Assim, em julho de 1973, embarquei para minha primeira viagem internacional. Viajamos eu, Elaine, Luciene (que também ganhou a viagem como presente de 15 anos com dois anos de antecedência) e uma outra menina chamada Fátima, filha de amigos dos meus tios, pais da Elaine. Éramos as mais velhas de um grupo de outras 11 crianças. Viajamos pela falida Brazilian Express num avião fretado, um 707 da também falida Braniff (affff!!! É duro escrever sobre coisas antigas....!!!!)

Ficamos hospedadas no Hotel Barcelona, em Miami Beach, ao lado do famoso Hotel Fontainebleau. A primeira vez que vimos uma porta automática foi nesse hotel. Os meninos mais novos ficavam horas “testando a porta” - pisavam no tapete de borracha vermelho que acionava o sistema e esperavam a porta abrir. A porta não abria para os lados como hoje e sim para dentro, fazendo muito barulho. A diversão era ver a porta abrir e fechar.
Era a primeira vez que ficávamos longe do controle de nossos pais.
Depois dos primeiros passeios ainda em Miami, Seaquarium, Parrot Jungle, e Cypress Garden, visitamos também a NASA, no Cabo Canaveral a caminho de Orlando. A cidade de Orlando naquela época, era ainda muito pequena, com poucos hotéis sendo que a maioria estava em fase de construção. A Disneyworld havia sido inaugurada menos de dois anos antes. Ficamos num hotel simples e novinho chamado Court of Flags.
A maior lembrança que tenho desse hotel é da máquina de gelo que ficava no corredor de cada um dos andares. Era uma novidade que rendeu muitas brincadeiras. Também havia as, até então desconhecidas dos brasileiros, máquinas de venda de refrigerantes. Um dos meninos do grupo aprendeu a puxar as latas de Coca-Cola com as mãos e a gente formava fila para ganhar uma latinha. Quase fomos pegos pelo segurança.
Disney – um deslumbramento! Nessa época só havia o Magic Kingdon, nada de MGM, Epcot Center e os outros parques que foram surgindo depois. Mesmo o Magic Kingdon era muito menor do que é hoje. As atrações que mais marcaram nessa época foram a “Hunted Mansion”, o show dos ursinhos (maior fila que já peguei na minha vida), o Hall dos Presidentes, o monorail, as xícaras, o teleférico e, claro, o “Small World”. O desfile de encerramento foi inesquecível, assim como o tamanho dos cavalos que puxam os bondes pela “Main Street”.

Na Hunted Mansion, chega um momento em que se embarga num carrinho pequeno e escuro. Depois de passarmos por um baile de fantasmas e de uma cabeça verde que fala dentro da bola de cristal, passamos em frente a um espelho onde, além do nosso reflexo, aparece um fantasma também verde. Interessante é que cada carrinho tem um fantasma diferente. Nesse momento, Elaine se desesperou com medo do fantasma e se jogou em cima da Fátima que dividia o carro com ela. O fantasma aparecia sentado ao lado dela e ela gritava tanto que chamou a atenção de todos que estavam passando pelo espelho na mesma hora. Fátima também gritava, mas era de dor porque Elaine, em meio ao seu desespero, enfiou suas unhas na Fátima que chegou lá fora toda arranhada nos braços e nas costas.
Compramos muitas lembranças! Um exagero, como costumam fazer os brasileiros, ainda mais na primeira viagem.
Como todo mundo que vai a Disney, a gente só comia hambúrguer, “hot dog” e “french fries”, e eu, para piorar, nessa época não comia galinha. Apesar disso, por absoluta falta de opção e muita fome, acabei provando uma chicken empanada. Esse foi um dos meus micos pagos na viagem porque ao pedir a chicken, me enrolei e pedi kitchen... - o atendente ficou me olhando sem entender nada. Como de costume, americanos não conseguem associar idéias para tentar entender um turista e ele nem pensou na possibilidade de eu falar kitchen e querer chicken....ficou me olhando com cara de bobo.
