segunda-feira, 24 de junho de 2013

Tempos vividos no Corte do Cantagalo

          Os seis anos que morei no Corte do Cantagalo, entre Copacabana e Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro, foram tempos muito gostosos. Trabalhava no BNH, um trabalho que amava fazer, com baixo nível de estresse (exceto pelas questões de relacionamentos, vaidades, disputa de poder, essas coisas pequenas que tanto desgastam as pessoas). 
          Era uma época de baladas com as amigas, em especial com Márcia e Magali B. Fizemos algumas viagens curtas à Belo Horizonte e Curitiba. Nessas viagens, a gente se divertia e ria muito. Estávamos na fase de muita azaração, muita festa e muita disposição para festas e baladas.
Foto dessa época

          Fomos de ônibus para Belo Horizonte e um dos rapazes que nos recebeu reservou um hotel dos mais simples que já fiquei. Muito ruim. Márcia e Magali haviam arrumado namorados mineiros e por isso fomos até lá. Eles passearam bastante com a gente e nos levaram às boates Le Gallop e Tom Marrom, que eram moda naquela época.
          Numa tarde, enquanto passeávamos pela Avenida Afonso Pena, na altura do Savassi, ponto de encontro da galera bonita de Belo Horizonte, um rapaz numa super moto parou para conversar com a gente. Envergonhadas para dizer o nome do hotel mixuruca onde estávamos hospedadas (frescura mesmo!), combinamos dizer que estávamos hospedadas no Othon, que ficava bem perto do nosso hotelzinho. Quando o bonitão da moto perguntou onde estávamos hospedadas,tentamos responder conforme o combinado. Mas..... eu sou mesmo um fracasso para mentiras bobas e falei o nome do hotel já sem conseguir segurar o riso. Caí na gargalhada logo em seguida. Márcia também não se segurou e começou a rir junto comigo. Na verdade, a gente gargalhava.
          Vendo nossas gargalhadas, o rapaz perguntou o porquê de tanto riso. Quanto mais ele perguntava, mais a gente ria. Eu cheguei ao ponto de me encostar na parede e me contorcer de tanto rir. Magali, altiva como uma rainha e sem expressar a menor dificuldade em manter a mentira, afirmava tranquilamente que não sabia o motivo de nosso ataque de risos, pois estávamos realmente hospedadas no Othon. Ela segurou legal e não se deixou contagiar. Que bobagem.....
          Adorávamos jantar em bons restaurantes, vestíamos roupas de grife como Spy&Great, Yes Brazil, Chocolate, Cantão e Krishna. Era mesmo um vidão, pois o salário era só para ser gasto com minhas vontades! Frequentávamos a praia de Ipanema nos finais de semana, geralmente em frente à Garcia D'Ávila.
          Em casa, as coisas eram quase sempre tranquilas. Eduardo já trabalhava no Banerj e Edinho vivia as voltas com namoros enrolados e cursava a faculdade de Direito.
          Edinho não se dava bem com a Tootsie, nossa gatinha, mas adorava criar periquitos e peixes e acabou botando um pequeno viveiro na varanda do apartamento e um aquário em seu quarto. Existe tortura maior para uma gata? Tootsie olhava gulosamente os passarinhos e os peixes, mas nunca tentou caçá-los.
          Até que Edinho limpava a gaiola, mas a sujeira do chão ficava mesmo para a empregada, Janete, uma jovem mulher negra que acabou engravidando de algum namorado. Tainá nasceu em junho de 1987. Eu e Edinho somos os padrinhos, mas pouco convivi com minha afilhada depois que mudei para Salvador e Janete deixou de trabalhar na casa de minha mãe.
          Uma situação inesperada foi quando nasceram três filhotes de periquito, sendo que o terceiro nasceu dias depois dos dois primeiros.
          Num domingo, acordamos com meu pai aos berros. O periquito pai estava tentando matar o filhote mais novo dando bicadas em sua cabecinha ainda pelada.
          Pulamos todos da cama e Edinho conseguiu tirar o passarinho das garras do pai assassino. Separou o macho para outra gaiola e voltou a depositar o filhotinho no ninho, juntamente com os outros dois filhotes maiores e a mãe periquita. Logo depois, nova gritaria. Agora era a mãe que tentava assassinar o pobre filhote.
          Edinho tirou da gaiola o pequeno periquitinho e ficamos com aquele micro bichinho, ainda totalmente sem penas, em nossas mãos sem saber como fazer para evitar que ele morresse. Sua cabeça estava muito ferida.
       
