sexta-feira, 13 de maio de 2011

Amada gatinha Tootsie

Esperei ansiosamente que o Guilherme voltasse da viagem à Europa que ele fez em 1983, mas, como já contei antes, quando ele voltou, não estava mais pensando em namorar comigo. Sequer me procurou. Encontrei com ele na praia (na verdade, eu forçava encontros casuais com ele) e ele foi beemm frio. Grande fossa eu vivi......Fiz até promessa para Santo Antônio, mas não adiantou.
Guilherme faz aniversário em maio, dia 24. Apesar de estarmos meio afastados, ele me convidou para a festa de seu 28º aniversário. Resolvi dar um presente marcante, inesquecível!
Ele havia me contado que tinha uma gatinha chamada Puppy e que ela tinha falecido pouco tempo antes. Então, resolvi dar uma outra gatinha de presente para ele, e foi assim que Tootsie entrou nas nossas vidas.
O nome foi sugerido por mamãe. Era o nome de um filme de sucesso na época, estrelado por Dustin Hoffman, cuja tradução é “menina bonitinha”, ou seja, "gatinha" na gíria brasileira.
Tootsie nasceu no dia 21 de março de 1983.
Para entregá-la ao Guilherme, comprei uma cesta de palha, enfeitei com fitas cor-de-rosa, costurei uma pequena almofada de cetim também rosa, enfeitei a gatinha persa cinza (ou azul como a cor é chamada oficialmente) de dois meses de idade com um laço de fita no pescoço. Na véspera da festa, peguei minha priminha Juliana que estava lá em casa porque estávamos comemorando o aniversário do meu irmão Edinho. Juliana estava então com seis anos, era uma garotinha linda, desinibida e tagarela. Fui com ela entregar o presente na casa do Guilherme, que morava na Rua Prudente de Morais, em Ipanema.
Pedi a Juliana que tocasse a campainha e fiquei escondida no corredor da parte de serviço do prédio. Guilherme não estava em casa porque costumava correr na beira da praia quando voltava do trabalho, mas a mãe dele, Dona Beatriz, ficou encantada com Juliana – uma criança muito linda, de olhinhos puxados e cabelinho preso em maria-chiquinha. Ela também se encantou com a pequenina Tootsie.
Voltamos para casa. Guilherme telefonou logo que chegou e estava todo prosa com o presente.
Na festa de aniversário do Guilherme, todos sabiam que eu havia dado uma gatinha de presente para ele. Tootsie estava no quarto de empregada e muita gente foi lá para conhecer aquela gracinha de gata. Nessa mesma festa, percebi o interesse de Guilherme por outra garota. Se não foi naquele mesmo dia, foi naquela semana que começou o namoro dele com Miriam, irmã da namorada de um grande amigo do Guilherme.
Dias depois, como sabia que um presente como um bichinho de estimação exige cuidado e dedicação, falei com o Guilherme e expliquei que, se a mãe dele não estivesse com vontade de cuidar da gatinha, eu a aceitaria de volta. Afinal, os dois dias em que Tootsie ficou lá em casa, foram suficientes para conquistar toda a família, exceto Edinho que de imediato criou antipatia pela bichinha.
Dona Beatriz me ligou e explicou as razões pelas quais ela não desejava ter outra gatinha: tinha sofrido demais com a morte da Puppy e estava com uma neta pequena que poderia ter problemas de convivência com a gata. Além disso, planejava fazer muitas viagens e seria um problema deixar a gata sozinha.
Guilherme esteve lá em casa para devolver a Tootsie e nós amamos recebê-la de volta. Parecia um montinho de algodão cinza em cima das camas.
Ela viveu com a gente durante quase doze anos. Viajou muito comigo e com meus pais. Foi para Muriqui, São Paulo, Curitiba, Salvador (de carro!), Cambuquira e Rio das Ostras. Ela adorava passear de carro e tolerava com certa tranqüilidade as viagens de avião.
Não era uma gatinha muito sociável com estranhos, mas era comum procurar um colo nas noites em que a família se reunia em frente à televisão. Mamãe foi a dona que ela escolheu, o que fazia todo o sentido porque era mamãe que cuidava dela, inclusive dando banhos que Tootsie odiava, mas gostava da parte da secagem ao sol enquanto ganhava cafuné da mamãe na varanda do apartamento.

