segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Desfile na Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis

No carnaval de 1981 vivi uma experiência inesquecível.
Meu amigo Wellington, lá de Muriqui, era parente do então Presidente da Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis. Wellington foi o cara que esteve envolvido no final do meu noivado. Por causa dele, pude desfilar na escola de samba e na ala dos integrantes das famílias dos diretores. O desfile foi na Av Marquês de Sapucaí, mas quando ainda não existia o Sambódromo. As arquibancadas e camarotes e armados em andaimes e compensado de madeira. Acho que foi o último carnaval sem sambódromo.
A ala era presidida por uma moça chamada Rosângela e a fantasia era um biquíni dourado, todo bordado e com uns panos brancos que, quando a gente rodava na avenida, davam o efeito de asas. Tinha também um enfeite na cabeça feito de fibra de vidro, enorme e dourado e de onde saíam muitas penas de pavão (ecologista de plantão que me perdoem....mas estávamos em 1981 e o apelo ecológico ainda era incipiente), além de uma sandália altíssima, tipo escrava, também dourada.
Numa das vezes em que fui à casa da presidente da ala, ela contou que Joãozinho Trinta estava precisando escolher algumas moças para saírem no carro abre-alas e quis saber se eu estava interessada em desfilar em cima do carro alegórico. Mal podia acreditar. Claro que eu queria!
Então perguntei quanto custaria a fantasia para sair em cima do carro e ela disse que não custava nada porque os destaques da escola não pagam pela fantasia. Era bom demais! Disse ainda que eu poderia vender para outra pessoa a fantasia que eu havia comprado.
Fiquei super feliz, já começando a me imaginar em cima do abre-alas. Certamente apareceria na televisão! Seria um show!
Mas aí perguntei como era o modelo da fantasia de quem vai em cima do carro abre-alas. Ela disse na maior naturalidade que era um tampa-sexo e top-less.
Eu fiquei parada imaginando a cena e pensando como seria para o meu pai me ver na televisão com esses trajes. Pensei também nos colegas de trabalho. Eu não tinha completado ainda um ano no BNH, mas podia imaginar os risinhos e os olhares maliciosos que receberia na quarta-feira de cinzas.
Triste, agradeci o convite e fiquei com a minha fantasia paga. Desfilei no chão, logo atrás do belíssimo carro abre-alas.
Não digo que me arrependi de minha decisão; considerando a cultura da época e minha cabeça aos 21 anos, penso que minha decisão foi acertada. Mas confesso que lamento não ter vivido essa experiência.
A ala em que desfilei era uma das primeiras a entrar na avenida. O samba falava das Sete Maravilhas do Mundo:
“E as muralhas de longe fascinam, quem tem olho grande não entra na China...”
Quando a escola começou a se armar na avenida, Neguinho do Samba cantava seu maior sucesso:
”Domingo, eu vou ao Maracanã, vou torcer por time que sou fã....”.
E como nós estávamos bem no início do desfile, entramos na avenida ouvindo esse samba. De repente a bateria parou e então ouviu-se a voz de Neguinho bem alta e forte:

- Olha a Beija-Flor aí gente! Chora cavaco!

E a bateria começa com todo ritmo, força, brilho, paixão e delírio.
Impossível descrever a emoção. Até hoje, quando lembro, fico totalmente arrepiada.
A escola não foi campeã em 1981, ficou com a segunda colocação, mas isso não diminuiu em nada a emoção do desfile.

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