumar a mudança no pequeno e fofo apartamento que aluguei na Rua Oito de Dezembro e me deu instruções sobre como ajeitar as coisas. Não satisfeita, mamãe estava preocupada porque eu não tinha amigos em Salvador. Ela soube que o filho de uma amiga (ela tinha uma quantidade enorme de amigas), por coincidência, também estava trocando o Rio de Janeiro por Salvador, e me apresentou a ele. Na verdade, tinha uma prima de segundo grau que morava lá, mas casada e com duas crianças pequenas, ela não me deu muita atenção e nunca me procurou depois que a visitamos logo que chegamos.

Para completar, ela estava preocupada que eu ficasse sem tem com quem conversar. Em 1988, a linha para um telefone fixo custava cerca de 1.500 dólares. Por isso, nos primeiros tempos, eu deveria realmente ter problemas para ter com quem conversar fora do ambiente de trabalho. Assim, em um dia em que estávamos na praia, ela puxou assunto com a moça que estava mais próxima, Suzane. A conversa seguiu animada (era realmente impressionante o talento que mamãe tinha para conhecer pessoas!), trocamos telefones e endereços e, por incrível que pareça, talvez porque mamãe expressou a preocupação dela, a moça me procurou e convidou para sair e nós realmente criamos uma amizade que durou todo o tempo de minha primeira temporada em Salvador. Minha amizade com Suzane foi fundamental para que eu pudesse curtir praias, bares e restaurantes da moda, aprender as novas músicas baianas (a axé music estava nascendo) e os costumes tão característicos da minha nova cidade.

A partir daí eu e mamãe passamos a morar em cidades diferentes. Fiquei pouco tempo sem telefone fixo porque ela convenceu papai a me ajudar a comprar uma linha. Assim, a gente voltou a se falar todos os dias, religiosamente. Adoro lembrar da voz dela falando: “oi filha! É mamãe!”. Que saudade!

Em 1989 comprei um apartamento em Salvador. Quem estava comigo no dia da assinatura do contrato de financiamento? Ela. Passamos o maior sufoco porque o vendedor viajou de Porto Alegre para assinar a venda e quase perdemos o negócio porque ele achou que o banco fechava às 16:30h quando na verdade, na Bahia, o horário de fechamento era às 16:00h. Se eu não fosse funcionária da Caixa o negócio teria sido perdido. Ela sofreu junto comigo.

No verão de 1990 ela e meu pai me ajudaram na mudança para o novo apartamento. Aliás, a família inteira estava em Salvador nessa época.

Meus pais chegaram a pensar seriamente em mudar para Salvador, mas depois desistiram por causa dos meus irmãos.

Em 1991 decidi mudar para Curitiba. Mais uma vez, sem questionar meus motivos, os dois me acompanharam e ajudaram com a mudança interestadual. A distância nunca foi suficiente para me manter afastada emocionalmente deles, nem eles de mim.

Em 1995, aprovada em concurso interno da Caixa, voltei para Salvador, e eles sempre me ajudando. Minha vida teria sido muito, mas muito mais difícil sem a ajuda e o apoio incondicional que eles sempre me deram.

Durante todo o tempo que morei fora do Rio de Janeiro, nossa relação nunca sofreu abalos. Éramos presença muito forte na vida uma da outra. Eu viajava constantemente para o Rio e estive presente não em todas, mas na maioria das comemorações dos aniversários dela, nos natais, dia das mães, dia dos pais, réveillon e outras datas importantes.

Foram muitas viagens que fizemos juntas, eu e ela algumas vezes e eu e eles muitas vezes.

            

                

A única vez que mamãe tentou me colocar um freio foi em 1999 na primeira edição do Festival de Verão. Nós estávamos sozinhas em Salvador porque papai precisou voltar ao Rio de Janeiro. Nessa época eles estavam morando em Rio das Ostras e mamãe não se adaptou em trocar Copacabana por uma cidade pequena no litoral norte do Estado do Rio de Janeiro. Por isso, eles passaram a ficar mais tempo em Salvador. Chegaram a ficar dois meses diretos lá em casa.

