Meu namoro com o Mauro começou em outubro de 1974 depois de alguns meses de convivência diária já que ele passou a sentar na carteira ao lado da minha nas aulas matinais da 8ª série do Colégio Estadual Antônio Prado Júnior.
Foi num passeio ao Tivoli Parque, um parque de diversões que existia às margem da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde fomos na companhia de vários colegas da turma. Mauro não saía do meu lado, mas eu, muito tímida, não dava muitas oportunidades para ele me abraçar e menos ainda para me beijar.
Lembro que, quando sentamos no carro da montanha russa, Mauro me abraçou colocando o braço no meu ombro. Eu olhei para o braço dele surpresa e ele, envergonhado, tirou o braço. Eu queria que ele mantivesse o braço sobre mim, mas não tive coragem de dizer nada.
O namoro só começou mesmo num barzinho que existia na Rua Haddock Lobo, quase esquina com a Campos Sales. Depois de alguma conversa, aconteceu o primeiro beijo.
Nessa fase, era muito comum sermos convidados para festas de 15 anos, e eu adorava essas festas porque eram sempre lotadas de adolescentes. O problema é que papai ficava implicando com o horário que eu chegava em casa, insistia que eu não podia ficar na rua até mais de meia-noite. Mas se meia-noite era justamente o horário quando tradicionalmente se dança a valsa dos 15 anos, como eu poderia chegar em casa antes? Ele não se conformava com isso.
Um dia, fui com Mauro a uma festa no Montanha Club, que ficava na subida do Alto da Boa Vista. Em 1975 as favelas da Tijuca eram muito menores, não havia tanta violência, assaltos, seqüestros ou outros perigos maiores, tanto que eu e Mauro fomos e voltamos da festa de ônibus quando já era madrugada. Descemos na Rua Mariz e Barros e fomos andando até minha casa, na Rua Campos Sales. Era tudo tão tranqüilo.... a gente nem se preocupava com possíveis assaltos. A medida em que fomos nos aproximando do prédio, Mauro chamou a atenção para um homem que estava parado, de braços cruzados, bem em frente à portaria. Só então nos preocupamos com nossa segurança. Ainda assim, fomos nos aproximando até que o Mauro disse: “- Márcia, aquele homem parado ali em frente não é o seu pai?” Eu apurei a vista, concordei que parecia com papai mas não achei razoável que fosse realmente ele. Continuamos andando até que tivemos a certeza...era papai! Quando chegamos, ele gritou comigo: “-Isso é hora de chegar em casa? Já pra dentro!”. Mauro ainda falou: “- Seu Edison, a gente estava numa festa de 15 anos”. Papai só se deu ao trabalho de responder: “ – Mauro, por favor, vá embora!”. Mauro saiu quase correndo dizendo apenas: “-Boa noite Seu Edison.”
Entrei pelo corredor com papai esbravejando atrás de mim. Provavelmente sendo ouvido pelos vizinhos. Mamãe me esperava de camisola olhando pela janelinha que tinha na porta do apartamento (usado antes da invenção do olho-mágico) e, quando cheguei, ela disse: “- Não fale nada, vá para seu quarto que o resto eu resolvo com seu pai”. Assim eu fiz.
Quantas vezes mamãe me defendeu e brigou com papai para que eu pudesse curtir minha fase de adolescente! Papai tinha opiniões retrógradas e queria que eu vivesse em casa, na barra da calça dele. Mamãe comprava as minhas brigas e eu sempre conseguia ir às festas ou outros programas naturais da adolescência.
Depois do verão de 1975, um de nossos passeios mais freqüentes era para a casa da Tia Hélia, em Copacabana. Nessa época a Rosangela namorava o Paulo e a gente gostava de sair junto. Outra vantagem era que a Tia Hélia era mais liberal e deixava que nós ficássemos no quarto sozinhas com os namorados. O que talvez ela não soubesse é que, às vezes, ficava um casal em cada quarto, de portas fechadas e então rolavam muitos amassos, apertos, beijos, toques e abraços. Continuávamos virgens, mas namorávamos mais à vontade.
Namoramos durante sete meses e, quando terminamos sofri “pra caramba”. Foi minha primeira grande dor de cotovelo!
Estava em época de provas no colégio e ficava em casa chorando e estudando. Acabei arrasando nas provas e tornei-me a melhor aluna da turma.
Dois meses depois, nas férias de julho em Muriqu e já curada da fossa (como era mais fácil aos 15 anos....), conheci outro rapaz chamado Cláudio. Ele tinha 17 anos, não muito bonito, mas com uma elegância, inteligência e simpatia que me conquistaram. Ele morava em Nilópolis e seus pais tinham uma situação financeira privilegiada. Cláudio, apesar da idade, dirigia os carros da família quando estava em Muriqui, e eram duas Mercedes Bens maravilhosas! Passeávamos de lancha, a saudosa “VANIV”, pelas ilhas da baia de Sepetiba, em especial, Itacuruçá e Jaguanum, praias maravilhosas que ficam em frente a Muriqui.
