Assumi no BNH em 2 de junho de 1980. Pela colocação que obtive no concurso, era para ter assumido em abril, mas como estava cursando a faculdade de jornalismo no período da manhã, pedi para adiar a data da nomeação para não perder o semestre.
Passei os dois primeiros dias no gabinete do diretor - DIPLA, Diretoria de Planejamento. Não havia nem mesa para sentar, muito menos trabalho para executar..... acho que quiseram agradar ao diretor e mandaram gente demais. No terceiro dia fui encaminhada para o DPLAN - Departamento de Planejamento. Considerando que eu havia informado, logo no primeiro contato, que estava cursando Comunicação Social, trabalhar na área de planejamento não era exatamente o que eu queria, mas, como o salário era ótimo e eu tinha apenas 20 anos e muito tempo pela frente, estava feliz.
Fui a primeira nova funcionária daquele concurso a chegar no DPLAN. Fui acomodada numa sala do 22º andar do prédio da Av Chile, 230, que tinha mais duas mesas: uma delas era ocupada pelo Jaime Celestino, um quarentão solteirão vascaíno doente, ao mesmo tempo brincalhão e enfezado; a outra estava desocupada porque a "dona" estava de licença gestante. Era a Gilda, uma mulher de aproximadamente 30 anos, muito inteligente, estabanada e engraçada. Gilda era extremamente desbocada. Até então, eu nunca havia convivido com alguém capaz de falar tantos palavrões em um espaço de tempo tão pequeno. Entretanto, Gilda era daquelas pessoas que falam o palavrão com tanta naturalidade que, por pior que sejam, não soam agressivos e sim, engraçados.
Lembro bem que, por ser a primeira nova concursada a chegar ao DPLAN, despertei muita curiosidade. Era incrível como as pessoas abriam uma fresta da porta, davam uma olhada para mim e logo fechavam a porta sem nada falar. Nem uma expressão simples e educada como um "bom dia!" elas falavam. Eu parecia um bichinho raro numa gaiola que as pessoas vão espiar para depois emitir opinião.
Logo que cheguei, Jaime me recebeu muito bem. Cheio de sorrisos, foi logo perguntando qual era o meu time. Eu disse que era flamenguista e perguntei o time dele. Quando ele disse que era vascaíno, eu, sem nem tentar disfarçar para ser menos antipática, disse: "hummmm, detesto o vasco!" Eu não sabia que ele era louco por futebol e pelo Vasco. De imediato ele fechou a cara, virou-se para a frente e nem olhou mais pra mim. Acho que perdi uma ótima chance de ficar calada.
Mas, aos poucos, minha convivência com Jaime foi ficando mais amigável. Ele era economista, fazia previsões de comportamento futuro do mercado, da inflação....enfim. Eu trabalhava muito em alguns dias do mês (na última semana) e pouco no resto do tempo. Meu trabalho era ficar atualizando valores da previsão orçamentária com base nas informações que chegavam das demais áreas e que tinham que ser recalculadas com base na variação da UPC - Unidade Padrão de Capital. Certamente, as pessoas com menos de 30 anos nem sabem o que é isso, mas a economia era indexada naquela época e esses cálculos eram muito comuns.
No final daquele ano, me deram uma atribuição típica de novatos: "Organizar o Arquivo".... Puts!!! Fiquei apavorada. Eu nem sabia a diferença entre ofício e memorando. Cheguei em casa aos prantos.... Não queria fazer aquilo e não estava disposta a ficar arrumando a bagunça onde todos metiam a mão só para complicar ainda mais.
Papai conversou comigo e me deu o seguinte conselho: "Filha, você tem duas opções: se fizer um trabalho bem feito, você será reconhecida e valorizada por dar solução a um problema que afeta a todos. Se não quiser fazer, vai enrolando, refaz as mesmas pastas e via deixando lá que eles nem vão lembrar que você não deu jeito em algo que sempre foi ruim".
Enxuguei as lágrimas e no dia seguinte comecei a aprender muito sobre o departamento lendo alguns daqueles documentos para tentar colocar alguma ordem naquele monte de papel. Quando o ano de 1981 começou, fiz um novo arquivo, com novas pastas e subdivisões que facilitava muito o arquivamento e a localização de documentos. Todos elogiaram muito o meu trabalho e realmente fez bem para a minha reputação.
Um dia, Eduardo Werneck pediu que eu fosse à diretoria tirar cópia de um documento. O BNH tinha pessoas para fazer esse trabalho, os "boys", que na época eram chamados de "contínuo". Mas, como ele havia pedido com educação, subi os dois lances de escada para fazer a cópia. Quando desci com o serviço feito e entreguei a ele, ele veio com mais um papel pedindo outra cópia. Fiquei chateada, mas fui. Pois, ao retornar com as cópias, ele pediu para tirar mais outra!! Olhei bem pra ele e perguntei: - "Você está me achando gorda?". Ele me olhou surpreso e disse; "Não". Aì eu disse: "Então pára de me mandar subir e descer escadas o tempo todo". Ele me olhou surpreso e riu. E nunca mais me pediu para tirar cópias para ele.
