No verão de 1976, Jorge Roberto, meu ex-namorado que dançou a valsa dos meus 15 anos comigo, viajou para um intercâmbio estudantil de seis meses nos Estados Unidos. Ele insistiu para que eu estivesse na festa de despedida e também no bota-fora no aeroporto do Galeão.
Nessa época, eu ainda estava na fossa por causa do final do namoro com o Cláudio, mas mantinha a amizade com Jorge e com seus primos Robson e Adilson. Jorge estava namorando uma garota aparentada dele, muito ciumenta e que me olhava com desconfiança.
Durante os seis meses em que Jorge ficou nos Estados Unidos, escreveu-me várias cartas. Ele ficou hospedado na casa de uma família de Durham, Connecticut e estudava numa high school local. As cartas contavam algumas novidades e também deixavam transparecer que nossa história poderia estar inacabada.
Eu cursava o segundo ano do segundo grau no Colégio ADN, que ficava na Muda, bairro localizado próximo à Usina, no pé do Alto da Boa Vista, bairro que, naquela época, era valorizado já que não havia balas perdidas vindas das favelas que cercam aquela área hoje em dia.
Depois de um primeiro ano meio perdida em termos de novas amizades no novo colégio, já que, até hoje, sou muito tímida quando chegou num lugar em que não conheço as pessoas, eu já estava bem adaptada e vinha me saindo muito bem nos estudos.
Foi um primeiro semestre meio morno, até que as férias de julho chegaram. Jorge retornou logo nos primeiros dias do mês e sua mãe, Dona Ruth, organizou um churrasco para que ele encontrasse todos os amigos. Eu estava lá, assim como a ciumenta da tal namorada.
Sinceramente, apesar das cartas que havíamos trocado, onde ele sugeria que faríamos um passeio ao Alto da Boa Vista tão logo ele conseguisse tirar a carteira de motorista, eu não mantinha grandes expectativas quanto a um recomeço de namoro.
Vale esclarecer que nos anos 70, o Alto da Boa Vista era o local onde centenas de casais de namorados estacionavam seus carros para dar uns amassos. Ficava um carro ao lado do outro, com janelas fechadas e vidros embaçados sendo que, alguns desses carros balançavam muito....kkkk
O churrasco foi realizado num clube que ficava na Rua São Francisco Xavier nas proximidades do Maracanã, perto da Rua Artur Menezes, onde o Jorge morava. Lá pelo meio da tarde, Jorge já tinha bebido muita cerveja e começou a se chegar para o meu lado, sempre com a namorada pendurada em seu ombro. Eu ficava sem graça e cortava sua aproximação.
Mais tarde, estava eu no banheiro quando a tal garota entrou e começou a dizer para a empregada que trabalhava na casa do Jorge que ia matar aquela mulher, que ia “amassar com garfinho”, que ia cair de tapas e unhas em cima dela. Eu, inocentemente, ainda falei que ela não devia se incomodar com bobagens e que bater não resolveria nada. Ela falou mais algumas barbaridades e saiu. Foi quando a empregada, de nome Celina (na verdade, Celcina) me pegou num canto para avisar que a pessoa a quem ela estava se referindo era eu. Fiquei pasma! Aquela bronca toda era comigo!
Fiquei irritada com aquela boboca. Eu não estava fazendo nada, estava até evitando ficar perto dele justamente para não criar problemas.
Foi a pior viagem dela! A partir daí, decidi que não haveria mais nenhuma consideração de minha parte, se ele se aproximasse de mim, seria muito bem vindo.
Logo depois do churrasco, Jorge terminou o namoro com a ciumenta e continuou me procurando. Fizemos então um passeio até uma boate na Barra da Tijuca. Na volta, enquanto Adilson dirigia o carro dos pais do Jorge, um opala que depois seria dele, nós ficamos juntos. No dia seguinte ele não me procurou e quando nos encontramos, me tratou como se nada tivesse acontecido. Fiquei muito "retada" com ele.
Coitada da ex-namorada do Jorge! Depois de seis meses sonhando com o retorno dele, acabou sozinha. A depressão tomou conta da menina, que já era magra e ficou esquelética.
Ao mesmo tempo em que eu estava envolvida com Caçapinha, não queria perder a oportunidade de reatar com Jorge, afinal, Caçapa estaria voltando para Itatiba/Curitiba e o Jorge morava no Rio, pertinho de mim.