Ele estudava no Colégio Piedade e, depois das férias, nosso namoro continuou porque ele ia quase diariamente de ônibus do colégio lá pra casa, na Tijuca. Saia tarde da noite para voltar de ônibus para Nilópolis. Amor adolescente faz dessas coisas....
Nessa época papai trabalhava na Funarte e precisou acompanhar um quarteto de cordas para uma apresentação em Miguel Pereira, interior do Rio de Janeiro. Papai decidiu levar a família inteira e nos hospedamos no Hotel Summerville – uma delícia de hotel. Foi um final de semana maravilhoso e o Cláudio foi com a gente.
Estávamos presentes na apresentação do quarteto de cordas. Não me lembro dos demais instrumentos, mas lembro que foi a primeira fez que assisti a uma audição de oboé. Os músicos eram, certamente, muito qualificados, mas para uma adolescente que pouco entendia de música, assim como Cláudio e meus irmãos, aquela apresentação foi muito, mas muito chata. A platéia assistia a tudo compenetradíssima e nós nos olhávamos com cara de enfado, loucos para sair logo dali. Nossa inquietude era evidente e papai tentava nos controlar com o olhar de reprovação. Assistimos ao show até o final. Ficamos tão felizes com o término daquele evento maçante que, apenas por brincadeira aplaudimos entusiasticamente e pedimos “bis”, achávamos; sinceramente, que músicos tão circunspetos não dariam atenção a um comportamento simplório como um pedido de bis. Que engano o nosso.... Eles bisaram e nós quatro caímos num ataque de risos e gargalhadas incontrolável. Eu mesma saí quase correndo e fui me esconder no final da sala para disfarçar a situação. Até papai entrou na onda e começou a rir. Algumas senhoras nos olhavam com um olhar fulminante, e os músicos continuavam tocando. Foi muito embaraçante...
Nosso namoro ia muito bem até que o pai do Cláudio começou a implicar com o fato do filho levar tão a sério um “namorico” adolescente. Ele, então, vendeu a lancha de Muriqui, arrumou um empregado para dirigir para o Cláudio, deu uma barraca de camping com todos os acessórios para que ele se empolgasse com a novidade de acampar. Como eu era proibida de viajar com namorado, isso nos afastou e provocou muitas brigas. O namoro foi para o ralo.... Esperto o pai dele, não?
Ele conseguiu acabar com nosso namoro, mas não impediu que o Cláudio casasse cedo. Ele casou com 21 ou 22 anos de idade com uma garota que ele conhecia desde criança. Nunca mais eu soube dele, uma pessoa muito legal.
Com o final do namoro com o Cláudio entrei novamente numa fossa daquelas.
Para piorar, o ambiente lá em casa estava pesado porque minha avó Rosa, mãe do meu pai, que já estava doente e internada há algum tempo, faleceu no dia 14 de dezembro de 1975. Pouco depois, meu avô José, pai de meu pai, que desde a internação de minha avó estava morando com Tio Zeca, apareceu com uma ferida no pé que foi piorando por força da diabetes, agravada pelo desequilíbrio emocional causado pela perda de sua companheira de tantos anos. Vovô não se interessava em cuidar da ferida. Acabou tendo que ser hospitalizado e teve a perna amputada, vindo a falecer no dia 10 de janeiro de 1976. A missa de sétimo dia do meu avô foi rezada junto com a missa de um mês da minha avó.
Além disso, meu irmão Eduardo ficou em recuperação na escola, o que, lá em casa, era considerado falta grave e motivo de muito estresse.
No réveillon de 1975/1976 fomos para a casa da amiga da mamãe, Cely, que ficava na praia de Muriqui. Apesar do clima pesado, estávamos propensos a superar os problemas e romper o ano de forma tranqüila. Estávamos.... porque eu estraguei tudo.
Desde o rompimento do namoro com Cláudio, pouco antes da morte da vovó, a gente não tinha se encontrado e eu soube que ele estava em Muriqui naquele réveillon. Havia uma festa marcada para acontecer no Iate Clube de Muriqui e a casa da Cely era passagem obrigatória para o clube. Fiquei super ansiosa, não tirava os olhos dos carros que passavam em frente à casa. O movimento de pessoas e carros era intenso por causa dos centros de umbanda que ocupavam a praia com seus ritos tradicionais. Para tentar me acalmar, decidi tomar um copo de cuba-libre. Depois tomei mais uma dose e depois a terceira. Pronto, acabei com a ansiedade e comecei a festejar o ano novo. Bom pra mim e ruim para todos os demais porque fiquei muito bêbeda.
