sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Nossa casa em Muriqui

No dia primeiro de janeiro de 1974, um réveillon que passei na casa de minha amiga Valéria, em Muriqui, meus pais apareceram por lá falando em comprar uma casa de praia. Quase não acreditei!
Eles ficaram tão enciumados em ver minha felicidade de passar o réveillon em Muriqui, abrindo mão até de um importante campeonato de natação, que resolveram que era a hora de ter uma casa de praia.
Não chegamos a ver muitas opções e logo achamos uma casa grande, em estado de abandono, escondida atrás de uma densa vegetação que escondia toda a fachada. O preço da casa era bem mais alto do que a média das outras que tínhamos visto, portanto acima das possibilidades de papai. Ainda assim, ele deixou por escrito uma proposta que tinha tudo para ser recusada: menos da metade à vista e o restante em cem prestações irreajustáveis!!!!
Por incrível que pareça a viúva, dona da casa, uma ricaça que tinha mais de 50 casas em Muriqui, aceitou a proposta de papai. Parece que a casa estava à venda havia muito tempo. Alguns vizinhos contaram que ela gostava de frequentar aquela casa com o marido e que depois que ele morreu ela não quis mais ficar ali. A casa estava à venda havia muito tempo e parece que, por causa disso, ela aceitou a proposta de papai. Diziam ainda que houve um assassinato dentro da casa muitos anos antes, quando um caseiro matou a mulher com uma facada e que por isso não apareciam interessados na compra do imóvel. O fato é que, para nossa sorte, ela aceitou a proposta.
Em 10 de janeiro de 1974 meu pai assinou a escritura de compra e venda. Nesse dia foi o casamento de minha Tia Vânia, com um lindo médico ainda em período de residência chamado Ruy. Eu fui dama de honra, juntamente com Elaine. Lembro que quando a noiva jogou o buquê, fui eu quem pegou. Verdade que voei na direção dele, e olha que eu só tinha quatorze anos!

