Memórias! Lembranças de momentos e experiências vividas que ficam na cabeça da gente e que correm o risco de se perderem no tempo. Para guardar fatos marcantes que contam a minha história, resolvi criar este blog. Olhando pelo espelho retrovisor da vida, tenho a sensação de que tudo valeu muito! Talvez ninguém se interesse em ler, mas pra mim é bom saber que quando a minha memória começar a ratear ainda poderei reviver os momentos que marcaram minha existência. Uma viagem no tempo!!!
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Aprontando com os carros do papai
Foi depois que vendemos a casa de Muriqui que meus irmãos confessaram as armações que aprontavam para enganar papai quando o assunto era carro.
Todos nós começamos a dirigir muito cedo e Muriqui foi o palco de nossa aprendizagem. Naquele tempo, fora do período de verão, as ruas eram pouco movimentadas e não tinham calçamento. Dirigir era a principal razão pela qual meus irmãos gostavam de ir para Muriqui, já que era impensável dirigir sem carteira pelas ruas do Rio.
Eu, mais velha e ajuizada, só precisei disfarçar as reais razões de algumas pequenas batidas com o carro. Logo que comecei a trabalhar, aos 20 anos de idade, cuidei de assumir a manutenção do carro e um ano depois comprei meu próprio carro e conquistei independência.
Minha maior "arte" foi uma belíssima batida que dei com a roda traseira do opala quatro portas quando eu tinha apenas 16 anos. Cheguei em casa com uma desculpa esfarrapadíssima, mas não tinha me dado conta que a pancada tinha empenado a suspensão traseira do carro. A roda ficou tortinha. Papai descobriu e eu levei uma bronca das boas. Até hoje ele me aluga imitando a minha cara de santa ao explicar a batida.
Já com meus irmãos, a história foi mais complicada. Preocupado com os riscos que envolvem motoristas iniciantes e tentado reduzir as despesas com combustível, ele estabeleceu uma regra para os dois: só podiam rodar 5 Km por noite. Assim, além da economia, ele reduzia a probabilidade deles colocarem o carro na estrada Rio-Santos – BR-101 para disputar pegas ou se aventurassem na fatídica e antiga estrada para Itacuruçá, que margeia um penhasco sobre o mar.
Assim, diariamente, ele se dava ao trabalho de anotar a quilometragem de cada um dos carros. No dia seguinte, ele, logo cedo, pegava o óculos para conferir se os dois o estava obedecendo. O cálculo dos 5km por noite foi feito com base na premissa de que seria a distância suficiente para ir de casa até a praça principal de Muriqui e depois até o clube onde sempre havia a festa da noite. Papai nunca precisou brigar com eles porque os dois eram muito obedientes: os carros rodavam os exatos 5 Km!
O que meu pai não sabia, e nem se seu ao trabalho de questionar, foi que aquele resultado preciso tinha um motivo prático. Meus irmãos descobriram que, se andassem com o carro em marcha ré o velocímetro voltava a quilometragem marcada. No início dos anos 80 os velocímetros não eram digitais, o que viabilizava essa solução, um “jeitinho” para não contrariar papai. Todos os dias papai checava a quilometragem e ficava feliz. Como seus filhos eram obedientes!
Papai não sabia que seus dois carros circulavam de ré pela cidade. Mais tarde, a ideia foi adotada por outros amigos de meus irmãos cujos pais souberam do controle de papai e resolveram adotar o mesmo procedimento.
Assim, naquela época, Muriqui era o local onde os carros andavam de ré pelas madrugadas.
Quando uma menina pedia carona até em casa Edinho dizia: "– Só se for de ré."
Claro que a garota topava, e lá iam eles pelas ruas rodando de ré..
Certa vez, mamãe estava na varanda de nossa casa e já era tarde da noite, quando Edinho e seu amigo Cláudio, um em cada carro, se distraíram e passaram de ré em frente de nossa casa. Eles ficaram apavorados achando que sua estratégia seria descoberta. Que nada! Mamãe, que sempre foi meio desligada nas questões relativas a carros, viu os dois passando de ré na frente de casa e nem reconheceu o carro do papai.
