sexta-feira, 20 de maio de 2011

Mochileira na Europa

Em meados de 1983, fui ver uma peça no Teatro do BNH com Márcia e Magali quando soube que elas haviam recebido um convite para uma viagem à Espanha que dava direito à hospedagem, passeios e a um curso de “Cultura Viva de España”. Bastava pagar a passagem. Fiquei animada para ir, pois o convite dava direito a um acompanhante e apenas Magali estava interessada na viagem.
Eu não tenho perfil de poupadora – geralmente gasto antes de ganhar, mas fiz e refiz minhas contas e, pagando a passagem em dez suaves prestações e conseguindo um dinheirinho em cima da diferença que existia entre o dólar comercial e o paralelo (na época era vendido no "câmbio negro" hehe), deu pra viajar levando $ 600 dólares no bolso.

Não vou contar aqui todos os detalhes desta viagem, até porque escrevi um livro – “Com Sorte e Sem Juízo na Europa”, que não foi publicado, onde conto todos os detalhes. Mas vou narrar os fatos mais interessantes que marcaram essa deliciosa aventura. Eu estava com 24 anos e Magali com 22, viajamos despreocupadas com o roteiro e com o tempo que ficaríamos. Combinamos que durante a viagem o roteiro ia nascer de acordo com o dinheiro que tínhamos. De certo, apenas a casa de um amigo do Guilherme para ficarmos em Paris e um hotel recomendado em Veneza.

Plaza de España - Madrid
 Embarcamos em outubro para Madri. Ainda no Brasil, no associamos à rede de albergues da juventude e viajamos com a perspectiva de conhecer outros lugares, mas sem saber o que seria possível fazer com o dinheiro que estávamos levando (ainda mais que, naquela época, os cartões de crédito do Brasil não podiam ser usados no exterior).
Em Madri, descobrimos o Interail Card um passe de trem para estudantes vendido apenas na Europa e que nos permitia viajar de segunda classe durante trinta dias pagando apenas $150 dólares por todos os países europeus, além da Rússia. Foi um achado! Nossa viagem ia bombar!!!!



Plaza Mayor de Madrid
  Chegamos num domingo e logo conhecemos dois rapazes de Santa Catarina que também estavam perdidos em meio aos velhinhos que compunham nosso grupo. Na noite de domingo, fomos com Carlos e Luiz Alfredo até o Parque Del Retiro onde assistimos a um espetáculo ao ar livre sobre o qual não entendemos muita coisa.
Carlos era muito engraçado, vivia contando casos divertidos e era bastante atrapalhado. Fomos a uma boate em Madri, dançamos, bebemos e rimos demais com as histórias dele. No dia seguinte estava programado um passeio à Toledo que incluía almoço. Acordamos cedo e a viagem de ida foi uma tortura já que estávamos mal dormidos, de ressaca e sem entender uma palavra do que a guia espanhola ia falando.


Eu e Magali em Toledo
 Ao chegarmos a Toledo, começamos a nos sentir melhor. Fiquei deslumbrada com a beleza do lugar que é ua autêntica cidade medieval. Hoje eu sei que existem centenas de cidades assim em toda a Europa, mas Toledo foi a primeira que conheci e fiquei apaixonada!
Eu e Magali estávamos felizes por ter almoço incluído no pacote, já que havíamos combinado economizar na comida para poder aproveitar mais a viagem.
Chegamos ao restaurante, num local afastado do centro de Toledo e nos acomodamos juntamente com os rapazes catarinenses para saborear o prato. Eu estava cheia de fome, mas Magali estava enjoada por causa do pileque da véspera. Quando começaram a servir os pratos, percebi que era um assado com batatas fritas, mas não conseguia adivinhar qual era a carne.
Quando pude perceber o que estavam servindo, tive uma grande decepção: eram codornas assadas - inteirinhas!!!!, ao molho de alho. Não tive coragem de comer, nem Magali. Elas vinham que nem uns passarinhos, com as patinhas amarradas e me deu dó de meter a faca. Mesmo com tanta fome, comi apenas as batatas fritas molhadinhas no molho de alho.
Os rapazes, ao contrário, caíram de boca na codorna. Luiz Alfredo comia mais devagar, tirando pequenos pesados, enquanto Carlos saiu cortando e comendo cheio de vontade. Foi quando, inesperadamente, Carlos baixou os talheres e começou a mastigar lentamente, fazendo caretas. Nós paramos para observá-lo e tentar descobrir o que estava acontecendo enquanto ele continuava tentando engolir a comida que estava em sua boca. Então, com toda a calma, ele espetou a codorninha com os talheres e olhou para suas entranhas; em seguida comentou:
- Eles não limpam as codornas por dentro...acabei de engolir alguma coisa arenosa que desceu arranhando minha garganta.
A gargalhada foi geral. Carlos ainda completou:
- Veja só: atravesso o oceano Atlântico para vir comer bosta típica na Espanha!!!!
Eu e Luiz Alfredo em Toledo
A partir daí, ele separou as partes internas da ave e comeu a carne. A gente realmente ria muito com as coisas que ele dizia.
Luiz Alfredo e Carlos seguiram para a França e nós continuamos em Madri até o fim da programação, o que incluía visita ao Museu do Prado e ao Palácio Real.
De posse do passe de trem, viajamos para Paris. Uma longa viagem que durou toda uma noite.
No trem, conhecemos um Argentino que nos convidou para jantar no vagão restaurante. Que sorte! Lá fomos nós, as esfomeadas, usufruir da boca livre, com direito a vinho de boa qualidade. O problema foi que o cara era muito chato, ficava elogiando a nossa beleza e já dando como certo que faríamos passeios juntos em Paris – e isso, nem de longe, estava em meus planos.
Quando chegamos à fronteira com a França, tivemos que trocar de trem e passar pela alfândega. Novamente a sorte nos sorriu: o Argentinho ficou preso na fronteira; devia estar com o visto vencido e a gente pode continuar a viagem em paz e de barriguinha cheia.

Um comentário:

  1. OLÁ

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    “CALOR DO AMOR EM CIMA DO TELHADO”

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