Depois daquela briga do carnaval de 1978, meu namoro com Jorge continuou até meados de 1979, quando completamos três anos. Os amigos e primos dele começaram a cobrar nosso noivado já que logo que começamos a namorar, Jorge disse, repetidas vezes, que quando completássemos três anos juntos, ficaríamos noivos.
Após algumas discordâncias com minha futura sogra, que não queria nosso noivado naquele momento, e que acabou por provocar uma pequena disputa por poder já que ela queria determinar a data do noivado, marcamos a festa para dia 21 de outubro de 1979, que coincidia com o aniversário de minha mãe.
Mamãe, toda satisfeita, organizou um jantar em nossa casa. Foram nossas famílias e muitos amigos. A noite teve até pedido oficial de minha mão em casamento para meu pai. Ganhamos muitos presentes para o enxoval.
Depois que o noivado foi oficializado, aconteceu alguma coisa dentro de mim que até hoje não sei explicar. A idéia do casamento me era agradável, mas a convivência com Jorge não era mais a mesma. Ele tinha ficado muito ciumento. Os concursos de miss o deixaram inseguro e ele passou a pegar no meu pé de uma maneira absurda. Ao mesmo tempo, passei a sentir atração por outros rapazes, dentre eles um rapaz chamado Marcus Vinícius que Edinho havia conhecido quando começou a brincar de ser rádio amador na faixa cidadão.
Continuamos namorando e no réveillon de 1979 para 1980 os pais dele foram para nossa casa em Muriqui. Foi a primeira e última vez que eles se hospedaram lá. Eu estava péssima! Nas vésperas eu tinha encontrado com um antigo ficante, chamado Wellington e isso mexeu muito comigo....
A coisa foi ficando insustentável e no dia 10 de janeiro de 1980, terminei o noivado com Jorge.
Era um dia chuvoso, aliás, muito chuvoso. Ele continuava trabalhando na VARIG e precisou ficar no Rio enquanto eu passava a semana em Muriqui. Ele insistiu em passar o final de semana comigo em Muriqui, embora eu deixasse claro que preferia ficar sozinha e argumentava que a chuva poderia provocar deslizamentos na estrada, tornando a viagem muito perigosa. Jorge chegou a Muriqui no início da noite de sábado. Ele tinha acabado de ganhar da mãe um carro novo, um Chevette Hatch vermelho zerinho e queria me mostrar.
Recebi Jorge secamente e fui dormir cedo. Ele percebeu que alguma coisa estava muito errada, mas nada disse.
Na verdade, eu estava apaixonada por Wellington, que eu já conhecia havia uns cinco anos, aquele que era amigo do Cláudio, meu ex-namorado. A gente havia ficado juntos antes do reveillon e durante aquela semana. Isso foi muito forte para mim.
Eu já havia ficado com ele outras vezes, já havia também ficado com Irineu Antunes, de Curitiba, naquele dia em que fui encontrá-lo na boate Pappillon, mas agora eu era noiva e me sentia muito mal em agir dessa forma. Percebia claramente que não amava o Jorge e que precisava terminar aquele namoro – mas é preciso ter coragem.
Além disso, numa das conversas que mamãe teve comigo, ela havia me alertado para o fato de que uma mulher, quando se entrega para um homem (na linguagem que ela usou na época), fica presa a ele porque, afinal de contas, como ela vai dizer para o próximo namorado que ela não é mais virgem? Os homens não aceitam isso e se aceitam, na primeira oportunidade jogam na cara dela que ela não valia mais nada quando ele a conheceu. Eu, na minha inocência, acreditei nisso (!!!!!!!!) e me sentia forçada a casar com Jorge, nem que fosse para me separar depois.
Coisas da mentalidade daquela época.... Quase me obriguei a casar sem amor apenas porque tinha transado com ele.
Voltando àquele final de semana chuvoso em Muriqui, no domingo de manhã, eu custei muito a levantar da cama porque temia encontrar Jorge. Mamãe veio me tirar do quarto. Tomei café e fui sentar com ele numa das redes da varanda.
Jorge não havia dormido direito. Estava ansioso e pressentia que nosso noivado estava por um fio. Por isso ele falou:
- Faço o maior sacrifício, venho do Rio a Muriqui debaixo de chuva só para ver minha noiva e quando eu chego ela sequer me dá um beijo.
Era o pretexto que eu esperava:
- Sacrifício! Que sacrifício? Carro novo, gasolina no tanque, dinheiro no bolso; onde está o sacrifício? Quer saber de uma coisa: acho que nosso noivado não está dando certo e que é melhor terminarmos aqui.
- Eu sabia que você ia dizer isso! – Jorge falou com a maior tristeza.
Daí começou uma choradeira. Eu, ele e até minha mãe. Jorge voltou para o Rio logo depois do almoço. Eu fiquei triste, mas muito aliviada.
Foi aí que Dona Ruth, que não queria o noivado, não gostou que eu tivesse terminado com o filho dela. Hoje entendo que ela apenas achava que era cedo demais – e ela tinha razão!
Lamento muito que tudo tenha terminado com o sofrimento dele. Hoje vejo que fui implacável na forma como o percebia e como achava “graves defeitos” em Jorge. A vida me fez aceitar os mesmos defeitos, ou outros até muito maiores em outras pessoas que conheci depois.
Jorge casou dois anos depois com uma moça que morava perto dele. Tiveram três filhos e até hoje moram na mesma rua. Enquanto que a minha vida....Vixe!!! Quanta diferença!
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