Fui convidada para o Festival de Verão por um estagiário que estava trabalhando na agência que eu gerenciava. Era um menino de 23 anos. Eu já estava perto de completar 40 anos. Durante os shows daquela noite, mamãe percebeu o indisfarçável interesse de Adriano por mim e não gostou nada da história. Antes do final da apresentação das bandas previstas para aquela noite, ela me pegou pelo braço e disse: ”vamos embora!” Eu fiquei surpresa porque mamãe não era pessoa de deixar uma festa antes do final, mas, como ela estava meio deslocada porque não conhecia ninguém além de mim, concordei. Quando estávamos saindo ela disse: “minha filha, você levou 40 anos para construir a sua reputação. Não a perca por causa de um garoto. Você é gerente geral da agência e ele um estagiário. Isso não está certo.” Eu concordei e fomos embora.

O carnaval chegou e eu acabei me enrolando com o “garoto”. Expliquei para ela quais eram os meus motivos e ela nunca mais voltou a criticar minha relação com Adriano. E quando voltou a encontrar com ele, juntamente com papai, o trataram com simpatia e gentileza.

O que eles certamente não esperavam é que eu viesse a morar junto e depois casar com o garoto. Eles nunca acreditaram que aquela relação fosse longe, mas respeitaram minha decisão e encararam com certa normalidade meu relacionamento. Adriano, enquanto me fez feliz, foi muito bem tratado por eles.

A partir de 2000 começamos a notar mamãe um pouco menos alegre, um pouco menos interessada em conversar, um pouco mais distraída. O tempo que ela passou morando em Rio das Ostras tinha provocado mudanças significativas no seu jeito alegre e comunicativo de ser.

Aos poucos, e, no caso dela, muito lentamente, a luz dos olhos foi se apagando. Ela participou dos preparativos da cerimônia do meu casamento, mas já sem demonstrar o mesmo interesse. Ainda era sorridente e simpática, mas não tanto como antes.

Meus pais voltaram a morar em Copacabana em 2000. Ela voltou a poder passear sozinha pelo comércio. Um dia, resolveu caminhar pela beira da água do mar e foi pega de surpresa por uma onda que a derrubou. Nada muito grave, mas esse acontecimento a fragilizou e pouco a pouco ela foi deixando de sair sozinha.

A partir daí minha maior amiga foi desaparecendo aos poucos. O sorriso perdeu a força, a alegria foi se perdendo e o olhar perdendo o brilho. Como foi difícil...

Em março de 2005 eles mudaram para a Barra da Tijuca, e eu, separada do Adriano, deixei Salvador para ir trabalhar na matriz da Caixa, em Brasília. Foi a primeira mudança quer fiz sem a ajuda deles.

Papai fazia o possível para despertar nela o interesse pela vida. Viajavam muito, quase todos os finais de semana para cidades próximas ao Rio.

Em 2008 eu me aposentei e em 2009 voltei a morar no Rio em um apartamento que ficava bem pertinho do apartamento deles.

Nesse ano eles viajaram para Portugal. Quando retornou dessa viagem, ele disse que não faria mais viagens longas com mamãe porque ela não se interessava e passava boa parte do tempo pedindo para voltar para casa.

A partir de meu retorno para o Rio voltei a conviver bastante com eles. Apesar da mudança nas características da relação, pois aos poucos eles ficavam cada vez mais dependentes dos filhos para resolver questões do dia a dia, estar com eles era muito bom. Meu sentimento de gratidão era enorme e eu me sentia muito bem em poder retribuir uma pequena parte de tanto amor que recebi.

No carnaval de 2011 papai decidiu alugar uma casa de praia e um pequeno apartamento que serviu de camarote na Barra, em Salvador. Foi o jeito que encontramos de viabilizar a ida deles para aproveitar o carnaval baiano. Fomos na companhia de meu irmão Edinho e família, além da minha prima Rosangela.

Ambos adoravam carnaval. Foram várias vezes para Salvador, saíam em alguns blocos e tive a alegria de proporcionar a eles a experiência de estar em cima do trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar, em plena praça Castro Alves em alguns carnavais entre 1991 e 1994.

Ainda voltaram a seguir os trios elétricos em 2012. Apesar da mamãe já estar bastante comprometida, se era um lugar com música e alegria, ela gostava de estar, pelo menos por algum tempo.

