quinta-feira, 27 de junho de 2013

Histórias nem sempre divertidas de Edison e Socorro

O mistério da calça jeans da DIJON
Em 1985 meus pais decidiram fazer uma grande viagem pela Europa. Visitaram muitos países, inclusive alguns que eu não conhecia na época, como Grécia, Portugal e Áustria.
Mamãe programou a viagem com todo cuidado, pois era um sonho que ela chegou a achar impossível e que finalmente iria realizar.
Empolgada, comprou algumas peças de roupas novas, inclusive uma calça jeans da Dijon – uma marca cara e valorizada, embora, em 1985, já estivesse em decadência.
Ela ficou toda orgulhosa de sua nova calça comprada especialmente para a viagem.
Aconteceu que quando começou a preparar a mala da viagem ela não conseguia encontrar a nova calça jeans.
Foi um estresse! Durante toda aquela semana ela se mobilizou para achar a tal calça. Lembrou que havia levado a calça para Rio das Ostras no final de semana anterior, quando ainda ficava hospedada na casa da minha tia Therezinha e pediu que minha tia verificasse se estava nas coisas dela ou no carro, e chegou a pensar em voltar a Rio das Ostras, que fica a cerca de 200 Km do Rio para ver se a calça tinha ficado lá. Só não insistiu na ideia porque tinha quase certeza de ter visto a calça pendurada numa cadeira que existia em seu quarto já depois da viagem.
Todos os dias daquela semana, depois que meu pai saía para trabalhar, ela e a empregada esvaziavam os armários em busca da calça. Procuravam e procuravam novamente nos mesmos lugares. Vasculhou os armários de toda a família e nada de encontrar a calça.
Quando me pai chegava em casa do trabalho, ouvia as lamentações de minha mãe e os comentários sobre o quanto aquele desaparecimento era intrigante e sobre todo o trabalho que teve durante o dia na tentativa de localizar a calça.
Até que ela desistiu e chegou o dia do embarque.
Nessa época, meu pai tinha um opala bege, quatro portas, já antigo e eu fui sozinha levá-los ao aeroporto. Papai dirigia o carro e parou para abastecer no posto que fica em frente ao parque da Catacumba. Ele desceu do carro e ficou olhando para a bomba, o que deixou seu bumbum bem perto de meu rosto, já que eu estava sentada no banco de trás do opala.
Foi quando vi que ele estava usando uma calça jeans que tinha uma etiqueta grande no bolso traseiro. Adivinha qual a marca da calça que papai usava?Dijon!
Perguntei a mamãe se ela havia comprado uma calça nova da Dijon para o papai e ela se assustou dizendo que não. Foi aí que descobrimos o mistério. Papai viu a calça em cima da cadeira e vestiu, como os dois usavam manequim 46, a calça coube perfeitamente nele. Papai, apesar de ser mais alto, usava a calça abaixo da cintura, o que compensou a diferença.
Assim, ele passou a semana toda indo trabalhar com a mesma calça. Bastava papai sair de casa para mamãe iniciar as buscas e quando ele voltava, ela estava cansada e já tinha desistido de procurar. No dia seguinte, tão logo ele voltava a sair para trabalhar, ela  recomeçava a busca.
Seguimos para o aeroporto enquanto os dois discutiam quem ficaria com a calça. 
A viagem dos Periquitos
Depois do caso Rambinho, e incomodados com a barulheira que os periquitos fazem logo ao raiar do dia, papai combinou com um amigo, dono de um sítio em Cambuquira, o mesmo que tinha a fazenda Simpatia com uma cachoeira particular, de dar o viveiro e os periquitos para ele.
Eu e meu priminho Nando com os periquitos ao fundo na varanda do apartamento do Corte do Cantagalo
Nessa época, eu tinha uma Parati branca e papai pediu que eu a emprestasse para ele levar os periquitos para o sul de minas.
Abaixou o banco de trás, criando um espaço maior para bagagem, e deitou a grande gaiola  com os periquitos lá dentro. S esqueceu de um pequeno detalhe: amarrar as portinhas do viveiro.....
