Guilherme morava em Ipanema, tinha uma moto Honda CB 400 cc e um carro que era o charme da época, um Passat TS. Além disso, ele era, e ainda é, um homem muito bonito. Sua beleza, no entanto, apresenta uma característica interessante: ele usa óculos e nunca quis operar a miopia. Entretanto, os óculos o deixam com um jeito de bobo. Sem os óculos ele fica muito lindo! Essa característica é tão evidente que ele recebeu dos amigos o apelido de “Clark Kent”, em referência a essa mesma característica do Super Homem.
No início da viagem, enquanto trabalhávamos, ele me dava bastante atenção e ficava implicando muito comigo. Eu, sinceramente, não estava muito interessada nele.
Tudo mudou no último dia da viagem, quando já estávamos de volta à Salvador e o dono de uma das empreiteiras ofereceu um passeio em sua escuna particular. Quando vi o Guilherme de sunga e sem óculos, quase não o reconheci. Meu queixo não caiu – despencou! Tudo em minha volta mudou naquele momento – eu estava hipnotizada por ele.
O passeio foi até a Ilha de Ponta de Nossa Senhora, uma praia que, naquela época, era quase deserta. Era um lugar maravilhoso, com um mar calmo, morno e transparente, e que tinha uma igreja pequenina no topo de um pequeno morro.
Foi um dia muito agradável. Passamos muito tempo na água conversando amenidades. O responsável pelo único barzinho existente na ilha, nos servia deliciosos petiscos.
Voltamos ao Rio no mesmo dia. Quase perdermos o avião porque o passeio terminou quando já tinha anoitecido e, antes de seguir para o aeroporto eu ainda precisei passar na casa da prima Marisa, no bairro de Brotas, onde eu havia pernoitado, para pegar minha mala. Pegamos um trânsito muito congestionado e acabei atrasando. Guilherme, um dos que mais tinha argumentado a favor de voltar para o Rio naquele mesmo dia, fez questão de me acompanhar e foi comigo até o apartamento da Marisa enquanto os outros seguiram direto para o aeroporto a fim de adiantar o check-in. Arrumei minhas coisas rapidamente e seguimos de táxi para o aeroporto. Quando chegamos, nosso nome já estava sendo chamado no sistema de som. Nunca embarquei tão rapidamente!
Cheguei em casa em estado de graça e neste mesmo dia, fiz meu primeiro verso inspirado em Guilherme – um acróstico com o nome dele:
G uiei meu pensamento
U nicamente para o material
I maginanva que o amor
L egava apenas dor
H oje mudei de opinião
E ntendi que a principal
R azão, é o amor no coração
M udei porque
E ncontrei você
C omo criança
A mo você à distância
M esmo sabendo os riscos do amor
P ouço me importo em sofrer
O uço apenas
S inos ao ver você.
Daí em diante, passei a pagar grandes micos diante do pessoal do trabalho. O BNH inteiro – com destaque para o pessoal que trabalhava nas áreas de engenharia e comunicação social, percebeu que eu estava completamente apaixonada por ele. Arrumava os pretextos mais infantis para estar perto dele. Levava docinhos ou subia de um andar para outro para pedir uma régua emprestada (como se em toda a área de comunicação ninguém tivesse uma régua para emprestar..). A paixão deixa a gente cega e é um ótimo “emburrecedor”. Para completar, passei de mandar cartas anônimas, apaixonadas e perfumadas. Durante mais de um mês, ele recebia duas, três e até quatro cartinhas por semana. Claro que não foi difícil para ele adivinhar quem era a remetente. Alguns meses depois descobri que ele era apaixonado por uma tal de Márcia. Uma lambisgóia que todos apelidavam de Mortícia (por causa da semelhança com a personagem do seriado “Família Adams”). Minha paixão foi serenando, mas esteve presente em minha vida durante muitos e muitos anos. Depois que a primeira onda de paixão foi abrandada, entrei na fase das noites cariocas e Guilherme permaneceu como um amor e um sonho inatingível. A vantagem dessa paixão foi ter despertado minha veia poética através das inúmeras cartas e versos que escrevi para ele. Até então, eu desconhecia essa habilidade que depois rendeu a publicação de dois livros em conjunto com mais três amigas do BNH.
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