Sandra é apenas quatro anos mais velha que eu, mas era uma mulher insegura, tinha muita dificuldade de manter um namoro e a mania desagradável de sempre demonstrar interesse pelos rapazes que, de uma forma ou de outra, mantinham algum relacionamento comigo.
Ela não sabia se vestir de acordo com seu tipo físico, sentia-se pouco a vontade junto de minhas amigas, fumava demais e morria de complexo de morar em Madureira. Cada vez que alguém perguntava sua idade ou onde ela morava – perguntas naturais quando somos apresentados a uma pessoa, ela se enrolava, tentava mentir e pagava “micos”.
Houve até uma situação patética no dia em que conheci um rapaz muito, mas muito bonito, num show da Blitz no morro da Urca, chamado Luiz Felipe. Ele era modelo e a gente dançou a noite inteira. Trocamos beijos e telefones, mas, no final de semana seguinte ele não ligou para mim. Havia um fato interessante com o número do telefone dele que era quase igual ao meu – 2563471 e o dele era 2562471. Assim, Sandra facilmente decorou o número. No final de semana seguinte, ela ficou insistindo que eu ligasse para ele, mas eu não tinha a menor intenção de fazer isso. No sábado à noite, ela esperou a hora em que fui tomar banho e correu para telefonar para ele. Quando saí di banho, ela me comunicou que tinha ligado e combinado de sairmos juntos. Ela pediu a ele que convidasse um amigo para fazer companhia para ela.
Quando eles chegaram lá em casa, vimos que o tal amigo era tão ou mais bonito que ele.
Saímos no carro do Felipe e seguimos para a casa de um casal de amigos deles onde estava acontecendo uma roda de jogo de buraco. Sandra foi no carro sentada atrás do Felipe. O tempo todo ela permaneceu debruçada em cima dela. Buscando assunto, ela colocava em dúvida as intenções deles em nos levar para o apartamento de amigos, insinuando que algo de errado poderia acontecer lá. Chegou a dizer a seguinte pérola;
- Olha lá hein Luiz Felipe.....veja bem o que você vai fazer com a gente, afinal, você está com duas donzelas dentro do carro.
Dizer que morri de vergonha é pouco. Donzelas! Que palavra mais antiga!
Vê lá se dois homens lindos como eles precisariam forçar a barra com mulheres?
Quando chegamos no apartamento, chamei atenção da Sandra sobre a total impropriedade do que ela havia falado. Não ficamos lá por muito tempo porque a mesa de jogo já estava completa. Saindo de lá, fomos jantar. Sandra, que tinha percebido a bobagem que falara na ida, resolveu soltar outra pérola:
- Olha Luiz Felipe, pra falar a verdade, aqui não tem nenhuma donzela não.
Pronto, aí foi que eu quis matar a Sandra. Só faltou completar: podemos então ir imediatamente para um motel.... Dessa vez minha reação foi imediata. Imagina que idéia aqueles rapazes fizeram da gente? A noite foi um fiasco. Ela ignorou o bonitão que parecia um boneco ao lado dela e se insinuou o tempo todo para o Luiz Felipe.
Comecei então a tentar evitar a presença da Sandra. Ela vinha todos os finais de semana e passou a incomodar. Apesar desse cenário pouco favorável, Sandra descobriu minha intenção de viajar para o Guarujá com Márcia e Magali. Agindo de acordo com seu estilo entrona, logo se convidou para ir também. Márcia e Magali não toleravam a presença dela, mas não tivemos como evitar sua presença.
Essa viagem ficou na história.
Desde que meu pai comprou a casa de Muriqui que se falava na estrada Rio-Santos. Assim, achei super natural chegar ao Guarujá seguindo pela estrada Rio-Santos.
Deixamos o Rio no meu Chevette na noite de quarta-feira e dormimos em Muriqui. No dia seguinte partimos para Santos.
Até Caraguatatuba tudo correu muito bem, mas, de repente, a estrada acabou! Começamos a rodar por uma outra estradinha sem acostamento e tão diferente daquela que estávamos até então que parei para perguntar a um local por onde deveríamos seguir para chegar à Santos.
Ele respondeu perguntando se nós queríamos ir por cima ou por baixo. Como eu não tinha a menor idéia de que havia duas estradas, disse que queria ir por onde fosse mais perto. O mais perto era por baixo, e era naquela estradinha mesmo.
Estranhei que a Rio-Santos fosse tão estreita, mas segui em frente.
A estrada revezava partes de asfalto, sem acostamento, com partes de terra batida. Muitas curvas, muita mata e muitas subidas e descidas.
Apesar de me perguntar se estava valendo a pena seguir por ali, quando lembrava o tanto que já tinha rodado, decidia seguir em frente.
Até que a estrada realmente acabou. Chegamos a “escalar” um morro com o caminho cheio de pedras que o valente Chevette vencia brilhantemente, até que um pedaço do cano de descarga ficou pelo caminho. O carro passou a fazer um barulhão.
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| Estrada Rio-Santos, norte de São Paulo em 1983! Que viagem! |
De repente, percebemos que a estrada seguia pela areia da praia. A gente ia passando bem perto de pessoas que estavam tomando sol ou brincando com crianças. Os carros iam e vinham sem nenhuma marcação de espaço e, às vezes, só quando chegava bem perto, é que os carros se ajustavam para cruzar sem bater um no outro. Tivemos que fazer travessia de balsa em Bertioga.
Por outro lado, passamos por lindas praias. A natureza era exuberante e a estrada estava sempre muito próxima do mar.
