sexta-feira, 8 de março de 2013

O fim do BNH


Em 21 de novembro de 1986, o BNH foi extinto.
Jamais vou esquecer que cheguei ao banco um pouco mais cedo que o normal porque tinha um assunto pendente. Ao chegar à minha mesa, notei que havia um papel em cima da mesa - era uma cópia de uma matéria publicada no jornal daquele dia que dizia: ”Sarney decreta a extinção do BNH”, e tinha um desenho de um prédio com uma placa no alto onde se lia BNH sendo explodido.
Passei os olhos, mas não consegui captar a abrangência daquela informação com rapidez. Era uma notícia tão surreal que a gente custa um pouco a entender e mais ainda a acreditar. Deixei minha sala e fui telefonar na sala da secretária do chefe da SECOM. Fiz a ligação interurbana e enquanto esperava que me atendessem, vi que a cópia da matéria também estava sobre a mesa da secretária. Peguei para ler, mas fui interrompida pela voz do outro lado da linha.
Voltei para minha sala e só então captei o que dizia aquela matéria. Captei mas não entendi. Como assim? Como assim? Acabou? Como acabou? Isso não é possível! Não se acaba assim com uma estatal como o BNH - pelo menos, em 1986, essa possibilidade nem era considerada.
Olhava em volta e não conseguia entender. Meus colegas começaram a chegar e começamos a discutir e a entender o que tinha acontecido. Até a véspera, nunca se tinha ouvido falar na possibilidade de extinção do BNH. Passamos o dia conversando, brincando com o slogan da Caixa – “Vem pra CAIXA você também. Vem!” (já se pensava na absorção do quadro de empregados do BNH pela Caixa que tinha absorvido empregados de algumas instituições financeiras que haviam sofrido intervenção, como a Delfin).
Durante toda a manhã, não houve qualquer manifestação da diretoria, dos empregados ou da associação de funcionários. Acho que estavam todos tentando decifrar, entender, absorver a notícia.
No final da tarde houve uma reunião na portaria do prédio entre os empregados e a Associação dos Funcionários do BNH. Aquilo não podia estar acontecendo. Não era plausível.
No final do dia, enquanto caminhava em direção a meu carro, de repente, a ficha caiu de vez. Parei, olhei para trás e para aquele prédio de 31 andares e então me dei conta que talvez eu não pudesse mais estar ali no dia seguinte. Caí em prantos. Chorei compulsivamente. Entrei no carro e levei algum tempo até ter condições de sair dirigindo.
De lá fui para o escritório onde tinha sido a agência de publicidade do meu namorado Leonardo. Ele tentou me acalmar, argumentava que eu tinha apenas 27 anos e que não me faltaria emprego. É claro que eu temia perder meu emprego, uma situação até então impensável para uma pessoa contratada por meio de concurso público, mas o sentimento era o de uma pessoa que acabava de ser roubada de um bem muito precioso. É uma violência que a gente sofre e que precisa de um tempo para aceitar.
Os quinze dias seguintes foram de vigília nas dependências do banco. Ninguém subia para os andares, que estavam fechados, mas passávamos o dia no saguão do prédio e nas áreas externas.
De uma cena jamais esqueci: uma colega que trabalhava no mesmo andar que eu,  e perdeu o filho ao nascer poucos dias antes. Eu a vi sentada numa cadeira de praia no saguão do prédio, ainda com os pontos da cirurgia. Senti uma pena enorme daquela mulher.
Uma de minhas amigas poetas, Ângela, tinha toda a família ligada ao banco: além dela mesma, sua mãe, falecida pouco tempo antes, era funcionária, assim como seu pai e seu cunhado. Estariam todos em risco de perder suas rendas mensais. Quem poderia segurar a barra se todos ficariam sem salário?
Edinho estava estagiando no BNH e me acompanhava na vigília. Estávamos todos muito nervosos e um dia arrumamos uma briga com um tal de “Azeitona” (nunca soube o nome dele) porque ele resolveu que eu não poderia entrar com meu carro no estacionamento para o qual eu tinha credencial. Foi uma situação desagradável e ele chegou a partir para a agressão em cima do meu irmão. Depois, chateado porque foi desautorizado pelo presidente da AFBNH, voltou e arranhou meu carro em ambas as laterais da frente até a traseira. Acabei me descontrolando e quando o encontrei gritei palavras agressivas e desabonadoras. Um papelão. Precisaram me segurar para eu parar de ofender o homem.
