Quando terminei meu noivado e comecei a modular na faixa cidadão de rádio amador, conheci a Marcinha e ficamos muito amigas. Apesar de que a mãe dela era "mãe-de-santo" e frequentava um centro espírita, Marcinha não gostava muito de se envolver com os costumes praticados pela mãe e pelo padrasto. Entretanto, mesmo contra a vontade dela, em algumas ocasiões acabava incorporando o espírito de uma criança, uma menina. Eu sabia disso porque Marcinha tinha me contado a respeito dizendo que não gostava de "receber" esse "erê" porque logo depois alguma coisa muito ruim e triste acontecia em sua vida.
Em 1981 fomos para Muriqui no feriado de 7 de setembro. Passeando à tarde pela praia, encontramos com meu amigo Wellington, que estava acompanhado de um outro amigo. Ficamos conversando num bar da orla e Marcinha começou a provocar o Wellington com bricadeiras bobinhas. Eu percebi que ela estava muito alegre, chegou a correr atrás dele como se brincasse de pega-pega. Estranhei quando ele correu para a areia da praia e ela subiu na mureta que separava a areia da calçada e disse que na praia ela não poderia ir. Não entendi porque ela afirmava não poder pisar na areia, massss.....nada disse.
Quando a brincadeira acabou e os rapazes foram embora, entramos no meu carro para voltar para casa. Foi quando Marcinha mudou o jeito de falar e passou a agir e pronunciar as palavras como se fosse uma criança pequena.
Olhei pra ela meio assustada. Ela pediu que eu comprasse um guaraná. Eu parei em outra barraca da praia e comprei o refri. Fiquei olhando Marcinha enfiar o dedo no gargalo da garrafa, molhar o dedo no refrigerante e chupar o dedo molhado. Foi assim que ela bebeu todo o líquido da garrafa ao mesmo tempo em que falava muita coisa. Falava mais sobre a própria Marcinha, mandava recados e muitas outras coisas que não mais me recordo.
O mais estranho era que, em meio a tagarelice com jeito de criança, de repente, e por curto espaço de tempo, ela arregalava os olhos, me pegava pelo braço e dizia: "Cris!!! Não deixa!!!" (Marcinha me chamava de Cris porque era assim que eu era conhecida no meio dos amigos macanudos).
Eu olhava para aqueles olhos aflitos, mas nem tinha tempo de falar nada porque logo em seguida ela voltava a falar como criança. Ficamos assim por muito tempo. Anoiteceu e ela continuava falando sem parar. Depois pediu que eu comprasse balas, desde que não tivessem sabor de hortelã. Dirigi até a padaria e comprei as balas. Quando voltei para o carro, ela pediu que eu fosse até uma pracinha. Parei então na praça que fica no final da rua principal margeia a estrada de ferro. Era uma praça mais calma, sem o movimento da praça principal de Muriqui. Saímos do carro e sentamos num dos banquinhos da pracinha. Ela continuava a falar, explicou que era Mariazinha da ...... (não lembro) e que por isso não podia pisar na praia, que era restrita aos "erês da praia". Marcinha continuava aparecendo de vez em quando e pedindo que eu desse um jeito de mandar o tal espírito embora, mas eu simplesmente não sabia o que fazer!! Estava também preocupada em tentar registrar tudo que ela dizia - o que foi impossível.
Finalmente, a tal criança disse que quando terminasse de chupar a bala que estava em sua boca ela iria embora. Continuou falando até que a bala se dissolvesse por completo e, de repente, Marcinha sacudiu o corpo e reapareceu olhando muito assustada para mim e chorando.
Eu tentei contar para ela tudo que eu me lembrava que a menina tinha dito. Ela chorava e dizia saber que algo muito ruim certamente iria acontecer.
Eu não posso afirmar com absoluta certeza, mas tenho uma forte impressão de que o acidente com o irmão da Marcinha aconteceu nesse mesmo feriado.
Max, irmão mais velho, retornava de Teresópolis quando a moto em que viajava foi atropelada por um carro. Ele havia pego um atalho para não pagar o pedágio e as placas de sinalização da estrada o impediram que ver o carro que vinha em sua direção. Max entrou na estrada na frente do carro e morreu instantaneamente. Mesmo que a morte do Max não tenha sido naquele final de semana, o acidente foi naquela época. Entendi porque Marcinha tinha tanto medo de incorporar aquela criança. Marcinha casou com um rapaz que era a paixão da vida dela cerca de dois anos depois. Ainda nos vimos algumas poucas vezes depois disso.
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