quinta-feira, 28 de abril de 2011

Assédio Sexual 1

Chega a ser chocante a forma como alguns homens mais velhos se comportam diante de uma moça novinha. Apesar de ser funcionária de uma empresa estatal, onde, não há risco de sofrer ameaça de demissão, sofri com a atitude de alguns chefes inescrupulosos porque, apesar da garantia do emprego, eles podiam oferecer benefícios, como cargos de confiança e viagens, a mulheres que fossem “legais” com eles. Caso elas não se mostrassem legais com eles, podiam condená-las ao ostracismo, prejudicando suas carreiras.
Passei por algumas situações desagradabilíssimas, principalmente antes dos meus 30 anos. A que mais me irritou foi o assédio de um chefe chamado Ari Lima.
Ari era um homem casado, de pele clara, cabelos grisalhos, de cerca de 1,60m, magro como um fiapo, narigudo, beirando os 70 anos e muito, muito acabado. Tinha olhos bem azuis, mas o todo de seu rosto era feio demais.
Em 1982, a chefia da SECOM decidiu pela redução da área de áudio-visual, o que resultou no enxugamento do número de pessoas que lá trabalhavam. Fui então transferida para a área de publicidade, da qual Ari Lima era o chefe.
Logo no início fiquei encantada com a atenção que ele me dedicou. Fea com que eu participassse de reuniões dentro e fora do BNH, cheguei a almoçar com o Diretor Comercial da Rede Globo no restaurante da diretoria da empresa, que fica (ou ficava) na Rua Lopes Quintas, no Jardim Botânico.
Um dia, fomos a uma reunião na Plantel, uma empresa que ficava na Rua Arnaldo Quintela, em Botafogo, e que era a produtora do programa “Amaral Neto, o Repórter”, já meio em fim de carreira, mas que, sendo o apresentador um Deputado Federal, conseguia manter um contrato para produção de documentários sobre projetos do BNH.
Depois dessa reunião, ele me convidou para almoçar na Churrascaria Botafogo, que ficava bem próxima da sede da Plantel. Quando eu menos esperava, ele botou a mão idosa - aliás, parecia a mão de uma pessoa de mais de 90 anos que nunca usou um creminho, em cima da minha jovem mãozinha de 22 anos e perguntou se eu aceitava namorar com ele. Quase perdi a voz e precisei lutar para disfarçar minha surpresa e minha repulsa, mas acho que não consegui esconder esse meu sentimento.
Delicadamente puxei minha mãozinha e disse que, por força de algumas decepções amorosas que havia tido ultimamente, estava decidida a não namorar mais ninguém por um bom tempo. Sendo assim, estava descartada a hipótese de haver qualquer romance entre mim e ele.
Desse dia em diante fui a pessoa menos prestigiada da SECOM.
Ele simplesmente me encostou e não me passava mais nenhuma tarefa para mim. Fiquei dias sem ter nada para fazer, enquanto Virgínia, a colega que trabalhava no mesmo setor, se acabava de trabalhar para dar conta de tantas demandas passadas por ele. Um dia, na véspera de uma rápida viagem dele, questionei-o a respeito da necessidade de minha presença, pois não havia qualquer trabalho para eu desempenhar. Ele desconversou e saiu.
Nessa época não existia qualquer instrumento legal que protegesse as mulheres de ações indignas como as que são praticadas pelos adeptos do assédio sexual. Eu não tinha a quem recorrer. Cheguei a pensar em falar com a Chefe da SECOM, Lúcia De Biase, mas felizmente não foi necessário. Por sorte, muita sorte, ele já vinha queimando o próprio filme havia algum tempo e, dias depois, acabou sendo demitido – ele não era concursado, era contratado do BNH (uma marmelada que beneficiava apadrinhados de gente poderosa). Assim livrei-me desse abacaxi.
Em 1983, com a mudança do Presidente do BNH, houve alteração da chefia, e Aleluia assumiu a SECOM. Um homem alto, moreno, 34 anos, que nada tinha de bonito, mas era muito charmoso. Aleluia chegou disposto a conquistar todas as mulheres que trabalhavam na SECOM. Era um lançador ambulante de charme e sedução. Falava manso, sempre dando um jeito de pegar no braço ou no ombro de suas interlocutoras.
Algumas se deixaram conquistar, mas isso não aconteceu comigo. Um dia, precisei cobrir a ausência da Ângela, sua secretária, e ele aproveitou para me convidar para jantar. Dei uma desculpa qualquer para rejeitar o convite e ele não insistiu. Estava ocupado com a conquista de outras colegas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário