segunda-feira, 28 de março de 2011

Primeira viagem de Navio - Federico C

Em outubro de 1982, quando tirei férias, já tinha marcado uma viagem para Curitiba quando mamãe viu no jornal uma propaganda de um cruzeiro no navio Federico C que passaria pelo Brasil a caminho da Argentina. Não era propriamente um cruzeiro turístico e sim uma viagem entre a Itália e a Argentina, por isso o preço estava muito em conta.
Viajei para Curitiba e Foz do Iguaçu, mas deixei tudo acertado para fazer também a viagem de uma semana até Buenos Aires.
Em Curitiba participei de uma excursão à Foz do Iguaçú organizada por um grupo de pessoas ligadas à Tia Myrthes, que alugou um ônibus exclusivo. A viagem correu bem, o grupo era divertido, as condições para compras no Paraguai eram muito atrativas, mas foi duro ter que escutar as músicas que os motoristas – pai e filho, selecionavam: apenas músicas regionais das mais lacrimejantes. Além disso, na volta, um casal de portugueses resolveu comprar uma grande resma de alho que foi acomodada no banheiro do ônibus. O cheiro do alho invadia o ambiente cada vez que alguém abria a porta. Eu adoro alho, mas o cheiro é insuportável.
Quando voltei ao Rio, mamãe tinha arregimentado um “pequeno” grupo de pessoas para ir no cruzeiro com a gente.
Viajaram no Federico C: eu, mamãe, Tia Terezinha, Terezinha (amiga da mamãe), Tia Hélia, Rosangela com Rodolpho e o pequeno Rodrigo Eduardo, minha prima Leila (irmã da Rosangela) com seus dois filhos, Leonardo e Márcio Jr, e uma amiga da Leila, casada, mas muito desmiolada.
O navio era antigo, ainda apresentava separações de ambientes para a primeira classe, classe turística e a classe econômica, onde viajavam os imigrantes. Os restaurantes, piscinas e até as salas de dança eram separadas de forma que os passageiros de uma categoria não se encontravam com os das outras.
Por causa disso, o navio era um verdadeiro labirinto. Para chegar na nossa cabine, mesmo se já estivéssemos no mesmo andar que ela ficava, tínhamos que descer por uma escada, andar pelo andar abaixo, e depois subir por outra, pois havia alguns andares interrompidos por força de espaços que pertenciam a outras classes como, por exemplo, o restaurante. Uma loucura!
Era rotina encontrarmos pessoas perdidas pelo navio. Houve uma vez em que, ao tentarmos chegar à nossa cabine, ficamos na dúvida sobre qual o caminho correto. Estávamos em quatro pessoas e não chegamos a um acordo sobre qual o percurso correto. Decidimos então que eu e mamãe seguiríamos por uma direção enquanto Tia Terezinha fez questão de seguir por outra direção, acompanhada pela outra Terezinha. Depois de muito tempo subindo e descendo, entrando e saindo de várias portas, sem conseguir encontrar nossa cabine, esbarramos com a Tia Terezinha.
Naturalmente perguntamos se ela havia conseguido chegar à cabine. Que nada! Ela também havia andado muito, mas não encontrou o caminho. Foi muito engraçado. A gente riu tanto que chegamos a chorar por causa das gargalhadas.
Passamos um dia parados no Porto de Santos e seguimos para Buenos Aires. Lá chegando, eu e mamãe fomos direto para a Calle Florida onde fizemos algumas compras. Em seguida pegamos um táxi e rodamos pelos principais pontos turísticos da cidade.
A Therezinha amiga da mamãe ficou muito mareada....passou mal uns três dias até se acostumar. É incrível como a pessoa fica apresentando aquele "olhar de peixe", sem vida e sem conseguir aproveitar as refeições, as áreas de lazer e as festas.
Eu, mamãe e as duas Therezinhas dividimos a mesa de refeições com um senhor comerciante solteiro de Copacabana. De origem árabe, ele dizia que estava viajando porque queria encontrar uma companheira. A gente ria muito comentando sobre ele porque ele era muito tímido e pouco atraente e teve a falta de sorte de ser colocado numa mesa com três mulheres casadas e uma solteira muito mais nova que ele. Terminou a viagem sem ter conhecido a mulher que ele pretendia.
A imagem mais marcante da viagem foi o embarque de volta para o Rio.
A hora da partida foi chegando e percebemos que Tia Hélia, Leila e os meninos Márcio e Leonardo, além da amiga da Leila, não haviam embarcado. Começamos a nos preocupar. Todos estavam a bordo, exceto Tia a Hélia e seus acompanhantes.
O embarque da classe econômica incluía muitas malas, baús e até móveis. Lembro de uma cama sendo embarcada inteira, com colchão e tudo. O navio seguiria de volta para a Itália e muitas daquelas pessoas estavam emigrando, retornando à "terra-mãe". Havia um clima de tristeza porque estava claro que muitos não retornariam à Argentina.
O tempo foi passando e a gente ficando cada vez mais apreensivos, principalmente a Rosangela que se apavorava com a idéia do navio partir sem sua mãe, irmã e sobrinhos. Estávamos pendurados na balaustrada olhando ansiosos para o porto. Os demais passageiros já tinham notado que a partida estava atrasando porque faltavam passageiros.
Finalmente elas chegaram! E quando entraram no navio, foi debaixo de uma sonora e inesquecível vaia de todos que estavam observando o cais do porto dos diversos decks do navio.
Quando o navio partiu, ao pôr do sol, havia uma multidão no porto, com lenços brancos e muitas lágrimas. O som do navio tocava uma triste música italiana. Acho que todo mundo chorou. O navio ia se afastando e as pessoas que ficaram no porto e que tinham acabado de embarcar pessoas queridas estavam no cais e iam caminhando na esperança de ver por mais alguns minutos seus parentes e amigos que partiam para uma nova vida na Itália. O navio foi se afastando pelo Rio da Prata e as pessoas chorando, acenando com lenços brancos iam ficando cada vez menores no horizonte. Muito triste!
Já na sáida de São Paulo, notei que havia embarcado um rapaz paulista muito bonito. Ele estava acompanhado da mãe e de uma irmã ainda criança. Trocamos alguns olhares, mas a amiga da Leila, mesmo casada, partiu para o ataque em cima dele e nem nos deu chance de tentarmos nos conhecer melhor. ALém disso, um rapaz chileno que vinha da Itália para Buenos Aires grudou em mim e não deixou espaço para que o paulista chegasse mais perto. Na volta de Buenos Aires, com o desembarque do chileno, o rapaz de São Paulo, chamado Wagner, já tinha cansado do grude da tal desmiolada e começou a me abordar de forma bem clara. Criou-se então uma situação muito desagradável, o que comprometeu a harmonia do nosso grupo.
A amiga da minha prima era uma pessoa sem a menor classe, escandalosa e possessiva, e não se conformou com a rejeição. Por causa disso, aconteceram algumas cenas inconvenientes.
Eu tinha sentido atração pelo Wagner e achei que não devia deixar de ficar com ele apenas porque a outra, casada e atacada, tinha sido tão atirada logo que ele entrou no navio. Ele não queria mais ficar com ela e ficava o tempo todo atrás de mim. Ficamos juntos pelo resto da viagem. Voltamos a nos encontrar algumas vezes depois disso, mas como ele morava em São Paulo, o romance acabou naturalmente.
Depois de uma semana, quando finalmente aprendemos os segredos e os caminhos para circular dentro daquele navio, chegou a hora do desembarque.

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