Rambinho
   Ligamos para um veterinário que nos orientou a cuidar dele por meio de uma mistura de fubá e água, fazendo uma massa que introduzíamos em sua boca. Abríamos seu bico com um palito de fósforo e ele puxava a mistura.
          Tootsie ficava olhando e a gente temia que ela resolvesse se divertir com aquele “brinquedinho”, já que tivemos que criar o periquitinho fora da gaiola.
          Eu mesma quase que acabei por sacrificar o filhote. Bem intencionada e considerando que estávamos no inverno, resolvi colocá-lo numa caixa de sapatos com uma lâmpada direcionada para aquecê-lo. Deixei-o no quarto de meus irmãos. Felizmente retornei pouco tempo depois e percebi que ele estava sendo assado vivo. Eu o tinha deixado debaixo da luz de uma lâmpada de 100 watts!!! Ele estava caído, quase desmaiado, com as asas abertas e com o corpinho muito quente!
Rambinho sobreviveu comendo essa papinha
          Mais uma vez ele sobreviveu. Passamos a chamá-lo de “Rambinho” inspirados num filme de sucesso da época chamado Rambo, com Silvester Stalone, um lutador que sobrevivia a muitas tentativas de assassinato.
          Rambinho foi criado solto pela casa e quando cresceu e criou penas amarelas clarinhas, ficou careca. Foi com a gente para Rio das Ostras e brincávamos com ele até na beira da piscina.
          Era muito engraçado, um passarinho totalmente amarelinho, mas com um tipo de auréola formada pela falta de penas no lugar onde antes havia a ferida do ataque sofrido.
          Um dia, enquanto atendia ao telefone da cozinha, Rambinho voou do meu ombro e ganhou o mundo. Despediu-se de mim empoleirado na janela de um vizinho e depois voou em direção ao bosque que havia nos fundos do prédio. Fiquei muito triste.
         Nessa época, Edinho nos apresentou uma namorada que estudava com ele na faculdade de Direito da Universidade Santa Úrsula. Lilian não era uma moça bonita. Na verdade, era meio desengonçada. Sabe-se lá o que Edinho viu naquela garota porque, além de sem graça, ela era muito complexada. Um dia, por um motivo mais do que ridículo, ela fez com que Edinho deixasse a casa de um casal de amigos dos meus pais em Cambuquira sem dizer "até logo" a ninguém. Fugiram! Ela fez um "inferno" porque mamãe elogiou Edinho dizendo que ele era bonito quando alguém começou a falar sobre a beleza de meu outro irmão, Eduardo. Ela cismou que mamãe, ao elogiar Edinho, o estava empurrando para cima de uma outra moça que estava lá! Pode? Mamãe me ligou muito chateada porque ninguém entendeu a razão daquela grosseria. Eu tinha ficado no Rio e quando Lilian, chegando de viagem, entrou na sala e me cumprimentou, eu estava com muita raiva por ela ter tido a capacidade de estragar o feriado dos meus pais por causa de nada! Assim, não respondi ao cumprimento dela, continuei lendo jornal. Ela, então, fez uma cena descendo para a garagem. Depois disso, aos prantos, fez um drama mexicano com meu irmão. Por causa disso, eu e Edinho ficamos sem nos falar durante o tempo que durou aquele namoro. Nem sei como conseguíamos morar na mesma casa sem nos falarmos.... e olha que essa situação durou quase dois anos!!!! Vibrei quando esse namoro acabou e Edinho voltou a falar comigo.

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