No verão de 1975, exceto pela decepção com minha então melhor amiga, as férias foram bem tranqüilas. Eu estava namorando o Mauro e ele ficou hospedado lá em casa. Elaine, minha prima, também ficou muitos dias com a gente. Ela era mais extrovertida do que eu e, aos dezesseis anos, já tinha alguma experiência com namorados. Eu, super inocente, continuava namorando apenas na base dos abraços e beijos na boca. Elaine então veio me perguntar se eu já tinha deixado o Mauro passar a mão nos meus seios. Assustada respondi:
- Claro que não!
- Por que não? – devolveu ela – Há quanto tempo vocês estão namorando?
- Três meses. – respondi.
- Três meses e você ainda não deixou ele passar a mão nos seus seios!? Que absurdo! Você tem que deixar.
- E namorado pode passar a mão nos seios da namorada? – perguntei surpresa.
- Calor que pode! Você não sabia?
- Não - respondi.
Depois dessa conversa fui perguntar a mamãe se era normal o namorado passar a mão nos seios da namorada e a resposta que minha mãe me deu foi fantasticamente surpreendente:
- Depende. Se você gostar dele e sentir vontade de deixar que ele passe a mão; pode sim. Você é quem sabe.
Fiquei mesmo muito surpresa. Entendia que qualquer relação mais profunda só acontecesse depois do casamento. Como eu podia me manter tão ingênua aos 15 anos de idade? Principalmente já sendo uma mulher de 1,72 m de altura!
Mas o pior veio depois. A curiosíssima Elaine foi perguntar ao Mauro porque ele ainda não tinha passado a mão nos meus seios!!!! Dá para acreditar? Ele olhou para ela absolutamente espantado com a pergunta e respondeu que eu não deixava ele passar a mão.
- Ela disse que você nunca tentou – informou ela ao Mauro.
- Eu não tentei? Ela é que nunca deixou! Estou tentando há muito tempo.
Assim, numa noite de janeiro de 1975, soube pela primeira vez o que é sentir as mãos de um homem me tocando.
No dia seguinte, senti uma forte rejeição ao Mauro. Sentia-me invadida e ultrajada. Não quis muito assunto com ele e talvez, se ele não estivesse hospedado na minha casa, o namoro teria terminado. Mas, com o passar do tempo, superei o “trauma” e o namoro continuou. Pode parecer ridículo, mas estou falando de uma época em que tudo era segredo, proibido e feio. Nos anos 70 as fontes de informação eram muito restritas, principalmente quando o assunto era sexualidade juvenil.
Nesse verão Elaine namorou um rapaz chamado Marco Antônio Lobo.
Marcos já era maior de dezoito anos e dirigia um velho aero-willys do pai dele.
No dia que Elaine e Marcos se conheceram, eu paguei um grande mico. Estávamos eu, Mauro, Elaine e Luciene na boatinha do Country Club quando Elaine reconheceu em Marco o mesmo gatão que ela tinha visto jogando volei de praia pela manhã. Os dois logo se aproximaram e ficaram um tempo conversando até que Elaine veio nos comunicar que iria sair do clube para dar um passeio de carro com ele.
Eu, Mauro e Luciene ficamos muito preocupados. Sair de carro com um rapaz que ela nem conhecia! E se ele fosse meio tarado e tentasse fazer algo errado com ela? Na intenção de proteger a “honra” de minha prima maluquinha, eu, Mauro e Luciene saímos a pé do clube e fomos procurar o carro do Marquinho na praia.
O carro estava estacionado entre a rua, ainda sem calçamento, e a areia da praia, embaixo de uma árvore. Ficamos os três vigiando o que estava acontecendo e víamos os dois apenas conversando. Estávamos tentando nos esconder atrás de uma árvore e Mauro resolveu chegar mais perto, Foi andando meio agachado e quando já estava bem próximo do carro, Marco acendeu o farol. Mauro tentou sair correndo, mas Elaine o reconheceu e o chamou para saber o que estava acontecendo.
Muito sem graça, inventamos que meu pai havia estado no clube e que tinha ficado irado por não encontrar Elaine conosco. Que era melhor irmos imediatamente para casa sob pena de criarmos um sério problema com papai, que ameaçou nos proibir de freqüentar o clube caso não voltássemos para casa rapidamente. Marquinho então se prontificou a nos levar em casa. Muito sem graça, entramos os três no banco de trás e ficamos quietos até chegar à esquina de casa, já que era mais conveniente que papai não ouvisse o som do motor. Descemos do carro e Elaine foi logo querendo entrar em casa para tentar limpar a barra dela. Foi quando, as gargalhadas, contamos para ela que era tudo mentirinha. Que na verdade a gente estava muito preocupada por ela ter saído do clube com um desconhecido. Elaine focou pasma e nos fez voltar para o clube. Pior, ela contou toda a verdade para o Marco. Que vergonha! Ele deu risada de nossa cara dizendo que não imaginava que ele pudesse ser confundido com um tarado.
