sábado, 8 de junho de 2013

Últimos tempos do BNH

Em 21 de novembro de 1986, o BNH foi extinto.
Nunca esquecerei daquele dia em que cheguei para trabalhar um pouco mais cedo porque tinha um assunto pendente.
Ao chegar na minha mesa de trabalho, notei que havia uma cópia de uma matéria de jornal em cima da minha de todas as mesas da sala. Era o recorte de uma matéria publicada no jornal daquele dia que dizia: ”Sarney decreta a extinção do BNH”, e tinha um desenho de um prédio com uma placa onde se lia BNH no alto, sendo explodido.
          Passei os olhos, mas estava com pressa e não captei de imediato a exata abrangência daquela informação. Deixei minha sala e fui telefonar na sala da secretária do chefe da SECOM, única linha liberada para interurbanos. Enquanto esperava que me atendessem, vi que a cópia da mesma matéria estava sobre a mesa da secretária. Peguei para ler, mas fui interrompida pela voz do outro lado da linha.
          Voltei para minha sala e só então, ao ler toda a notícia, captei o que dizia aquela matéria. Captei mas não assimilei. Extinção! Como assim? Como assim? Acabou? Como acabou? BNH era uma estatal de grande importância. Então, como e porque acabar com ela?
          Olhava em volta e não conseguia entender. Meus colegas começaram a chegar e começamos a discutir e a tentar entender o que tinha acontecido. Até a véspera, nunca se tinha ouvido falar na possibilidade de extinção do BNH ou de qualquer outra empresa estatal atuante e com um importante papel para a sociedade. Passamos o dia conversando, brincando com o slogan da Caixa – “Vem pra CAIXA você também. Vem!” (já se pensava na absorção do quadro de empregados do BNH pela Caixa que tinha absorvido empregados de bancos que haviam sofrido intervenção como a Delfin)
          No final da tarde, houve uma reunião na portaria do prédio entre os empregados e a Associação dos Funcionários do BNH. Aquilo não podia estar acontecendo. Não era plausível. As feições de todos que ali estavam não disfarçavam o espanto e a incredulidade.
          No final do dia, enquanto caminhava em direção ao meu carro, de repente, a ficha caiu de vez. Parei, olhei para trás e para aquele prédio de 31 andares e então me dei conta que, talvez, eu não pudesse mais estar ali no dia seguinte. Caí em prantos. Chorei compulsivamente. Entrei no carro e levei algum tempo até ter condições de sair dirigindo.
          De lá fui para o escritório onde tinha sido a agência de publicidade do Leonardo e que ele ainda mantinha. Ele tentou me acalmar, argumentava que eu tinha apenas 27 anos e que não me faltaria emprego. É claro que eu temia perder meu emprego, uma situação até então impensável para uma pessoa contratada por meio de concurso público, mas o sentimento era o de uma pessoa que acabava de ser roubada de um bem muito precioso. É uma violência que a gente sofre e que precisa de um tempo para ser aceita.
          Os quinze dias seguintes foram de vigília nas dependências do banco. Ninguém subia para os andares que estavam fechados. Passávamos o dia no saguão do prédio e nas áreas externas.
          De uma cena jamais esqueci: uma colega que trabalhava no mesmo andar que eu tinha estado grávida e perdido o filho, que nasceu morto. Eu a vi sentada numa cadeira de praia no saguão do prédio, ainda com os pontos da cirurgia. Fiquei comovida com a situação daquela mulher.
          Uma de minhas amigas poetas, Ângela, tinha toda a família ligada ao banco: além dela mesma ser funcionária, sua mãe, falecida pouco tempo antes, também foi funcionária, assim como seu pai e seu cunhado. Estariam todos em risco de perder suas rendas mensais? Quem poderia segurar a barra se todos ficariam sem salário?