Sim; uma característica muito forte da minha personalidade é ser muito suscetível a perder o controle quando me vejo diante de uma situação de injustiça para comigo ou para com uma pessoa mais frágil. Sou capaz de comprar brigas com pessoas que nada me fizeram se considero que ela agiu errado com alguém que gosto.
Tenho tentado suavizar essa característica porque, ao mesmo tempo que em algumas situações transparece como qualidade, também me expõe as mais diferentes interpretações e julgamentos. Acabo absorvendo problemas que originalmente não são meus. Algumas vezes, comprei brigas por amizade e depois vi o injuriado de braços dados com o algoz enquanto eu ficava definitivamente queimada.
Finalmente decidiram que a CAIXA absorveria não apenas as obrigações, como também o quadro de funcionários do BNH.
Ainda assim, afirmo que extinção ou absorção, fusão ou venda de uma empresa é sempre muito traumatizante. Geralmente, os chefes, as pessoas que construíram suas carreiras e alcançaram postos de destaque, são as primeiras a serem dispensadas, pois na maior parte das vezes, existe alguém na outra empresa que exerce função semelhante e que não está disposto a conviver com concorrentes.
Frequentemente, chegava uma lista com as pessoas que deveriam ser transferidas para algum lugar da CAIXA - o que era dramático. Ainda mais que a maioria absoluta tinha pavor de ter que trabalhar numa das agências bancárias, inclusive eu.
Recebi convite para mudar para Brasília, com a função de assessora, mudança paga, mais um ou dois salários e mais apartamento funcional. Não quis. Não me imaginava morando numa cidade ainda pequena, onde não conhecia ninguém e ainda por cima sem praia.
Não sei se agi corretamente, mas neguei. Apenas Virgínia, que trabalhava comigo, e seu marido Nilo, também do BNH, aceitaram a proposta.
Angustiada com medo do que poderia me acontecer ao ter que trabalhar na CAIXA, sai a procura de outro emprego. Fui selecionada para trabalhar como aeromoça da VARIG, mas esbarrei numa mulher idiota que disse que a pele do meu rosto comprometia a minha aparência! Até miss eu pude ser com minhas marquinhas de acne e aquela abestalhada vem dizer que eu não servia para ser aeromoça por causa disso! Depois me dei conta que ela havia me feito um grande favor – eu não tenho mesmo o menor talento para ficar servindo os outros.
Pedi a Leila Cordeiro, que estava no auge de sua carreira na TV Globo, para ver se havia possibilidade de uma vaga para repórter de TV. Poucos dias depois ele me disse que tinha conseguido que eu fizesse um teste para apresentadora de telejornal.
Apresentadora!
- Mas...mas....mas – gaguejei - Eu pensei em reportagem. Não estou preparada para um teste desses.
- Mas agora já está marcado. Você não vai querer? – Perguntou ela ao telefone.
- Vou querer sim. Se já está marcado, eu vou.
Passei os dias seguintes lendo textos e mais textos em voz alta, mas sabia que me faltava uma orientação profissional, faltava experiência e dicas para marcação do texto.
No dia do teste, cheguei à sede da Lopes Quintas vestida conforme orientado pela Leila. Liliane Rodrigues tinha acabado de apresentar o RJ TV e eu sentei na mesma bancada para refazer o jornal, que seria gravado e apresenado à Alice Maria – a chefona do jornalismo da TV Globo naquela época.
Não pude ler o texto antes, não havia tempo.... (até apresentadores experientes lêm o texto antes de gravar). Colocaram um microfone na lapela de meu paletó, apontaram a câmera para mim e fizeram sinal para eu começar.
A primeira notícia foi lida de forma impecável, mas na segunda ou na terceira eu me enrolei e parei. Eles pararam a gravação e pediram para eu recomeçar da notícia que tinha interrompido. A partir daí foi um grande desastre.
