Quando nasci, morávamos no então bucólico bairro da Glória, no Rio de Janeiro. Era o dia 6 de agosto de 1959, sob o governo do Presidente Juscelino Kubitschek, época em que as pessoas estavam otimistas e cheias de esperança num futuro melhor para o Brasil.
Nasci sob a regência do signo de leão, com ascendente em sagitário – duas vezes fogo.
De pele muito branquinha, muito cabelo castanho escuro, olhos grandes e redondos também castanhos escuros. Era um bebê miúdo, mais para magrinho e muito chorona.
Meu primeiríssimo passeio foi ao Convento de Santo Antônio, com apenas quinze dias de vida, igreja na qual meus pais se casaram em 8 de dezembro de 1956.


Eu e Rosangela no dia do nosso batizado
Já no ano seguinte nos mudamos para o então tranqüilo bairro da Tijuca (na verdade o nome do bairro era Engenho Velho, mas desde aquela época ninguém mais lembrava disso), na zona norte do Rio; Rua Campos Salles, bem pertinho do América Futebol Clube, e do tradicional Instituto de Educação.


Meu pai tinha um carro, um Morris (acho que pouca gente vai lembrar...) com o qual passeávamos para praia, casa da Vovó Rosa em São Cristóvão ou Vovó Roselvira na Rua Delgado de Carvalho, no Largo da Segunda-feira.
Em 1962 nasceu meu irmão Eduardo e em 1963 nasceu Edison Júnior, Edinho. Estava assim formada a família, que só cresceu por causa de alguns animais de estimação, em especial gatos, que criávamos de vez em quando.
Conta minha mãe que eu era demasiadamente chorona. Chorava por tudo e por nada, desde bebê. Tenho vaga lembrança de começar a chorar e mamãe apontar o braço para o quarto e dizer:
– Vai começar a chorar de novo? Vá já para o quarto, fecha a porta e fica lá até parar de chorar.
E eu ia mesmo. Quando conseguia parar de chorar voltava para sala e dizia:
- Pronto mamãe, já chorei. (na verdade falava "ponto mamãe, já choiei)
Dali a alguns minutos a cena se repetia.

Uma das histórias de minha infância que ouvi mamãe contar várias vezes foi a de que um dia, quando eu estava com dois ou três anos de idade, fomos à antiga Cooperativa dos Funcionários do Banco do Brasil, onde ela fazia mercado com cartão emprestado do marido de minha avó Roselvira (mais conhecida como Rosinha), Eliakim, que era funcionário do banco. Numa das vezes em que fui com mamãe, cismei que desejava ganhar um brinquedo, uma pequena sanfona. Insisti muito com ela para que comprasse o brinquedo, mas ela não cedeu a meus apelos. Voltei para casa chorando e repetindo que eu queria a “fonfona” – eu nem sabia falar o nome direito.
Chegamos em casa e eu continuei a chorar por tanto tempo, repetindo “eu quero a fonfona”, que ela acabou por se comover. Voltamos até a Cooperativa do BB e ela comprou a sanfona. Voltei para casa feliz da vida, brinquei com a sanfona por cerca de quinze minutos, ou menos, e nunca mais sequer olhei para o instrumento que ficou anos enfeitando uma estante até ir para o lixo.Lembro que eu tinha um brinquedo que era uma cozinha com dois ambientes. O chão era vermelho e dava pra brincar de arrumar pequenas panelinhas na estante que havia entre a cozinha e a copa. Guardo a imagem de mamãe sentada no chão arrumando as panelinhas comigo e com um enorme barrigão da sua gravidez do Eduardo. Alguns anos depois, vi que um dos brinquedos dos meus irmãos, um caminhão de madeira que teve a carroceria quebrada, foi consertado por papai, que usou o piso da minha cozinha para arrumar o caminhão. Fiquei triste com aquela cena - tanto que nunca esqueci.
Outra lembrança marcante é da noite em que Eduardo nasceu. Mamãe começou a sentir as dores do parto já muito tarde, depois de voltar da casa da vó Rosinha que fazia aniversário dia 7 de janeiro. Eu estava com dois anos e meio de idade e a solução foi me deixar, ainda dormindo, na casa da vizinha, Dona Percília.
Pode parecer incrível, mas lembro até hoje do momento em que abri os olhos e não reconheci meu quarto. Comecei a chorar e acordei todo mundo: Dona Percília, seu marido José Alfredo Torres, a filha Keila (que mais tarde seria minha primeira melhor amiga) e o filho Alfredinho.
