Em
21 de novembro de 1986, o BNH foi extinto.
Nunca esquecerei daquele dia em que cheguei para trabalhar um pouco mais cedo porque tinha um
assunto pendente.
Ao chegar na minha mesa de trabalho, notei que havia uma cópia de uma matéria de jornal em cima da minha de todas as mesas da sala. Era o recorte de uma
matéria publicada no jornal daquele dia que dizia: ”Sarney decreta a extinção
do BNH”, e tinha um desenho de um prédio com uma placa onde se lia BNH no alto,
sendo explodido.
Passei
os olhos, mas estava com pressa e não captei de imediato a exata abrangência daquela informação. Deixei minha sala e fui telefonar na sala da secretária do chefe da SECOM, única linha liberada para interurbanos. Enquanto esperava que me atendessem, vi que a cópia da mesma matéria estava sobre a mesa da secretária. Peguei para ler, mas fui
interrompida pela voz do outro lado da linha.
Voltei
para minha sala e só então, ao ler toda a notícia, captei o que dizia aquela matéria. Captei mas não assimilei. Extinção! Como assim? Como assim? Acabou? Como acabou? BNH era uma estatal de grande importância. Então, como e porque acabar com ela?
Olhava
em volta e não conseguia entender. Meus colegas começaram a chegar e começamos
a discutir e a tentar entender o que tinha acontecido. Até a véspera, nunca se tinha
ouvido falar na possibilidade de extinção do BNH ou de qualquer outra empresa estatal atuante e com um importante papel para a sociedade. Passamos o dia conversando,
brincando com o slogan da Caixa – “Vem pra CAIXA você também. Vem!” (já se
pensava na absorção do quadro de empregados do BNH pela Caixa que tinha
absorvido empregados de bancos que haviam sofrido intervenção como a Delfin)
No
final da tarde, houve uma reunião na portaria do prédio entre os empregados e a
Associação dos Funcionários do BNH. Aquilo não podia estar acontecendo. Não era
plausível. As feições de todos que ali estavam não disfarçavam o espanto e a incredulidade.
No
final do dia, enquanto caminhava em direção ao meu carro, de repente, a ficha
caiu de vez. Parei, olhei para trás e para aquele prédio de 31 andares e então
me dei conta que, talvez, eu não pudesse mais estar ali no dia seguinte. Caí em prantos. Chorei
compulsivamente. Entrei no carro e levei algum tempo até ter condições de sair
dirigindo.
De
lá fui para o escritório onde tinha sido a agência de publicidade do Leonardo e
que ele ainda mantinha. Ele tentou me acalmar, argumentava que eu tinha apenas
27 anos e que não me faltaria emprego. É claro que eu temia perder meu emprego,
uma situação até então impensável para uma pessoa contratada por meio de
concurso público, mas o sentimento era o de uma pessoa que acabava de ser
roubada de um bem muito precioso. É uma violência que a gente sofre e que
precisa de um tempo para ser aceita.
Os
quinze dias seguintes foram de vigília nas dependências do banco. Ninguém subia
para os andares que estavam fechados. Passávamos o dia no saguão do prédio
e nas áreas externas.
De
uma cena jamais esqueci: uma colega que trabalhava no mesmo andar que eu tinha
estado grávida e perdido o filho, que nasceu morto. Eu a vi sentada numa cadeira
de praia no saguão do prédio, ainda com os pontos da cirurgia. Fiquei comovida com a situação daquela mulher.
Uma
de minhas amigas poetas, Ângela, tinha toda a família ligada ao banco: além
dela mesma ser funcionária, sua mãe, falecida pouco tempo antes, também foi funcionária, assim como
seu pai e seu cunhado. Estariam todos em risco de perder suas rendas mensais?
Quem poderia segurar a barra se todos ficariam sem salário?
