segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Meu primeiro de muitos verões curtindo a solteirice

Terminado o noivado, passei todo o verão de 1980 curtindo minha solteirice em Muriqui na companhia da Dalma – uma menina de 10 anos (!), além da Tereza Baddini, Sueli, Fatinha e Selma que apareciam nos finais de semana.
O Wellington, aquele que precipitou o rompimento de meu noivado, ficou assustado com minha atitude de terminar com o Jorge e sumiu. Ele pensou que eu iria pegar no pé dele, mas ele não foi a causa do fim do meu noivado, ele foi apenas uma conseqüência de uma relação que já estava terminada dentro do meu coração.
Em meados de janeiro soube de minha aprovação no concurso público para o BNH – Banco Nacional da Habitação, uma empresa estatal.
Opa! Futuro profissional assegurado aos 20 anos! Então aquelas seriam minhas últimas férias escolares.
Nesse verão eu nem namorei tanto como se esperaria de uma ex-noiva recente. Queria ficar comigo. Assim, passei o verão inteiro sozinha. Não rolou sequer um beijinho!
Na verdade eu tinha esquecido como era fácil namorar. Levava tudo muito a sério e não me atraía um simples beijar sem ter por quê. Minhas amigas, ao contrário de mim, tinham praticado a arte de namorar com muita competência durante os anos em que estive afastada.
Foi no verão de 1980 que aconteceu a história do Areias.
Pra começar, preciso explicar que sou muito, mas muito, extremamente má fisionomista. Essa característica vem me criando problemas ao longo da vida e pouco consegui melhorar porque, além disso, sou distraída – não observo detalhadamente as pessoas a minha volta.
Como eu dizia, as meninas eram craques no namoro e, portanto, quando o carnaval se aproximava, elas preparavam uma lista de rapazes conhecidos que elas queriam beijar durante os quatro bailes – isso em 1980!
Fatima, ou melhor Fatinha, era a mais animada. Apesar de estar namorando há alguns meses, combinou com o namorado de brincar o carnaval sozinha, só que no mesmo clube que ele. Sentindo-se livre, preparou uma lista variada com mais de dez nomes de candidatos a serem devidamente beijados durante os quatro dias do carnaval..
Enquanto ela preparava a tal lista, ia conversando com Baddini. Eu não estava presente nesse momento, mas essa história foi contada em recontada inúmeras vezes.
Quando ela não conseguiu mais lembrar de nenhum outro candidato a compor a lista, pediu a ajuda da Baddini, então apaixonada por Geraldinho. Ela imediatamente sugeriu que o Areias fosse incluído na lista. O problema era que a Fatinha não conhecia o Areias.
Baddini apressou-se em defender sua idéia:
- Ah! Você vai gostar do Areias. Ele á alto, morenão, bonito, professor de Educação Física. Com essa descrição, Fatinha se animou e sapecou o nome do rapaz em sua lista.
Já no primeiro dia de carnaval Fatinha liquidou a fatura e beijou todos os integrantes de sua lista – exceto o Areias. Como ela não o conhecia, não pode arrancar o beijo.
No baile do dia seguinte ela estava excitadíssima para terminar toda a lista. Baddini estava muito ocupada dando uns beijos no Geraldinho e não pôde ajudar na identificação da última vítima da amiga. Foi então que a Fatinha pediu-me que a ajudasse a localizar o tal cara. Baddini realmente já tinha me apresentado ao Areias e eu saí pelo salão procurando. Quando passamos pelo bar, vi um rosto conhecido e tive a certeza de que se tratava do Areias. Puxei Fatinha pelo braço e a apresentei.
A empatia entre os dois foi instantânea. Ela abriu seu sorriso cativante e ele ficou encantado com a delicadeza da abordagem. Ele estava carregando um pequeno tridente de madeira tipico de fantasia de carnaval na mão, possivelmente de alguma diabinha que ele já tinha beijado antes, mas passou o tridente para Fatinha. O beijo veio logo a seguir. Eu deixei os dois e voltei para o lado das outras meninas.
Fatinha, como já havia liquidado a lista, passou o resto do baile aos beijos com o Areias.
No dia seguinte, lá pelo meio da tarde, eu estava na varanda de casa com meu pai quando a Fatinha chegou com uma expressão meio atordoada. Ela não parava de pentear seus longos de louros cabelos molhados. Assim que me viu, ainda no meio da rua, antes de entrar em minha casa, ela perguntou: "- Márcia, quem era o rapaz que você me apresentou ontem dizendo que era o Areias?"
Eu olhei para ela espantada e disse:
- Ora Fatinha, aquele era o Areias!
- Não! Aquele NÃO era o Areias! - ela disse - A Baddini disse que aquele cara não era o Areias!