Depois da meia-noite, passaram por lá uns rapazes conhecidos que estavam a caminho do Iate Clube. Mamãe ofereceu um pouco de vinho. Eu, que não entendia nada de pileque, não queria que o efeito da bebida terminasse antes que eu encontrasse com o Cláudio; assim, bebi um ou dois copinhos de vinho às escondidas.
Fui com eles e com mamãe para o Clube. Pouco me lembro do que aconteceu depois. Sei apenas que ficou claro pra todo mundo que meu estado etílico era alto. Fui retirada do salão e acomodada numa cadeira na quadra de futebol do clube para pegar um pouco de ar. Não consegui permanecer assim por muito tempo. Logo depois desmaiei e caí no chão da quadra.. Acordei deitada sobre mesas da secretaria do clube e com o Comodoro me olhando. Minha situação era triste, uma menina de apenas dezesseis anos, mas com tamanho de um mulherão que não conseguia falar, andar, sequer sentar. A solução foi dada pelos rapazes que haviam estado na festa da casa da Cely, que me levaram de volta para lá pendurada nos ombros deles.
Era preciso esconder do papai que eu estava passando mal por excesso de bebida e foi dito a ele que eu havia comido alguma coisa que me fizera mal. Acabei com a festa de todo mundo. Deram-me banho, depois me deitaram na cama do casal dono da casa. Como eu não melhorava, chamaram um médico que constatou que eu estava em coma alcoólica.
No caminho de casa, mamãe tentou comprar a glicose prescrita pelo médico na farmácia de Muriqui, mas como estava fechada, acabei indo pra casa daquele jeito mesmo.
Imaginem o tamanho da ressaca do dia seguinte. Foi meu primeiro porre, e foi em grande estilo. No dia seguinte, quando o médico foi lá cobrar a consulta, ele ficou muito surpreso de saber que eu não havia tomado a glicose e que, ainda assim, estava relativamente bem. Pela expressão dele, acho que cheguei a correr riscos.
O verão de 1976 não foi dos mais saudosos. Pra começar, Cláudio foi embora e praticamente não apareceu mais por lá, preferiu curtir Cabo Frio e sua barraca de camping.
Em compensação, o melhor amigo dele, Wellington, resolveu dar em cima de mim. De início fiquei assustada, mas percebi que havia uma química muito forte entre a gente e acabamos tendo muitos momentos juntos.
Por causa da amizade deles, ninguém poderia saber de nosso envolvimento e por isso namorávamos escondido. Ele também morava em Nilópolis, filho e sobrinho de políticos influentes e primo do presidente de uma escolinha de samba praticamente desconhecida naquela época – a Beija-Flor de Nilópolis.
Em meados de janeiro minha prima Elaine apareceu para passar as férias lá em casa. O namoro dela com Marquinhos Lobo tinha ficado no verão passado. Dessa vez ela conheceu um rapaz chamado Otávio – Tavinho.
Eles namoraram durante todo o resto do verão. Para mim, que estava triste por causa do Cláudio e ansiosa pelos encontros furtivos com Wellington, a companhia de um casal não era a melhor de todas, afinal eu acabava ficando sozinha em muitas ocasiões, mas mesmo assim não reclamei e passei todo o verão segurando vela para os dois.
Só não gostava mesmo quando todos os dias, ao voltarmos do clube tarde da noite, era obrigada a ficar sentada na sala, esperando a longa despedida dos dois que ficavam horas aos beijos no portão. Elaine dizia não saber fechar a porta de casa e eu tinha que esperar a despedida acabar e ela entrar para então trancar a porta e poder dormir.
Na época do carnaval chegou uma prima de segundo grau, chamada Marisa, filha da Wilma, uma prima de minha mãe que eu mal conhecia.
Aí o caldo entornou... Elaine brigou com Tavinho e as duas se juntaram de uma forma incrível. Elas só queriam fazer programas que não me interessavam e me largavam sem a menor cerimônia, sem qualquer negociação.
Passaram a não respeitar mais os horários de café, almoço e lanche, o que aborrecia muito minha mãe que não tinha empregada doméstica em Muriqui. Além disso, passaram a me criticar junto a conhecidos meus, debochando de meus sentimentos, o que acabou provocando desentendimentos diversos. Elaine ainda brigou com meninas da vizinhança – foi um inferno!
No final do verão, depois do carnaval, acabei por despejar todas as queixas que vinha guardando e aconteceu uma briga muito feia. Deixei de falar com Elaine e não quis mais aproximação com a Marisa.
Para mim, todo esse episódio foi muito sofrido. Elaine era a prima que eu admirava e que tentava imitar. Adorava sua magreza, seu charme e seu jeito engraçado de ser. Foi uma grande decepção e uma mágoa que demorou muito tempo para passar.
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