Edinho
estava estagiando no BNH e me acompanhava na vigília. Estávamos todos muito
nervosos e um dia arrumamos uma briga com um tal de “Azeitona” (nunca soube o
nome dele) porque ele resolveu que eu não poderia entrar com meu carro no
estacionamento para o qual eu tinha autorização. Foi uma situação desagradável
e ele chegou a partir para a agressão em cima do meu irmão. Depois, chateado
porque foi desautorizado pelo presidente da AFBNH, voltou e arranhou meu carro dos dois lados, de ponta a ponta. Era um voyage verde água metálico que eu tinha comprado havia pouquíssimo tempo. Acabei me descontrolando e quando o encontrei gritei palavras agressivas e
desabonadoras. Foi um mico! Precisaram me segurar para eu parar de ofender o
homem.
Sim;
uma característica muito forte da minha personalidade é ser muito suscetível a
perder o controle quando me vejo diante de uma situação de injustiça para
comigo ou para com uma pessoa mais frágil que seja do meu relacionamento. Sou
capaz de comprar brigas com pessoas que nada me fizeram se considero que ela
agiu errado com alguém que gosto.
Tenho
tentado suavizar essa característica porque, ao mesmo tempo que em algumas
situações transparece como qualidade, também me expõe às mais diferentes
interpretações e julgamentos. Acabo absorvendo problemas que originalmente não
são meus. Algumas vezes, comprei brigas por amizade e depois vi o injuriado de
braços dados com o algoz enquanto eu ficava definitivamente queimada.
Finalmente
decidiram que a CAIXA absorveria não apenas as obrigações, como também o quadro
de funcionários do BNH.
Ainda
assim, afirmo que extinção, ou absorção, fusão, venda de uma empresa é sempre
muito traumatizante. Geralmente os chefes, as pessoas que construíram suas
carreiras e alcançaram postos de destaque, são as primeiras a serem
dispensadas, pois na maior parte das vezes, existe alguém na outra empresa que
exerce função semelhante e que não está disposto a conviver com concorrentes.
Frequentemente, chegava uma lista com os nomes das pessoas que deveriam ser transferidas para algum lugar
da CAIXA - o que era dramático. Ainda mais que a maioria absoluta tinha pavor
de ter que trabalhar numa das agências bancárias, inclusive eu.
Recebi
convite para mudar para Brasília, com a função de assessora, mudança paga, mais
um ou dois salários e mais apartamento funcional. Não quis. Não me imaginava
morando numa cidade ainda pequena, onde não conhecia ninguém e ainda por cima
sem praia.
Não
sei se agi corretamente, mas neguei. Apenas Virgínia, que trabalhava comigo, e
seu marido Nilo, também do BNH, aceitaram a proposta.
Angustiada
com medo do que poderia me acontecer ao ter que trabalhar na CAIXA, sai à procura de outro emprego. Fui selecionada para trabalhar como aeromoça da
VARIG, mas esbarrei numa mulher idiota que disse que minha pele comprometia minha aparência! Até miss eu pude ser com minhas marquinhas de acne e aquela abestalhada
vem dizer que eu não servia para ser aeromoça por causa disso! Depois me dei
conta que ela havia me feito um grande favor – eu não tenho mesmo o menor
talento para ficar servindo aos outros.
Pedi à Leila, que estava no auge de sua carreira na TV Globo, para ver se
havia possibilidade de um teste para repórter de TV. Poucos dias depois ele me
disse que tinha conseguido que eu fizesse um teste para apresentadora de
telejornal.
Apresentadora!
-
Mas...mas....mas – gaguejei - Eu pensei em reportagem. Não
estou preparada para um teste desses.
-
Mas agora já está marcado. Você não vai querer? – Perguntou ela ao telefone.
-
Vou querer sim. Se já está marcado, eu vou.
Passei
os dois dias seguintes lendo textos e mais textos em voz alta, mas sabia que me
faltava uma orientação profissional, faltava experiência e dicas para marcação
do texto.
No
dia do teste, cheguei à sede da Lopes Quintas vestida conforme orientado pela
Leila. Liliane Rodrigues tinha acabado de apresentar o RJ TV e eu sentei na
mesma bancada para refazer o jornal, que seria gravado e apresentado à Alice
Maria – a editora-chefe do jornalismo da TV Globo naquela época.