Rodando mais, tinha que dar um jeito de abastecer sem pedir dinheiro ao papai. Edinho resolveu o problema da gasolina com uma fonte de receita extraordinária. Como nossa casa tinha cinco coqueiros que produziam muitos cocos, ele vendia os cocos para as barracas da praia e abastecia o carro. Ou seja, tivemos um fusquinha "movido a água de coco".
Lá em Muriqui passa o trem de minério. É um trem com mais de cem vagões. Quando o “minerinho” atravessa a cidade, forma-se um pequeno engarrafamento junto à passagem de nível da linha do trem. Certa vez, Edinho estava com o carro lotado de gente, muito mais gente do que seria recomendado, ainda mais em ruas de terra ou paralelepípedo, parado em frente à cancela esperando o “minerinho” passar. De repente, por entre as rodas do trem, viu o carro do papai parado do outro lado do trilho, esperando o trem passar. Rolou pânico dentro do carro! A passagem do trem já estava terminando. Edinho deu o alarme e começou a sair gente do carro até pela janela na maior correria. Edinho saiu acelerando de ré velozmente para tentar se esconder de papai, e conseguiu!
Papai estava indo à praia de noite justamente para dar uma incerta. Como não viu nenhum dos dois lá, ficou satisfeito! rsrsrsrs
Um dia, sentados na sala do apartamento do Corte do Cantagalo, eles contaram essas e outras armações. Deram muitas gargalhadas e papai não conseguia acreditar o quanto tinha sido enganado!
Contaram também sobre um acidente acontecido com o Gol do Eduardo. O carro era zero, não tinha nem um mês de uso no dia em que Eduardo chegou em casa arrasado, dizendo que tinha caído num buraco na estrada e quebrado a suspensão do carro. Papai ficou indignado com a má qualidade do carro e, por não ter a cobertura da garantia para esse problema, gastou uma grana para consertar a suspensão.
Anos depois ele soube que a suspensão foi quebrada porque Eduardo estava brincando de fazer cavalo-de-pau com o carro novinho!
E ainda teve a coitada da Fiat 147 Europa 1980, que foi apelidada pela família de “Lucélia Santos”. A "homenagem" a atriz foi porque ela havia estrelado o filme "Bonitinha mas Ordinária". O carro, naquela época, era uma gracinha, toda equipada com o que de mais bonito havia. Rodas de liga leve, vidros verdes com degradée, teto solar e um "sonzaço". Na verdade, realmente, o carro veio de fábrica com um defeito no freio que eu descobri quando quase sofri um grave acidente. Por pouco não bati de frente em uma árvore na Rua Conde de Bonfim quando fui fechada e precisei frear forte e. Perdi completamente o controle do carro e só não bati na árvore porque meu anjo-da-guarda estava de plantão e guiou minhas mãos para manobrar o carro desgovernado. Além disso, havia os problemas comuns aos primeiros carros com motores a álcool. Mas o pobre do carrinho era esmerilhado e por isso apresentava tantos problemas. Botavam pega, faziam cavalo-de-pau, andavam na areia, enfim, maltratavam demais o carro.
Por mais de uma vez, nós voltamos de Muriqui apinhados dentro de um único carro, ou na carona de amigos porque o motor da fiat resolvia não pegar. Ela era assim: quando cismava, não tinha jeito! Quando eu ia para a faculdade com ela, por algumas vezes, ela morria o motor bem na hora de entrar na vaga. Eu tinha que dar um jeito, com a ajuda de guardadores, de colocar o carro na vaga empurrada. Quando eu saia da aula, ela funcionava normalmente. Quando nos mudamos da Tijuca para a Lagoa, ela não quis ir. Ficou na garagem e só aceitou mudar no dia seguinte. Na verdade, o motor afogava de um jeito que era impossível desafogar. Só esperando mesmo...
Uma vez ela parou debaixo de muita chuva no acesso ao viaduto que dá acesso ao túnel Rebouças pelo lado da Lagoa. O trânsito que se formou foi de dar pena.
Meu pai confiava muito nos filhos e mesmo notando que o carro apresentava defeitos demais não imaginou que aquilo era consequência da forma de dirigir dos meus irmãos.
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