Logo que cheguei à SECOM, transferida do Departamento de Planejamento, fui alocada no setor de produção de áudio-visual. Foi quando percebi que meu chefe Arnaldo era doidinho! Logo no primeiro mês trabalhando com ele, e assim que voltei das férias na Bahia, Arnaldo escalou-me para viajar para o interior da Bahia, visitando conjuntos habitacionais que estavam sendo construídos em cidades localizadas às margens do Rio São Francisco e que haviam sido atingidas pela cheia do rio e deixado muitos desabrigados.
Assim, parti com mais nove engenheiros do BNH para Salvador e depois para Juazeiro e Xique-Xique. Não me lembro porque, não pude levar a máquina fotográfica do banco, e por isso, improvisei fotos com minha câmera particular, uma simples Olympus Trip. Arnaldo, sem nem saber se eu tinha ou não talento como fotógrafa, pediu que eu providenciasse material para um áudio-visual institucional do BNH, mas esqueceu de me dar a câmera profissional adequada para o trabalho. Por isso digo que ele era meio doido.
Felizmente o material que colhi tinha qualidade suficiente para ser aproveitado.
Arnaldo apareceu no interior da Bahia alguns dias depois com uma câmera melhor, mas já não dava tempo de fotografar mais nada. Estávamos na carona com os engenheiros que faziam vistoria nas obras e era preciso seguir viagem para dar conta do roteiro planejado.
Foi nessa ocasião que conheci Guilherme Campos, um engenheiro do BNH. Uma história para ser contada num capítulo a parte.
A viagem foi tranquila, foi a primeira vez que voei em um avião bimotor. Passamos alguns dias em Juazeiro, e jantávamos sempre num restaurante que ficava numa antiga gaiola (um barco típico da região) encaixada numa praça à beira do rio.
Ao final dessa viagem, já em Salvador, fizemos um passeio de escuna pela Bahia de Todos os Santos. A escuna era do dono de uma das construtoras envolvidas no projeto e era um luxo! Fomos à praia da Ponta de Nossa Senhora, ainda quase deserta naquela época. Havia apenas uma casa, do homem que tomava conta da ilha, e que servia petiscos e bebidas. O dono da construtora, e nosso anfitrião, era também o dono dessa praia. Vou contar mais sobre essa viagem em outra postagem.
Das dezenas de bobagens que vi Arnaldo praticar, uma delas ficou na história.
O BNH ia lançar o Projeto João de Barro no Rio de Janeiro, no lugar que depois se transformou na ampliação da Favela da Maré, próximo à Linha Vermelha. Para a cerimônia de lançamento, que contaria com a presença do então Presidente da República, João Figueiredo, do Ministro do Interior, Mário Andreazza e do Presidente do BNH, José Lopes de Oliveira, a SECOM ficou encarregada de apresentar um áudio-visual sobre o projeto.
Relembro aos mais novos: áudio-visual era uma apresentação de fotos em slides ordenados no projetor e sincronizados com um bip sonoro gravado em fita K-7 que também tinha o áudio com o texto gravado por um locutor profissional (que coisa antiga!).
Nas vésperas do evento, fomos ao local onde seria a cerimônia para fazer uma apresentação especial a fim de submeter o trabalho à aprovação da assessoria do Ministro.
Os figurões da presidência da república chegaram de Brasília e foram recebidos pela chefe Lúcia de Biase.
Até poucos momentos antes do início da apresentação, ansioso e com medo da avaliação, Arnaldo estava pendurado em cima do projetor trocando slides de lugar. Eram dois projetores que trabalhavam no sistema de retroprojeção e estavam escondidos atrás da cortina e da tela.
A apresentação começou e nós estávamos atrás da cortina. Eu, Arnaldo e Nilo, acompanhávamos a projeção do áudio-visual.
De repente, um slide ficou preso e um dos equipamentos travou. Essa era uma ocorrência comum e de fácil solução. Na ânsia de resolver o problema, Arnaldo pulou na frente do técnico responsável e tirou o carrossel onde estavam metade dos slides. Nervoso, virou o carrossel de cabeça para baixo e como ele estava mexendo ali até pouco antes do início da apresentação, ele se esqueceu de colocar o anel que travava os slides e os prendia ao carrossel.
Todos os slides que estavam naquele carrossel caíram no chão.
Os homens da presidência passaram a ver a apresentação sem as fotos que estavam no chão. Na tela, aparecia uma foto e depois apenas a luz do projetor, ou seja, tela em branco. Em seguida, outra foto e novamente a tela em branco...
Instintivamente, joguei-me ao chão e comecei a recolher alguns slides que estavam esparramados – como se ainda fosse possível organizar alguma coisa e salvar a catástrofe. Arnaldo e Nilo fizeram a mesma coisa. Ficamos os três na posição que Napoleão perdeu a guerra - de quatro, recolhendo os slides.
Outro colega, que estava do outro lado de fora da cortina, não percebeu o problema. Assim que a apresentação terminou, ele abriu a cortina. Eu, Arnaldo e Nilo, agachados de quatro no chão, apenas pudemos observar os pés dos assessores da presidência. Fomos levantando com um sorriso mais do que amarelo no rosto. Eu ainda tentei pisar em alguns slides que permaneciam no chão para tentar esconder o fiasco.
Em seguida, vi a cara de quem comeu e não gostou de todos que estavam sentados na platéia olhando para nós. Parecíamos estar brincando de cachorrinho. Foi um mal estar terrível.
Dona Lúcia tentou contornar a situação, mas ela estava, com toda razão, “soltando fogo pelas ventas”. Tão logo o pessoal de Brasília saiu, com mil recomendações para que nada semelhante acontecesse na presença do Presidente da República, João Figueiredo, ela deu uma bronca irada no Arnaldo na nossa frente. Eu fiquei muito sem graça.
Arnaldo, pouco depois, perdeu a função de confiança na SECOM, e eu, em 1982, fui transferida para o setor de Publicidade.
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