Decidi então jogar duro com o Jorge: disse que com ele eu não “ficava” nunca mais, que não queria estragar a amizade, que não achei graça nenhuma quando ele não me procurou depois de termos ficado juntos mais uma vez, que agora ou era namoro de verdade ou não seria mais nada. Ainda assim ele continuou me procurando. Comecei então a elaborar planos para aproveitar mais uns dias com o paranaense e não permitir que Jorge percebesse o que estava acontecendo. Chegou um dia em que acabei juntando as duas turmas num mesmo bar em Ipanema, o famoso, antigo e extinto Castelinho. Na mesa do bar, ao meu lado estava Caçapa, em frente estava Jorge, e eu numa saia justa que não tinha mais tamanho. Segurei Caçapa pedindo que ele fosse compreensivo, pois Jorge era meu ex-namorado, ainda gostava de mim e eu não queria magoá-lo ficando com outro na frente dele. Caçapinha, super cabeça fresca, nem questionou mais nada e se comportou muito bem. Só ficou chateado quando Jorge começou a falar em inglês comigo, não sem antes confirmar que Caçapa não entendia nada de inglês.
No final da noite Jorge me levou para casa, na Tijuca, e dei um jeito de me despedir de Caçapa às escondidas. Chegando em casa, Jorge não me deixou entrar antes de ter uma conversa séria onde eu expliquei novamente que não estava mais a fim de brincadeira.
Começamos a namorar e esse namoro durou três anos e meio, só terminando após um noivado relâmpago que durou menos de três meses.
Jorge foi um bom namorado. Atencioso, carinhoso, companheiro, sempre presente. Nossas brigas, na maior parte das vezes, estavam relacionadas a excessos com a cerveja – ainda mais que naquela época eu detestava cerveja.
Nos primeiros meses de nosso namoro eu fiquei muito apaixonada por Jorge. Ele demonstrava abertamente que eu era importante para ele e me dava grande segurança quanto ao que ele sentia por mim.
Costumávamos namorar no carro, na Floresta da Tijuca, como era costume da galera da época. Jorge tinha um opala branco lindão e muito espaçoso, o que facilitava nossos amassos. Depois de alguns meses de namoro firme, numa dessas vezes que estávamos trocando carícias bem ousadas e já meio despidos, Jorge se deu conta que a relação sexual estava consumada. Quando ele me disse isso, eu não acreditei. Sempre me disseram que virgindade se perde com dor e sangue – então como eu poderia ter deixado de ser virgem se não havia sentido dor, se não havia sangrado?
Nesse dia, voltei para casa arrasada, me sentindo a pior das mulheres de minha geração. Cerca de uma semana depois, Jorge insistiu para voltarmos até a Floresta da Tijuca para termos certeza se eu tinha mesmo deixado de ser virgem. Ele já sabia, mas, preocupado com minha reação, deixou-me da dúvida por uma semana.
Sempre fui meio pratica quando percebo que algumas coisas na vida da gente não têm volta. Portanto assumi minha condição de mulher do Jorge e guardei o fato em segredo por um bom tempo. Entretanto, conversando com minhas colegas de colégio, acabei descobrindo que todas elas já tinham transado – sem exceção! Entendi que a realidade que minha mãe havia me ensinado era muito, muito diferente daquela que eu encontrava na vida. Foi uma fase feliz e muito bonita de minha vida. A gente sempre dava um jeito de ficar sozinhos; eram encontros discretos, cheios de amor, paixão e muito tesão.
Nessa época os primos do Jorge também estavam namorando firme, assim, era comum sairmos em grupo. Robson e Fátima, Ruy e Vânia. O único que variava mais de namorada era o Adilson, mas mesmo ele namorou a Kaka, prima da Fátima e da Vânia, por muito tempo.
Fizemos muitos passeios e viagens curtas, tipo Paraty e Petrópolis, porque papai não admitia que eu dormisse fora de casa com namorado.
Logo no início do namoro com o Jorge tive que dar um jeito de afastar dele a “noiva” de um de seus primos. Vânia insistia em estar permanentemente grudada nele. Sem cerimônia, ela se pendurava no braço ou no pescoço dele e me deixava sem espaço. Até minha mãe e minhas primas notaram e comentaram comigo. Isso acabou na festa de quinze anos da Andréa, filha de um casal amigo de meus pais para quem minha mãe organizou a festa. Agi com tanta sutileza que ela percebeu que não estava agradando nem a ele nem a mim.
Em setembro de 1976 mudamos para a Rua Haddock Lobo 396, Edifício Miss Brasil, bem perto do Largo da Segunda-feira, na Tijuca. Finalmente, aos 17anos, ganhei meu quarto! Finalmente meus pais deixaram de pagar aluguel. Era um apartamento simples, mas atendia a nossas necessidades da época.
No verão de 1977 passamos uma semana numa casa alugada em Araruama pelos pais da Vânia e da Fátima (eram irmãs que namoravam primos do Jorge). Que saudade da casa dos meus pais em Muriqui! Eram muitas pessoas numa pequena casa de dois quartos, a bagunça era inevitável, assim como a fila para o banheiro e a falta de privacidade.
Desde sempre fui meio fresca. Adoro conforto e privacidade. Os dias em Araruama foram agradáveis; a casa ficava de frente para aquele mar calmo, raso e morno e a gente ficava horas dentro d’água conversando, mas sentia falta do conforto e das comodidades da casa dos meus pais.
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