sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Tempos de repórter na TV Aratu

Mudei para Salvador em novembro de 1988.
Uma sensação de independência e auto-suficiência que muito me agradou. Estava então com 29 anos e ansiava por ter meu canto, minha casa e ser dona do meu nariz.
Aluguei um lindo apartamento em Salvador. Muito bem localizado, fresco, iluminado! Era um quarto e sala com suíte, varanda, cozinha, quarto e banheiro de empregada. Ficava no oitavo andar e tinha uma vista muito legal.
Minha rotina era acordar às 4 e meia da madrugada e me arrumar bem para estar na TV Aratu às seis horas da manhã pronta e maquiada para fazer a primeira materinha do dia, que entrava sem cortes do Jornal Bom Dia Bahia, apresentado pela Denis.

Depois das oito da manhã, voltava para a rua a fim de fazer a matéria (ou as matérias porque a TV tinha poucos repórteres) para o jornal do meio-dia. 
Quando voltava com folga, acompanhava a edição da matéria. Quando atrasava, entregava a matéria e corria para deixar o carro em casa, engolir alguma coisa e correr para a Caixa. EU tinha que ir de ônibus para a Caixa porque não tinha estacionamento. Nessa época a sede da Caixa na Bahia ficava perto da Rua da Ajuda, perto da Praça Municipal, na cidade alta. Só mesmo chegando muito cedo para conseguir vaga para o carro nas ruas em volta, e eu chegava perto das 13 horas. Um sufoco diário!
O Editor Chefe da TV Aratu em 1988/89 era José Amílcar, um tirano que vivia me dizendo que não gostava de trabalhar com repórter que não pudesse se dedicar integralmente à televisão. Ele reconhecia que seria um absurdo eu me desligar da Caixa para investir na carreira de repórter (até porque o salário era muito menor), mas implicava demais comigo por causa disso.
Como “vingança”, ele me escalava quase todos os finais de semana para “compensar” as horas a mais que eu não podia dedicar durante a semana. Eu cumpria a jornada normal de cinco horas, como é até hoje para o pessoal de rádio e TV, mas nunca podia dobrar para fazer o horário da tarde porque saía correndo para a Caixa. Assim, era comum eu trabalhar de domingo a domingo. O detalhe sórdido é que eles nunca assinaram minha carteira de trabalho, ou seja, trabalhei o tempo todo como autônoma, sem reajustes no salário numa época em que a inflação rondava a casa dos 80% ao mês! Sem a proteção das leis trabalhistas, o salário que combinei quando cheguei à TV Aratu não era reajustado e a cada mês que passava eu perdia poder de compra equivalente à metade do que havia recebido no mês anterior.
Por outro lado, o exercício da função de repórter abriu inúmeras portas para mim em meus primeiros tempos de Salvador.
Entrevistei personalidades inesquecíveis como Antônio Carlos Magalhães, Luis Eduardo Magalhães, Waldir Pires, então Governador do Estado da Bahia, o Prefeito Fernando José, que era um ex-radialista, Juca Chaves, Gonzaguinha, Neguinho do Samba da banda Olodum, além de vários deputados, vereadores, artistas e autoridades locais.
Mas de todas as pessoas que entrevistei, uma foi extremamente marcante: Irmã Dulce. Ela já estava bem doente, dormia sentada em um pequeno quarto localizado no Hospital Santo Antônio, criado e dirigido por ela. Sua voz era quase inaudível e ela atendeu à equipe de reportagem com toda a paciência e boa vontade. Fiquei muito emocionada, pois tinha a certeza que estava diante de uma santa. Ela fez questão de autografar e me dar um livro onde sua vida de tantas lutas é contada. Guardo esse livro com muito carinho.
Uma de minhas primeiras matérias foi a cobertura das eleições para prefeito de Salvador em 1988. Nessa época, ACM andava com a popularidade em baixa e ele já sabia que seu candidato, Manoel Castro, não seria eleito. Na eleição anterior havia ocorrido uma situação insólita entre o repórter da TV Aratu, Antônio Fraga, e o então ex-Ministro das Comunicações. Aborrecido com a pergunta do repórter sobre as vaias que ele estava recebendo, ACM afirmou não estar ouvindo vaia alguma, ao mesmo tempo em que dava pontapés nas pernas do repórter de forma que a câmera não pudesse registrar a agressão, apenas a fisionomia espantada do repórter que mantinha o microfone direcionado para ACM.  Com essa informação, parti para o Clube Bahiano de Tênis, onde ACM costumava votar, sabendo que deveria maneirar nas minhas perguntas.
