segunda-feira, 23 de maio de 2011

Descobrindo Paris, Londres e outros lugares lindos!

Em Madrid, ficamos num hotel razoável, antigo, mas bem arrumado, que ficava na Calle Velasquez, perto do Parque Del Retiro. O custo com as diárias do hotel estava incluído no curso que fizemos na Espanha. Em Paris, também não ficamos em albergue de estudantes porque fomos recebidas por um casal amigo do Guilherme.
Chegamos a Paris de manhã bem cedo e fomos para a casa do Ilcio, que morava com uma moça de São Paulo de nome Cristina.

Eles moravam no 17ème arrondissement 17, Rue La Condamine, no último andar de um pequeno prédio, ou seja, moravam no sótão. Era um local aconchegante e bem francês, com aquelas pequenas janelas que a gente vê nos filmes parisienses. O elevador do prédio era tão pequeno que não cabíamos eu, Magali e as mochilas. Era um elevador para duas pessoas magras.
Cris nos recebeu muito bem e contou que para ajudar na despesa da casa ela estava cozinhando e servindo comida caseira abrasileirada dentro do possível (o feijão tinha um grãos enormes!) para algumas meninas que freqüentavam sua casa. Conversamos um pouco, tomamos banho num banheirinho apertado e fomos para a rua. De metrô, fomos logo ver a Torre Eiffel, o Arco de Triunfo e caminhar no Champs Elyses.
Voltamos para casa já à noite e Ilcio ainda não havia chegado. Cristina lamentou que a maioria das clientes, que ela chamava de meninas, já tivesse jantado, e nós não pudemos conhecê-las.
Logo em seguida chegou Anne Marie.... Uma das “meninas”. Um travesti de mais de 1,90m de altura, mulato, vestindo um sobretudo creme e uma bota de cano longo e salto bem alto. Quase caí dura para trás! Nunca, em toda minha vida, tinha visto um travesti ao vivo e a cores – estávamos em 1983, nem se falava em Drag Queen.
Pois a figura deve ter notado a minha cara de espanto. Imagino que a cara da Magali também estivesse denunciando nosso estado de espírito. Anne Marie então sentou-se no sofá e começou a tirar dos bolsos do sobretudo muitas notas de franco amassadinhas para contar a féria do dia. Contou que trabalhava no Bois de Boulogne, tradicional reduto de travestis, em especial brasileiros, e que naquele dia tinha conseguido 56 clientes (!).
Continuou falando um monte de coisas assustadoras para nossa ingenuidade dos vinte e poucos anos, inclusive que tinham lhe oferecido cem dólares para ela matar um "cabra" e ela não sabia se aceitava o serviço.
Foi demais! Minha vontade era de sair correndo. Fiquei apavorada!
Ilcio, super simpático, chegou e também ficou de papo com Anne Marie. Sem preconceito, mas apenas para evitar a convivência com uma realidade que fugia completamente à nossa rotina, eu e Magali, passamos a sair de casa logo cedo e só voltávamos o mais tarde possível, assim, evitávamos encontrar com as “meninas”. Era muito cansativo; depois de andar o dia inteiro pela cidade, tínhamos que ficar fazendo hora para chegar em casa.
Confesso que isso comprometeu a alegria da minha estada em Paris. 
Um dia, resolvemos passar em casa à tarde para descansar um pouco já que, mais uma vez, teríamos que ficar na rua até mais tarde. Encontramos Cristina na companhia de um rapaz homossexual com gestos bastante afeminados, além de Pierre Jean, um amigo do casal. Eles conversavam sobre uma moça paulista de classe média alta que foi passear em Paris com o irmão e não quis mais voltar para Sampa. Como não tinha dinheiro para se manter em Paris, resolveu se prostituir. Nós já tínhamos sido apresentadas a tal moça e eu fiquei chocada com aquela história.
Como já estávamos dentro do apartamento, tivemos que ficar um tempo. Foi aí que o rapaz com trejeitos bem exagerados perguntou se nós já tínhamos conhecido o Bois de Boulogne, local de prostituição famoso. Eu estava tão atrapalhada com aquela situação e com as histórias incríveis que tinha escutado naqueles dias, que respondi com um jeito um tanto mal humorado:
- "Não, eu vim a Paris a turismo".
Fez-se um silêncio total na sala. Imagino que alguém deve ter pensado: “ah sim, entendi! Você só iria ao Bois de Boulogne se tivesse vindo à Paris a trabalho?". Sem comentários! Foi uma situação bem esquisita rsrsrs
Saímos uma noite para comer um crepe com Ilcio, Cristina e Pierre Jean. Uma delícia!! Conhecemos os principais pontos turísticos de Paris, incluindo o Louvre.
Quatro dias depois, seguimos de trem de Paris para Londres, pegando um pequeno navio para atravessar o Canal da Mancha.
Logo que chegamos à Londres, tão logo descemos do trem, procuramos uma casa de câmbio para trocar dinheiro. Cada uma de nós trocou cem dólares, e recebemos 40 P e algumas moedas. O que era P? Até então, só conhecia a moeda britânica como sendo a Libra, portanto, conclui que p era o centavo da libra - Pound. De imediato fiquei zonza porque entendi que cem dólares não tinham sido convertidos em sequer uma Libra, apenas centavos!!!
Que tal ver o Big Ben em reforma?

