Corria o mês de julho de 1984 e eu estava trabalhando no Recife colhendo imagens da favela do Maruim, que fica (ou ficava) entre Recife e Olinda. As imagens eram destinadas a produção de mais um documentário do contrato do BNH com a Plantel, assim, eu estava acompanhada da equipe da produtora. Com todo o trabalho em andamento, ficamos sabendo que o projeto a ser realizado naquela comunidade poderia não acontecer por uma discordância entre o BNH e o órgão municipal responsável pela execução das obras, que não se entendiam quanto ao numero de unidades habitacionais que podiam ser construídas. Havia mais barracos do que casas novas previstas e isso travou os entendimentos quando à continuidade da implantação do Projeto "João de Barro".
Por causa disso, procurei contatar o meu chefe no BNH. Eu precisava saber se deveria ou não continuar com a filmagem, já que envolvia custos e tempo de trabalho, ou se esperava a decisão final sobre a continuidade das obras.
Ele era um homem que adorava praticar a sedução. Jogava charme para todas as mulheres mais atraentes que chegavam perto dele e, numa época anterior à viagem para o Nordeste, ele não deixou de me dar umas indiretas. Chegou a me convidar para um jantar a dois quando trabalhei próxima a ele por alguns poucos dias. Naquela ocasião, foi fácil arrumar uma desculpa para evitar o jantar.
Mas, como precisava da decisão dele, liguei para o Rio. Eu já estava ausente da sede do BNH havia mais de 15 dias, pois tinha estado no Rio Grande do Norte preparando outro documentário. Ao telefonar, fui informada de que ele estava no Recife e entrei em contato com ele. Ele me ouviu, mandou que eu continuasse com as filmagens e perguntou o que eu iria fazer naquela noite. Fiquei quase gaga, mas não consegui raciocinar rápido para arrumar uma desculpa convincente e acabei reconhecendo que não tinha nada programado. Foi a chance que ele queria:
- Então vamos jantar juntos!
Ele veio me buscar no meu hotel em um táxi para jantarmos no hotel em que ele estava hospedado com o argumento de que lá era servida a melhor lagosta do Recife. Era um dos melhores hotéis da cidade naquela época
Ele (prefiro não citar o nome) é realmente um homem charmoso, inteligente, excelente papo, mas tinha alguns impedimentos gravíssimos: casado, mulherengo e chefe.
Estavam hospedados no mesmo hotel que o meu chefe: o Ministro Mário Andreazza e o Presidente do BNH, Nelson da Matta, além de diretores e assessores. Enfim, a cúpula do BNH. Sentamos em uma mesa separada dos demais, mas a todo o momento o presidente Da Matta o chamava, o que me obrigava a ficar sozinha por muitos minutos.
A conversa transcorreu de forma tão natural e agradável, com ele me tratando com tanta cordialidade e simpatia, que nem me preocupei com alguma outra intenção que ele pudesse ter. Relaxei.
Parece que ele percebeu isso e começou a se explicar dizendo que havia me levado para aquele restaurante porque pensou que todos iriam a um coquetel. Que lamentava ter de me deixar sozinha por tanto tempo e sugeriu que fôssemos para outro lugar. Eu estava mesmo cansada de ficar sozinha e sendo observada por outros colegas do banco que deviam estar imaginando mil coisas nada agradáveis sobre a minha presença ali. Concordei com a idéia de sair dali. Ele então sugeriu que fôssemos para o apartamento dele. Diante da minha reação desconfiada, ele reagiu com a maior tranquilidade, rindo de minha preocupação e falando que eu não precisava ficar assustada porque ele não faria nada de mais. Explicou que o quarto ela duplex, ficando a cama no andar de cima e que não passaríamos da sala, onde poderíamos conversar sem tantas interrupções.
Admito que fui boba, muito boba, mas fiquei constrangida de demonstrar que não acreditava no que ele dizia porque, afinal de contas, até aquele momento, ele se comportara como um cavalheiro. Assim, lá fui eu pra toca do lobo, que nem uma cordeirinha.
Ao chegarmos, constatei que ele falara a verdade sobre o apartamento ser um duplex. Sentamos no sofá da sala.
Apesar disso, meio na defensiva, eu me posicionei no sofá meio de lado, com o braço apoiado nas costas do sofá de forma a dificultar a aproximação dele.
Conversamos um pouco e ele resolveu abrir um espumante. Pronto, fiquei apavorada! Não consegui disfarçar meu incômodo e comecei a fumar para tentar me acalmar.
Foi a deixa que ele buscava e começou a perguntar por que eu estava tão nervosa. Eu disse que estava nervosa sim e que aquela situação de intimidade estava me deixando constrangida e que eu preferia ir embora dali. Ele veio com mil argumentos, mas acabei levantando e me dirigindo para a porta. Foi então que a coisa pegou!
Ele simplesmente partiu para "ignorância" e começou a tentar me agarrar a força. Foi uma briga das boas e quando percebi que acabaria perdendo a luta, apelei para o único argumento que me restava:
- "Ou você me larga ou eu vou gritar para o hotel inteiro ouvir!"
Como toda a diretoria do BNH estava hospedada no mesmo hotel, ele parou.
Ainda voltou a tentar me agarrar no elevador, mas consegui evitar o beijo.
Voltei sozinha para meu hotel, não deixei que ele me acompanhasse no táxi. Cruz Credo!
Voltei para o Rio muito chateada.
Estava numa ótima fase profissional, fazendo um trabalho que adorava e agora surgia um grave problema com meu chefe. Será que ele, a exemplo do outro chefe safado que eu tive, também ia se vingar de mim por eu não querer me deitar com ele?
Logo que voltei de viagem, era meu aniversário e ele mandou rosas vermelhas com um cartão simples. Parecia coisa de chefe educado.
O problema foi que resolvi desabafar sobre o que estava acontecendo com uma de minhas amigas. Chamei-a para almoçar comigo e contei tudo para ela. Contei com detalhes a forma desagradável, deselegante e constrangedora com que ele tinha agido comigo.
Foi aí que, sem saber, fiz a grande bobagem.... eu não sabia, mas ela tinha se tornado amante dele, e não gostou nada do que ouviu. Imagino como ela cobrou explicações dele por causa disso.
Meu mal sempre foi falar demais. Queimei meu filme com ele e levei um tempo para consertar o estrago.
Felizmente, minha amiga não ficou chateada comigo e até me ajudou depois quando eu era a pessoa mais indicada para uma promoção e ele ficou enrolando minha nomeação. Isso me deixou muito apreensiva e estressada porque essa promoção implicava em um bom aumento de salário. Foi ela mesma que o pressionou para definir minha indicação ao perguntar a ele qual o motivo que ele tinha para não assinar minha portaria rsrsrsrs....
Naquela época, mesmo trabalhando em empresas estatais, as mulheres ficavam sujeitas a esse tipo de atitude e não tinham a quem recorrer. Mesmo sem a possibilidade de perder o emprego, as retaliações de chefes rejeitados sexualmente podiam trazer consequências desagradáveis para a carreira das mulheres objeto do desejo. O pior é que esse comportamento era tolerado pela maioria do corporativo mundo machista do mercado de trabalho. Não havia uma caminho seguro para a denúncia. Um absurdo!!!
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