terça-feira, 5 de março de 2013

Easy-rider pelo Sul, Sudeste e Nordeste em 1986

No carnaval de 1986 desfilei na Mangueira juntamente com minha prima Luciene e minha Tia Terezinha. Na verdade, quem comprou a fantasia foi mamãe, mas papai ficou tão arrasado de ciúmes com ideia de ver mamãe “se exibindo” na Marquês de Sapucaí que ela acabou desistindo e me passando a fantasia para que eu desfilasse no lugar dela. Era uma fantasia de dançarina de frevo e a Mangueira foi a grande Campeã do Carnaval carioca de 1986.
Eu e Luciene prontas para o desfile da Mangueira,
na Marquês de Sapucaí, carnaval de 1986 - Mangueira Campeã
Em 1986 minha amizade com Gisela, que havia conhecido um ano antes nas férias passadas no Méditerranèe de Itaparica, estava mais sólida. Chegamos a alugar uma casa pequena e simples na praia de Geribá, em Búzios, onde passamos a maioria dos finais de semana daquele verão.
Combinamos viajar nas férias, marcadas para depois do carnaval. Saímos de carro e rodamos durante 30 dias - 6.000 Km com meu Chevette hatch bege.
Participando do show dos GM no Club Med Itaparica
Primeiro passei mais uma semana no Clube Mediterranée, em Itaparica. Dividi o quarto com uma paulista descendente de japonês. Não foi companheira como Gisela havia sido um ano antes, mas me ajudou quando passei muito mal por causa de uma maionese que comi no voo entre Rio e Salvador.
A estadia em Itaparica foi muito legal mas como a paulista era mais velha e muito quieta, acabei ficando sem uma companhia fixa. Conversei muito com o GO do Squash, Maurício, também carioca, mas ficava muito tempo sozinha. Outra desvantagem em relação ao ano anterior, foi que toda a programação tinha um gosto de “já te vi”.
De volta ao Rio, tive a surpresa de saber que Gisela, com toda a sua carência afetiva, tinha arrumado um namorado naquela semana e que, portanto, estava em dúvida se iria ou não manter a viagem marcada comigo.
Quase não acreditei! Um namorado de uma semana ser importante o suficiente para estragar uma viagem marcada há tempos! Conversamos muito e ela então pediu que eu fosse na frente, sozinha, que ela me encontraria em São Paulo.
Lá fui eu dirigindo sozinha pela Via Dutra. Uns dois dias depois Gisela pegou um ônibus no Rio e foi me encontrar em São Paulo.
Em São Paulo fomos a um bar tipo puby country que estava muito na moda. Logo na chegada encontrei o Wagner, que não via desde aquele domingo que fugi do Guarujá por causa da maluquice de minha prima Sandra. Wagner grudou em mim a noite inteira, cismou que eu tinha que sair dali para ir jantar com ele. Um chato! O tempo e a distância mudam sentimentos e percepções.
Seguimos para Curitiba e durante essa viagem passamos um grande susto. No meio da rodovia Régis Bittencourt, de um momento para o outro, começou a sair uma forte fumaça de dentro do console do carro. Era uma fumaça branca e Gisela começou a gritar. Joguei o carro para o acostamento e simplesmente arranquei com as mãos o console para ver da onde vinha aquela fumaça. Não era um console original de fábrica e por isso tive força para destruí-lo rapidamente. Descobri que a fumaça vinha de um pequeno amplificador de som que ficava escondido nesse console. Puxei os fios do equipamento e seguimos viagem com o painel do carro cheio de fios pendurados.
Em Curitiba, ficamos na casa da Tia Myrthes. Era a época auge do karaokê. Passávamos a noite nos bares ouvindo as vozes desafinadas em palcos improvisados.
Aproveitei para consertar o som e o painel do meu carro, ajudada por Marquinho, que eu havia namorado anos antes. Ele descobriu que eu estava em Curitiba e me procurou. Fez questão de me indicar e me acompanhar até uma oficina. Ele já estava casado, mas não casou com aquela ex-namorada que motivou o fim do nosso namoro. Mesmo assim, já casado, durante muito tempo, Marquinho costumava me procurar e me dava a maior atenção quando eu aparecia em Curitiba ou quando ele ia ao Rio.
De Curitiba seguimos para Joinville e Blumenau.
Blumenau
Eu e Gisela em Blumenau
Quando estávamos a caminho de Camboriú, Gisela insistiu para pegar o volante. Nunca gostei de ficar no banco do carona, principalmente em estradas. Pior ainda se o carro é meu e eu não conheço a estrada nem confio na habilidade da motorista.
Ela tanto insistiu que, num ato de extrema boa vontade, entreguei o volante.
A BR 101 é muito perigosa no trecho de Santa Catarina até hoje, imagina em 1986.... Impaciente, Gisela saiu para ultrapassar dois caminhões que estavam em comboio. Percebi logo que não daria tempo de ultrapassar os três ou quatro carros mais possantes que o meu chevettinho que estavam atrás do comboio, além dos caminhões, mas fiquei quieta esperando que ela mesma percebesse e desistisse da ultrapassagem. Mas ela insistiu até que surgiu um caminhão Mercedes-Benz azul escuro vindo em nossa direção. Ela já estava entre os dois caminhões quando eu gritei que não ia dar e ela percebeu o perigo. Gisela freou, mas não havia espaço para o meu carro entre os dois caminhões. O caminhão que vinha atrás até tentou frear, mas o tempo necessário para que o caminhão da frente se afastasse o suficiente, andando em baixíssima velocidade, não seria suficiente para abrir espaço para o chevette. Ela, sem observar que o caminhão que vinha em nossa direção já havia desviado para o acostamento, ficou literalmente parada no meio da estrada. Então, engatou uma primeira e levou o carro para o acostamento da outra pista, onde já estava o Mercedes Benz azul. Nunca imaginei que a estrela da marca Mercedes que fica na frente do caminhão pudesse crescer de forma tão rápida.
Felizmente, o motorista desviou de novo para a pista e passou por nós com a mão na buzina. Que susto! Lembro das caras assustadas dos motoristas que estavam nos carros que continuaram atrás dos caminhões. Entendi que a morte pode vir de forma muito rápida e inesperada.
Por causa do nervoso que passei na estrada, fiquei muito irritada com Gisela e demorei a recuperar meu bom humor - detestei Balneário Camboriú. Que me perdoem os catarinenses, mas a praia tem uma cor feia e uma areia é dura demais. Em compensação, descobrimos uma praia linda, até aquela época pouco explorada chamada Laranjeiras – que lugar especial! Passamos ótimos momentos curtindo a praia, a cerveja e deliciosos camarões empanados.
Praia de Laranjeiras
Depois seguimos para Florianópolis e ficamos hospedadas no Hotel Cris, em frente à praia da Joaquina.
Praia da Joaquina
Lagoa da Conceição - Floripa
Meu chevette, eu e Gisela na Praia de Bombas

