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| Berna, capital política da Suiça. Linda cidade! |
Decidimos então aguardar na própria estação de trens. A estação de Zurique é (ou era?) coberta mas com as laterais abertas e fazia muito, muito frio. Resolvemos então esperar no banheiro, que tinha calefação e era limpinho (banheiro público na Suíça é outra coisa!). Sentamos no chão na companhia de uma mendiga que dormia de pé, encostada no equipamento da calefação.
Tudo estava ótimo até que por volta de 1 hora da madrugada, um guarda veio nos avisar que iria fechar o banheiro. Custamos um pouco a entender, mas saímos e trancamos nossas bagagens mais pesadas no “locker”. Descobrimos então que, bem em frente à estação, havia um shopping center subterrâneo e resolvemos descer para ver se arrumávamos um local quente onde pudéssemos esperar o tempo passar. Voltamos a sentar no chão, mas percebemos uma frequência muito estranha naquele local. Eram muitos jovens perambulando pela madrugada e pareciam estar drogados. Eu me lembrava das cenas descritas no livro “Christiane F, Drogada e Prostituída”; e sentia verdadeiros calafrios de medo.
Para completar, um rapaz veio puxar conversa com a gente e começou a fazer muitas perguntas. Eu era ingênua, mas nunca fui boba e percebi que ele tinha em mente tirar algum proveito da gente. Afinal, turistas sempre têm algum dinheiro. Tentei encerrar o papo e como ele não se afastava resolvemos sair dali para ver se a gene se livrava dele. Ele começou a nos seguir. Se parávamos em alguma vitrine, ele parava em outra, se apertávamos o passo, ele apertava também. O último teste foi subir por uma escada e descer por outra – ele fez o mesmo. Saímos correndo em direção à porta principal da estação de trens. O mesmo guarda que havia nos expulsado do banheiro já vinha fechando o portão principal quando nós invadimos a estação – o maluco, ou tarado, parou do lado de fora e ficou fazendo sinal para que saíssemos. O guarda ficou observando aquela cena por alguns instantes e decidiu terminar de fechar o grande portão.
Nós, esbaforidas, sentamos num carro de carregar bagagens e vimos o guarda caminhar em nossa direção e perguntar, por meio de gestos, onde estavam as nossas bagagens (ele as tinha visto no banheiro). Sinalizamos que estavam no “locker” e ele fez sinal para que o seguíssemos. Fomos atrás dele. Lembro que Magali perguntou se eu tinha idéia do lugar para onde ele estava nos levando. Respondi que não, mas se fosse para sofrer alguma violência, preferia ser molestada pelo guarda do que pelo maluco que nos esperava lá fora.
O guarda nos levou para a sala da polícia que ficava dentro da estação do trem. Sempre através de gestos, explicou que poderíamos permanecer ali até às quatro da manhã quando ele viria nos soltar. Foi o nosso anjo da guarda!
Dormi em cima da mesa de reunião. A sala estava quentinha, mas com o tempo, o frio ficou intenso. Quando saímos, voltamos para o banheiro e, finalmente, pontualmente às 5 da manhã, partimos para Chur.
inda viagem! Campos cobertos de geada e os picos das montanhas cobertos de neve.
Ao chegarmos a Valbella Lenzerhaide, fomos procurar o tal albergue. Achamos a rua, que serpenteava morro acima – e como subia! Carregando nossas bagagens, começamos a subir. Uma casa aqui, a outra casa lá adiante. Então, pedi a Magali que descobrisse o número da casa pela qual estávamos passando. Magali chegou mais perto para olhar e disse:
- O número dessa casa é 7.
- Sete e mais o quê? – perguntei
- Sete e mais nada. O número é sete. Essa é a primeira casa da rua.
Simplesmente comecei a rir muito. Já que não era trágica, aquela situação era mesmo cômica. Tanto esforço para chegar até ali e perceber que nunca íamos conseguir subir aquela ladeira até chegar ao número 7007, ainda mais tendo que estar lá antes das 10 da manhã, hora em que o albergue fechava para só reabrir às 17 horas.
Mesmo que buscássemos alguma condução para chegar lá, até encontramos um transporte para agilizar a chegada ao albergue, já seria tarde.
A conclusão óbvia foi que não adiantava insistir em permanecer ali. Como a cidadezinha era muito pequena decidimos que já tínhamos visto bastante. Fazia muito frio e os carros ainda estavam cobertos de branco por causa da geada.
Voltamos para Zurique sem sequer ver o tal albergue. Só depois de muitos anos, viajando pela internet, descobri que 7007 era o código postal, o número do albergue era 41... Eu havia me enganado e não confirmei a informação – mancadas de turistas inexperientes.
De lá Zurique, pegamos um trem para Veneza, com baldeação em Milão.
Essa viagem foi maravilhosa porque o trem cortava os Alpes Suíços. Vi paisagens de cartão postal com lagos de um azul piscina estonteante, túneis gigantescos, a estrada de rodagem que acompanhava a estrada de ferro, em muitos pontos tinha proteção contra avalanches. Isso sem falar na belíssima vista dos picos nevados.... um deslumbre!
Veneza, com seus canais e gôndolas...