Então ela contou que depois do baile foi para a praia com ele – o que era um costume da galera. Lá, encontrou com Baddini e Geraldinho.
"Areias" e Geraldinho mergulharam no mar enquanto elas conversavam sentadas na mureta que separava a areia da praia da calçada.
Depois de voltar para casa e dormir o sono dos apaixonados, Fatinha acordou feliz da vida e começou a contar para Baddini como havia gostado de conhecer o Areias.
Baddini escutava tudo com simpatia, mas depois de tantos detalhes e elogios ao rapaz ela disse:
– Engraçado, eu não vi você e o Areias juntos.
Fatinha riu e disse que ela devia estar doida porque eles estavam juntos na praia depois do baile; como que ela dizia não ter visto?
Baddini explicou:
- Ah Fatinha, mas aquele rapaz que estava com você na praia não era o Areias, não! Eu nem conheço aquele cara!
Aí a Fatinha pirou! Quem era o rapaz com quem ela havia ficado toda a noite? Ela chamou ele pelo nome de Areias o tempo todo e ele não reclamou!
Logo em seguida chegou o namorado da Fatinha para tomar satisfações sobre o comportamento dela durante os bailes. Ele estava indignado porque a tinha visto beijar vários homens no primeiro dia e, pior do que isso, na noite anterior ela havia beijado apenas um – a noite toda! Se ela desejava brincar o carnaval sozinha, como tinha ficado com um único homem a noite toda?
Enquanto ele brigava, Fatinha mal escutava o que ele dizia e por fim, com ar totalmente displicente, perguntou:
-Você sabe quem é aquele rapaz que estava comigo ontem?
Sem acreditar no que ela estava perguntando ele confirmou que o conhecia sim.
Fatinha apressou-se em perguntar
- Quem é ele?
O rapaz ficou enfurecido.
- Quer dizer que você fica de agarramento com o cara a noite inteira e nem sabe quem ele é? Isso é o fim da picada!
O namoro dos dois terminou naquele momento.
Voltando à varanda de minha casa, Fatinha nos contou toda essa história. Eu e meu pai escutávamos tudo as gargalhadas. A coitadinha estava realmente aflita por não saber quem era o seu Romeu.
Ela dizia:
– Bem que eu achei estranho porque a Baddini havia dito que o Areias era um moreno alto, elegante, forte e com corpo atlético, e aquele que eu fiquei ontem não era alto, era clarinho, magrinho e ainda tinha um dentinho de ouro aqui do lado...mas como você disse que ele era o Areias, e o Areias estava na minha lista, eu fiquei com ele assim mesmo...
Ela me acusava de ter agido de caso pensado, de ter sacaneado ou armado para cima dela. Por mais que eu jurasse que o erro havia sido involuntário, Fatinha não acreditava.
Depois de um trabalho de investigação, descobrimos que o rapaz misterioso chamava-se Frank. Quem esclareceu foi meu irmão Edinho, que o conhecia porque ele também modulava como rádio cidadão – PX.
Nesta mesma noite, Fatinha foi para o baile disposta a conhecer o famoso Areias. Baddini mostrou quem era o verdadeiro Areias; efetivamente um morenão alto e charmoso. Fatinha parou perto dele, chegou bem perto e de forma acintosa, olhou bem pra cara dele e disse para mim e para Baddini, mas sem se preocupar muito em esconder o que dizia do rapaz:
- Prefiro o falso Areias – em seguida ela virou as costas e foi atrás do Frank.
Ela queria saber por que ele havia permitido que ela o chamasse pelo nome errado durante toda a noite sem reclamar. Ele explicou que ela falava com tanta certeza que o nome dele era Areias, e estava tão bom ficar com ela, que preferiu não se importar com o detalhe do nome, algo que, para ele, naquele momento, não tinha a menor importância.
Passaram o resto da carnaval juntos e ficaram namorando pelo resto do verão. Essa história ficou bem famosa naquela época no meio de nossa turma e rendeu muita gozação pra cima da Fatinha e do Frank.

Um comentário:

  1. Dessa história não fiquei sabendo, pois tinha apenas 4 anos de idade, moro em Muriqui desde que nasci em 1976 ano pelo qual nasci...quem sabe nos esbarramos ...
    Eu sendo uma criança de 4 anos e você com 20 anos ...
    Adorei sua história...
    O mais interessante que na época de minha adolescência os costumes com relação ao carnaval continuavam os mesmos... a tal da listinha...
    Teve um ano que até o tal do tridente existiu também; o que foi mais engraçado é que se não fosse a diferença de idade que temos(coisa que pra mim não tem a menor importância, diga-se de passagem)diria que participei desta história como uma das amigas...rsrsrs.
    Beijos, Michelle.

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