Conhecemos a maior parte das praias da ilha e lembro de um jantar maravilhoso num restaurante chamado Martin Pescador. Depois passamos dois dias em um hotel localizado na estância termal de Santo Amaro da Imperatriz.
De lá, voltamos pelo litoral com a intenção de chegar a Ilha do Mel.
Forte na Ilha do Mel - Paraná
Para chegar à ilha, era preciso deixar o carro em Pontal do Sul e achei o local inseguro já que o Chevette hatch possibilitava a visão de todo o interior do carro e da mala, sendo impossível carregar toda a nossa bagagem para a ilha. Contra a vontade e sob protestos de Gisela, voltamos para Curitiba, onde deixei o carro na casa da Tia Myrthes, seguindo para Ilha do Mel no dia seguinte. Na noite que passamos em Curitiba antes da viagem de volta ao litoral, fomos a um bar de karaokê junto com os filhos da Tia.
A caminho da Ilha do Mel, aproveitamos para fazer o passeio de litorina pela Serra do Mar, que desce de Curitiba até Paranaguá, um lindo passeio que eu já havia feito com meus pais quando voltava da competição de natação em Porto Alegre, mas que sempre é valido repetir (aliás, repeti algumas vezes quando morei em Curitiba anos mais tarde).
Vale registrar que foi Gisela quem propôs a inclusão da Ilha do Mel em nosso roteiro. Ela praticamente condicionou sua participação na viagem à inclusão da estada na ilha paranaense. Com bastante ênfase, argumentou sobre seu louco desejo de conhecer a ilha.
Pois bem; depois que desembarcamos do trem em Paranaguá, pegamos um ônibus para Pontal do Sul que tinha até galinha a bordo. Para mim, uma curtição. Já para Gisela essa viagem foi bastante desagradável. Em Pontal do Sul, demoramos um pouco a conseguir um barco já que estávamos na baixa estação. Finalmente, chegamos à ilha no final da tarde. Apesar do meu bom astral, também me incomodei quando percebi que não havia um píer e que teríamos que descer na praia com água pela cintura, carregando as malas com dificuldade.
Já na ilha, fomos informadas que a única pousada exisitente era uma casinha de madeira à beira da praia onde um casal idoso alugava um ou dois quartos. Andamos até lá, uma boa caminhada. A casa era simples demais e a dona Quinota, com toda a boa vontade do mundo, foi para cozinha fritar uns peixinhos que comemos com arroz e feijão.
De repente, Gisela resolveu que preferia voltar para Curitiba e queria que eu caminhasse tudo de volta até a praia onde ficavam os barcos para tentar um transporte de volta ao continente. A noite já vinha chegando e começou a chover bastante. É claro que não chegamos a um acordo e permaneci irredutível com relação à proposta dela. Gisela ficou num mau humor insuportável.
Felizmente a casa tinha energia elétrica fornecida por um gerador, mas não tinha televisão e às dez da noite tudo ficava escuro. Fomos dormir bem cedo ouvindo o delicioso barulho da chuva. Para mim, tudo era novidade e eu gosto muito desses lugares rústicos e aconchegantes.
Gisela, que havia se interessado por um dos filhos da Tia Myrthes, não tinha tido coragem de assumir que preferia curtir karaokê em Curitiba a realizar seu sonho de conhecer a Ilha do Mel.
Aqui vale um detalhe interessante: ela passou a viagem inteira falando do Cláudio, telefonando (de orelhão) para o Cláudio e comprando presentes para ele. Mesmo viajando, ela pegou no pé do rapaz. Apesar disso, não deixou de se interessar pelo Kalo e, ainda por cima, estragou nosso passeio à Ilha do Mel por causa disso.
No dia seguinte, apesar do sol, ela insistiu em voltar para Curitiba e achei que não valeria a pena permanecer ali com uma pessoa tão insatisfeita. Tive tempo apenas de tirar umas fotos nas ruínas do Forte e na praia em frente à pousada.
Ficamos mais uns poucos dias em Curitiba e acabou não rolando nada entre Gisela e Kalo.
Voltamos para São Paulo, onde estive com os pais de minha amiga de infância, a Keila. Almoçamos num fast-food e falei um bocado de bobagens se considerarmos que estava almoçando com um pastor adventista dos mais ortodoxos. Falei coisas do tipo:
- Ah, pelo meu pai, eu tinha que ficar o tempo todo em casa rezando - entre outros “micos”.
Seguimos então para Belo Horizonte.
Belo Horizonte - Mineirão ao fundo
Lagoa da Pampulha e o Mineirão
Ficamos na casa de um rapaz que eu havia conhecido no carnaval anterior, quando desfilei na Mangueira. Ele foi super educado, foi para a casa da mãe dele e nos ofereceu seu apartamento que ficava na região da Pampulha. Era um rapaz bonito, alto, de cabelos lisos e negros chamado Eduardo, mas não sei porque nunca senti qualquer atração por ele. Acho que o decepcionei. De lá, seguimos por estradas cheias de curvas e serras até Porto Seguro, dormindo em Nanuque.
kkkkkkkk
Marco do Descobrimento do Brasil em Porto Seguro

