Muriqui foi palco de muitas histórias, muitas amizades, muitos amores e também de muitas brigas. Não sei se o fantasma tal vítima de assassinato contribuía para conturbar os ânimos (como afirmou uma vez uma senhora médium que esteve lá em casa), mas o certo é que, de uma maneira geral, muitos hóspedes se comportaram com abuso, deselegância, comodismo e sem consciência das despesas que provocavam. A regra não eram brigas ao estilo bate-boca, mas insatisfações que motivavam o afastamento ou o esfriamento de algumas amizades.
A primeira grande perda foi justamente com a família que nos apresentou a Muriqui e que por tantas vezes nos convidou.
Logo de início meus pais faziam questão de estar sempre presentes na casa dos pais da Valéria - Maria Luíza e Fritz, e sempre os convidavam para aparecer lá em casa. Foram muitos convites sem resposta. Com o tempo, meus pais se sentiram desprestigiados porque tinham notícia de que eles frequentavam as casas de outras pessoas, mas nunca apareciam para nos visitar. Eu mesma não tenho qualquer lembrança de ver o tio Fritz lá em casa, sendo a única exceção o dia em que, a pedido da Valéria, foi mostrar um carro novo que havia acabado de comprar – um Brasília azul.
Mesmo namorando o Mauro a maior parte do tempo, eu não dispensava a companhia da minha amiga Valéria. Estávamos sempre juntas.
Nessa época, uma outra colega de escola estava em Muriqui. Ela era filha de uma amiga de minha mãe e se chamava Maria Beatriz. Como colega da mesma escola, ela também conhecia a Valéria.
De repente, sem que eu soubesse o porquê, Maria Beatriz passou a não falar comigo! Ela simplesmente passou a me virar a cara. Resolvi que não valia a pena tomar satisfações, já que minha consciência me dizia que eu não tinha feito nada contra ela e então, simplesmente, aceitei que não deveríamos mais nos falar.
Tudso isso aconteceu no verão de 1975, um ano depois de papai ter comprado a casa. Quando eu estava no Rio por alguns dias, a mãe de Maria Beatriz procurou mamãe para dizer que a razão pela qual ela estava zangada comigo foi provocada pela Valéria que já havia algum tempo, dizia muitas coisas desagradáveis sobre mim. Valéria dizia que eu achava Maria Beatriz insuportável (na verdade, eu disse que ela era “chatinha”), disse que eu detestava a companhia dela (mentira), disse também que eu não quis convidá-la para o ensaio da valsa do meu aniversário de 15 anos (mentira, porque não convidei ninguém que não fosse participar da valsa). Por pura coincidência, no dia do ensaio, que era o dia certo de meu aniversário, eu encontrei casualmente com Valéria (que também não ia dançar a valsa) e falei para ela aparecer – eu não decidi não chamar Beatriz, apenas não se tratava de uma festa, mas do ensaio da valsa para a festa, que aconteceria no sábado. Enfim, soube que a Valéria tinha feito a maior fofoca sobre muitas pequenas coisas, se utilizando de mentiras ou exagerando algumas verdades.
Quando voltei para Muriqui, mamãe me contou sobre usa conversa com a mãe da Maria Beatriz e me orientou a fazer um teste para saber se Valéria tinha realmente agido com maldade. Ela combinou com a mãe de Beatriz que, quando eu e ela nos encontrássemos na frente de Valéria, deveríamos agir como se nunca tivéssemos nos afastado e observar a reação dela. Já que Valéria era amiga de nós duas, a reação natural seria a de ficar feliz ao ver que havíamos feito as pazes.
Com tudo combinado, cheguei à praia e caminhei direto para onde elas costumavam ficar. Estavam juntas com outras meninas. Dei beijinhos na Valéria e em seguida cumprimentei Beatriz com beijinhos e sorrisos. A reação da Valéria a denunciou: ela olhou a cena da gente se falando e não disse uma palavra. Ficou com o olhar fixo, olhando na direção do mar, muito calada. Depois deitou na toalha de praia e cobriu o rosto com o antebraço. Reação típica de quem vê alguma coisa que não entende bem e fica preocupada. Que tristeza! Que decepção! Minha melhor amiga, com quem eu convivia desde os quatro anos de idade, havia me traído. Não sei se por ciúme ou se por inveja. Não sei por que razão, ela lançou muito veneno.
A partir desse fato, me dei conta de que outros amigos que eu tinha em comum com a Valéria haviam subitamente me gelado, em especial a Elaine Maiolino, companheira da natação no América. Quando as férias de verão terminaram, logo que cheguei ao Rio de Janeiro procurei por Elaine e contei o que havia descoberto sobre a Valéria e suas intrigas junto a Maria Beatriz. Então, fiquei sabendo que havia alguns anos que ela tinha o costume de falar barbaridades para Elaine com relação a mim.
A coisa funcionava assim: em algum momento eu comentei algo não muito lisonjeiro sobre a Elaine, que era uma menina muito alegre, mas um pouco espalhafatosa e de atitudes exageradas. Para complicar, eu e Elaine dividíamos em comum a paixão pelo Marquinho, o campeão da natação do América. Qualquer coisa eu eu falasse contra o comportamento da Elaine, era motivo para Valéria ir correndo contar para Elaine o que eu havia falado, sempre pintando tudo com cores forte e aumentado um pouco a história. Elaine, magoada, respondia falando algo de ruim sobre mim. Ela corria para minha casa e vinha me contar (morávamos as três na mesma rua, a Campos Sales, na Tijuca) Quer dizer, durante muito tempo ela fez jogo duplo, mas nunca contou para mim ou para Elaine que ela sempre dava apoio ao que uma falava da outra. Para piorar, com o passar do tempo ela chegou e inventar mentiras como dizer para Elaine e para a mãe dela, Icleide, que eu não gostava de visitá-las porque detestava casa de pobre. Essa mentira foi a que mais me marcou. A família da Elaine tinha realmente uma situação financeira menos privilegiada, mas eram pessoas maravilhosas, gentis e muito educadas. Sempre me trataram com atenção e carinho. Freqüentávamos o mesmo clube e tínhamos as mesmas amizades. Nunca discriminei Elaine por isso. Ainda assim, foram tantas as fofocas e mentiras que acabamos nos afastando e mesmo depois que descobrirmos as ações maldosas da Valéria, não foi possível retomar a amizade.
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