Logo que ACM desceu do carro em frente ao clube ele recebeu muitas, mas muitas vaias. Fui acompanhando seus passos juntamente com o câmera da minha equipe e repórteres de outras emissoras de TV, rádio e jornais. ACM estava disposto a não se aborrecer, e respondia às vaias com acenos e sorrisos, bem ao seu estilo. De repente, na ânsia de demonstrar sua boa vontade, puxou o rosto de uma das moças que o vaiavam na tentativa de beijar seu rosto. Ela reagiu para impedir o beijo tentando se afastar dele e então ele perdeu a paciência e, com a mesma mão que havia tentado puxar o rosto da moça, empurrou a eleitora com uma violência que quase a fez cair no chão. Na verdade ele deu um safanão naquela mulher.
Nesse clima, fiz apenas as perguntas de praxe do tipo: como ele via as pesquisas que apontavam para o resultado desfavorável de seu candidato, e dei o trabalho por encerrado.
As imagens capturadas pelo câmera que me acompanhava não deixavam dúvidas sobre a violência de ACM. Essas imagens foram muito utilizadas na eleição seguinte, mas “curiosamente” a moça passou a negar que tivesse sido agredida.
Outro encontro que tive com ACM foi no enterro de um deputado estadual que era apadrinhado por ele e muito amigo de Luiz Eduardo Magalhães, que se chamava Luiz Cabral. Ele morreu um acidente de carro, num domingo à tarde quando voltava de um churrasco onde havia bebido demais. Era um homem que tinha pouco mais de 30 anos de idade.
No enterro, fiquei impressionada com a intensidade do choro de ACM. Tudo bem que se tratava de uma morte acidental muito triste, mas ele estava com o rosto muito vermelho, inchado e molhado de tantas lágrimas. Não pude deixar de pensar que a reação me parecia um tanto exagerada e teatral. Luiz Eduardo também chorava, mas de forma mais natural.
Conheci de perto todas as festas de largo do verão baiano, desde a comemoração do dia das Baianas do Acarajé, em 25 de novembro, até o carnaval de 1989, passando pela Festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia, Procissão de Nosso Senhor Bom Jesus dos Navegantes, Lavagem do Bonfim, Festa de Iemanjá e outras inúmeras lavagens que acontecem pela cidade. (hoje já não se “lavam” ruas e bairros com a mesma intensidade).
Trabalhando como repórter no carnaval de Salvador
Precisei estudar para poder trabalhar durante o carnaval. Eu, que só conhecia samba e frevo, aprendi muito naquele carnaval. Para poder transmitir informações sobre o carnaval baiano, precisei aprender o que era ijexá, afoxé, blocos de índio, blocos de trio, blocos afro, trios independentes, mamãe - sacode, mortalha, além de aprender a reconhecer cada artista e cada bloco com suas respectivas histórias e importância como o Araketu, o Olodum, o Ilê Aiye, o Muzenza, Filhos de Gandhy, os Internacionais, Camaleão, Coruja, Crocodilo, Beijo, Pinel, Cheiro de Amor, Eva, Mel, Papa-Léguas e tantos outros. 
Minha equipe em ação


Gravando passagem na sede do Filhos de Gandhy (depois eu soube que os rituais tradicionais impedem mulheres de colocar esse turbante... Ops! já foi!)
Esses nomes, que hoje são familiares aos brasileiros, em 1989 eram totalmente estranhos aos meus ouvidos cariocas e não foi fácil aprender tudo em tão pouco tempo.
Foi maravilhoso conhecer o carnaval baiano como repórter. Com camiseta e crachá da TV Aratu, entrei em muitos blocos, entrevistei muitos artistas, conheci os segredos e os becos de acesso ao circuito. Trabalhava na maior alegria. Foram os melhores trabalhos de minha curta experiência como repórter.
Aprendi muito, trabalhei muito, mas não suportei a falta de profissionalismo do editor que manteve meu salário defasado. Desisti da profissão seduzida por uma oferta do Gerente Geral da Caixa, Manuel Alfredo, para ganhar duas horas extras por dia, o que resultava em mais que o dobro do salário de repórter e me deixava livre nos finais de semana.


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