Quando minha família retomou à rotina da vida no Rio depois das férias do verão de 1980 já era início de março. Estava meio desenturmada depois de ter rompido o noivado. Edinho andava brincando de ser rádio amador na faixa cidadão – uma atividade que estava virando moda. Comecei a me interessar pelos bate-papos entre os macanudos (apelido dos operadores de rádio amador) e acabei cadastrando-me com PX1 C2612.
Ainda no tempo em que ficava apenas na escuta – QAP, percebi que havia um número enorme de operadoras de nome Márcia; assim, adotei o nome de Cristina.
Conheci muita gente nova, fiz novos amigos e – mudei de nome porque meus novos amigos só me chamavam pelo meu QRA (nome) - Cristina, já que eram todos macanudos.
Para quem não tem intimidade com a linguagem de rádio, explico que existe um código "Q" para facilitar o entendimento entre os rádio-amadores de diferentes idiomas. Além disso, existe uma enorme lista de apelidos:
Turmalina – namorada
Cristal - esposa
Pé-de-borracha – automóvel
Comecei a namorar um PX, o Marcus Vínícius, que me foi apresentado pelo Edinho. Esse namoro deu o que falar!
Por coincidência, descobrimos que meu pai era chefe da irmã do Marcus no BANERJ, só que ela era uma “funcionária problema”, e meu pai tinha sérias restrições ao comportamento dela. Por isso, ele simplesmente resolveu proibir o namoro. Foi quando descobri o quanto papai é radical em seus posicionamentos e, quando ele impaca, nem sequer admite a possibilidade de considerar válida alguma opinião diferente da sua.
Por causa do temperamento do meu pai, o namoro não foi muito longe, mas alguns meses depois, voltamos a namorar. Essa história durou cerca de um ano.
Marcus Vinícius, então com 28 anos, não era um homem bonito – pelo contrário, mas agradava as mulheres porque era charmoso e sedutor na medida certa, além de ser dono de uma voz muito linda – um diferencial e tanto quando se conhece alguém através do rádio.
Logo no início de minha relação com Marcus, eu era ainda muito inocente e deixei transparecer para todo mundo o quanto estava apaixonada (aliás...sou meio boba até hoje hehehe)
No dia em que Marcus comemorava 28 anos, em abril de 1980, apesar de já estarmos afastados, organizei uma pequena festa de aniversário na casa de uma amiga comum – a Marcinha, já que na minha casa ele era “persona non grata”. Preparei uma mesa enfeitada como se fosse para uma criança, com bolo, brigadeiros, pratinhos, copinhos e chapeuzinhos, além de bolas coloridas. Foi uma festa surpresa. Ele chegou, ficou todo feliz, recebeu o presente e o cartão que eu havia preparado e, pouco depois, saiu para encontrar com amigos e comemorar o aniversário num bar. Além de não me convidar, nesse mesmo dia ele começou a namorar uma garota que também era PX.
Não preciso nem falar o quanto fiquei mal...
Como Marcus e a nova namorada freqüentavam vários bares na companhia de outros macanudos, rapidamente tornaram-se o casal mais popular do rádio PX da Tijuca. Aquilo me fazia sofrer, principalmente quando ouvia os dois conversando pelo rádio. Era de doer!
Mas esse namoro não durou muito e os dois terminaram muito bravos um com o outro. Como Marcus freqüentava a casa da Marcinha, a gente continuava se encontrando,
A mãe da Marcinha, que se chamava Mariazinha, era Mãe-de-santo e freqüentava um centro espírita no bairro de Maria da Graça. Ela encarnava uma “Pomba-Gira” e acabei indo conhecer o tal centro.
Nessa época, tinha um outro rapaz que freqüentava a casa dela, de nome Paulo, que também era PX, e dono de uma sorveteria no Leme. Ele era baixinho, louro, fumava demais e não me chamava a atenção como homem. Entretanto, numa noite em que estávamos na casa da Marcinha, e eu estava sem carro, ele me deu uma carona até em casa. Pois nesse dia, sem que eu saiba como nem porque, acabamos nos beijando.
A partir daí ele assumiu o papel de meu namorado e passou a freqüentar minha casa. Até para Muriqui ele foi. Em junho, assumi meu emprego no BNH. Namoramos por cerca de um mês. Era uma coisa esquisita porque eu não sentia nada por ele, mas deixava o namoro rolar. Até que numa noite, fomos ao centro espírita da mãe da Marcinha. Eu fiquei sentada entre outras pessoas, pois não tinha a menor intimidade com aquele ambiente, enquanto Paulo entrou e foi cumprimentar a Mariazinha, que estava atendendo por meio da “Pomba-Gira”
Quando o Paulo chegou perto dela, ela levantou da cadeira e perguntou bem alto:
- Gostou do presente que eu te dei?
Paulo não entendeu e perguntou:
- Que presente?
Ela apontou para mim rindo toda satisfeita e disse:
- Ela!
Paulo argumentou que não havia pedido isso a ela, mas ela disse que ele merecia e por isso ela quis dar o presente.
De imediato custei a entender o que estava se passando. Como assim? Presente? Eu?
Voltei para casa muito encafifada com aquilo. No dia seguinte terminei o namoro com Paulo.
