quinta-feira, 29 de abril de 2010

Menina Gorda

Nasci magra, bem magrinha, branquinha e bastante cabeluda. Minha mãe conta que era uma guerra me fazer comer um prato de papinha porque eu dava um jeito de não engolir e ainda soprava espalhaando papinha por todo lado.
Mamãe trabalhava no SESI no período da tarde, das 12 às 18 horas. Ela se arrumava toda e antes de sair precisava armar o cenário da guerra. Vestia uma capa de plástico, forrava sua cama de casal e então se preparava para me fazer almoçar.
Por causa disso, quando eu estava com cerca de seis anos, o pediatra receitou um estimulador do apetite. O remédio era delicioso e eu tomava aquela colherada de bom grado.
Depois de algum tempo, eu já estava com meu apetite regularizado. Mas o médico receitou o mesmo remédio para o Edinho. Eu gostava tanto de tomar aquele xarope que quando via meu irmão tomando o remédio, eu pedia uma colherada e, infelizmente, mamãe não negava.
Meu apetite ficou tão voraz que comecei a engordar. Aos sete anos ainda estava apenas “cheinha”, aos oito estava gordinha, entre os nove e os dez anos estava enorme. Aos dez anos pesava 63 quilos. Fiquei bochechuda.
Ao mesmo tempo, recebia um ótimo tratamento para criar traumas, já que nada melhor que outras crianças para apontar noss pontos fracos. Eduardo e Edinho (que também estava gordo) não me poupavam. Ouvi milhares de vezes a palavra “baleia” sendo gritada de forma ofensiva para que eu entendesse bem o quanto estava gorda.
Mamãe achou o tal remédio tão bom que o recomendou para minha Tia Hélia, já que a Rosangela andava sem apetite. Pobre prima Rosangela, engordou também.
Mamãe reclamava que já não sabia onde comprar roupas para mim. Eu, que sempre andava tão bem vestida, pois mamãe adorava me fazer de boneca e comprava lindos vestidos infantis nas melhores butiques do Rio de Janeiro, de repente tinha que comprar roupas em lojas de adulto e fazer bainha nas calças, saias e vestidos.
Naquela época a moda para criança era muito diferente da moda para mulheres. Dessa forma, tornei-me uma jeca.

Fui ficando tímida, insegura, retraída e triste.
Tinha um atenuante. Além de disputar com Rosangela quem estava mais pesada, as minhas melhores amigas também estavam acima do peso. Eu, Márcia B. e Valéria formávamos um trio da pesada!
As exceções eram as primas Elaine e Luciene: magérrimas, charmosas e elegantes.
O pior é que eu absorvi a idéia de ser gorda e já nem pensava em regimes (até porque nunca consegui emagrecer fazendo dieta). Estudava pela manhã e quando chegava em casa almoçava e deitava no sofá da sala para ver televisão a tarde toda! E, com alguma frequência, abria uma lata de leite condensado e ficava lá, pesada, deitada e bebendo o leite diretamente da lata. Dá pra acreditar? Mamãe ficava desgostosa de ver aquela cena. Ela já tinha deixado de trabalhar no SESI e ficava em casa cuidando dos filhos.
Permaneci gorda até os 12 anos.
Um lindo e maravilhoso dia, talvez por iluminação divina, mamãe tentou, pela enésima vez, me convencer a fazer alguma atividade física e fez uma proposta, tipo chantagem mesmo. Ela prometeu alguma coisa que eu queria muito se eu tentasse fazer natação. Infelizmente, não lembro que proposta foi essa, mas resolvi aceitar e comecei a frequentar a natação.
Foi minha salvação!!! Como já disse antes, se me proponho a fazer alguma coisa, gosto de fazer bem feito. Mergulhei de cabeça nos treinos e em menos de um ano tinha me tornado uma das atletas da equipe infantil do América Futebol Clube (depois falo mais sobre essa época).
Fui emagrecendo lentamente, sem regime e sem criar sequelas porque troquei gordura por massa muscular e ainda tive o benefício de estar em fase de crescimento acelerado no início da adolescência. A única coisa que permaneceu foi uma barriguinha chata mas que não chegava a comprometer minha aparência.
Aos 14 anos deixei a natação medindo 1,72 cm e pesando 54 Km. Uhuuuuuuu!!!!
Apesar disso, conservei um certa insegurança quanto à minha aparência que me deixou muito mais tímida do que o necessário.....até hoje!

Nenhum comentário:

Postar um comentário