Não
pude ler o texto antes (até apresentadores experientes leem o texto antes de
gravar). Colocaram um microfone na lapela de meu paletó, apontaram a câmera
para mim e fizeram sinal para eu começar.
A
primeira notícia foi lida de forma impecável, mas na segunda ou na terceira eu
me enrolei, gaguejei e parei. Eles pararam a gravação e pediram para eu recomeçar da
notícia que tinha sido interrompida. A partir daí, foi um grande desastre.
Meu
coração batia tão forte que eu escutava claramente cada batimento. Fiquei tão
impressionada que pensei que o microfone poderia captar o som das batidas do
meu coração. Errei muitas vezes. Ouvia o pessoal da mesa de controle pedindo
para que eu me acalmasse, mas não adiantava. A fita foi bem editada e meus
erros escondidos. Quando assisti ao jornal todo remontado, constando inclusive
os VT’s das matérias que tinham ido ao ar, gostei do resultado, mas sabia que a
quantidade de erros seria considerada.
Também chamaram a atenção para o fato de que meu nervosismo havia
comprimido minha garganta e minhas cordas vocais, o que tinha alterado minha
voz.
Esperei
pela chegada dos meus tios Leila e Eliakim. Leila viu a fita e disse que tinha
gostado. No dia seguinte, ela apresentou o teste para Alice Maria que concordou
que eu tinha talento para aquela atividade, mas precisava de muito treino e
eles já estavam investindo no treinamento de uma nova e desconhecida
apresentadora – Fátima Bernardes.
Depois
disso, fiz um curso de locução para rádio, TV e teatro na Faculdade Hélio
Alonso, em Botafogo.
Voltando
à Caixa, em meados de 1987, consegui me "enCaixar" no gabinete do único diretor do
BNH que tinha mantido seu cargo por se tratar de uma área até então
inexistente na estrutura da Caixa: a área de saneamento e desenvolvimento urbano.
Na
verdade, consegui esta vaga porque usei de atalho proporcionado pelo tal diretor,
que me conheceu num dos eventos do BNH e já tinha tentado se aproximar de mim.
Era um homem de pouco mais de quarenta anos, paranaense, casado e muito “galinha”.
Cortei
a dele sem deixar opção, mas na hora em que me vi encurralada, enfiei o orgulho no
saco e fui pedir ajuda à ele. Ele imediatamente me encaixou no seu quadro de
secretárias, mas passou muito tempo dando em cima de mim.
Como
os homens podem ser desagradáveis e inoportunos. O gabinete inteiro percebeu as
intenções daquele chato. Um dia, inventou e praticamente convocou a equipe para
uma noite na boate Hippopotamus. Bancou o ridículo insistindo em dançar comigo. Ficava me abraçando na frente de toda a equipe e no dia seguinte ainda mandou
duas dúzias de rosas vermelhas para minha casa – agradecendo “pela noite”. Que
noite? Fiquei foi chateada e constrangida com aquela demonstração de afeto descabida.
Na
DIRUB – Diretoria de Desenvolvimento Urbano, conheci pessoas muito legais, em
especial a Leila Márcia e Claudinha. Conheci também a Nazira, uma mulher
amargurada que não conseguia ser feliz.
Apresentei
Nazira à Marcia B e elas ficaram amigas. Passamos a sair juntas, mas logo
me afastei porque não tinha mais vontade de passar noites e mais noites na Hippopotamus nem em outros “points” nas noites cariocas.
Cheguei
a passar o Réveillon de 1987/1988 com Nazira e Sueli na nova casa de praia que
meu pai havia comprado em Rio das Ostras, mas depois nos afastamos de vez; minha mudança para Salvador contribuiu para me afastar de algumas amigas do Rio de Janeiro, inclusive a Sueli que era amiga desde os tempos de Muriqui.
A amizade da Marcia com a Nazira também não durou muito tempo. As duas tinham gênio muito forte. Nazira nunca aceitou bem a necessidade de trabalhar na Caixa, principalmente depois que a diretoria foi transferida do Rio para Brasília e ela foi trabalhar numa agência. Soube que ela adoeceu algum tempo depois e veio a morrer dessa doença.

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