Eu ainda não tinha completado sete anos quanto pedi a minha mãe que me inscrevesse num curso de desenho. Eu adorava desenhar, mas não nasci com esse talento.
Ela então inscreveu a mim e a meu irmão Eduardo no curso do professor Paulo (prefiro não dizer o sobrenome do infeliz, embora nunca tenha esquecido), que ficava numa casa antiga numa esquina da Rua Mariz e Barros, em frente ao Inatituto de Educação.
Infelizmente, fizemos apenas duas aulas porque, na segunda vez em que comparecemos, o professor mandou que Eduardo fizesse um desenho e levou-me para a sala vizinha. Sentou numa das pranchetas dizendo que iria ensinar-me a desenhar um cavalinho. Sentou-se no pequeno banco (adaptado para a altura de crianças), acomodou-me ao seu lado esquerdo passando a mão pela minha cintura e começou o desenho.
Enquanto o cavalinho ia surgindo na folha de papel branco, ele foi descendo a mão e enfiando-a dentro da minha calcinha. Bolinou-me, alisando minhas partes mais íntimas por vários minutos. Não posso dizer que ele me machucou fisicamente, mas, apesar da pouca idade, eu tinha plena consciência de aquilo que ele fazia não estava certo. Não reagi porque me faltou coragem.
Ao final daquela maldita aula, mamãe foi nos buscar. Eu saí com ela e meu irmão sem nada dizer. Fomos andando a pé para casa e tão logo senti que estava a uma distância segura daquele monstro, disse à mamãe que não queria mais continuar com as aulas de desenho.
Ela estranhou e insistiu para que eu contasse o por quê da minha decisão – eu então contei o que havia acontecido. Ela ficou tão assustada que não sabia o que fazer. A vontade era voltar lá e quebrar a cara daquele tarado, mas não podia ser assim, não iria funcionar. Continuamos seguindo para casa e mais adiante ela falou:
- "Filha, você não vai mais freqüentar o curso de desenho, mas não conte para o seu pai o que esse miserável fez com você porque ele vai querer dar um tiro na cara desse desgraçado".
Naquele momento eu entendi as razões pelas quais ela me pedia silêncio e nada contei para mais ninguém. O que nem ela e nem eu poderíamos imaginar era que eu teria que pagar um preço por esse silêncio. Um trauma que carreguei no inconsciente por quase 40 anos e que provocou pesadelos recorrentes durante muitos anos.
Num desses sonhos, sentia-me sufocada por uma massa amarela que enchia minha boca e da qual eu não conseguia me livrar. Acordava sufocada. Passei a não gostar mais de mascar chicletes porque me lembrava a tal massa.
O outro sonho tinha a ver com brigas terríveis com minha mãe. Acordava irada com ela para, logo em seguida, ficar me culpando por ter esse tipo de sonho com ela, já que sempre nos demos muito bem e quase nunca brigamos.
Foi apenas aos 45 anos de idade, em consulta com um terapeuta psiquiátrico que procurei para entender e superar outro trauma, o da primeira separação de meu -ex-marido, que lembrei de contar os sonhos para ele após mais uma das noites mal dormidas com um desses sonhos.
Ele me pediu para deitar no divã e morder uma toalha amarela (não sei de propositalmente, a toalha tinha a cor da massa que me engasgava). Primeiro tentei recusar o procedimento dizendo que isso provocaria vômito. Ele insistiu e me disse para vomitar na cesta de lixo. Fazendo isso, vomitanto (apenas saliva porque não conseguia me alimentar por causa da tristeza que vivia naquela época) e chorando até o momento que não consegui mais continuar, ele me pediu para falar a primeira coisa que me viesse à cabeça. Foi então que contei sobre ter sido molestada pelo professor de desenho.
Ficou evidente que me sentia engasgada porque, na cabeça de uma criança ainda pequena, eu queria sim ter contado tudo para meu pai e adoraria que ele fosse lá arebentar a cara do professor. Já os sonhos de brigas com minha mãe aconteciam porque foi ela que me impediu de revidar a agressão sofrida quando concordei em não falar nada meu pai.
Meu racional criança entendeu as razões da decisão de guardar segredo, mas meu inconsciente nunca se calou.
Depois dessa consulta com o psiquiatra, nunca mais tive esses pesadelos. Ah....e voltei a mascar chicletes.
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