Mauro foi meu primeiro namorado mais firme e ficou hospedado em Muriqui por todo o verão.
Na primeira vez que Mauro foi a Muriqui, um final de semana de dezembro, a cidade estava bem vazia. Na noite de sábado fomos ao Country Club para a tradicional “boatinha” dos finais de semana. Nessa época eu não bebia nada que contivesse álcool. Mauro, apesar de ter apenas 15 anos, bebia cerveja ou “cuba-libre”. Nessa noite ele tomou apenas uma dose de cuba e apagou ainda no clube. Ele, simplesmente, caiu no sono. Resolvi levá-lo para casa e, felizmente, apesar de desacordado, ele conseguia caminhar apoiado em mim. Carreguei aquele rapaz de mais de 1,80 m até em casa, distante cerca de um quilômetro do clube. Que sufoco!
Quando chegamos em casa, levei Mauro para o banheiro porque tinha receio que ele pudesse vomitar. Deixei-o sentado no vaso sanitário e fui chamar mamãe pra me ajudar. Como ela também não tinha a menor experiência em lidar com gente bêbeda, tiramos o sapato e a camisa dele e o pusemos na cama para dormir.
No dia seguinte, Mauro custou a acordar e quando acordou, demorou demais a levantar. De repente, ele levanta com a calça jeans na mão e procura minha mãe para dizer que tinha feito xixi na cama. Mauro pediu ajuda à mamãe, que colocou o lençol para lavar, molhou o colchão com água limpa e pôs no sol para secar.
Mauro contou que, tão logo acordou, percebeu que tinha dormido de calça jeans e se sentia úmido abaixo da cintura, achou que havia alguma goteira no teto do quarto e que a água da chuva o tivesse molhado. Depois percebeu que não havia sinais de água no teto e ficou um tempo tentando encontrar uma resposta. Só depois se deu conta de que ele, aos quinze anos, havia feito xixi nas calças enquanto dormia. Anos depois, quando conversamos, ele disse que o trauma da adolescência dele era lembrar daquele colchão exposto ao sol na casa da primeira namorada... Um dos maiores “micos” que pagou na vida.
Tempos depois entendi que o Mauro não estava bêbedo. Ele, muito provavelmente, foi drogado por alguém que colocou alguma coisa no copo dele. Como era um rapaz forte e resistente, não desabou por completo. Foi a minha sorte!
Elaine acabou passando todo o verão de 1975 em Muriqui e firmou namoro com Marquinho. Ele tinha uma ex-namorada chamada Wilma que não se conformava em vê-lo de namoro com Elaine. Essa garota aprontou muito! Vivia tentando dar um jeito de perturbar a paz da gente. No carnaval ela partiu mesmo para a agressão: primeiro deu uma pisada que obrigou a Elaine a passar o dia com o pé para cima e ter que enfaixá-lo para poder brincar carnaval à noite. No dia seguinte, conseguiu dar uns socos na cintura da Elaine por entre os braços do Marquinho que tentava conter a agressividade dela. Enquanto fingia dançar, deu uma “bundada” que quase derrubou minha prima no chão. Parecia uma louca! Como se isso fosse trazer o namorado de volta...
Marquinho era um rapaz muito, muito sério; pouco falava. Era realmente difícil vê-lo sorrir. A exceção foi no dia em que estávamos os dois casais passando por uma rua a caminho da praia e cruzamos com um menino de bicicleta. O menino era muito feinho e Marquinho comentou com a Elaine sobre a feiúra daquela criança. Elaine concordou, mas avisou que se tratava do irmão de uma amiga nossa. Ele ficou surpreso e continuaram andando em direção à praia. Logo em seguida, passou uma menina de cerca de treze anos e ele também achou muito feia. Novamente ele comentou com a Elaine. Mais uma vez ela concordou com ele, mas avisou que se tratava da irmã da mesma amiga que era irmão do menino feio que acabara de passar. Ele ficou ainda mais surpreso porque, afinal de contas, a tal amiga nossa era uma moça bonita e não fazia sentido ter irmãos tão feios. Continuaram seguindo pela rua quando passou uma senhora. Apesar da maneira discreta de Marquinho, ele não conseguiu deixar de reparar na feiúra daquela mulher e chamou a atenção da Elaine. Foi quando, já dando risada, ela disse a ele que se tratava da mãe da nossa amiga. Marquinho então deu uma gargalhada forte e precisou apoiar-se no muro de uma casa para não cair de tanto rir. Os dois chegaram a chorar de rir por causa da coincidência dele, apesar de ser uma pessoa de atitudes discretas, ter se impressionado tanto com a feiúra de uma família inteira, sem saber que formavam a família de uma de nossas amigas.
Eu e Mauro, que vínhamos logo atrás, vimos os dois rindo de forma tão escandalosa que corremos para perguntar o por quê de tanto riso. Acabamos caindo na gargalhada e, até hoje, tenho vontade de rir quando lembro desss passagem.
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