Chegamos a Bella Itália! Trem cheio, pessoal falando alto pra caramba; uma bagunça tremenda! Chegamos à Milão já ao cair da noite e pegamos o trem para Veneza.
Lembro de ter passado por Verona – vi apenas a plaquinha na estação de trem. Depois disso, por causa do cansaço das noites mal dormidas, peguei no sono, assim como Magali.
Acordei com a voz de Magali gritando assustada:
- Márcia! Veneza! Chegamos!.
O trem estava parado mas eu não sabia há quanto tempo. Com o trem lotado, vi que não conseguiríamos descer rapidamente tendo que carregar toda a bagagem (mesmo com pouco dinheiro, deu pra comprar muita coisa). Algumas pessoas estavam sentadas no chão do corredor do trem.
Não tive dúvidas, convenci Magali a atirar as bagagens pela janela e saímos correndo pulando por cima de todo mundo. Eram cerca de 10 horas da noite.
Estranhei que poucas pessoas desceram naquela estação, mas, preocupada com o adiantado da hora, fui logo procurar uma casa de câmbio. Estava fechada!
Fiquei alarmada. Como uma cidade basicamente turística como Veneza podia fechar uma casa de câmbio? O problema era que eu tinha recebido a recomendação de ficar num hotel próximo à Praça de San Marco e para chegar lá era preciso pegar o barco número 1. Como íamos pegar o barco se não tínhamos um único centavo em liras?
A solução era passar a noite em algum hotel próximo à estação de trem e esperar a casa de câmbio abrir no dia seguinte.
Quando saímos da estação, estranhei que não houvesse barcos e sim taxis na rua. Pensei que talvez precisasse pegar o taxi para depois pegar o barco.
Enfim, fomos procurar vaga num dos hotéis próximos e a esta altura, estava pagando qualquer valor por um bom quarto e um bom banho – havia quatro dias que não tomávamos banho!
Procuramos em dois hotéis; todos estavam lotados. Sentei no meio-fio e chorei. Magali permaneceu de pé, e me disse que se eu, que era a cabeça da dupla, estava chorando daquele jeito, o que ela deveria fazer? Por entre as lágrimas, enquanto lembrava que desde Bruxelas não tomava um banho, não descansava e dormia decentemente, vi um outro pequeno hotel mais afastado chamado Trieste. Corremos para lá e, finalmente, conseguimos um quarto de casal.
O banheiro era no corredor e tinha que ser banho de banheira, mas estava ótimo! Mais difícil foi para Magali que precisou tomar banho usando a saboneteira para encher com água já que estava naqueles dias e não dava para tomar banho em água parada.....afff!!!!
Adormeci emocionada só de pensar que estava em Veneza e que a poucos metros dali estavam as gôndolas...
Na manhã seguinte, enquanto Magali foi até a estação de trens para trocar dinheiro, perguntei a um rapaz que varria a recepção do hotel:
- Onde fica a estação dos barcos?
Ele me olhou surpreso e disse: - Barcos? Que barcos?
- Como que barcos? Os barcos da cidade?
- Aqui não há barcos – respondeu tranquilamente.
Fiquei parada, olhando para ele enquanto tentava encontrar algum sentido naquelas frases.
- Como é que eu faço para ir até a Piazza de San Marco? - perguntei
- Piazza de San Marco? Em Veneza? - Perguntou ele.
- É, em Veneza – confirmei.
- A senhora pega o trem, anda mais 10 minutos até chegar a Veneza, e de lá pega um barco até a Piazza de San Marco.
Olhei para ele assustada e voltei a perguntar:
- Como assim? Aqui não é Veneza?
Quem ficou ainda mais surpreso agora foi ele. Como podia eu achar que ali era Veneza? Será possível que eu não sabia que em Veneza não havia ruas e taxis e sim rios e barcos. Olhando-me complacente, respondeu:
- Não.
- Que lugar e esse? – quis saber.
- Aqui é Mestre.
Quando Magali voltou da estação apressei-me em perguntar onde ela tinha visto que aquela cidade era Veneza. Ela disse que viu na placa da estação de trem.
Na estação, vimos que a placa dizia: V.E. Mestre. Ela viu rapidamente, cheia de sono e concluiu que era Veneza.
Duro foi pagar o mico de confundir Veneza com outra cidade, afinal estamos tratando de uma cidade com a particularidade de ficar praticamente dentro do mar e onde não circulam carros ou táxis. Imagino o que o rapaz do hotel pensou de mim...no mínimo que eu era uma pessoa muito mal informada.
Chegamos à Veneza pouco tempo depois e o que vimos logo na saída da estação? O Grande Canal e muitos, muitos barcos.
Adorei Veneza! Voltei lá em 2008, mas ainda hei de retornar acompanhada de uma verdadeiro amor.
De lá seguimos para Pádua onde visitamos o Santuário de Santo Antônio. Lá depois de muitos anos, me confessei e tive a oportunidade de ver o relicário com a língua e parte do queixo de Santo Antônio. Conta a lenda que, como o Santo nunca mentiu, sua língua permaneceu intacta depois de sua morte. Tenho um carinho especial por Santo Antônio, uma devoção que herdei de minha mãe. Rezei muito pedindo marido, até quando estava perto dos meus 30 anos. Depois desisti! Só casei mesmo quando chegou a hora em abril de 2000.



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