          Edinho estava estagiando no BNH e me acompanhava na vigília. Estávamos todos muito nervosos e um dia arrumamos uma briga com um tal de “Azeitona” (nunca soube o nome dele) porque ele resolveu que eu não poderia entrar com meu carro no estacionamento para o qual eu tinha autorização. Foi uma situação desagradável e ele chegou a partir para a agressão em cima do meu irmão. Depois, chateado porque foi desautorizado pelo presidente da AFBNH, voltou e arranhou meu carro dos dois lados, de ponta a ponta. Era um voyage  verde água metálico que eu tinha comprado havia pouquíssimo tempo. Acabei me descontrolando e quando o encontrei gritei palavras agressivas e desabonadoras. Foi um mico! Precisaram me segurar para eu parar de ofender o homem.
          Sim; uma característica muito forte da minha personalidade é ser muito suscetível a perder o controle quando me vejo diante de uma situação de injustiça para comigo ou para com uma pessoa mais frágil que seja do meu relacionamento. Sou capaz de comprar brigas com pessoas que nada me fizeram se considero que ela agiu errado com alguém que gosto.
          Tenho tentado suavizar essa característica porque, ao mesmo tempo que em algumas situações transparece como qualidade, também me expõe às mais diferentes interpretações e julgamentos. Acabo absorvendo problemas que originalmente não são meus. Algumas vezes, comprei brigas por amizade e depois vi o injuriado de braços dados com o algoz enquanto eu ficava definitivamente queimada.
          Finalmente decidiram que a CAIXA absorveria não apenas as obrigações, como também o quadro de funcionários do BNH.
          Ainda assim, afirmo que extinção, ou absorção, fusão, venda de uma empresa é sempre muito traumatizante. Geralmente os chefes, as pessoas que construíram suas carreiras e alcançaram postos de destaque, são as primeiras a serem dispensadas, pois na maior parte das vezes, existe alguém na outra empresa que exerce função semelhante e que não está disposto a conviver com concorrentes.
          Frequentemente, chegava uma lista com os nomes das pessoas que deveriam ser transferidas para algum lugar da CAIXA - o que era dramático. Ainda mais que a maioria absoluta tinha pavor de ter que trabalhar numa das agências bancárias, inclusive eu.
          Recebi convite para mudar para Brasília, com a função de assessora, mudança paga, mais um ou dois salários e mais apartamento funcional. Não quis. Não me imaginava morando numa cidade ainda pequena, onde não conhecia ninguém e ainda por cima sem praia.
          Não sei se agi corretamente, mas neguei. Apenas Virgínia, que trabalhava comigo, e seu marido Nilo, também do BNH, aceitaram a proposta.
          Angustiada com medo do que poderia me acontecer ao ter que trabalhar na CAIXA, sai à procura de outro emprego. Fui selecionada para trabalhar como aeromoça da VARIG, mas esbarrei numa mulher idiota que disse que minha pele comprometia minha aparência! Até miss eu pude ser com minhas marquinhas de acne e aquela abestalhada vem dizer que eu não servia para ser aeromoça por causa disso! Depois me dei conta que ela havia me feito um grande favor – eu não tenho mesmo o menor talento para ficar servindo aos outros.
          Pedi à Leila, que estava no auge de sua carreira na TV Globo, para ver se havia possibilidade de um teste para repórter de TV. Poucos dias depois ele me disse que tinha conseguido que eu fizesse um teste para apresentadora de telejornal.
          Apresentadora!
          - Mas...mas....mas – gaguejei - Eu pensei em reportagem. Não estou preparada para um teste desses.
          - Mas agora já está marcado. Você não vai querer? – Perguntou ela ao telefone.
          - Vou querer sim. Se já está marcado, eu vou.
          Passei os dois dias seguintes lendo textos e mais textos em voz alta, mas sabia que me faltava uma orientação profissional, faltava experiência e dicas para marcação do texto.
          No dia do teste, cheguei à sede da Lopes Quintas vestida conforme orientado pela Leila. Liliane Rodrigues tinha acabado de apresentar o RJ TV e eu sentei na mesma bancada para refazer o jornal, que seria gravado e apresentado à Alice Maria – a editora-chefe do jornalismo da TV Globo naquela época.