Ainda sem entender direito o que estava acontecendo, fomos a uma máquina comprar os tíquetes do metro de Londres. Qual não foi minha surpresa quando vi escrito que a passagem custava 40 p.
Como assim? Uma passagem de metrô custa o equivalente a quase cem dólares!? Por mais que a razão me alertasse que aquilo era impossível, minhas pernas ficaram trêmulas e comentei com Magali que talvez devêssemos deixar Londres imediatamente, pois seria impossível ficar ali com o pouco dinheiro que tínhamos.
Tentando voltar à razão, pedi a um senhor que pegasse em minhas mãos o dinheiro necessário para comprar a passagem. Muito gentilmente ele juntou algumas moedinhas que totalizaram 40 pences.... Ah bom.... agora entendi – Libra é igual a pound e pences é que é o centavo. Bem que alguém poderia ter me explicado isso antes.
Magali ia muito pela minha cabeça. Mais nova e menos experiente, caçula de sua família, era superprotegida pelos pais e pela irmã, estando acostumada a deixar que os outros decidissem as coisas por ela. Assim, eu era a cabeça da dupla. Demos sorte em Londres, foram três dias de muito sol.
London Bridge
Ficamos num albergue próximo da Catedral de Saint Paul e fizemos os passeios comuns aos turistas de primeira viagem: Big Ben, Palácio de Buckinghan, London Tower e o museu com as jóias da rainha, Covent Garden, Hyde Park, Trafalgar Square, as lojas Harrod’s, a Victoria Station, Museu Madame Tussaud’s e algumas viagens nos ônibus vermelhos de dois andares.
De Londres seguimos para Amsterdã, onde passamos apenas um dia e fizemos um passeio de barco pelos rios da cidade. Era o dia 21 de outubro de 1983, aniversário de 50 anos de minha mãe, e era a primeira vez que estava distante dela nessa data, o que me deixou melancólica. Entrei e saí da Holanda sem entender sequer qual era o nome da moeda local. Depois, seguimos para Bruxelas, onde ficamos hospedadas no melhor albergue de toda a viagem: novinho, quartos para duas pessoas e com um banho que era uma ducha fabulosa!


Amsterdan



De Bruxelas seguimos de trem noturno com destino à Basel, na Suíça. Na fronteira da França com a Suiça, não notamos que já estávamos em Basel, pegamos outro trem e fomos parar em Berna. Chegamos bem cedinho e só na parte da manhã deu para vermos os principais pontos de Berna. À tarde, seguimos para Munique.
Ficamos em Munique apenas por uma noite e um dia. Foi onde enfrentamos grandes dificuldades para entender a língua. 


Vila Olímpica de Munique
 Pra começar, por causa do cansaço da viagem e da noite anterior dormida no trem, perdemos a hora e acordamos quando o albergue já estava fechando. Mal deu tempo de ir ao banheiro. Tive que ir para a rua com a roupa por cima do pijama e com a escova e a pasta de dentes na bolsa porque fomos proibidas de voltar ao quarto coletivo que já estava com a porta trancada. Quase nos trancam dentro do banheiro! Precisei ficar segurando a porta para impedir que um homem a fechasse enquanto Magali terminava sua higiene matinal. Uma loucura!
Aliás, nunca vou me esquecer o tom duro dos guardas alemães que abriam a porta da nossa cabine no trem com um soco forte e falavam bem alto:
- "Passport Please! - O tom chegava a ser agressivo.
Munique é muito interessante! A cidade das bicicletas e universidades. Andamos até a Vila Olímpica onde foram realizadas as Olimpíadas de 1972.
Num restaurante próximo a uma faculdade, sem saber o que pedir à garçonete, acabamos comendo salsicha com salada de batata e um ovo cru. Queríamos experimentar o chope preto, mas, com a dificuldade para explicar o que queríamos, tivemos que nos contentar com o chope claro mesmo.
Procuramos os principais pontos turísticos, que não eram muitos. Voltamos para o albergue no final da tarde. A idéia inicial era seguirmos para Viena, mas, depois de passar pela Holanda, Suíça e Alemanha, eu estava tão cansada de não entender a língua local que convenci Magali a seguirmos direto para a Itália. Saudades das línguas latinas onde a gente vem ou mal consegue entender alguma coisa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário