Enquanto exercia a profissão de repórter, não dei muita atenção ao trabalho que fazia na Caixa. Levava em banho-maria, pois chegava sempre um pouco atrasada, o que me deixava preocupada e acelerada. A rua em que morava, Oito de Dezembro, no bairro da Graça, é uma ladeira das boas. Todos os dias eu chegava da TV, deixava o carro na garagem e subia a pé para pegar o ônibus que me levava para a Caixa, que ficava na Rua da Ajuda, próximo da prefeitura e da Praça Castro Alves. O ônibus se deslocava lentamente pelo sempre congestionado trânsito do Corredor da Vitória, Campo Grande e Avenida Sete de Setembro.
Meu trabalho, na maior parte dos dias, se resumia a fazer o “clipping” – para quem não tem intimidade com a linguagem da área de Comunicação Social, “clipping” é o recorte das matérias veiculadas nos principais jornais nas quais a Caixa é mencionada. Naquela época, o clipping era na base do recorta e cola, pois só existia jornal de papel. Redigia também alguns “releases” - matéria que as empresas preparam para buscar espaços com divulgação espontânea da marca nos veículos de comunicação.
Minha chefe era uma moça pouco mais nova que eu e totalmente inexperiente nos assuntos da área de Comunicação Social, já que sua formação era na área de Recursos Humanos. Entretanto, gestão de pessoas também não era o seu forte. Havia muitas queixas por parte da equipe formada por várias estagiárias e um empregado já perto de se aposentar, ex-assessor de comunicação do BNH, e revoltado com os procedimentos e com falta de prestígio que ele tinha com o gerente geral da Caixa na Bahia. Outro ponto fraco dela era a desorganização e a pouca habilidade para identificar prioridades.
Tempos depois, quando deixei a TV, evidentemente, passei a me dedicar mais à Caixa, até porque passei a trabalhar o dia todo para ganhar as horas-extras.
Com o tempo, meu trabalho e minha experiência na área começaram a fazer diferença no atendimento às demandas do Gerente Geral (cargo que hoje corresponde ao de um superintendente regional). Além disso, por causa do relacionamento que criei com profissionais e personalidades locais durante o tempo em que fui repórter, passei a conseguir acesso privilegiado aos profissionais das editorias de jornais e emissoras de TV.
Minha convivência com a chefe começou a ficar complicada. Ela foi ficando cada vez mais insegura. Manuel Alfredo trabalhava com grande velocidade, era um entusiasta da área de comunicação, criativo e empreendedor. Aprendi muita coisa com ele.
Para minha chefe, isso era um problema. Ela não conseguia dar conta de tantas demandas, tentava não me passar muitos trabalhos para que eu não me sobressaísse aos olhos do chefão. Chegou a engavetar algumas propostas que apresentei, como o Projeto Golfinho de Natação (marketing esportivo na Caixa em 1989 era uma novidade) e o "Cliente do Futuro". Pobre chefinha.... Se ela tivesse me dado carta branca para implantar esse projeto, o mérito teria sido dela também, mas sua visão era muito curta.
Por outro lado, ela gostava de viajar de férias ou para participar de cursos e congressos. Nas duas vezes que isso aconteceu, eu a substitui e executei meu trabalho com o empenho e a dedicação que me são característicos.
Em julho de 1989, suas deficiências foram se evidenciando e todos os dias havia uma cobrança irritada do Gerente Geral. Um dia ele ficou muito irado com uma demanda não atendida e dispensou a moça do cargo Ela foi dispensada e eu nomeada a nova Gerente de Comunicação Social. UAU!!! Fiquei muito feliz!
Ela nunca se conformou. Cismou que eu tinha armado, chegou a falar que eu tinha um “caso” com o Manuel Alfredo. Utilizou seus contatos na Matriz para denegrir minha imagem a tal ponto que fiquei conhecida, durante muito tempo, como “a bruxa da Bahia”.
Apesar dessa campanha desmoralizadora, minha consciência sempre esteve muito tranquila. Ela caiu sozinha porque tropeçou nas próprias pernas de sua pouca eficiência. Sua grande qualidade era ser uma pessoa criativa e ela tinha habilidade para vender suas idéias (falar ela falava muito. Mas executar...) Ela não tinha iniciativa para implementar as ações necessárias para viabilizar suas boas idéias. Isso, com o tempo, queima qualquer executivo.
Infelizmente, o pessoal da Matriz não me conhecia, e só percebia o lado criativo da ex-gerente. Fiquei estigmatizada por muito tempo. Todavia, nessa época, as regionais tinham alguma liberdade de atuação, com verbas próprias e isso foi suficiente para que eu fizesse meu trabalho de uma forma que me proporcionou muita realização pessoal.
![]() |
| Esse era o nosso jornal interno. |
Esse era um bonachão... vaidoso e tranquilão. Com ele as palavras pressa e urgência simplesmente não existiam. Para mim, ele foi um cara muito legal, mas não costumava perdoar seus desafetos e era um tanto cruel em suas revanches.
Logo que ele chegou, entusiasmado com os elogios que Manuel Alfredo havia feito sobre mim, foi logo me prestigiando e me escalando para acompanhá-lo em suas visitas de apresentação ao Governador da Bahia, Prefeito de Salvador e Presidente da Assembléia Legislativa. Como eu havia entrevistado todos esses políticos enquanto fui repórter, todos me cumprimentavam com entusiasmo e alguma intimidade. Siqueira ficava cada vez mais encantado comigo. Foi uma época gloriosa em termos profissionais!