Em 2013 fui convidada para assumir um cargo no Ministério do Esporte e retornei à Brasília, mas sabendo que era um emprego temporário, mantive meu apartamento do Rio montado e vinha ao Rio com muita frequência. Ainda assim, essa mudança causou um forte impacto no papai. Se naquela época eu soubesse tudo que o futuro traria, eu não teria aceitado esse convite... foi uma experiência que nada acrescentou de positivo em minha vida.

Em 2014, eles chegaram a Salvador na terça-feira de carnaval, a bordo de um navio da MSC e foram comigo para o camarote da Caixa. Foi o último carnaval que eles brincaram. E eu também nunca mais brinquei um carnaval.

Em 2015 papai adoeceu logo no início do ano e a partir daí a vida deles começou a acabar.

Como papai ficou internado em UTI a partir de março de 2015, eu decidi levar mamãe para morar comigo em Brasília enquanto ele se recuperava de complicações da cirurgia que fez para extrair um tumor maligno do intestino.

Logo que ela chegou, ainda era possível sair com ela para passear, mas em poucos meses ela foi definhando e era cada vez mais difícil ver qualquer sinal de alegria em seu rosto. Quando papai faleceu, em agosto de 2015, poucos dias antes do meu aniversário de 56 anos, mamãe sequer foi capaz de entender o que estava acontecendo. Nem mesmo reconheceu o corpo dele no caixão durante o velório.

Voltamos para Brasília e menos de um mês depois da morte do papai, ela foi diagnosticada com câncer no pâncreas. Daí em diante a queda na disposição, na energia, no apetite e na vitalidade geral dela foi bastante acelerada.

Eu havia sido promovida a diretora na ABCD, os Jogos Olímpicos se aproximavam e as obrigações e os problemas no trabalho exigiam muito de uma pessoa já abalada emocionalmente. Para piorar, meus dois gatinhos de estimação, Sangha e Edgar, ficaram doentes, talvez impactados pela pesada energia de minha casa em função de tanta tristeza.

Ver mamãe definhar desencadeou um processo de ansiedade, que somada a outras situações familiares muito difíceis, deu origem à depressão e crise de pânico.

O Natal de 2015 foi, espero, o mais triste de minha vida... nunca me senti tão só, embora estivesse com ela, ela estava totalmente ausente e foi dormir cedo, como sempre fazia nos últimos tempos.

Como consequência desses problemas, resolvi passar o réveillon de 2015/2016 trancada em um hotel à beira do lago Paranoá na companhia de Sangha e Edgar, já doentes. Mamãe ia passar a noite de ano novo com meus irmãos, já que Edinho tinha vindo com a família do Rio para Brasília. A relação familiar estava muito complicada porque eu era acusada de não estar fazendo o suficiente e de estar exagerando nos sintomas da depressão.

Quando me despedi de mamãe, antes de sair para o "retiro" no hotel, ela estava sentada numa pequena poltrona que tinha em meu quarto. Eu a abracei chorando compulsivamente e lembro perfeitamente dela me olhando nos olhos, com o amor de sempre, apesar da falta de memória, e dizendo: “chora não filha, tudo vai ficar bem!”

               Em 8 de janeiro ela saiu de minha casa para a casa de meu irmão Eduardo e eu desenvolvi a crise de pânico. Entretanto, ele viajou com a família para a Disney e eu voltei a assumir a responsabilidade pelos cuidados de mamãe que, mesmo sendo acompanhada por cuidadoras, precisava de supervisão e ainda precisou de atendimento médico de urgência.

               Eles retornaram da viagem em 31 de janeiro e no dia 2 de fevereiro ela foi internada para não mais sair. Faleceu no dia 15 de fevereiro.

               Como descrever essa saudade e esse sentimento de gratidão por tanto amor recebido? Impossível. Só quem sente conhece a dor dessa saudade e a alegria de ter tido esse privilégio.

               Nos dez anos anteriores a sua morte, e por causa da doença de mamãe, papai assumiu o papel de dono de casa e os cuidados com os filhos, deixando também um vazio enorme.

Dele ficaram também as muitas lembranças de viagens, passeios, presença constante e muitos cuidados com a gente, porque ele era o “superpai” que tentava resolver todos os nossos problemas. Deixou também o exemplo de conduta, suas histórias de vida e os muitos bons conselhos que nos deixou.

Sou grata. Muito grata!

E os amo acima de todos os demais seres humanos.







2 comentários: