Fui enviada pelo BNH para uma temporada em
São Paulo. O motivo foi assumir a coordenação d a produção de um documentário sobre
o banco a ser gravado pela TV Gazeta. Fui recebida por Orlando, assessor da
filial São Paulo; uma pessoa incrivelmente divertida e atenciosa.
Como o valor das diárias do banco eram miseráveis, ainda mais para o uma cidade como São Paulo, fiquei
hospedada na casa de um amigo do marido da Kiki, minha grande amiga, que morava na Alameda Santos. Paulo, era um rapaz de 25 anos que, naquela época, ainda era imaturo e mimado, mas me recebeu com a maior boa vontade. A gente chegou a ensaiar um namoro, mas não foi adiante porque não rolou maiores sentimentos nem da minha parte nem da parte dele.
O
Gerente Regional de São Paulo se chamava Vannini, um homem alto e gordo, muito simpático e brincalhão por trás de seus óculos
e farto bigode. Ele me recebeu afetuosamente e fui tratada com muito prestígio, afinal, era uma profissional da matriz do banco que estava ali para fazer um trabalho considerado importante, já que iria divulgar todo um trabalho realizado na gestão daquele governo e do próprio Vannini.
Passei
alguns dias na sede da TV Gazeta acompanhando a seleção dos empreendimentos a serem incluídos no documentário, além da elaboração do roteiro e texto para a produção do VT. O documentário seria exibido em cinco blocos de um programa com meia hora de duração. Foi um trabalho árduo, pois precisou ser feito em pouquíssimo tempo.
Sem que eu pudesse imaginar o que estava rolando dentro do ambiente da TV Gazeta, designaram uma repórter muito simpática para assumir aquela produção por parte da emissora. Logo percebi que ela não dominava muito bem a técnica de produção de documentários, e menos ainda os assuntos relativos ao BNH.
Percebendo a enorme dificuldade que ela demonstrava para escrever o texto, acabei praticamente ditando tudo para ela, já que eu já tinha alguma experiência nessa área devido aos demais documentários anteriormente produzidos pelo banco.
Quando, finalmente, o trabalho ficou pronto, devidamente aprovado pelo Vannini, fomos surpreendidas com a indisfarçável irritação do diretor. Ele ficou irado com o fato de termos apresentado o trabalho pronto dentro do prazo. Sem sequer ter lido o texto e o roteiro de gravação, ele reclamou muito de coisas que, sinceramente, nem consegui entender.
Foi Orlando quem percebeu o que estava acontecendo na TV Gazeta.
O diretor de jornalismo designou aquela repórter para o trabalho porque desejava “queimá-la” de vez. Ele tinha certeza que ela não
seria capaz de fazer aquele o programa, mas não contava que ela teria a minha ajuda e o meu
conhecimento sobre o assunto. Por isso que quando ele recebeu o trabalho pronto, ficou muito contrariado.
Foi uma situação constrangedora porque, a princípio eu não conseguia entender o por quê do diretor ficar tão aborrecido. Ele
mesmo custou a arranjar uma desculpa para justificar sua atitude e quando
explicou, evidentemente, não convenceu nem a mim nem a ninguém.
Por causa disso, acabei
permanecendo em São Paulo
por um tempo superior ao inicialmente programado.
Ainda assim, não deixei de ir ao Rio no Carnaval, pois tinha combinado de desfilar na
Mangueira juntamente com Márcia B. Estava tudo combinado para desfilarmos na mesma ala em que minha amiga do BNH,
Cláudia, estava ajudando a administrar. Desfilamos vestidas de palhaço. Um
graça de fantasia! Usamos uma calça de lamê prateada com aquele enorme aro em volta da cintura e presa por suspensórios, bem característica da fantasia de palhaço, além de chapeuzinho que formava uma
careca com cabelos cacheados verde-claro nas laterais e uma blusa branca enfeitada com
faixas e paetês rosa e lilás claro. A Mangueira foi a última escola a desfilar naquele anos - 1985, e atravessamos a Marquês de Sapucaí debaixo de
um sol muito forte. O desfile não foi bom e a escola ficou em 9º lugar.

Um fato inesquecível desse carnaval foi que, até poucas horas antes do desfile, já na hora de me arrumar e pintar o rosto do jeito que os palhaços costumam fazer, eu estava passando muito mal. Era da cama para o banheiro e do banheiro para a cama. Marcia estava lá em casa vendo o desfile comigo para aguardarmos a hora de ir para a avenida. Cheguei a questionar se eu conseguiria desfilar, pois me sentia fraca e desidratada. Falei com Cláudia e ela me deu a maior força, sugerindo que eu fosse para a casa dela onde muitos outros integrantes da ala estavam se arrumando. Lá, tomei um remédio que me fez melhorar bastante.
Mesmo prejudicada pelo mal estar, consegui desfilar debaixo de sol e confesso que nem lembrei do quanto estava prejudicada.
No táxi que me levava de volta para casa, já lá pelas 10 horas da manhã, vi uma pequena criança que, de dentro do carro ao lado, olhava encantada para o palhaço sentado no banco de trás do carro ao lado. Dei tchauzinho para ela e ela sorriu muito alegre. Muito legal isso! Curioso que, quando
cheguei em casa, voltei a passar mal e não saí mais até o fim do
carnaval. Mas não perdi a festa!
