domingo, 5 de setembro de 2010

Aprendendo a dirigir

Desde cedo fui apaixonada por carro. Tinha loucura para aprender a dirigir. Meu pai teve um pouco de culpa nisso porque quando eu ainda estava com 12 anos ele me passou o volante da kombi na estrada que liga Muriqui a Praia Grande que, naquela época, era de terra já que a Rio-Santos ainda estava no papel. Antes disso, nas nossas várias viagens pelo sul de Minas Gerais, ele deixava a mim e a meus irmãos acelerar o carro enquanto ele dirigia. Isso foi estimulando a nossa vontade de aprender a dirigir.
Aos dezesseis anos comecei a azucrinar o juízo de meu pai para que ele me emprestasse o carro dele. Sempre que estávamos em Muriqui eu ficava no pé dele pedindo para sair com o carro. E ele não deixava. Nos dias em que estava mais bem humorado ele me deixava dirigir, mas sempre com ele ao lado (e sempre reclamando e criticando).
Um dia, Tio Kinka esteve lá em Muriqui e viu minha insistência para que papai me deixasse sair sozinha. Talvez porque estava na condição de hóspede, talvez para compensar a vez que meu pai emprestou o velho Morris para que meu tio pudesse comemorar sua aprovação no vestibular para o curso de Direito e acabou com o carro do papai no poste da esquina, o certo é que o Ford Corcel do meu tio foi o primeiro carro que dirigi sozinha na minha vida. Eu estava acompanhada de alguém....acho que era do meu irmão Edinho, mas não enho certeza. Lembro que dei algumas voltas pelas ruas de Muriqui e acabei parando em frente a uma casa onde os rapazes que interessavam na cidade estavam jogando bola. Pois o motor do carro morreu e não pegava mais de jeito nenhum. Fiquei muito envergonhada porque todos acharam que eu é que não estava sabendo fazer o motor pegar. Wellington largou o jogo e veio fazer o carro pegar...estava apenas afogado (nem sei se os carros de hoje em dia ainda afogam hehehe, já que isso era no tempo dos carburadores).
Depois disso ele passou e deixar que eu dirigisse algumas vezes. Eu estava com 16 anos, mas Muriqui era um balneário muito sossegado a maior parte do anos, com ruas de terra e sem fiscalização.
A maior maldade que papai fazia era dizer que eu poderia dirigir desde que eu tirasse o carro da garagem da casa de Muriqui. Era um corredor comprido e muito apertado. Motoristas experientes se atrapalhavam para tirar o carro de ré, e tinha que ser de ré. Papai tinha um opala quatro portas, o câmbio ficava em cima com a alavanca saindo do corpo do volante, o motor tinha 4.1 cilindradas de potência. O carro era enorme e voava.
Um dia, na casa de uma amiga da mamãe que ficava na beira da praia - a mesma onde passamos o reveillon em que tomei o maior porre - insisti tanto para levar o carro de volta para casa que ele acabou deixando. Vinha eu toda exibida, na maior pose, quando passei pelo barzinho mais movimentado de Muriqui naquela época, mesmo fora de temporada o bar Bambu tinha movimento.
Acho que vendo que alguns rapazes me olhavam, fiquei nervosa e me descontrolei; sai acelerando o carro que, com o motor super potente, derrapou e foi direto para cima de um poste que ficava na esquina, em cima da calçada de outro bar, o Bar da Praia. Papai pulou pra cima de mim, se pendurou no volante, puxou o freio de mão e o carro parou. Ele ficou tão nervoso que berrava: “- Desce!”. Eu pedia para ele falar mais baixo porque todos os rapazes que estavam no bar pararam para olhar para aquele carro desgovernado, aquela garota atônita no volante e aquele homem que berrava mandando-a descer. Quanto mais eu pedia para ele falar mais baixo, mais ele berrava: “- Desce! Desce! Desce!”. Os rapazes, na porta do bar as gargalhadas, interromperam até o jogo de sinuca.
Morta de vergonha, abri a porta do carro e sai, entrando em seguida pela porta de trás muito sem graça. Um vexame.
Numa outra ocasião, meses depois, já tinha aprimorado meus dotes de motorista e já saía sozinha. Resolvi ir até a casa do meu namorado, o Jorge, que ficava na entrada da cidade. Edinho foi comigo. Para chegar lá, era necessário pegar uma estrada secundária que liga Muriqui à BR 101. Jorge não estava em casa e nós voltamos. Eu tinha planejado pegar a última rua de acesso ao centro da cidade quando mudei de idéia e decidi entrar antes, numa outra rua de acesso. Sem reduzir a marcha, puxei o volante para entrar na rua e o carro derrapou feio. Bateu muito forte com a roda traseira direita no meio fio e atravessou a rua, batendo no outro meio-fio. Parei o carro assustada e, junto com meu irmão, percebi que a roda traseira direita tinha sido fortemente comprometida. Ainda paramos na casa de um amigo dele para pegar um pouco de esponja de aço e tentar disfarçar a marca da batida na roda.
Depois de me acalmar e criar uma história que envolvesse uma barberagem menos grosseira. Voltamos para casa e estacionei o carro na porta da casa com tanta tranqüilidade que papai, que estava na varanda, elogiou para mamãe minha forma de dirigir. Mal sabia ele...
Sentei e depois de alguns minutos, de forma o mais natural possível,falei:
- Ah!! Papai. Já ia esquecendo. Fui desviar de um caminhão que vinha descendo aquela rua apartada lá perto do Poção e encostei a roda no meio fio – arranhou um pouco.
Ele me olhou assustado e se apressou a ver o que tinha acontecido com o carro. Ele se agachou para olhar a roda e ficou muito brabo.
- A roda está torta! Você empenou a roda e atingiu a suspensão do carro!
O dano foi grave. Ele tentou dar um jeito, mas achou que não valia a pena trocar a suspensão. Vendeu o carro assim mesmo.

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