Contam que chorei por muito tempo. Lembro que Dona Percília ficava me explicando que mamãe tinha ido para a maternidade buscar um bebezinho que tinha olhos, narizinho, orelhinha e que seria meu irmãozinho ou irmãzinha. Entretanto, eu só parei de chorar quando eles me mostraram um quadro característico do Paraná que é uma miniatura da casa de um vaqueiro. Eu fiquei entretida com aquele quadrinho até dormir. Depois ela deu aquele quadrinho para mamãe guardar de recordação.
Meu pai foi bancário, trabalhava no horário noturno para ganhar um adicional. Minha mãe trabalhava no SESI e era uma das poucas mulheres que eu conhecia que trabalhava fora de casa.
Eu adorava quando minha mãe me levava para o trabalho dela. Um prédio de esquina na Rua Araújo Porto Alegre com Rua México, centro do Rio, ao lado do Museu de Belas Artes. Achava o máximo a forma como ela se arrumava toda para trabalhar: cabelos impecavelmente arrumados no cabeleireiro, cheios de laquê, bolsas pequenas penduradas no antebraço, saltos bem altos. Sempre linda!
Quando ela me levava, eu ficava horas tentando digitar alguma coisa na máquina elétrica de última geração. A chefe dela, Terezinha Nunes, acho que não gostava muito, mas eu era comportada e nunca cheguei a causar prejuízo.
Depois a gente voltava para casa num lotação cheio (pra quem não sabe, um ônibus pequeno que tinha o motor projetado para frente como se fosse um nariz) que saía do Largo da Carioca. Lembro que uma vez, vomitei no vestido de minha mãe por causa do sacolejo.
A primeira viagem da qual me recordo foi de trem para Sepetiba, em 1963. Meus pais alugaram uma casa no verão. Era uma praia limpa mas com muito lodo no fundo. Tinha muito mosquito e eu adorava o cheiro do “dorme-bem”, uma espiral que queimava a noite toda e exalava um aroma forte.
Passeávamos muito. Íamos à praia de São Conrado; na época só tinha mato e praia. Para chegar lá tínhamos que viajar para subir e descer o alto da Boa Vista e a Floresta da Tijuca. O túnel Dois Irmãos não existia e o Túnel do Joá estava em obras – da praia a gente ouvia os estouros de dinamite para quebrar a pedra. O carro do papai, um fusquinha, ficava numa rua pequena de terra quase escondido no meio do matagal. Já existia o Gávea Golf Clube, mas o Hotel Nacional ainda demorou alguns anos para começar a subir. A Rocinha existia e já era considerada favela, só que era um lugar tranqüilo por onde a gente podia passar sem medo de bala perdida ou assalto.
Quando eu estava com quatro anos, mamãe me increveu nun concurso de beleza infantil realizado no América Futebol Clube – o Miss Boneca. Eu nem entendia o que estava acontecendo, mas lembro bem que contrataram algumas cabeleleiras para arrumarem os cabelos das pequenas candidatas. Naquela época os penteados eram elaborados e quase sempre era necessário colocar muito fixador e vários bobs nos cabelos. Depois, as mulheres eram torturadas nos secadores. Para piorar, esqueceram de levar os protetores de orelhas. Resolveram encaracolar meus cabelinhos lisos e fininhos. Disso eu nunca esqueci. Precisei ficar sentada embaixo daquela máquina que teimava em assar minhas orelhinhas.... Minhas lembranças do desfile, da festa e da minha participação estão presas às poucas fotos que mamãe guardou. Sei que não fui eleita mas consegui um honroso terceiro lugar entre seis canditadas.

Certa vez, quando eu estava com cerca de cinco anos, fomos a uma festa de São João na ABEG – Associação dos Funcionários do Banco do Estado da Guanabara, em Jacarepaguá. Aliás, as festas de Natal e São João da ABEG eram fantásticas. No Natal os filhos dos funcionários ganhavam ótimos presentes. Eram centenas de brinquedos caros como grandes bonecas, autoramas, jogos, enfim, uma enorme variedade distribuídos de acordo com a idade de cada criança.
Mas voltando a festa de São João, lembro que tinha mais gente conosco, talvez minha Tia Hélia e a Rosangela, minha prima. O certo é que, de repente, me vi perdida. Sei que eu era muito pequena porque tenho na memória muitas pernas pelas quais eu passava enquanto procurava meu pai pelos jardins e pela nova quadra coberta que acabara de ser inaugurada. Estava assustada e andei por algum tempo até que me dei conta que havia um sistema de som por onde alguém falava. Fui procurando o lugar de onde falavam e descobri que ficava no andar de cima da nova quadra. Quando eu me dirigia para lá, vi papai subindo a escada, pois ele estava indo justamente pedir que anunciassem o meu sumiço no sistema de som. Alcancei-o quando ele já falava com os responsáveis. Foi um susto. Quando cheguei ao carro, todos me esperavam preocupados.