          Não pude ler o texto antes (até apresentadores experientes leem o texto antes de gravar). Colocaram um microfone na lapela de meu paletó, apontaram a câmera para mim e fizeram sinal para eu começar.
          A primeira notícia foi lida de forma impecável, mas na segunda ou na terceira eu me enrolei, gaguejei e parei. Eles pararam a gravação e pediram para eu recomeçar da notícia que tinha sido interrompida. A partir daí, foi um grande desastre.
          Meu coração batia tão forte que eu escutava claramente cada batimento. Fiquei tão impressionada que pensei que o microfone poderia captar o som das batidas do meu coração. Errei muitas vezes. Ouvia o pessoal da mesa de controle pedindo para que eu me acalmasse, mas não adiantava. A fita foi bem editada e meus erros escondidos. Quando assisti ao jornal todo remontado, constando inclusive os VT’s das matérias que tinham ido ao ar, gostei do resultado, mas sabia que a quantidade de erros seria considerada.  Também chamaram a atenção para o fato de que meu nervosismo havia comprimido minha garganta e minhas cordas vocais, o que tinha alterado minha voz.
          Esperei pela chegada dos meus tios Leila e Eliakim. Leila viu a fita e disse que tinha gostado. No dia seguinte, ela apresentou o teste para Alice Maria que concordou que eu tinha talento para aquela atividade, mas precisava de muito treino e eles já estavam investindo no treinamento de uma nova e desconhecida apresentadora – Fátima Bernardes.
          Depois disso, fiz um curso de locução para rádio, TV e teatro na Faculdade Hélio Alonso, em Botafogo.
          Voltando à Caixa, em meados de 1987, consegui me "enCaixar" no gabinete do único diretor do BNH que tinha mantido seu cargo por se tratar de uma área até então inexistente na estrutura da Caixa: a área de saneamento e desenvolvimento urbano.
          Na verdade, consegui esta vaga porque usei de atalho proporcionado pelo tal diretor, que me conheceu num dos eventos do BNH e já tinha tentado se aproximar de mim. Era um homem de pouco mais de quarenta anos, paranaense, casado e muito “galinha”.
          Cortei a dele sem deixar opção, mas na hora em que me vi encurralada, enfiei o orgulho no saco e fui pedir ajuda à ele. Ele imediatamente me encaixou no seu quadro de secretárias, mas passou muito tempo dando em cima de mim.
          Como os homens podem ser desagradáveis e inoportunos. O gabinete inteiro percebeu as intenções daquele chato. Um dia, inventou e praticamente convocou a equipe para uma noite na boate Hippopotamus. Bancou o ridículo insistindo em dançar comigo. Ficava me abraçando na frente de toda a equipe e no dia seguinte ainda mandou duas dúzias de rosas vermelhas para minha casa – agradecendo “pela noite”. Que noite? Fiquei foi chateada e constrangida com aquela demonstração de afeto descabida.
          Na DIRUB – Diretoria de Desenvolvimento Urbano, conheci pessoas muito legais, em especial a Leila Márcia e Claudinha. Conheci também a Nazira, uma mulher amargurada que não conseguia ser feliz.
          Apresentei Nazira à Marcia B e elas ficaram amigas. Passamos a sair juntas, mas logo me afastei porque não tinha mais vontade de passar noites e mais noites na Hippopotamus nem em outros “points” nas noites cariocas.

          Cheguei a passar o Réveillon de 1987/1988 com Nazira e Sueli na nova casa de praia que meu pai havia comprado em Rio das Ostras, mas depois nos afastamos de vez; minha mudança para Salvador contribuiu para me afastar de algumas amigas do Rio de Janeiro, inclusive a Sueli que era amiga desde os tempos de Muriqui.
         A amizade da Marcia com a Nazira também não durou muito tempo. As duas tinham gênio muito forte. Nazira nunca aceitou bem a necessidade de trabalhar na Caixa, principalmente depois que a diretoria foi transferida do Rio para Brasília e ela foi trabalhar numa agência. Soube que ela adoeceu algum tempo depois e veio a morrer dessa doença.

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