Em meados de 1981, minha amiga de colégio Márcia Berino, que estava morando em Brasília havia três anos, voltou para o Rio, indo morar em Copacabana.
Em Brasília, ela havia se acostumado a sair quase todas as noites. Frequentava as melhores boates, bares e restaurantes. Portanto, quando voltou para o Rio, tratou de buscar a mesma rotina e me apresentou às noites cariocas.
Íamos à Hippopotamus, a boate mais badalada da época, todos os finais de semana e também durante a semana. Aprendi a beber “Screw Driver” – vodka com suco de laranja, com o objetivo de me animar e ficar menos tímida.
Lembro das músicas que marcaram essa época e que, até hoje, quando as ouço, me leva de volta no tempo à pista de dança da Hippo – “Dance a Little Bit Closer”, “New York, New York”, “Can't Take My Eyes Off Of You”, “I'm So Glad That I'm a Woman”, músicas de Barry White e vários roquinhos de Rita Lee.
Algumas vezes íamos à Hippo várias vezes na mesma semana. Chegava em casa de madrugada e ia trabalhar no dia seguinte e à noite estava de volta à balada. Não sei onde arrumava tanta disposição!
Conhecemos muita gente, na verdade muitos homens diferentes. Pouco namorei nessa época. Nossos amigos eram homens mais velhos e não me atraíam, exceto um deles por quem eu tive uma “paixonite” e que se dizia separado, mas depois descobri que era casado. Ele dizia que tinha mudado de endereço a pouco tempo e por isso não tinha telefone em casa. Naquela época essa desculpa era aceitável, pelo menos por algum tempo. Um dia, decidi tirar a história a limpo e fui atrás dele na Rua Canning; uma rua pequena de Ipanema onde ele dizia morar, mas eu não sabia o prédio. Dei uma de detetive e um dos porteiros com quem falei apontou onde ele morava e afirmou que ele estava em casa. Perguntei se a esposa também estava em casa e ele confirmou. Joguei verde ao perguntar pela esposa e levei um choque com a resposta. A adrenalina circulou a mil pelas minha veias e o coração parecia que ia sair pela minha boca.
Esperei dentro do meu carro até que ele saísse da garagem no carro dele e o segui pelas ruas de Ipanema. Chegando à Av. Vieira Souto, fechei o carro dele e o obriguei a parar o carro no canteiro central (na época havia vagas para carros ali). Não me lembro o que eu disse, mas fui dura, descasquei em cima dele. Depois descobri que custei demais a descobrir a verdade; eu já estava apaixonada.
Que golpe! Esse homem tripudiou em cima de mim, uma menina de 22 anos. Quando eu disse que não o queria mais pelo fato dele ser casado, apareceu com uma menina bonita e ainda mais nova que eu. Eu era muito inexperiente no relacionamento com os homens. Como eu sofria! Chorava muito e achava sempre que estava diante do grande amor da minha vida! Quanta ingenuidade! Quanto tempo desperdiçado!
Nossos amigos das baladas se acostumaram com nossa companhia, minha e da Márcia Berino, e passaram a nos tratar como “amiguinhas mais novas”. Assim, eles passaram a conversar na nossa frente sobre as outras mulheres que conheciam a cada dia. Ouvindo as conversas deles, percebi que eram muito galinhas, falsos e que era muito comum falar mal das mulheres que ficavam com eles.
Eram assuntos do tipo:
- "Você conheceu a fulana? Aquela mulher é boa! Vai lá cara, vai lá que você vai gostar. Eu achei ótima!"
Quase cai dura quando ouvi isso. Estávamos numa das mesas do "Pizza Palace", que ficava ao lado da Hippo. Era um comportamento tão oposto ao que eu estava acostumada.... recomendar a caça! Para muitas mulheres, principalmente na adolescência, basta olhar e gostar de um cara para sentir-se dona do bofe. E ai da amiga que se envolver com ele ou até mesmo com algum ex-namorado. Exageros à parte, é lamentável ver um homem recomendando ao amigo que vá para a cama com uma mulher que ele acabou de transar. Nossos amigos eram motoqueiros, donos de máquinas possantes, geralmente 750 cc. Algumas vezes, saíamos da Hippo com o dia já amanhecendo e íamos de carona na garupa das motos, voando pela Av. Vieira Souto e Av. Atlântica, para tomar café da manhã no Othon Hotel.
Hoje vejo que eu e Márcia tivemos muita sorte nas nossas andanças noturnas. Nunca apareceu ninguém que sequer tentasse nos seduzir com drogas e, apesar de nossa ingenuidade, nunca nos aconteceu coisas semelhantes àquelas que ouvíamos os rapazes comentando a respeito de outras mulheres.
Nessa época, nos domingos à tarde, o quente era passear no Arpoador. A galera mais bonita da cidade desfilava por lá e a azaração era geral.
Frequentávamos também a boate Regine’s, no Hotel Le Meridien, a Mikonos, no Leblon, e o Pizza Palace – ponto de encontro da Praça Nossa Senhora da Paz. Também adorávamos jantar em bons restaurantes como o Florentino, o Antiquarius e o restaurante da Hippo. Nessa época havia uma turma de rapazes que organizava festas nas melhores boates e salões de festa do Rio. Os homens cotizavam as despesas e a mulherada ia de graça. Era ótimo!
