sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O teatral casamento da prima Rosangela

Rosangela casou cedo. Rodolpho era um rapaz com pinta e papo de rapaz rico. Apaixonou-se por Rosangela. Ela gostava dele, mas passava a impressão de que não o amava. Por isso, o namoro deles era muito instável, cheio de rompimentos e retornos recheados de cenas dramáticas. Devido a insistência do namorado, Rosangela acabou convencida a se casar com pouco mais de um ano de namoro. Marcaram o casamento para o dia 8 de dezembro de 1978, quando ela estava com dezenove anos de idade.
Igreja marcada, festa tratada, convites distribuídos.
Meus pais, padrinhos de nascimento da Rosangela, eram também os padrinhos de casamento.
Preocupados com a instabilidade daquele namoro, mamãe deixou para comprar o presente de casamento já bem em cima do grande dia, mas como tudo estava bem até uma semana antes, ela comprou um belo faqueiro.
Assim, dois dias antes do casório, eu e mamãe fomos à Copacabana entregar o presente.
Surpresa! Ela e Rodolpho haviam brigado mais uma vez e, mais uma vez, terminaram tudo. Desmarcaram o casamento!
À essa altura, tudo já estava pronto para o casório. Mesmo tendo conhecimento de que o namoro deles era recheado de idas e vindas, parecia impossível que aquilo estivesse acontecendo: desmarcar tudo dois dias antes do casamento?! E se Rodolpho aparecesse pedindo perdão e eles resolvessem reatar? Na dúvida, passamos a maior parte daquele dia fazendo companhia a nervosa Tia Hélia enquanto aguardávamos os acontecimentos.
Rosangela permanecia trancada no seu quarto e não queria ver ninguém. Chorava o tempo todo.
Tia Hélia estava em estado de choque. Eu e mamãe permanecíamos sem saber o que fazer. Voltamos para casa esperando notícias e com o faqueiro na mala do meu fusquinha.
Finalmente, depois de perceber que a situação não se reverteria, Tia Helia tomou as providências necessárias para desmarcar a cerimônia marcada na Igreja de São Pedro, na Av. Paulo de Frontin. O buffet foi doado, assim como o bolo.
No dia seguinte, véspera da data marcada para o casamento, e após uma crise de raiva em que ela pisoteou o vestido de noiva, Rosangela foi internada numa clínica para um tratamento de sonoterapia e Tia Hélia pediu ajuda para avisar aos convidados que não haveria mais casamento. Que situação aquela! Para cada pessoa que a gente ligava, tínhamos que driblar um enorme questionário, pois era difícil para todos absorver rapidamente a idéia de que um casamento tinha sido cancelado na véspera.
Passado o primeiro susto, passamos a nos preocupar com Rosangela, que permaneceu internada por cinco dias.
Passou Natal, Reveillon, o verão acabou e quando abril chegou ficamos sabendo que eles estavam namorando novamente.
Depois, soubemos que haviam casado no civil no dia 11 de maio e que a cerimônia religiosa seria no dia 19 de maio. Outra correria para contatar e convidar as pessoas mais chegadas.
A cerimônia aconteceu na Capela de Santa Therezinha, no Palácio Guanabara.
Como se não bastasse toda a confusão anterior, no dia do casamento, aconteceram situações no mínimo, sinistras.
Rosangela entrou na Igreja super bonita e seu vestido branco. Em seguida, quando os noivos já estavam diante do padre, Rodolpho desmaiou em pleno altar.
Primeiro ficamos todos paralisados. O que tinha acontecido mesmo? Onde estava o noivo?
Foi aí que Rosangela soltou um grito como que saído de filmes de terror. Ela pensou que Rodolpho pudesse estar morto.
Os homens que estavam mais próximos levaram Rodolpho para a sacristia, enquanto Rosangela chorava descontroladamente e era amparada pelas mulheres.
Eu, que estava sentada numa das primeiras filas, permaneci estática, sem acreditar no que estava acontecendo.
Quando Rodolpho acordou do desmaio, conseqüência de uma crise de hipoglicemia provocada pelo nervosismo que o impediu de comer durante todo o dia, Rosangela estava com a maquiagem completamente borrada e o rosto inchado.
Providenciaram um banquinho e eles continuaram a cerimônia sentados, para evitar novas crises.
Com os noivos sentados, desmaios não voltaram a acontecer, mas, como ambos estavam nervosos, no momento da troca de alianças, Rodolpho deixou a aliança que colocaria na mão esquerda de Rosangela cair no chão. A aliança sumiu. Rosangela levantava a barra do vestido para ver se o anel estava embolado por ali, e nada. Um dos padrinhos, ajudando a encontrar a aliança, acabou ficando de quatro em pleno altar. Parecia cena de filme pastelão! Finalmente localizaram o imprescindível objeto - estava caprichosamente escondido embaixo do local onde a noiva ajoelha.
Tenho a impressão que ela jamais perdoou Rodolpho por ele ter estragado um dos dias mais importantes na vida de uma mulher.
Para encerrar o dia, o carro dos noivos apareceu com o pneu furado.
Não teve festa e o fotógrafo precisou ter muito trabalho para fazer as fotos da noiva tentando disfarçar a maquiagem borrada. Rosangela também não contribuía e deixava clara sua irritação com o que tinha acontecido na igreja.
O casamento durou poucos anos, mas dele nasceu, em setembro de 1981, Rodrigo Eduardo – um gatinho lindo.

Um comentário:

  1. Eu ainda não tinha lido essa história narrada pela ótica de uma outra pessoa.
    É fato todo o relato! Poucos detalhes escaparam.

    Hoje somos grandes amigos! Amadurecidos e orgulhosos dos frutos dessa "união" - como vc bem colocou.. um filho lindo e um neto igualmente "gatinho lindo" - ambos companheiros e parceirões.
    Parabéns, Marcia, por essa (re)leitura e pela maneira objetiva com que colocou cada palavra!

    Não é à toa que os seus livros são sucesso antes mesmo de serem editados!
    Um gde bjo ;)

    ResponderExcluir