De início ficamos na pousada Casa Blanca, em Porto Seguro. Conhecemos dois rapazes de São Paulo – Renato e Vítor, que não tinham a menor pena de colocar o carro em estradas esburacadas. Foi nossa sorte, pois com eles foi possível conhecer Trancoso. Viajamos de carona com eles – em 1986 a estrada para lá era muito ruim.
Depois que os paulistas foram embora conhecemos um rapaz chamado Fernando. Êta homem bonito! Ele estava em Porto Seguro havia um tempão para se refazer do estresse de ter sido demitido do banco onde trabalhava. Pouco depois do Plano Cruzado muitas pessoas perderam o emprego, em especial os bancários.
Depois, Gisela precisou voltar para o Rio e eu decidi emendar com o feriado de primeiro de maio (afinal, se comecei a viagem sozinha....) Levei-a na rodoviária e mudei para uma outra pousada, em Arraial da Ajuda, onde Fernando estava hospedado. Passei os últimos dias da viagem na companhia dele.
Foram dias muito tranquilos, a “lambada” estava arrebentando. Comia em restaurantes simples que serviam prato feito, o famoso PF, e acabei conhecendo muita gente que morava por ali, pessoas totalmente diferentes de mim e com uma conversa muito zen e muito doida. Nunca me esqueço de um rapaz de cabelos encaracolados, consumidor de chá de cogumelos que afirmava que sua cabeça era um ovo!
Não havia ponte e a balsa exigia que os carros subissem
apoiados nessas tábuas
Chiquinho, o que se sentia um "ovo de pernas" e Fernando


Eu e Fernando voltamos juntos para o Rio no meu carro. Fiquei empolgada com Fernando por um tempo, mas ele tinha um namoro antigo e complicado e eu entendi que era melhor não insistir naquela furada.

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