Infelizmente Tootsie não foi mãe, pois na primeira tentativa, com um gatão indicado pelo veterinário, o resultado não foi o que esperávamos. O gato era igualzinho a ela, de nome Tommy. Era a primeira cruza dele e logo que ele viu Tootsie ficou enlouquecido de paixão, deixando Tootsie apavorada. Era um gato enorme, devia pesar mais de sete quilos e partiu pra cima da pobrezinha com uma ânsia que fez com que ela fugisse e se escondesse em local onde ela podia entrar, mas ele, por causa de seu tamanho, não conseguia. Até desarranjo intestinal a gatinha teve, tamanho o seu nervoso.
Logo que cheguei do trabalho, encontrei Tootsie ainda suja e fiquei espantada com o tamanho do gatão. Quando peguei Tommy no colo, aconteceu o inesperado. Ele simplesmente mordeu profundamente minha mão, logo abaixo do dedão, e com as patas traseiras arranhou meu braço muitas vezes. Foi uma sangueira daquelas! Tivemos que manter Tommy e Tootsie separados, mas o gatão estava nervosíssimo, não só por estar em casa estranha, mas também porque sentia o cheiro do cio da gata e não podia dar vazão aos seus instintos.
Na manhã seguinte foi a vez do meu pai ser atacado pelo bichano. Papai ficou tão irado que teve vontade de jogar o gato pela janela e disse que não queria mais ver aquele animal lá em casa quando ele voltasse do trabalho à noite.
A dona do gato veio buscá-lo, mas nem mesmo ela conseguia dominar o monstrinho. Precisamos aguardar o veterinário chegar para sedá-lo. Tommy foi embora dentro de uma pequena jaula.
Toda essa situação deixou Tootsie traumatizada e ela nunca mais permitiu a aproximação de um macho. Ela ficava solta na casa de Rio das Ostras, mas não tinha jeito de deixar algum macho chegar perto. Anos depois, em Salvador, seu trauma foi percebido por uma veterinária.
Um dia, precisei levar Tootsie ao veterinário, o mesmo que cuidava do Tommy e que ficava na Tijuca. O problema era que precisava ser durante o dia e eu, já trabalhando no BNH, não teria como sai do banco no horário de almoço e ter tempo suficiente para ir até Copacabana buscar a gata, levá-la ao veterinário na Tijuca, fazer a consulta para depois ainda ter que deixá-la de volta em Copacabana e retornar ao trabalho. Assim, tive uma brilhante idéia: levei Tootsie para o BNH escondida numa sacola de papelão, do tipo daquelas usadas por butiques. Do carro até o elevador Tootsie foi bem. Porém, quando entrei no elevador do BNH, ela começou a se mexer dentro da sacola e a sacola cmeçou a balançar sozinha. O elevador era grande, estava lotado e eu trabalhava no 28º andar. Como eu estava encostada no fundo, coloquei a sacola por trás das minhas pernas e imprensei a sacola contra a parede, espremendo a gatinha para ver se ela parava de se mexer tanto. Não apertei muito, mas Tootsie não gostou e soltou um miado alto, e totalmente audível para todos que ali estavam. Percebi as feições das pessoas que se olharam de forma inquisitiva para entender que havia miado. Ao mesmo tempo, provavelmente, estavam pensando que haviam ouvido mal ou que alguém estava de brincadeira. O certo é que todos se entreolharam, inclusive eu, mas ninguém disse nem perguntou nada. Tive que prender o riso.