De
volta a São Paulo, fiquei atuando junto com Orlando e assumi outros afazeres relativos à área de comunicação social enquanto a questão do documentário não se resolvia por questões internas da TV Gazeta.
Depois de um tempo,
Vannini me convidou para assumir a Assessoria de Comunicação Social do BNH em São Paulo , que estava
vaga já havia algum tempo.
Seria uma uma belíssima promoção! Meu salário ia aumentar muito e eu estava encantada com
a oportunidade de crescimento e com a cidade de São Paulo.
![]() |
| Eu nos meus tempos do BNH São Paulo |
Orlando
é advogado e exercia a função de assessor do Vannini. Era um homem magro, perto dos 40 anos, de barba, casado e muito gaiato. A gente ria muito! Riamos o
tempo todo porque ele ocupava boa parte de seu tempo contando suas artes ou
preparando uma pegadinha para alguém.
O documentário sobre o BNH acabou sendo produzido pelo próprio diretor da TV Gazeta e eu só tive o trabalho de assistir ao piloto já praticamente pronto. A repórter continuou na emissora por mais um bom tempo, sempre sendo perseguida pelo tal diretor. Eu lembro bem o nome dele, mas prefiro não mencionar.
Daqueles meses que fiquei trabalhando em São Paulo, frequentando muitos restaurantes e coquetéis com o pessoal do banco, nunca vou me esquecer da noite em que eu e Orlando fomos ao “Amigo Léo”, um bar em estilo alemão que fica em
baixo do “minhocão”. Nessa noite, Orlando me ensinou a tomar Steinhäger com chope. A gente
coloca um pouco de Steinhäger na boca, segurava um pouco da bebida e bebia chope
por cima. Nem me lembro se isso é gostoso, mas o porre foi fenomenal. Eu, que
quando bebo começo a falar bem mais do que o normal, contei um monte de
intimidades para Orlando. Nada de muito sério, mas coisas que a gente não costuma contar para um colega de trabalho..... Apesar disso, ele nunca perdeu o respeito por mim.
Infelizmente, não me deixaram assumir o cargo para o qual fui convidada. Em 1985, com a
mudança de governo, mudou toda a cúpula do BNH e Paulo Roberto dos Santos
assumiu a chefia da SECOM.
Paulo Roberto não me conhecia, nem conhecia o meu trabalho já que ele assumiu a SECOM em janeiro e eu tinha passado a maior parte do tempo em São Paulo. Mesmo com os protestos veementes do Vannini, Paulo Roberto decidiu, de forma
arbitrária, que uma mulher de 25 anos não poderia estar preparada para assumir a
assessoria de comunicação do BNH em São Paulo.
Eu já tinha até dado
entrada na compra de um estúdio no bairro de Santa Cecília. Era um apartamento
novinho e pequenininho, mas muito ajeitado e bem localizado, perto de
Higienópolis. Foi uma grande frustração ter que desfazer o negócio. Felizmente, e com a força do pessoal do BNH (nenhuma construtora gostaria de se indispor com a administração do BNH...), a construtora devolveu o cheque que eu havia dado como sinal.
Cerca
de dez meses depois, quando alguém lembrou ao Paulo Roberto que eu era a assessora de São Paulo que nunca
tinha sido, ele disse que havia mudado de opinião e que, se eu ainda quisesse,
ele apoiaria minha nomeação para o cargo.
Essa conversa aconteceu de madrugada, quando da
intervenção de um um agentes financeiros do SFH, se não me falha a memória, era
a vez do Banco Sul Brasileiro. Nessas ocasiões, o pessoal do BNH fazia plantão para esperar os dados que chegavam dos bancos sob intervenção. As agências fechadas precisavam amanhecer
com as informações sobre as novas contas para onde os depósitos dos clientes haviam sido transferidos afixadas em suas portas. Assim, eu estava muito cansada no momento dessa conversa, já tinha descartado a hipótese de morar em São Paulo e, meio sem
pensar, rejeitei a proposta.
Tempos
depois, repensando esse fato, fiquei na dúvida se errei ou não ao não ter
aceitado assumir a assessoria de imprensa do BNH em São Paulo. Não sei o quanto essa mudança teria alterado
minha vida, mas fechei uma porta que podia ter sido a de um caminho melhor.
Opções de vida que, uma vez feitas, não podem ser mudadas. No caso do BNH, que foi extinto pouco tempo depois, em novembro de 1986, não dá pra ter ideia do que teria acontecido se eu tivesse feito uma opção diferente.


Sempre sigo te acompanhando,lindos depoimentos,lindas histórias e mais que tudo uma linda vivência nos seus anos de vida .Não diria invejável,pois também tenho uma bela vida ao longo dos meus 45 anos,mas sim , vontade de fazer parte da sua história desde 1974.Sou chara de seu irmão Edinho e quase comprei a casa de praia de seu pai em Muriqui,infelizmente as minhas condições não me deram chances,mas mesmo assim adorei conhecer seus pais ,pois,são pessoas de bem como minha família.abraços!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
ResponderExcluir