Maura foi minha melhor amiga na faculdade e até hoje mantemos contato e nos encontramos de vez em quando, apesar dela estar morando em São Paulo. Ela é a protagonista de uma história que me faz rir ainda hoje....
Enquanto eu namorava o Jorge, ela namorava o Motta. Saímos juntos muitas vezes. Adorávamos nos maquiar cuidadosamente para sair aos sábados à noite. Ela tinha que sair cedo porque as dez horas da noite tinha que estar de volta em casa, caso contrário seu pai criaria sérios problemas.
Isso nunca a impediu de fazer o que queria com o namorado, mas o horário era respeitado. Depois ela terminou o namoro e conheceu João Artur, com quem casou ainda na época da faculdade.
Quando conheci Maura ela não tinha carro e nem carteira de motorista e por isso eu fazia um pequeno desvio de rota e ia de buscá-la em casa diariamente, no Méier.
Um dia, ela conseguiu tirar a carteira e me pediu para acompanhá-la na direção do carro da mãe, um Chevette 1975 ainda muito novo pois estava com apenas 17.000 km rodados. Era um carro verde alface...que tal?
Logo no primeiro dia, deixei meu carro na garagem da casa dela e seguimos para a faculdade. Na primeira esquina, ela puxou o volante para fazer a curva e simplesmente não o largou depois que o carro já havia dobrado para a outra rua. Assim, o carro continuou andando em curva e subiu na calçada. Vi um rapaz pular e fugir para dentro de um boteco. Depois quase atropelamos a banca de jornal. Joguei-me no volante e puxei o carro, impedindo o acidente. Expliquei para ela que depois de fazer a curva ela precisava “largar” um pouco o volante e deixar que voltasse normalmente à posição central, fazendo o carro andar em linha reta.
Apesar de apreensiva, continuamos nossa aventura. Chegando à faculdade ela decidiu deixar o carro na mesma vaga que eu costumava usar quando o estacionamento interno já estava lotado. Como a gente sempre chegava cedinho para eu poder tomar meu café da manhã na lanchonete, era tranquilo encontrar vaga na rua. A vaga não exigia grandes manobras, mas existia na calçada alguns “gelos baianos” que impediam os motoristas de ocupar todo o espaço da calçada e expulsar os pedestres. Maura calculou mal e encostou a parte dianteira do carro num dos blocos de cimento. Desci para olhar e vi que não havia ocorrido grandes estragos, apenas um pequeno arranhão. Sinalizei que estava tudo bem e fiz sinal para ela voltar a estacionar. Ela então deu uma arrancada forte e bateu de novo no mesmo "gelo baiano", só que, dessa vez, com força e no mesmo local. Eu apenas disse: “- Agora você conseguiu amassar...”
Nesse dia voltamos para casa sem maiores acidentes.
No dia seguinte repetimos a tática e eu voltei a deixar meu carro na casa dela. Chegamos a tempo de achar uma vaga no estacionamento da faculdade, mas a vaga que ainda estava disponível exigia estacionar o carro de ré. Maura, fazendo pose de ser ótima motorista para impressionar o rapaz que tomava conta do estacionamento, colocou o carro em posição adequada para estacionar. Faltava apenas engatar a ré e fazer o carro andar devagarzinho até chegar bem perto do muro. Ela até que foi bem, mas, como a vaga era próxima da saída, era necessário deixar o carro bem encostadinho. Foi aí que a "porca torceu o rabo"! Com a ré engatada, ela se atrapalhou na hora de tirar o pé da embreagem e fez o carro dar um solavanco forte e bater com força do muro que estava atrás. Quebrou a lanterna traseira direita, amassou o pára-choque e o pára-lama.
Ela ficou arrasada. Chorava de tristeza por estar destruindo o carro tão bem conservado de sua mãe. Nesse dia, ela não conseguiu se concentrar na aula e só se acalmou quando a Jane, uma colega nossa, garantiu conhecer um rapaz, dono de uma oficina, que daria um jeito naquela batida sem cobrar muito caro e sem precisar deixar o carro lá. Ela se animou em pensar que conseguiria esconder de sua mãe os amassados que produzira no carro em apenas duas idas à faculdade.
Naquele dia saímos da faculdade com o carro lotado. Eu precisava pegar meu carro que estava na casa dela. Jane ia levar Maura até a tal oficina milagrosa, Cátia Loren pediu carona e por isso fizemos um roteiro diferente. Quando estávamos na rua mais movimentada do Méier, a Dias da Cruz, na altura do shopping mais antigo daquela região, paramos atrás de um ônibus que estava no ponto. De repente, Maura cansou de esperar e resolveu sair para a esquerda e ultrapassar o ônibus parado. Tudo estaria perfeito se ela tivesse puxado o volante para criar um espaço suficiente para afastar o chevettinho da lateral do ônibus, mas não foi isso o que aconteceu... Ela simplesmente arrastou TODA a lateral direita do carro na quina traseira e na lateral esquerda do ônibus. Foi inacreditável! O carro foi arrastado do pára-choque dianteiro até o paralamas traseiro, inlcuindo a porta. Eu, que ocupava o banco do carona, fiquei olhando o carro se arrastando e sacudindo. Lembro de um rapaz que olhava pela janela do ônibus com cara de assustado. A cena era mesmo inédita. Por incrível que pareça, a cor do ônibus também era verde-alface (enfeitado com margaridas brancas de miolo amarelo).
Maura conseguiu destruir a lateral direita do carro. Amassou desde o farol direito, pára-choque, pára-lama, portas, lateral e pára-lama traseiro (que já estava amassado).
Ela chorou muito. Eu bem que tentei consolá-la, mas na verdade, eu sabia que ela precisava treinar dirigir por bastante tempo em locais de menos movimento para poder voltar a colocar um carro na rua. Fiquei com muita pena dela pensando na barra que ela enfrentaria ao devolver o carro para a mãe naquele estado. Se eu fosse a mãe dela, ficaria irada. E é claro que foi isso que aconteceu. Ela foi proibida de voltar a dirigir e ficou anos sem encostar a mão em outro carro. Só muito tempo depois, Motta, o namorado apaixonado, teve coragem de deixá-la dirigir. Ele ensinou com toda calma e amor e, anos depois, andando com ela em São Paulo, percebi que ele tinha sido um ótimo professor.
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