No meio do caminho, com o balanço do carro, uma das portas da gaiola deslizou e alguns passarinhos escaparam. Quando percebeu que havia periquitos soltos no carro, ele fechou as janelas e continuou a viagem com os periquitinhos voando lá dentro.
O tempo estava quente e eles resolveram ligar a ventilação da parati. Nessa época, era raro um carro com ar-condicionado, mas os carros da volks ofereciam ar quente. Como meu pai não tinha intimidade com o painel daquele carro, ao ligar a ventilação, antes ele mexeu no botão de ajuste da temperatura do ar, e não percebeu que o havia alterado para "ar quente". Claro que a temperatura esquentou dentro do carro. Só que eles não tinham ideia de que tratava-se do sistema de aquecimento, pensaram que o clima é que estava mesmo muito quente.
Mamãe reclamava do calor excessivo, mas eles não podiam abrir a janela porque os pássaros seriam atingidos pelo forte vento e talvez fugissem ou se machucassem.
Continuaram a viagem suando em bicas e com os pés sendo torrados pelas saídas de ar que ficavam na parte de baixo do painel.
Mamãe pedia para o papai parar o carro em algum lugar porque ela estava com muita sede, mas ele dizia que não poderiam parar e abrir as portas porque os passarinhos certamente voariam para longe.
Chegou um momento em que minha mãe não suportou mais e disse que se meu pai não parasse o carro para ela beber um pouco de água, ela abriria a janela de qualquer maneira, pouco se importando com o destino dos passarinhos.
Quando meu pai finalmente parou o carro e eles abriram as portas com todo cuidado para manter os bichinhos no carro, perceberam que a temperatura externa estava amena, nada parecida com o calor que sentiam dentro do carro. Até os passarinhos estavam muito quietos,. Na verdade, estavam sendo assados lentamente e ficaram paralisados e com as asas abertas, abatidos pelo calor.
Depois de se refrescarem com água gelada, seguiram viagem sem a ventilação aquecida.
O choro de meu pai
Em maio de 1987, depois de nove meses esperando, a concessionária volkswagem finalmente me ofereceu um carro. Havia falta de carros para entrega a consorciados contemplados. Eu queria um voyage sedan vinho e eles me ofereceram uma parati branca. Avisaram que se eu não ficasse com a parati, eu teria que esperar muito mais tempo. Então resolvi pegar a parati.
Nessa mesma época, mamãe marcou uma cirurgia para retirada dos ovários (o útero já tinha sido retirado nove anos antes). O problema foi que havia aderências entre seus órgãos e a operação acabou se complicando. Por causa disso, o médico, sem querer, deu um pequeno corte no intestino de minha mãe, aumentando consideravelmente o risco de uma infecção.
Quando cheguei ao hospital, mamãe tinha acabado de sair da sala de cirurgia e encontrei meu pai aos prantos no corredor (foi a única vez na vida até hoje que vi meu pai chorar). Papai não tem a característica de ser otimista, mas além do problema que realmente ocorrera durante a cirurgia, o infeliz do médico disse a ele que havia possibilidades de que ele estivesse com câncer no intestino.
Papai me contou sobre o que o médico havia dito e eu fiquei muito preocupada, mas alertei a papai de que precisávamos poupar mamãe dessa informação. Assim, teríamos que manter segredo e esconder nossa aflição, tanto da mamãe como dos meus irmãos para reduzirmos os riscos de vazamento da informação.
O pós-operatório foi difícil e a recuperação foi lenta.
Lembro que uma colega do banco havia me dito que um carro parati branco lembrava uma ambulância. Fiquei fula da vida com ela, mas pensava que desde que tinha recebido meu carro novo, vivia fazendo o caminho entre nossa casa e o hospital.  Por causa disso, assim que pude, troquei as rodas do carro por outras, de liga leve, a fim de torná-lo mais esportivo e menos parecido com uma ambulância.
Felizmente mamãe se recuperou e tudo não passou de um susto.


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