quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O Primeiro Emprego

Desde muito cedo desejava trabalhar. Talvez influenciada pelo exemplo de minha mãe, achava o máximo ter responsabilidade, salário e minha independência financeira.

Já aos dezesseis anos ficava procurando uma oportunidade na seção de empregos do jornal “O Globo”.

Um dia, no início de 1979, vi um anúncio para emprego de recepcionista que exigia fluência em inglês e habilidade para cálculos. Fui com mamãe e descobri que se tratava de uma vaga na empresa que administrava o Bateau Mouche (aquele mesmo que dez anos depois naufragou no Réveillon) e o Restaurante Sol e Mar, na enseada de Botafogo.

Eram muitas candidatas, algumas bem mais experientes que eu, com meus dezenove anos. O dono, Sr. Cid, passou um teste de cálculo de percentual e eu fui a mais rápida.

No mesmo dia, soube que estava contratada. Sem carteira assinada, com um salário pouco expressivo, mas empregada. Melhor ainda; apenas meio expediente – eu estudava pela manhã e depois da faculdade ia direto para o trabalho.

Ele contratou duas moças, mas a outra ficou pouquíssimo tempo. Já na segunda semana, era Semana Santa e me dei conta de que não poderia viajar para Muriqui. Era feriado e o movimento no barco e no restaurante aumentava muito, mas imaginar a família inteira viajando e eu ficando sozinha no Rio, sem namorado, foi demias para mim. Dentro da análise de prioridades da minha realidade, resolvi o problema da forma mais fácil: pedi demissão. Lembro que meu argumento foi que meu pai havia me proibido de ficar sozinha no Rio – o que não era verdade.

Deixei doido o Sr. Cid, um iugoslavo que na época era o dono da empresa. Ele ficou tão pasmo com minha infantilidade que resolveu me dar folga no feriado. Por isso, a outra moça que foi contratada junto comigo foi obrigada a trabalhar dobrado no feriado.

Quando retornei, feliz, lépida e fagueira, ela estava aborrecidíssima! Mostrou-me listas enormes de passageiros que embarcaram para o passeio. O controle de receita do dia era enorme. Trabalhou tanto que acabou discutindo com o dono e foi mandada embora. Eu continuei trabalhando por mais algum tempo e depois pedi demissão de novo. Achava aquele trabalho muito chato. Depois de embarcar os turistas, fazia rapidamente o fechamento do dia e ficava sem ter o que fazer.

Passado alguns meses, Sr. Cid me chamou de volta oferecendo um salário melhor. Fiquei mais um tempo, mas ele era uma pessoa difícil. Pedi demissão de novo.

Meses depois, novo convite – com salário melhor ainda. Aceitei com a condição de que ele oferecesse a outra vaga para meu namorado Jorge, que falava inglês muito bem. Ele concordou. Jorge trabalhava pela manhã e eu à tarde.

Nessa época fui abordada por dois homens que se diziam produtores de modelos e me propuseram investir nessa carreira. Nunca tive ambições nessa direção. Fui miss quase que por acaso, até porque, ainda mais naquela época, era caso raríssimo (nunca soube de outro) que uma ex-atleta, com porte físico de atleta acabasse por também vir a ser miss. Mas acabei me interessando em saber detalhes da proposta de um deles e combinei uma entrevista num escritório que ficava no centro do Rio.

Ele não conseguiu disfarçar sua decepção quando me viu chegar acompanhada de minha mãe. Mesmo assim, veio com uma conversa bonita, apresentando muitas possibilidades de bons trabalhos e boa remuneração. Para isso eu teria que fazer um “book” de fotos que custava lá um bocado de dinheiro. Deixei claro que tinha muitas dúvidas quando à minha vocação, mas deixei meus telefones e ele disse que faria contato tão logo houvesse uma oportunidade. Nunca fiz o book e ele nunca mais me procurou.

Jorge não se deu muito bem no trabalho. Ele e seu Cid não se entenderam e havia um outro empregado, chamado Silvio, que nos influenciava para ficarmos descontentes e fazia o maior leva e trás entre a gente e o proprietário. Um dia, Jorge brigou com esse homem e foi demitido.

Pouco depois eu fui embora de vez e não voltei mais ao Bateau Mouche

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