Depois disso, Marcus voltou a se aproximar de mim, e voltamos a namorar perto do meu aniversário, em agosto.
Precisei administrar a relação com meu pai e, pela primeira vez, marquei um almoço com ele na cidade já que, como recém-contratada do BNH, também trabalhava no centro do Rio de Janeiro. Tivemos um papo muito sério e como estávamos num restaurante, ele “teve” que me escutar. Por fim, disse que era contra o namoro, mas que lavaria suas mãos.
Depois de mais uns quatro ou cinco meses, o namoro chegou ao fim porque Marcus se aborreceu com alguma coisa e terminou comigo. Fiquei na fossa de novo.
Decidi então passar o Réveillon de 1980/81 em Curitiba, na casa da Tia Myrthes e na companhia da Márcia Berino e da Magali (irmã mais nova da Márcia), onde conheci o Marquinho Bassetti. Voltei para o Rio apaixonada pelo curitibano. Como é fácil a gente se apaixonar e “desapaixonar” quando se tem 21 anos!
Mantive contato com Marquinho e ficamos namorando à distância por poucos meses. Por causa desse namoro, passei um final de semana em São Paulo, na casa da irmã dele, Eliane, que morava na Rua Maranhão, em Higienópolis. Ela era casada e tinha duas filhas ainda pequenas.
O namoro terminou num outro feriado, acho que foi na “Semana Santa”, quando fui a Curitiba e Marquinho estava dividido entre eu e a ex-namorada. Não fiquei muito na fossa, fiquei foi com raiva por ele se demosntrar tão inseguro – um banana. Escrevi uma carta-bomba de tão brava que fiquei e na qual eu terminava definitivamente o namoro!! Anos depois ele disse que aquela carta o fez chorar muito.....
Em 1981, para mim, o caso Marcus estava encerrado, mas foi só ele perceber que eu o havia esquecido de vez para “resolver” se apaixonar por mim... E essa paixão durou anos! Muito tempo depois, sempre que o Marcus tinha uma oportunidade, ele me abordava. Aparecia em Muriqui de surpresa e ficava no meu pé. Quando lancei meu primeiro livro de poesias, anos depois, ele me alugou a maior parte da noite. Enfim levou anos para ele aceitar a ideia de que eu não gostava mais dele.
Fiquei tão envolvida pelo rádio que, no final de 1980, tornei-me Diretora Social da ACAPX – Associação Carioca de PX, liderada por um macanudo de nome Abrantes.
Também foi na ACAPX que eu conheci Ronaldo, um moreno alto e bonitão. Começamos a namorar em meados de 1981. Ronaldo era propagandista de laboratório, tinha 33 anos e foi o homem mais ciumento que namorei. Em julho de 1981 entrei de férias no BNH. A princípio pretendia ficar no Rio, mas Ronaldo achava que eu não deveria sequer ir à praia sem ele!!!! Minhas primeiras férias no banco e ele achando que eu tinha que ficar em casa o dia todo para só sair com ele à noite, já que ele não podia tirar férias. Brigamos por causa disso e eu embarquei de férias para Salvador, Recife e Natal com minha mãe.
Todas as noites eu ia para a sede da ACAPX, em Vila Izabel. Essa onda durou cerca de um ano. Muitas vezes eu saia da faculdade, depois de já ter trabalhado o dia inteiro, e passava na associação para resolver alguma coisa ou para alguma reunião. Depois de um tempo, essa rotina deixou de ser prazer e virou obrigação – foi quando deixei a ACAPX.
Olá MC.
ResponderExcluirAo ler a sua narrativa fiquei viajando ao relembrar os meus primeiros anos no rádio, na década de 90. Você vivenciou isso no início dos anos 80, época que tinha bastante gente na faixa, já que era novidade aqui no brasil. Deve ter sido muito bom.
Mas uma coisa em especial me chamou a atenção, foi quando você citou a ACAPX. É que, há alguns anos um amigo, sabendo que eu gostava de rádio, me deu um chaveiro, que é um brinde comemorativo do primeiro ano de fundação da Associação Carioca de PX, onde está escrito, além do nome da associação, a frase "elo de utilidade pública", o ano (1980-1981) e o endereço (Rua Artidoro da Costa, 43, Vila Isabel).
Qualquer dia vou publicar também umas histórias minhas sobre a época de ouro do PX.
Grande abraço macanuda.
Renato
py1pb@dxbrasil.net
Foi muito bom ler sua narrativa. Fiz uma viagem pelo tempo. Acompanhei de perto tudo o que vc relatou. Frequentava a casa da Mariazinha, que morava perto do Colégio Militar. Família fantástica a dela. Eu era Diretor de Patrimônio da ACAPX e convivemos muitos momentos bons daquela época. Eu era muito amigo do Marcus e por diversas vezes procurava aconselha-lo. Lembro muito de você e talvez não lembre mim, mas fiquei muito feliz em voltar ao passado com o seu relato. Fique com Deus e um grande abraço.
ResponderExcluirRenato - PX1-E0174.
Renato! Claro que lembro de vc! Perdemos totalmente o contato e gostaria de saber como vc está, afinal, em mais de 30 anos, muita coisa deve ter acontecido... Mande seu e-mail ou telefone em um outro comentário que eu não publico aqui e faço contato com vc. Abraços
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