A FIAT 147 GLS 1980 (a álcool!!!!)
Nos primeiros meses de 1980, papai trocou meu fusquinha 78 por um carro que era muito desejado pela garotada que não podia sonhar com um “Passat TS” ou um Puma. Era uma Fiat 147 GLS branca, com vidros verdes, roda de liga leve, teto solar, farol de milha - o máximo para a época, só que movida a álcool.
Eduardo havia completado 18 anos e logo tirou a carteira de motorista. Assim, eu passei a ter que dividir a utilização do carro com ele. Quando havia choques de horário, papai costumava ceder a Variant II dele para mim.
Edinho, ainda com seus 17 anos, não dirigia na cidade do Rio de Janeiro, mas em Muriqui todos disputavam o carro.
O problema é que, apesar de novo, o carrinho vivia dando problemas:
Para começar, logo nos primeiros dias dirigindo o carro novo, eu seguia pela Rua Conde de Bonfim, a caminho da Praça Saens Peña, no início de uma noite chuvosa de um sábado, quando um carro que estava estacionado do lado direito da rua, saiu da vaga de ré e entrou bem na minha frente. Precisei frear fortemente e, sem que eu soubesse como, o carro rodou. Rodou e foi na direção de uma árvore. A árvore, que nem era tão grande, ficou ENORME na minha frente. Meu anjo da guarda me socorreu e me fez largar o volante, esperar que o carro se acertasse sozinho e, já bem em cima da árvore, puxar o volante para a direita. Desviei da batida que parecia inevitável. Mas o carro se desgovernou novamente. Mais uma vez larguei a direção e esperei para puxar, pois o carro tinha atravessado novamente a rua e foi na direção dos outros carros que estavam parados no mesmo local onde estava o carro que invadiu a rua na minha frente. Freei de novo e dessa vez o carro parou.
Minhas pernas faltaram de tão trêmulas. Sequer olhei para o carro que havia me fechado e que continuava parado no meio da rua. Vi que o motorista me olhava assustado. Tentava entender o que havia acontecido. Por que o carro havia derrapado daquela forma? Eu não estava correndo.
Quando voltei para casa e contei o ocorrido, fui chamada de barbeira para baixo. Meu pai e meus irmãos me esculhambaram e disseram que certamente eu havia puxado o volante ao mesmo tempo em que pisara no freio e por isso perdi a direção. Eu sabia que a coisa não tinha acontecido dessa forma...
Poucos dias depois, voltando da faculdade perto das 11 horas da noite e ainda pensativa a respeito do “quase acidente”, percebi que a Rua São Francisco Xavier estava deserta e resolvi testar. O sinal fechou e eu afundei o pé no freio. O carro simplesmente rodou. E dessa vez não havia dúvida: eu não tinha puxado o volante e não estava chovendo.
De tanto insistir, meu pai levou o carro na concessionária para que verificassem o problema, afinal, o carro era novinho.
Bingo! Faltava freio numa das rodas. Por isso o carro rodava com uma freada mais forte. Óbvio!
Mas esse carro deixou muitas outras lembranças chatas. De repente o carro cismava e não pegava de jeito nenhum! Podia ser na garagem, na rua, no meio do trânsito, qualquer lugar. Certa vez foi na Lagoa, na subida para o viaduto que dá acesso ao túnel Rebouças, no final da tarde, debaixo de um temporal. Ao descer para empurrar e tirar o carro do meio da pista, a água que descia pelo acesso ao viaduta chegava a cobrir meu pé. Sufoco!
O carrinho era temperamental e escolhia alguns lugares especiais onde ele costumava repetir o vexame:
Uma das situações prediletas para ele travar era quando eu estava chegando à faculdade (sempre meio atrasada....). Ele parava atravessado no meio da rua, fechando o trânsito, quando eu o direcionava para estacionar numa vaga encontrada com muita dificuldade. Melhor ainda quando era dia de prova no primeiro tempo e eu estava, naturalmente, estressada. Geralmente eu tinha que descer e empurrar o carro para a vaga com a ajuda do guardador. Na saída, o motor pegava como se nada tivesse acontecido.
Aos domingos, quando estávamos em Muriqui e precisávamos voltar para o Rio. Era uma cena muito comum ver toda a garotada da rua se divertindo em empurrar o carro de um lado para o outro. Algumas vezes nós tivemos que arrumar carona para voltar e deixar o carro descansando na garagem. Quando a gente voltava para buscar o preguiçoso, ele pegava de primeira.
No dia em que nos mudamos da Tijuca para Copacabana, quando precisávamos do carro para levar miudezas, ele cismou que não queria mudar de endereço e parou na garagem. Parou e ficou na Tijuca. Mudamos sem o carro. No dia seguinte ele acordou mais bem humorado e resolveu seguir para Copacabana.
Essa Fiat nos fez passar tantos sufocos que ganhou o apelido de “Lucélia Santos”, isso porque era “Bonitinha, mas Ordinária”. Nada contra a atriz, mas ela foi a protagonista de um filme de sucesso na mesma época e esse era o nome do filme.
A viagem da Tijuca para o novo prédio de Copacabana foi a última viagem que ele fez para nossa família. Depois desse dia, Edinho o trocou por um fusquinha creme, sem nenhum acessório, de menor valor, mas que funcionava sempre. O fusquinha era mais barato que a Fiat, mas foi a melhor maneira da gente se livrar do problema.
Interessante foi que poucos anos depois, Edinho encontrou esse carro estacionado e falou com o novo proprietário. Perguntou se ele estava gostando e o homem disse que o carro era ótimo, que nunca dava problemas......pode?
Na verdade, anos depois, Eduardo e Edinho confessaram que costumavam esmerilhar o carrinho com corridas e cavalos-de-pau. Mas acho que não era só isso não, porque eu andava direitinho e ele me sacaneou muito! Hehehehe
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