![]() |
| O ComunicAtivo graficamente melhorado |
No início de 1990, assaltaram uma agência e roubaram t-o-d-a-s as jóias dadas em garantia do empréstimo sob penhor. É uma situação complicada, onde a imagem da Caixa associada à segurança/confiança, fica comprometida. Os jornais batiam na Caixa todos os dias e eu, Gerente de Comunicação, tentava amenizar os ataques. Durante vários dias, mostraram a porta do cofre arrombada com maçarico (os assaltantes agiram durante o final de semana, passaram o domingo “trabalhando” dentro da agência Baixa dos Sapateiros) e as entrevistas com clientes desolados por haverem perdido suas jóias se repetiam todos os dias...
O carnaval estava chegando. Recebi na minha sala uma visita inesquecível, o Velho Osmar Macedo, inventor, junto com Dodô, da guitarra baiana e do Trio Elétrico – uma inovação que alterou completamente o carnaval, primeiro o da Bahia, depois o de várias outras cidades que passaram a organizar seus carnavais fora de época como Fortal, CarNatal, CarnaSampa, CarnaGoiânia, entre outros.
Osmar, juntamente com César Tripodi, dono do "Trio Espacial", apresentaram uma proposta de patrocínio. O valor era alto e encaminhei para a matriz, que não aprovou a proposta.
No dia em que recebi a negativa, por coincidência, Osmar voltou a me visitar em busca de uma resposta. Eu já havia tentado falar com o responsável pela aprovação de patrocínios na matriz, mas sem sucesso. Por sorte, na frente de Osmar, consegui falar com Régis e argumentei com base no desgaste que a Caixa vinha passando provocado pelo assalto ao penhor.
Aconteceu o inesperado: o patrocínio foi autorizado por telefone. Osmar pensou que todo o mérito era meu. Não posso negar que me empenhei, mas considero que tivemos sorte, muita sorte mesmo! Depois disso a Caixa ficou muitos anos fora do carnaval. Só em 2012 a Caixa voltou a patrocinar e começou justamente com o Trio de Dodô e Osmar!!! Imagino que o fato do atual presidente da Caixa ser baiano ajudou muito nessa mudança da matriz em relação ao carnaval da Bahia.
Assim, voltando a 1990, ganhei um fã do qual eu também era e sou uma super-fã - Osmar Macedo. Nunca me esqueço de uma propaganda criada pela agência de publicidade que nos atendia na época e que foi veiculada no maior jornal da Bahia – "A Tarde". No anúncio aparecia a foto de Osmar sorrindo, segurando uma caderneta de poupança da Caixa com um texto que dizia: “OSMAR, CAIXA E VOCÊ – O TRIO DESTE CARNAVAL”.
Passei mais um carnaval em grande estilo. Ganhei de um amigo da TV Aratu uma “mortalha” do Bloco Eva, na época comandado por Ricardo Chaves.
Não consegui ninguém para sair comigo no Bloco Eva porque era muito caro. Fui sozinha mesmo. Brinquei sozinha os três dias de carnaval. Depois que o desfile do bloco terminava eu pegava um táxi e ia para o ponto de partida do Trio de Armandinho, Dodô e Osmar.
Foi maravilhoso! Era tratada com os paparicos que só patrocinadores recebem. Ficava na parte da frente do trio, junto com as famílias dos músicos. A toda hora perguntavam se desejava beber ou comer alguma coisa. Mordomia mesmo.
Amanheci a quarta-feira de cinzas em cima do trio elétrico, em plena Praça Castro Alves. Ao nascer do sol, Armandinho tocava “Ave-Maria” e o Hino ao Senhor do Bonfim em sua guitarra baiana. Uma visão, uma sensação e uma emoção indescritíveis. A multidão que lotava a praça parava de pular carnaval para rezar, cantar e admirar a música sacra.
Caetano, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Baby Consuelo (ainda não era Do Brasil), Pepeu Gomes e Daniela Mercury costumavam aparecer por lá, seja subindo no Trio Espacial ou em outros trios elétricos.
Brinquei com Dodô e Osmar até 1997, ano da morte do Velho Osmar, um homem inteligentíssimo, brilhantemente criativo que me deu a honra de ser meu amigo, uma história que merece um capítulo à parte.
Depois disso, só voltei a subir no trio, que agora é o "Fobicão" no carnaval de 2013. Não que a banda tenha me dado a camiseta de acesso, mas como a Caixa estava patrocinando, o atual superintendente de Salvador desceu do trio em frente ao camarote da Caixa e eu, que estava no camarote, praticamente arranquei a camiseta dele, pois não dei muito espaço para que ele se negasse a atender meu pedido. Vesti a camiseta meio suada e saí correndo para subir no trio. Uauuuuu!! Foi uma noite maravilhosa! Como conheço bem algumas das pessoas da produção, não fiquei junto com os demais convidados da Caixa. Fiquei junto da banda e com um bom espaço para dançar. Ainda voltei de carona para a casa na van da produção, graças ao carinho da Lilian.
Depois disso, só voltei a subir no trio, que agora é o "Fobicão" no carnaval de 2013. Não que a banda tenha me dado a camiseta de acesso, mas como a Caixa estava patrocinando, o atual superintendente de Salvador desceu do trio em frente ao camarote da Caixa e eu, que estava no camarote, praticamente arranquei a camiseta dele, pois não dei muito espaço para que ele se negasse a atender meu pedido. Vesti a camiseta meio suada e saí correndo para subir no trio. Uauuuuu!! Foi uma noite maravilhosa! Como conheço bem algumas das pessoas da produção, não fiquei junto com os demais convidados da Caixa. Fiquei junto da banda e com um bom espaço para dançar. Ainda voltei de carona para a casa na van da produção, graças ao carinho da Lilian.


Nenhum comentário:
Postar um comentário