Foi também na ABEG (hoje ABANERJ)que nessa mesma época resolveram enfeitar o jardim com gaiolas de pássaros e uma macaca, a Brigite. Edinho sempre adorou mexer com animais e lá foi ele tentar puxar o rabo da macaca que pulava de uma árvore para outra e andava sobre uma corda. A macaca, obviamente, não gostou do puxão que levou e mordeu o dedo do Edinho, que nessa época estava com pouco mais de três anos de idade. Lembro bem que ele chorava muito, sua mão sangrava pra caramba. Papai e mamãe correram com ele para o pronto-socorro. Eu e Eduardo ficamos na ABANERJ tristes e preocupados com o que poderia acontecer com ele. Ele teve que tomar vacina anti-rábica durante vários dias. Durante esse tempo, todos os dias, papai tinha que sair da Tijuca e ir a Jacarepaguá para ver se a macaca estava bem de saúde e se assegurar que Edinho não corria mais risco.
Edinho era sempre o que mais se acidentava. Ele “adorava” mergulhar em lagos públicos. Caiu no laguinho que havia na Praça Afonso Pena, num dos espelhos d’água que havia no parque das águas de Cambuquira e no lago do Passeio Público. Esses lagos não eram de água muito limpa e nós sempre tínhamos que encerrar os passeios quando isso acontecia.
Edinho junto ao lago do Passeio Público antes do "mergulho"

Íamos com freqüência à Copacabana, em frente à Praça do Lido, onde morava minha tia Hélia. Ficávamos dentro d’água a maior parte do tempo: eu, Rosangela, Eduardo e Edinho gostávamos de pegar jacaré, mas o mais comum era tomarmos caixote. Sungas e biquínis chegavam em casa cheios de areia.
Outros passeios comuns eram à Quinta da Boa Vista e pela Floresta da Tijuca, Jardim Zoológico, Aterro do Flamengo – para soltar pipa, ver o aeromodelismo e os modelos náuticos. Raramente ficávamos em casa durante os finais de semana.
Visitamos também a primeira cidade cenográfica da TV Globo, a pequena Coroado, que ficava na então deserta Barra da Tijuca e que servia de palco para cenas da novela Irmãos Coragem.
Num desses passeios, vimos a filmagem de uma das cenas da novela Selva de Pedra, em sua primeira versão, quando o então jovem ator Francisco Cuoco, no papel de Cristiano Vilhena, chegava à casa de seu tio rico, Aristides Vilhena, localizada no Alto da Boa Vista. Naquela época, o PROJAC não devia existir nem em sonho. As novelas ainda eram em preto e branco.
Uma tarde em que estava na casa da Tia Terezinha, papai ligou do BANERJ pedindo para mamãe descer comigo que ele passaria para me pegar e me levar até a sede banco, um prédio no centro da cidade que à época era o mais alto do Rio de Janeiro, e onde estava sendo filmado “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”. Fui com minha prima Elaine, tínhamos cerca de seis ou sete anos, e ficamos muito felizes por poder ver de perto o “Rei” Roberto Carlos, que naquela época estourava em todas as emissoras com suas músicas da “jovem-guarda”.
Entramos numa sala grande, onde havia uma enorme mesa de reuniões. Roberto Carlos, lindo demais, usava uma camisa de cetim azul clara, uma calça de quadriculado minúsculo preto e branco e cinto branco. Na cena que estava sendo filmada, ele vinha sendo conduzido por bandidos que o levariam para conversar com a “chefa” do bando. Lembro perfeitamente que, após ele passar por uma porta preta, a porta fechava-se “automaticamente”. Na verdade, atrás da porta deslizante, estavam alguns homens que a empurravam escondidos da câmera para dar a impressão de que a porta era automática. Depois de uma das tomadas o diretor Roberto Farias gritou:
– Repete! Apareceu o “pé da porta!”. Achei aquilo tão engraçado que nunca esqueci. Na filmagem tinha aparecido o pé de um dos rapazes que etava empurrando a porta.
Depois Roberto sentou-se num sofá que havia na sala de reunião e papai me entregou um cartão perfurado de computação (era assim naquela época...cartão perfurado para que o computador pudesse “ler” o conteúdo) dizendo para eu pedir um autógrafo para o Roberto Carlos. Não sabia o que era autógrafo, mas fui até onde ele estava, “subi” no sofá, me ajoelhei ao lado dele e pedi algo parecido com “autófrafo”. Ele riu, pegou o cartão de minha mão e escreveu: com um beijo do Roberto Carlos. Quando ele me devolveu o cartão, me pediu um beijo e eu sapequei-lhe um beijo na bochecha esquerda.