Uma dessas festas aconteceu na recém inaugurada boate do Hotel Nacional. Era a “Noite do Crown Salute” e essa marca de scoth era servida sem parcimônia. Eu, que nem gostava de whisky, bebi a noite inteira. O porre foi geral. Eu, Márcia Berino, Magali e Rosangela dançamos, rimos e brincamos muito.
Uma cena inesquecível foi encontrar Rosangela, que estava sentada a uma das cadeiras, conversando com um jornalista americano (gastando todo o seu inglês). Quando ela levantou, usando um vestido curto, pudemos ver que sua meia, tão perfeita quando chegamos, estava reduzida a um trapo. Praticamente não era mais uma meia-calça e sim um conjunto de vários buracos separados por alguns fios de meia que insistiam em não se romper. Uma lástima! Ela explicou que havia uma farpa na cadeira na qual estava sentada....
Em outra dessas festas, no Golden Room do Copacabana Palace, quem pagou o mico fomos eu e Luciene.
Era uma festa pré-carnavalesca, à fantasia. Tudo muito bem organizado, ótima banda e muita gente bonita e animada.
Lá pelas tantas, perdi uma grossa pulseira de ouro em estilo corrente que eu adorava. Perdi um tempão procurando e, por incrível que pareça, com a ajuda do pé da Luciene, achei-a em baixo de um monte de confetes e serpentinas. Feliz da vida, fiquei com a pulseira na mão já que, por força da fantasia, estava sem bolsa e o fecho da pulseira estava quebrado.
De repente, alguém apertou um lenço com lança-perfume no meu nariz e logo depois no nariz de Luciene – desmaiamos praticamente ao mesmo tempo. Ficamos ali, caídas no chão. Que vexame... Lembro que quando acordei, não sabia onde me esconder de tanta vergonha.
Quase na hora de ir embora, deixei a pulseira sobre a mesa para ajeitar a sandália. E lá se foi minha adorada pulseirinha...não sei se a esqueci ali ou se a roubaram.
Naquele dia, fui para casa com Luciene. Dirigi meu "poderoso" Chevette e consegui estacioná-lo na garagem em perfeito estado. Nunca soube o caminho que fiz de volta para casa: se pela Av. Atlântica, Barata Ribeiro ou Toneleros. Tão pouco onde encontrei lucidez para escalar o corredor em espiral de nove andares que precisava vencer para chegar no andar onde ficava a vaga do carro. Meu anjo da guarda devia estar de plantão. Nesse dia, Luciene criou um trauma que ela nunca mais esqeuceu: pegou pavor a gatos. Tínhamos uma gata pequena, recém chegada na família, que era meio maluca. Ela atacou a Luciene, mordeu e arranhou as pernas dela. Pensamos que era ciúme porque a Lu estava deitando na cama que era do Eduardo e a gata adorava meu irmão. Mas tempos depois, ela atacou o Edu também. Após um período de quarentena, essa gata teve que voltar para as ruas de Muriqui.
Outras garotas saíam conosco de vez em quando: Magali, irmã da Márcia que na época estava morando em Curitiba e voltou para o Rio, minhas primas Luciene e Rosangela - que já estava em processo de separação do primeiro marido.
Sair aos sábados à noite era um compromisso sagrado. Algumas vezes, se não houvesse nada combinado, saíamos em quatro ou cinco garotas, parávamos no Popeye, um boteco de Ipanema especializado em batidas e comprávamos uma garrafa. Tomávamos toda a bebida no gargalo, dentro do carro e depois seguíamos para algum lugar da moda onde já chegávamos embaladas.
Numa dessas saídas, quando estávamos no carro da Márcia Berino, quase sofremos um grave acidente. Saindo da Av Vieira Souto, entramos na Av Epitácio Pessoa com a intenção de dobrar à direita na Av Visconde de Pirajá. Paramos no sinal fechado que fica na esquina da Epitácio Pessoa com a Prudente de Morais e quando o sinal abriu, Márcia se enganou, achou que já estava no cruzamento com a Visconde e entrou com tudo na contramão da Rua Prudente de Morais. Ficamos de frente para para os faróis de um ônibus. Márcia desviou para a direita e por muita sorte, o ônibus desviou para o outro lado. Ainda levamos alguns segundos para perceber que tínhamos entrado na rua errada. Essa foi a última vez que paramos no Popeye para beber e depois sair passeando de carro.
Uma outra vez, chegamos no boteco "Caneco 70", que ficava na Delfim Moreira, tão embaladas que nossa chegada foi muito escandalosa. Lá, encontramos com o Ginho, um cara bem formado e educado que morava numa casa na Gávea. Ginho, vendo nossa animação, perguntou se tínhamos bebido. Puts!!!!
A resposta da Márcia foi um mico ainda maior: - "Por que você está perguntando isso? Sentiu o bafo?" kkkkkkkk Que jeito pouco elegante de falar, não? Ginho fez uma expressão meio espantada e disse:
- "Não! É porque vocês estão muito animadinhas."
Eu saí de perto cheia de vergonha.
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