Chegando à minha sala, que dividia com mais cinco colegas, deixei Tootsie solta, já que a porta tinha aquelas molas que a mantinham sempre fechada. Tootsie estava desconfortável, pois gatos não gostam de ambientes estranhos, mas comportou-se bem: não fez xixi nem cocô. Circulava pelos cantos cheirando tudo.
De repente, um dos contínuos (alô galera mais nova! Contínuo eram os antigos “boys”, que eram mais velhos e eram funcionários do banco.) entrou na sala. Era um homem alto, negro e elegante em seu terno simples. Quando ele se dirigia à mesa do chefe com alguns papéis na mão, a gatinha cruzou o caminho dele, correndo ao atrevessar a sala de um lado ao outro. O susto que ele tomou! O pulo que ele deu ao mesmo tempo em que perguntava: o que é isso? Foi engraçado demais!
Nas minhas férias de outubro de 1989, Tootsie estava comigo em Salvador e eu precisava embarcá-la de avião para o Rio, pois planejava participar dos Jogos da FENAE – Federação Nacional dos Economiários, em Natal, e depois viajar de carro para o Rio.
O Ministério da Agricultura, que na época era o único órgão autorizado a emitir o documento necessário ao embarque de animais, a GTA – Guia de Transporte de Animais, estava em greve havia mais de sessenta dias. Assim, precisei viajar para Natal por uma semana e deixei Tootsie sozinha em casa, sendo alimentada e com a limpeza providenciada pelo porteiro.
Na volta, como a greve continuava, resolvi viajar com ela no carro, sabendo que poderia ter problemas com xixi, vômito e cocô. Saímos de Salvador pelo Ferry-boat e tive que tirá-la do carro por causa do sol forte durante a travessia da baía de Todos os Santos. Depois, a viagem seguiu com muita tranqüilidade, até que me dei conta de que precisava parar para dormir num hotel que aceitasse gatos.
Era minha primeira viagem sozinha de carro entre Salvador e Rio. Não conhecia os melhores hotéis da estrada. Fiquei apreensiva de parar naqueles hotéis de posto de gasolina, pois eram frequentados por caminhoneiros e eu era uma moça sozinha com uma gatinha. Quando já eram quase nove horas da noite, chegando à São Mateus, norte do Espírito Santo, vi um motel na beira da estrada e percebi que era a melhor solução, pois a gata entraria dentro do carro e não haveria questionamentos.
Assim, passamos a noite em um motel, eu e minha gatinha. Era um motel de quinta categoria, mas deu para jantar no quarto e dormir. Tootsie se comportou perfeitamente, pois só fez suas necessidades, comeu e bebeu quando já estávamos no quarto. Tootsie dormiu na cama comigo e me acordou logo que o dia amanheceu. Voltamos rápido para a estrada.
Tão logo o carro chegou na esquina da casa de meus pais, na Rua Pompeu Loureiro chegando na praça Eugênio Jardim em Copacabana, eu estava parada no sinal próximo ao corpo de bombeiros e vi que Tootsie ficou  muito agitada. Ela parecia querer pular pela janela. Impressionante a percepção dos gatinhos. Ela sabia que estava chegando em casa depois da longa viagem.
Tootsie voltou à Salvador várias outras vezes, assim como ficou uns tempos comigo em Curitiba na época que eu morei lá. No intenso inverno curitibano, Tootsie ficava escondida dentro de sua caixinha de transporte.
Triste, muito triste foi a morte de Tootsie. Ela pegou uma doença, provavelmente em Rio das Ostras, onde andava solta pelo condomínio e esbarrava em gatos de rua. A doença que matou minha bichana foi a leucemia felina à vírus. De repente, Tootsie parou de comer. Eu cheguei ao Rio, vinda de Curitiba, onde estava morando, e levei Tootsie ao veterinário juntamente com mamãe. Depois de alguns exames, inclusive uma ultrassonografia, veio o diagnóstico. Ela ficou algumas horas no soro porque estava desidratada e enfraquecida pela falta de alimentação.
Neste mesmo dia, apresentou os primeiros sinais de comprometimento em seu sistema neurológico. No dia seguinte, aniversário da mamãe, voltamos com ela à clinica e recebemos orientação para sacrificá-la porque não havia mais cura e ela estava sofrendo por haver perdido os movimentos.
Até hoje, quando lembro da dor de ter que decidir pelo sacrifício, as lágrimas brotam de meus olhos. Eu sabia que era o certo a fazer, mas faltava a coragem de dizer que concordava. Foi muito duro entregar minha companheirinha à antendente sabendo que nunca mais voltaria a vê-la.
Mamãe sofreu tanto que nunca mais quis ter outro animal de estimação. Ela tinha marcado um lanche com as amigas para comemorar seu aniversário e teve que ligar para todas elas avisando do cancelamento.
Papai, quando soube da gravidade da doença, pegou Tootsie no colo e chorou muito, como poucas vezes em sua vida. Depois, não conseguiu mais chegar perto da gatinha em seus últimos momentos. Para ele, é difícil admitir sua natural fragilidade emocional diante da perda.
Por outro lado, existem pessoas tão insensíveis, que não sabem o que é o amor que a gente sente por um bichinho de estimação. Mamãe ouviu críticas por cancelar a festa apenas por causa da “morte de uma gata”. Tootsie morreu em 21 de outubro de 1994 e deixou muita muita saudade.

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