Fiz a faculdade de jornalismo em quatro anos, mas estudei pra valer apenas até o quinto período, quando ainda não estava trabalhando. Depois que assumi no BNH tive que mudar para o horário noturno. Nunca mais fui a mesma aluna. Mal conhecia os colegas da turma – que era muito, mas muito mais fraca que a turma do turno da manhã.
Trabalhava das 10 horas da manhã até às 19 horas. Como eu precisava dividir o carro com Eduardo, ele ficava com “Lucélia” (a Fiat) durante o dia e no final da tarde ia me buscar no BNH. Eu o deixava em casa e seguia para a UGF pegando um trânsito terrível por toda a Avenida 24 de Maio.
Chegava na sala de aula muito cansada, sem paciência para fazer os trabalhos necessários e os fazia sem muito capricho. Sequer recordo o nome de qualquer dos colegas dessa turma. Tão logo era possível, corria para casa.
Como fui muito boa aluna nos primeiros semestres, enrolei o suficiente para me formar, o que aconteceu no final de 1981, sendo a colação de grau em março de 1982.
Minha formatura não teve nada de especial. Foi no auditório da própria faculdade e sem festa. O convite foi simplérrimo e, que me lembre, apenas meu tio-padrinho Roseli e minha tia-madrinha Ediléia marcaram presença, além de meus pais e Eduardo.
Apenas uma coisa foi marcante nesse final de curso.
No dia em que prestei a última de todas as provas, um sábado à tarde, vinha voltando para casa muito aliviada por ter terminado a faculdade. Estava leve, livre e feliz como raramente a gente se sente na vida. Sabe aquela sensação de dever cumprido? Eu voltava dirigindo com toda a calma do mundo quando, sem mais nem menos, apareceu o “louco”.
Eu estava parada num sinal que cruza a Rua Dias da Cruz quando um Chevette branco meio velho começou a piscar os faróis desesperadamente atrás de mim. Eu nada podia fazer porque o sinal estava fechado e a Dias da Cruz é uma rua muito movimentada. Além disso, é claro que eu não avançaria o sinal apenas porque alguém atrás de mim queria que eu fizesse isso. Quando o sinal abriu e eu arranquei, o “louco” continuava atrás de mim, buzinado muito e piscando o farol. Puxei o carro para a direita e fiz sinal para ele passar – queria me livrar daquele maluco.
Quando ele estava me ultrapassando, sem mais nem menos, o doido jogou o carro em cima do meu, chegando a encostar a lateral direita do carro dele na lateral esquerda do meu. Fez isso me olhando e xingando, acelerou bastante e foi embora. Fiquei muito assustada, sem entender nada do que estava acontecendo. Segui mais um pouco e decidi parar para ver se meu carro estava amassado. Parei o carro no lado esquerdo da rua (era uma rua bem larga e do lado direito havia os ônibus) apenas para verificar se tudo estava bem.
Pois o louco não voltou de ré, parou o carro na frente do meu e desceu para me xingar? Vestia apenas short, estava descalço e sem camisa – uma figura! Eu apenas perguntei:
- “Você está maluco?”
O infeliz gritava as maiores barbaridades, juntou gente rapidamente e eu nada mais falei ou respondi. Ele certamente estava muito bêbedo ou drogado. Quando percebi que o carro estava inteiro e que não adiantava discutir com aquele “coisa”, voltei para o volante e tirei o carro de onde havia parado.`Para isso tive que passar por ele, já que o carro dele estava parado na frente do meu. Enquanto isso, o doido continuava berrando muitos palavrões. Quando percebi que ele estava fora do carro e eu já no meio da rua com a marcha engatada e a pista livre à minha frente, dei uma rápida parada e gritei:
-VIADO!
Em seguida, logicamente, arranquei com o carro a toda velocidade. Pelo espelho, ainda vi o maluco correndo para o carro e arrancando em velocidade para me perseguir. Mas, por sorte, um sinal fechou atrás de mim e ele ficou preso tempo suficiente para eu ganhar distância e pegar um caminho secundário.
Até hoje me pergunto o que foi que fiz para irritar tanto aquela fera?
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