Meu coração batia tão forte que eu escutava claramente cada batimento. Fiquei tão impressionada que pensei que o microfone poderia captar o som das batidas do meu coração. Errei muitas vezes. Ouvia o pessoal da mesa de controle pedindo para que eu me acalmasse, mas não adiantava. A fita foi bem editada e meus erros escondidos. Quando assisti ao telejornal editado, constando inclusive os VT’s das matérias que tinham ido ao ar, gostei do resultado, mas sabia que a quantidade de erros seria considerada.  Também chamaram a atenção para o fato de que meu nervosismo havia comprimido minha garganta e minhas cordas vocais, o que tinha alterado minha voz.
Esperei pela chegada dos meus tios Leila e Eliakim. Leila viu a fita e disse que tinha gostado. No dia seguinte ela apresentou o teste para Alice Maria que concordou que eu tinha talento para aquela atividade, mas precisava de muito treino e eles já estavam investindo no treinamento de uma nova e então desconhecida apresentadora – Fátima Bernardes.
Depois disso, fiz um curso de locução para rádio, TV e teatro na Faculdade Hélio Alonso, em Botafogo.
Voltando à Caixa, em meados de 1987, consegui me "enCaixar" no gabinete de um diretor do BNH que tinha mantido sua função na CAIXA por se tratar de uma área até então inexistente: a área de saneamento e desenvolvimento urbano.
Na verdade, consegui esta vaga porque usei de um método que nunca me agradou mas que me foi viabilizado pelo tal diretor, que me conheceu num dos eventos do BNH e já tinha tentado se aproximar de mim com um óbvio interesse sexual. Era um homem de pouco mais de quarenta anos, paranaense, casado e muito “galinha”.
Cortei a dele sem deixar opção, mas na hora que me vi encurralada, enfiei o orgulho no saco e fui pedir guarida. Ele imediatamente me encaixou no seu quadro de secretárias, mas passou muito tempo dando em cima de mim.
Como os homens podem ser desagradáveis e inoportunos. O gabinete inteiro percebeu as intenções daquele chato. Um dia inventou e praticamente convocou a equipe para uma noite na boate Hippopotamus, a melhor do Rio naquela época. Deu uma de ridículo insistindo em dançar comigo e ficar me abraçando na frente de toda a equipe. Como ele ficou bêbado, chegou a se ajoelhar na minha frente pedindo que eu "namorasse" com ele.   No dia seguinte, ainda mandou duas dúzias de rosas vermelhas para minha casa – agradecendo “pela noite”. Que noite? 
Aproveitei todo o tempo e a folga que tinha com o pouco trabalho na DIRUB para buscar uma maneira de voltar à área de Comunicação Social. Como a diretoria tinha alcance nacional, fiquei atenta às oportunidades que poderiam surgir em outros estados. Também me inscrevi num concurso que selecionaria pessoas para fazerem um curso de repórter televisivo na TV Manchete. Fui aprovada!  
Na DIRUB – Diretoria de Desenvolvimento Urbano, conheci pessoas muito legais, em especial a Leila Márcia e Claudinha. Conheci também Nazira, uma mulher amargurada que não conseguia ser feliz.
Apresentei Nazira à Marcia B. e elas ficaram amigas. Passamos a sair juntas, mas logo me afastei porque não tinha mais vontade de passar noites e mais noites na Hippopotamus nem em outros “points” nas noites cariocas. Elas conviveram muito por cerca de um ano, até que brigaram feio numa ida ao Club Med Rio da Pedras, em Mangaratiba.
Cheguei a passar o Réveillon de 1987/1988 com Nazira e Sueli na nova casa de praia que meu pai havia comprado em Rio das Ostras, mas depois nos afastamos de vez. Nazira morreu ainda jovem porque nunca mais se recuperou por ter sido forçada a trabalhar numa agência e, deprimida, pegou uma doença incurável. Sueli morreu em agosto de 2008, em consequência de um acidente em que ela foi atropelada pelo trem de minério de Muriqui, que ela ainda frequentava, aliás, morava.
Trabalhei na DIRUB até novembro de 1988, quando me mudei para Salvador.

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