Eu e Elaine - damas do casamento da Vânia e Ruy


No dia seguinte ao do casamento da Vanis, segui para Muriqui. Fui num caminhãozinho que levava a geladeira e o fogão, comprados de segunda mão, além de uma cama e algumas coisas básicas para se ocupar uma casa abandonada há tanto tempo! Em menos de uma semana, meus pais providenciaram tudo que era necessário.
Não dormi na casa, fiquei na casa da Valéria e nesse dia conheci o Jorge, primo do Robson que nadava no América. Apesar de não ter me impressionado com ele logo de início, marcou-me a forma profunda como me olhou. Jorge Roberto tem olhos verdes e adorava me encarar. Eu ficava sem graça, mas ele devia se divertir com isso.
Papai e mamãe chegaram depois e papai colocou, literalmente, mãos à obra. De imediato, fizeram uma grande faxina, em seguida, devastaram a pequena floresta que escondia a casa. Depois, papai se armou de escada, tintas, rolos e pincéis e em menos de 15 dias a casa era outra! Ele se transformou em pintor, pedreiro, marceneiro, eletricista e encanador.
Era uma casa em estilo colonial, com uma varanda alta emoldurada por arcos com detalhes em pedras. Mamãe escolheu a cor branca com janelas azuis escuras. Além da grande varanda tinha também uma grande sala, dois amplos quartos, com pequenos closets, um grande banheiro (daqueles antigos e com banheira), copa e cozinha, além de outra varanda nos fundos.
No quintal ficava o tanque de lavar roupa, muitas árvores frutíferas, além de mais um quarto, um banheiro e a garagem. Na verdade, nessa época, o quintal era mato puro. Até cobra papai teve que matar ali.
Papai depois de ter trabalhado muito para deixar a casa habitável. Uma casa grande, em estilo colonial e muito bonita.
Nesse quintal tinha goiabeira, jaqueira, três coqueiros (mais dois coqueiros no jardim da frente da casa), abacateiro, limoeiro e um pé de fruta-do-conde.
Alguns meses depois foram construídos mais dois quartos e uma varanda nos fundos. Assim a casa ficou com cinco quartos no total.
Nosso primeiro verão em Muriqui foi um sonho. Diariamente eu ia à boate do Country Club de Muriqui. Uma frequência muito saudável, com jovens entre 14 e 20 anos – ou seja, a minha galera! Andava em turma: eu, Valéria, Jorge Roberto, Robson, Ruizinho, Wagner, Jorge Laba e alguns outros menos chegados. Todos os dias, depois da praia, subíamos para a cachoeira, uma caminhada e tanto morro acima que me ajudou a não engordar depois que parei de nadar.
Nesse verão dei meu primeiro beijo. Foi com um cara até pintoso, de dezesseis anos, mas com clara vocação para cafajeste chamado Eduardo. Não gostei daquele beijo. Eu era completamente inocente, pensava que namorar era apenas beijar e ficar de mãos dadas e esse rapaz não soube entender isso e ficou tentando passar minha mão em lugares nada inocentes. Peguei um enjôo que não quis mais olhar na cara dele.
Depois conheci um rapaz chamado Guilherme. Bonitão, mais baixo que eu, ele tinha dezessete anos e adorava uma birita. Logo que me conheceu e ficamos juntos no clube, me convidou para ir até a praia. Eu aceitei sem maldade nenhuma. Nem imaginava o que casais faziam na praia durante a noite. Saímos do clube de mãos dadas, fomos andando até a praia, sentamos na areia e ele me empurrou para que eu deitasse. Eu reagi da forma mais natural do mundo dizendo que não poderia deitar porque iria sujar minha roupa na areia. Guilherme parou de me beijar e ficou me olhando calado e sério por um tempo. Depois me pegou pela mão e me levou de volta para o clube. Eu não tinha a menor idéia do perigo que correra. Ela percebeu e respeitou minha inocência. Foi mesmo uma gracinha comigo, disse até que queria me namorar sério. Eu gostei dele, mas ele bebia demais. Os outros rapazes o chamavam de “pudim de cachaça”. Aí não deu.
No início do verão eu ainda não prestava atenção em Jorge Roberto. Ele vinha sempre me chamar para dançar (nessa época os casais dançavam agarradinhos, com os dois braços da moça nos ombros do rapaz). Durante a dança, me dava uns apertos e nada mais. Era comum ele jogar no meu rosto a fumaça do cigarro e ficar pisando nos meus pés. Depois eu soube que este seria um código para pedir um beijo. Comecei a gostar do Jorge, mas ele ficava me olhando, dançando e beijar que é bom...nada.
Chegou o carnaval e eu já estava apaixonadinha pelo Jorge. O pateta já tinha percebido que conseguira me conquistar e resolveu dar uma de gostoso: ficou beijando uma garota na minha frente. Que raiva!!!!
Depois do baile de terça-feira, muita gente foi ver o amanhecer na praia. Eu e Valéria também fomos. Jorge, Robson e outros rapazes também estavam lá e ficamos em frente ao Bar da Praia vendo o dia amanhecer. De repente, Jorge me pegou pela mão, andou comigo alguns metros, encostou-me num carro e me abraçou. Ficou um tempo calado e abraçado até que soltou a seguinte pérola: “ – Que merda! Eu gosto de você.” E me beijou.
Mesmo tendo ficado muito feliz com aqueles beijos, não me saía da cabeça a frase dita instantes antes. Isso lá é forma de declarar sentimento para alguém?
Depois dos beijos de despedida voltei para o Rio no dia seguinte. Fiquei ansiosa para retornar a Muriqui no final de semana já que Jorge havia permanecido por lá. Cheguei sexta-feira à noite, fui correndo para o clube na expectativa de vê-lo novamente. Qual não foi a minha tristeza quando ele me cumprimentou secamente e saiu de perto. E eu que achava que estávamos namorando... Assim acabou meu primeiro verão em Muriqui.
Depois dos feriados do primeiro semestre, seguiram-se as férias de julho e voltamos para Muriqui, dessa vez fui acompanhada das primas Elaine e Rosangela. Surgiu uma atração entre Elaine e Marcus Vinícius (apelidado de Fiolo porque gostava de nadar peito) e entre Rosangela e Robson.
Elaine também despertou interesse em Celso, que era mais velho e tinha moto 350 cc – um diferencial e tanto para jovens menores de 18 anos. Elaine deixou “Fiolo” em situação delicada na frente dos amigos por passar na frente de todos na garupa da moto abraçada ao Celso. Imagina que cena desagradável: Fiolo namorava Elaine e todo mundo sabia, mas quando o Celso passava na moto, ela deixava o namorado e subia na garupa da moto... e ainda dava tchauzinho para o coitado. Todos os outros sacaneavam Fiolo chamando-o de “corno manso”.
Foram férias muito animadas e eu continuava apaixonada por Jorge Roberto, que continuava me esnobando.

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