Descobrimos depois, que a famosa Rio-Santos ainda estava em construção no trecho entre Caraguatatuba e Guarujá. Em muitas partes da estrada, o barro estava revolvido pelos tratores e a situação piorava com o tráfego de carros naquela época de chuvas.
Foi num desses trechos de muita lama que apareceu uma grande pedra da frente do carro. Ao tentar desviar, perdi a direção e o carro desceu uma ribanceira de lama, até atolar a uns vinte metros abaixo da estrada.
Quando o carro finalmente parou de descer o barranco, tentei abrir a porta e vi que estávamos com as quatro rodas enterradas na lama e que não havia como tirar o carro dali sem ajuda.
Quando saí do carro, afundei as pernas quase até o joelho e tive uma crise de riso. Estava tão nervosa que simplesmente só conseguia rir. Márcia e Magali estavam aflitas, mas sob controle. Já a Sandra...começou a chorar, gritar e a nos perturbar.
Escalei a ribanceira à pé e comecei a pedir aos motoristas dos poucos carros que passavam na estrada para avisar a um dos tratores que trabalhavam na construção da estrada que viesse puxar meu carro.
Como Deus é pai, e não padrasto, alguns minutos depois passou um caminhão cheio de trabalhadores braçais. O caminhoneiro parou, viu o carro afundado na lama lá embaixo e decidiu ajudar. Os homens desceram a ribanceira e trouxeram o carro de volta para a estrada no braço. Eles iam levantando o carro e puxando aos poucos pela ribanceira acima, enquanto um deles ficava sentado ao volante e acelerava o motor, fazendo as rodas girarem e amenizando o peso da carga que estava sendo arrastada morro acima.
Logo depois estávamos de volta à estrada. O carro, que era de cor bege, estava com sua cor completamente escondida pela lama. O interior era uma imundice só. E o cheiro da lama? Affffff.....
E foi assim que chegamos ao Guarujá e depois à São Vicente, onde o Wagner tinha um apartamento. Eu estava particularmente sem graça com o estado do carro. Ele ficou muito surpreso quando soube por qual estrada havíamos viajado.
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| Magali e eu na praia da Enseada, Guarujá |
O final de semana teria sido maravilhoso se não fosse o comportamento da Sandra.
Para variar, ela começou a se exibir para o Wagner. Eu não estava envolvida, muito menos apaixonada por ele, mas era realmente irritante perceber o tanto que ela estava disposta a competir comigo. Chegou um momento em que abri o jogo com ela e falei que estava pegando muito mal a forma como ela estava se oferecendo para ele. Ela se acabou de chorar, sem reconhecer suas reais intenções.
Para completar, depois de todo o teatro para se mostrar ofendida com o que todos estavam pensando a seu respeito, ela sumiu com um rapaz que conheceu na noite de sábado. Eu, Márcia e Magali ficamos preocupadas e sem graça com o comportamento dela. Sandra só apareceu na manhã do omingo com uma desculpa pra lá de esfarrapada.
No domingo, para encerrar com chave de ouro sua performance, Sandra decidiu ficar em casa sozinha enquanto todos iam para a praia. Já estávamos a caminho quando Wagner voltou ao apartamento para buscar a carteira que havia esquecido. Pouco tempo depois, ele chegou na praia, mas ficou conversando com amigos que estavam perto de onde estávamos sentadas.
Márcia precisou voltar ao apartamento e, lá chegando, encontrou Sandra aos prantos e parecendo desesperada. Ela afirmava que o Wagner havia tentado violentá-la. Sandra e Márcia voltaram para a praia com o meu carro. Márcia veio me buscar na areia enquanto Sandra permanecia agachada no banco de trás, chorando e dizendo que estava com medo que Wagner a visse ali. Achei aquilo tudo surreal, afinal ela havia dado em cima dele o tempo todo.....porque ele precisaria usar de violência com alguém que se demostrava tão disposta? Mas elas tanto falaram que praticamente me obrigaram a fugir de lá.
Foi um vexame! Voltamos ao apartamento, fizemos nossas malas e fugimos sem deixar sequer um bilhete com alguma explicação ou agradecimento pela receptividade.
Horas depois, já na estrada – agora voltando para o Rio via São Paulo, percebemos que, cada vez que Sandra contava aquela história, ela contava um detalhe diferente da versão anterior e se atrapalhava toda quando questionávamos suas diferentes versões.
Tive vontade de voltar, mas era domingo, havia racionamento de combustível e os postos estavam fechados. Se eu voltasse ao Guarujá, não teria combustível para chegar até o posto que ficava à 150 Km de distância de São Paulo, já em direção ao Rio, como determinava a lei do racionamento naquela época. Segui viagem com a certeza de que algo bem diferente do que ela dizia havia acontecido naqueles poucos minutos em que Wagner e Sandra estiveram sozinhos no apartamento. Aliás, esse tempo foi tão curto que dificilmente teria dado tempo de acontecer alguma coisa mais complicada.
Concluímos que a verdade foi bem outra, e que o provável é que ela tenha dado em cima dele mais uma vez, como havia feito durante boa parte do feriado. Ao ser rejeitada mais uma vez, ela sentiu-se ofendida e caiu no choro. Afinal, se ela tinha dado tão mole para ele, por que ele precisaria forçá-la?
Voltamos para o Rio praticamente em silêncio já que até a voz dela estava irritando a mim e as meninas.
Mais uma amizade que ficou pelo caminho.
Dias depois, liguei para o Wagner para pedir desculpas pela forma como fugimos. Ele ouviu tudo e disse apenas: "Não vou entrar em detalhes, mas lhe digo apenas que essa sua prima é muito mau caráter".


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