Uma noite, fomos comer num restaurante do hotel em frente ao nosso em Orlando. Era um buffet e eu fiquei com a boca cheia d’água quando pensei que estavam servindo estrogonofe. Não tive dúvidas, enchi o prato com arroz e o tal estrogonofe. Apesar de não ter visto pedaços de carne na travessa, a vontade era tanta que me servi assim mesmo, enchendo o prato e completando com arroz. Fui pra mesa toda feliz e quando dei a primeira garfada... quase não consegui engolir - era molho rosé!!! Perdi o prato inteiro!
Na volta a Miami passamos por um lugar que tinha uma rua cenográfica ao estilo do velho oeste americano e apresentava um show de faroeste, além de uma enorme montanha russa.
Em Miami tivemos uns dias livres e fomos nós quatro sozinhas para Miami City. A guia nos ensinou com antecedência, quando fomos a downtown com todo o grupo, que bastava pegar um dos ônibus das linhas L, S ou D (adivinha porque nunca esqueci?) e nos mostrou os pontos onde deveríamos pegar e onde descer dos ônibus. Era mesmo bem fácil e não haveria perigo de nos perdermos.
Parecia não haver perigo, mas aconteceu. Saímos do hotel eu, Elaine, Luciene e Fátima e fomos para Miami City.
Lembro que comprei calça e macacão Lee, casacos de nylon (estava na moda galera...isso foi em 1973!!!), discos que tinham um buraco no meio bem maior do que os que eram vendidos no Brasil, maquiagem e outras lembranças. Quando já tínhamos encerrado nossas compras, fomos para o ponto de ônibus correto e pegamos o ônibus certo. Entretanto, quando já estávamos um pouco afastadas da Flagler St, a principal rua de Downtown, percebi que havia esquecido uma sacola de compras na loja de discos. Era a sacola onde estavam os casacos que havia acabado de comprar. Sem pensar duas vezes e sem avisar nada às meninas, desci no primeiro ponto onde o ônibus parou. Estava tão atordoada que sequer avisei as meninas sobre o motivo pelo qual eu estava descendo do ônibus.
Não tenho a menor idéia do local em que estava, apenas comecei a tentar voltar pelo caminho que o ônibus percorrera. Andei muito! Nem sei quanto tempo. Angustiada, arrependida de ter saído sozinha e com medo. Finalmente achei a rua principal, achei a loja de discos, recuperei a sacola e voltei a pegar o ônibus para o hotel.
Quando cheguei ao hotel, não encontrei minhas primas nem as chaves do quarto na recepção. O jeito foi sentar no lobby e esperar.
Elas demoraram, mas chegaram. Chegaram muito brabas! Elaine passou pela porta automática e assim que me viu sentada no sofá do lobby do hotel começou a gritar comigo. Parecia que ia me esganar! Eu não entendi nada do porque daquele escândalo todo. Eu pensei que elas tinham ido ao mercado que ficava perto do hotel. Só então eu soube que elas se assustaram com o meu sumiço e desceram do ônibus um ponto depois. Andaram mais do que eu, sofreram mais do que eu, mas também conseguiram chegar. Aí meninas, desculpem, foi mal....
Foi no hotel de Miami que passei minha primeira noite em claro. Perambulamos pelo hotel e tivemos o prazer de ver o amanhecer na praia. Passamos a noite conversando com uns rapazes que estavam em outro grupo. Lembro bem de um Curitibano chamado Fernando Augusto – um gatinho que ficou dando em cima da Elaine, mas nada rolou entre os dois. Tinha também um outro mais gordinho, que não lembro o nome. Esse chamou a minha atenção, mas desanimei depois que ele apareceu andando de pernas abertas porque estava todo assado kkkkkk....porquinho o menino!!! Deve ter ficado sem tomar a quantidade de banhos devidos porque estava longe da mamãe!
Também fomos jantar no vizinho Hotel Fontainebleau. Pedi um filé, já que há dias não saboreava um bom bife. Estava bom, mas certamente foi um dos filés mais caros que comi na minha vida!
Foi muito bom ter viajado sozinha, quer dizer, sem meus pais. Despertou em mim um sentimento de independência que me ajudou muito em outras situações da minha vida.
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