A festa de final de ano do DPLAN foi num clube que fica (ou ficava) em cima da entrada doTúnel Rebouças, no Rio Comprido. Gilda já estava de volta ao trabalho eu eu gostava de ouvir o monte de bobagens engraçadas que ela falava, sempre recheada de palavrões. Também trabalhavam comigo o Wolnir - chefe daquele setor, o Eduardo Vilella, o Eduardo Werneck, a Sonia Martinelli, o Luis e o Sérgio (oriental e muito calado). Havia outras pessoas, mas é difícil lembrar os nomes. Lembro da Tãnia Maracajá e de outra Tânia que depois começou a namorar o Eduardo Vilella.
Jaime bebeu muito nessa festa. Bebeu tanto que ficou impossível para ele dirigir de volta para casa. Eu estava com 21 anos e não titubeei em me oferecer para levá-lo. Ele tinha um volkswagem Passat. Dirigi até o edificio dele, em Ipanema, entrei com o carro na garagem e pedi que avisassem à empregada para vir buscá-lo. Meu irmão foi me seguindo com meu carro e depois me levou de volta para casa. No dia seguinte, quando Jaime chegou ao banco, a primeira coisa que perguntou foi: - "Alguém pode me explicar como foi que eu fui parar em casa?". Quando ele soube que eu havia feito o favor, ele ficou muito surpreso e muito sem graça porque ele só se referia a mim como "menininha" e "pirralha".
Fui ficando mais amiga dele. A gente brincava muito. Nos dias em que o trabalho era escasso, nós brincávamos de Batalha Naval....pode?! Tínhamos um campeonato e as discussões que o jogo provocava eram muito divertidas.
Foi quando descobri a casa das mágicas, no centro do Rio de Janeiro, e comprei balinhas que tingiam a língua de quem as comia de azul, além de pequenos estalinhos que, colocados nos cigarros, explodiam quando o fumante o acendia.
Jaime fumava muito (morreu no início dos anos 90 por causa de um cancer de pulmão). Mas, a marca que ele fumava era diferente daquela onde os estalinhos eram vendidos. Então, cuidadosamente, eu retirei o estalinho do cigarro do maço original e arrumei direitinho num dos cigarros do maço dele.
Esperei asiosamente que ele acendesse aquele cigarro. De repente, Jaime entrou na sala, pegou o maço de cigarros e disse que iria até o posto de saúde localizado no térreo.
Fiquei paralizada imaginando o vexame que seria se aquele cigarro explodisse em outro lugar que não na nossa sala. Naquela época, não havia restrições ao fumo em ambientes fechados e nem em postos de saúde!
Felizmente, o médico não estava e Jaime voltou a sentar-se. Logo depois, eu saí para resolver alguma coisa na sala ao lado e ouvi o barulho. Corri de volta para minha sala e quando cheguei à porta, vi Jaime com o cigarro ainda na boca, a ponta do cigarro dividida em quatro, os olhos arregalados e uma cara muito espantada. Ri tanto que ele não teve a menor dúvida em descobrir a autora daquela gracinha. Todo mundo riu muito da cara dele. A partir daí, ele não me deu mais sossego. Vivia querendo arrumar um jeito de se vingar. Lembro que um dia ele encheu minhas gavetas com todo o lixo das lixeiras que ele pode juntar. Eu revidei afixando um cartaz na parede acima da cadeira dele onde estava escrito: "Cão Raivoso. Cuidado!", e uma seta apontada para baixo, ou seja, para a cadeira dele.
Acabei colocando um estalinho no cigarro da Gilda também, mas ela não demonstrou ter espírito esportivo e se vingou colando chiclete mascado nos meus cabelos, que estavam bem compridos. Precisei cortar meus cabelos por causa do exagero dela. Nunca mais brinquei com ela.
Nosso chefe Wolnir começou a pedir moderação em nossas brincadeiras. Logo depois fui trasnferida para a SECOM - Secretaria de Comunicação, e as brincadeiras acabaram.
Na SECOM a carga de trabalho era maior, as pessoas eram mais competitivas e o ambiente mais pesado. Não havia espaço para muitas brincadeiras.
Anos depois, marquei um jantar com o Jaime. Fomos a um restaurante em Ipanema e eu levei minha então amiga Márcia comigo. Jaime confundiu um pouco as coisas e depois, ao me levar até meu carro, tentou me beijar... não rolou. Depois que o BNH foi extinto, nunca mais vi nenhuma dessas pessoas e soube da morte do Jaime por um colega que um dia apareceu no Conjunto Cultural de Curitiba.
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