No final de 1983 dei fim a uma fase difícil de relacionamento com meu chefe. Um homem insuportável e uma das pessoas mais feias que já vi na vida! Feio por dentro e pior ainda por fora. Nunca entendi como ele se manteve ali por dois longos anos, porque também era um incompetente. Contava as barbaridades que havia feito com a ex-mulher, que sofreu muito com as safadezas dele (o cara era muito feio, mas conseguia ter uma amante até bonita!!!) o que deixava transparecer o seu mau caráter. Cansada das injustiças que sofria na condição de subordinada a esse cidadão, um dia decidi deixar a área de publicidade. Assim, passei a trabalhar na área financeira da SECOM – Secretaria de Comunicação do BNH. Fiquei nessa área por alguns meses fazendo um tipo de trabalho altamente monótono, repetitivo e nada criativo.
Dois anos antes, chegou ao BNH uma figura que vou chamar de Cacá. Cavá pousava de socialite pois se dizia amiga da principal colunista social do jornal O Globo na época, a Hildegard Angel. Era uma mulher de hábitos refinados e já estava perto de completar 40 anos. Foi contratada, sem concurso, para o cargo de assessora e tornou-se responsável pelo contrato com a Plantel, uma produtora do Deputado Amaral Neto (que fazia um programa jornalístico na TV Globo chamado; Amaral Neto - O Repórter)
Passados esses dois anos, Cacá foi contratada para exercer uma importante função na recém criada Globo Vídeo e por isso deixou o BNH. Assim, fui indicada por ela para passar a acompanhar a produção dos documentários. Era junho de 1984 e pela primeira vez eu assumiria a responsabilidade de um trabalho importante e do qual eu gostava demais. Passei a ser a responsável pela produção de áudio-visual, no caso, documentários em filme 35 mm contratados junto à Plantel.
Durante o tempo em que trabalhou no banco, Cacá tornou-se para mim uma grande amiga. Muitas vezes eu lhe dava carona pela manhã e adorava ouvir suas histórias e opiniões sobre vários assuntos, já que ela era 16 anos mais velha que eu e bastante vivida.
Cacá imaginou que eu não tinha competência nem experiência para levar sozinha a responsabilidade de fazer acontecer o contrato com a Plantel e convenceu a produtora a contratá-la, na condição de “free-lancer”, para que ela continuasse a escrever os textos e os roteiros que seriam submetidos à aprovação da chefia da área de Comunicação do BNH.
Ou seja, a ideia dela é que eu seria apenas a intermediária entre ela e a produtora. Eu aceitei a situação porque queria demais voltar a fazer algo que gostasse de verdade e nem me sentia segura o suficiente para desempenhar aquela função sem alguém que me orientasse. Entretanto, pensando que precisava de melhores argumentos para me convencer a aceitar a situação de "laranja", ela propôs repassar para mim parte do pagamento que receberia da Plantel para continuar executando o trabalho. Quando Cacá conversou comigo, ela usou a palavra “rachar” para definir as bases do nosso acordo. Naquela época, as noções do que era certo e errado não eram tão claras como hoje. Como eu não ia fazer nada além do meu trabalho, não vi nada de antiético em aceitar a proposta dela. Hoje vejo que estava equivocada.
Para mim, ficou claro que para agilizar a redação dos textos e roteiros e buscar a aprovação dos textos feitos por ela, fazendo uma ponte onde a produtora não seria envolvida, além de acompanhar a produção final dos documentários, receberia a metada do valor pago a ela pela Plantel. Não entendi esse acordo como algo que ferisse a ética profissional porque o valor total do contrato já estava definido e a despesa caberia à produtora.
Todavia, logo que assumi o trabalho, descobri que estava para vencer o prazo de um dos contratos, justamente o maior deles – onde estava prevista a produção de um documentário de 20 minutos que exigia texto e roteiro mais elaborado e uma longa viagem para tomada de imagens. O BNH já vinha pagando mensalmente pelo trabalho e se o documentário não fosse produzido até o final do prazo, o banco ficaria no prejuízo. Como eu era a responsável pelo contrato, seria também a responsável por esse prejuízo.