Continuamos assistindo as filmagens e pouco depois descemos para a garagem no mesmo elevador. Ele e papai conversaram sobre alguma coisa e, já na garagem ele mostrou seu carro. Papai então falou sorrindo: - Esse é um dos seus carros, né? Roberto sorriu concordando. Todos já sabiam que ele é aficcionado por carros.
O autógrafo rolou no meio das minhas coisas por muito tempo, mas um dia, antes que eu crescesse o suficiente para dar o valor que aquele cartão realmente merecia,percebi que havia sumido.
Nossa rua era muito calma. As crianças brincavam na rua sem nenhum perigo. Andávamos de bicicleta dando voltas e mais voltas no quarteirão, brincávamos de pique - esconde, pique-bandeira, queimado... Eram muitas crianças e raramente saía uma briga.
Nós morávamos num apartamento de dois quartos e sala que, por ficar no andar térreo, tinha também uma área nos fundos que depois foi transformada numa varanda. Por força do fácil acesso, já que não era necessário pegar o elevador, sempre que estávamos na rua brincando com várias outras crianças, o posto de abastecimento de água potável era a nossa geladeira. Minha mãe ficava na maior bronca porque a gente esvaziava as garrafas de água gelada. A velha geladeira não conseguia dar conta da demanda por água gelada e acabava que depois a família toda tinha que beber água natural ou com gelo.
Morávamos quase ao lado do América. Nosso prédio era o Iria Cardoso, que fica na esquina com a Rua Vicente Licínio.
O apartamento era alugado e tinha uma sala grande, dois quartos grandes e um banheiro. Por ficar no andar térreo tinha uma área privativa que servia de play-ground onde brincávamos com bastante freqüência. Dava até para dar umas voltas apertadas com velocípedes e bicicletas.
No início dos anos 60 foi inaugurado um parquinho infantil na sede do América que tinha algumas “tias” que cuidavam das crianças: Tia Nair, Tia Vilma e Tia Lourdes. Tia Lourdes nos ensinou a dar as primeiras braçadas. Mamãe podia nos deixar lá todas as manhãs de sol e sair para fazer as compras de mercado nas “Casas da Banha”. Fomos literalmente criados dentro do América.
Eu vestida de baiana num dos bailes infantis de carnaval do América
Certa vez, quando eu estava com quatro anos, meu pai tinha levado a mim e meus irmãos para o parque infantil e, ao voltarmos para casa, bem nas escadas de acesso da antiga portaria, que eram altas e estreitas, eu despenquei escada abaixo e fui parar apoiada no meu queixo.
Meu pai estava mais à frente, segurando o Eduardo pela mão e com o Edinho no colo. Pela cara que ele fez quando me viu caída, percebi que o machucado tinha sido feio.
Imediatamente, o Zé Maria, um porteiro bastante conhecido, e segundo meu pai, muito gente boa que acabou morrendo assassinado na portaria do clube durante um baile, se ofereceu para levar meus irmãos para casa e meu pai seguiu a pé comigo para o Hospital Gafrée Guinle. Lembro de partes dessa caminhada, em especial quando estava em seu colo e pedi para seguir andando e vi a camisa do meu pai muito ensangüentada. Depois, lembro dos meus gritos e das quatro enfermeiras que me seguravam as pernas, braços e cabeça enquanto eu via uma agulha que aparecia e sumia da frente de meus olhos para costurar o machucado a sangue frio. Naquela época, não dava para anestesiar o queixo. Até hoje tenho a cicatriz. Voltei para casa com um enorme curativo e o diagnóstico de queixo quebrado.
Minha outra visita ao Gafrée Guinle foi em conseqüência de um corte no antebraço provocado por cacos de garrafas de guaraná. Foi tudo culpa da mamãe (hehe).
Eu estava no quintal brincando calmamente com umas garrafas de guaraná vazias que estavam ali por força de alguma festa que tinha acontecido na véspera. Eu apenas tirava as garrafas de um lugar para arrumá-las melhor em outro. Foi quando mamãe chegou na porta que dava do quintal para a sala do apartamento e se assustou ao me ver brincando com vidro e gritou: “- Larga já isso aí”. Eu me assustei com o grito dela e deixei cair a garrafa que estava na minha mão e, sabe-se lá como, apoiei o braço em cima dos cacos. O corte foi feio. Até hoje tenho a cicatriz.
Lembro de mamãe indo a pé comigo pela Rua Mariz e Barros, segurando a mão do braço cortado com o sangue escorrendo.
Diferentemente de quando quebrei o queixo, não lembro do atendimento, nem da dor do curativo.
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