O problema é que nem o conteúdo do trabalho estava definido. Acabei tomando a frente e consegui definir o assunto a ser abordado. Cacá andava muito ocupada com o novo trabalho e demorou demais a preparar e apresentar o material. Ela ficava adiando a entrega do texto e isso estava me deixando muito aflita porque entre a aprovação do texto/roteiro e a tomada de imagens e acabamento da produção seria necessário um trabalho de alguns meses. Resolvi então escrever o texto/roteiro e submeti entreguei o trabalho pronto à Cacá. Ela ficou feliz da vida e aprovou meu trabalho com muitos elogios. Fiquei super feliz quando o trabalho também foi aprovado pela chefia. Em seguida participei ativamente da produção do documentário sobre o Projeto João de Barro, que abordava projetos de habitação popular em Recife e Mossoró.
Viajei com a equipe durante quase trinta para Natal, Mossoró e Recife colhendo imagens em favelas e atuando também como diretora. Foi uma ótima experiência! Na volta, trabalhei na montagem do filme. Passava os dias em frente a moviola juntando pedacinhos de película. Foi muito legal!
Cacá recebeu o pagamento pelo trabalho que eu fiz. Mas, estranhamente, ela não me procurou para pagar a parte que havíamos combinado. Só que diante da nova situação, onde ela não tinha feito absolutamente nada além de ler e aprovar meu trabalho, além de preencher seu próprio RPA - Recibo de Pagamento a Autônomo. Ela recebeu a grana, diga-se de passagem, uma boa grana, e nada de cumprir com o acordo que ela mesma havia proposto.
Eu continuava a conversar muito com ela, pois eu gostava mesmo dela. Diante da permanência do silêncio quanto ao recebimento do pagamento, de vez em quando eu perguntava pelo dinheiro. Perguntava de forma bastante natural, já que sequer me passava pela cabeça a possibilidade de não receber o valor combinado. Um dia, numa dessas conversas, ela teve um ataque e me encheu de desaforos dizendo que não tinha obrigação nenhuma de me dar uma parte do dinheiro. Fiquei horrorizada com o comportamento dela e não a procurei mais.
Nunca vou esquecer que, bem nessa época, ela estava completando 40 anos e convidou a mim e as demais amigas do banco para uma super festa de comemoração. De repente, sem mais nem menos Cacá “desconvidou” todas nós. Só que a festa aconteceu e como ela se dava com Hildegard Angel, a festa foi divulgada na coluna social, com foto e tudo!
Eu estava muito aborrecida com aquela situação, mas tive que encontrar com ela na festa de aniversário do chefe Aleluia, que aconteceu na gafieira Estudantina. Ela foi convidada, apesar de não estar mais no BNH, e levou o marido, um senhor simpático mas meio safado que andou fazendo carinhos no meu braço dentro da casa deles.
Sentamos à mesma mesa, como todos os demais convidados. Cacá então jogou uma folha de cheque amassada na minha direção, sendo que o valor não chegava a ser insignificante, mas era muito inferior ao que eu entendia como tendo sido o combinado.
Tive vontade de jogar o cheque no lixo, mas pensei melhor e vi que era o tipo de reação que só prejudicaria a mim. A partir daí, mudei minha relação com ela. Já que era para eu fazer o trabalho todo, porque deveria então deixar que ela continuasse recebendo pelo meu trabalho? Faltava produzir ainda quatro filmetes de 20 segundos que, a exemplo do documentário, seriam apresentados nos programas do Amaral Neto. Assim, não passei para ela os demais trabalhos contratados junto à Plantel, acabando com essa fonte de renda que ela tinha "tramado".
Um dia, essa mulher me ligou irada por que descobriu que não ia mais ganhar dinheirinho fácil à custa do meu trabalho! Quem ri por último, ri melhor! Ela disse que eu não tinha agido como amiga e eu disse que uma amiga não desconvida outra amiga para sua festa de aniversário. Ela disse que eu não tinha gabarito para frequentar a casa dela.
O curioso foi que passei dois anos freqüentando a casa dela e ela a minha. Coitada, era uma pessoa muito atormentada e complexada quanto a pouca beleza! Risquei seu nome do meu caderninho, mas fiquei bem triste com tamanha decepção.
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