Em setembro de 1977 o telefone lá de casa estava com um defeito estranho. Só se conseguia ligar lá para casa usando um número de algum vizinho que a gente nem sabia quem era. O nosso número verdadeiro não atendia, a menos que estivéssemos ao telefone falando com alguém que tivesse ligado para o número “alternativo”. Foi assim que, numa tarde, estava eu ao telefone com o Jorge quando caiu a ligação e entra a voz de um rapaz – Irineu Antunes, de Curitiba que estava no Rio para um Congresso de Oftalmologia.
Fiquei assustada porque não tinha certeza se Jorge ouvia ou não a minha conversa com Irineu e achei melhor pedir o telefone para que eu ligasse depois.
Ele então me convidou para ir até a boate do Hotel Intercontinental, onde estava sendo realizado o congresso.
Meu namoro com Jorge ia até muito bem nessa época. Estávamos ganhando um dinheirinho juntos trabalhando com venda de roupas que comprávamos na Rua Teresa, em Petrópolis. Na verdade, ele não merecia que eu o enganasse... Mas Irineu era um homem lindo e eu já tinha ficado com ele quando fui em Curitiba. Além disso, a ideia de ir a boate era fascinante. Jorge e eu não costumávamos ir a boates e eu acabei não resistindo a tentação. Sei que não agi corretamente, mas dei um zignal no Jorge e fui. Nem precisei mentir, apenas não falei nada.
A noite foi ótima, troquei uns beijos com Irineu e dancei bastante.
Ele me convidou para ir com ele no dia seguinte à outra boate – a New York, o templo da moda do Rio de Janeiro naquela época.
Dessa vez eu tive menos culpa! Era impossível não desejar conhecer a New York, em Ipanema. O problema é que era o dia do aniversário da Vânia, a noiva do Ruy, primo do Jorge, e ela tinha organizado uma festa. Como eu ia sair dessa?
Aí o teatro foi completo. Chorei, menti, inventei cólicas menstruais devastadoras para não ir a tal festa. Ele ficou muito chateado e foi sozinho. Eu esperei meus irmãos dormirem, peguei um táxi (ainda não tinha carteira) e corri para encontrar com o Gô, filho mais velho da Tia Myrthes que também estava no Rio.
Das duas vezes anteriores que saí com Irineu, ele não me deixava pagar nada, por isso, não me preocupei em levar dinheiro.
Como demorei muito a chegar à Copacabana por causa de toda a encenação que precisei fazer para despistar o Jorge, a maioria do pessoal já estava na boate. Irineu já tinha entrado e, por causa disso, tive que pagar meu ingresso com um cheque da conta conjunta que mantinha com Jorge. Ainda preenchi um carimbo enorme no verso do cheque com meus dados. Naquele momento não me preocupei muito com isso.
A noite foi uma droga. Quando entrei, Irineu já tinha bebido muito e estava conversando animadamente com uma periguete. Mal olhou pra mim! Senti-me uma idiota e muito, muito arrependida do que havia feito.
Voltei pra casa muito chateada e querendo esquecer que tinha encontrado com Irineu. Depois disso, fiquei preocupada com o cheque que deixei na portaria da boate porque lembrei que o banco costumava mandar os originais dos cheques compensados para a casa de um dos titulares da conta, (Era uma rotina jurássica, mas estávamos em 1977). Cheguei a pedir ao banco que suspendesse o endereço do Jorge e fiquei ansiosa aguardando a chegada do próximo extrato com os cheques emitidos já inutilizados pelo banco.
Dias depois, a empregada do Jorge me liga para dar o seguinte recado: “ - O Jorge saiu atrasado para o cursinho pré-vestibular e disse que vai depois para sua casa. Pediu para eu te avisar que ele tem um assunto muito importante para falar com você e que é pra você lembrar isso pra ele”. Eu fiquei preocupada com aquele recado. Pouco depois me liga a mãe do Jorge perguntando o que eu havia feito de errado para o Jorge deixar aquele recado. Eu disse que não fazia idéia, mas na verdade entrei em pânico.
Como eu iria explicar que um cheque assinado por mim, com o verso todo preenchido com meus dados e com minha letra poderia ter sido usado para pagar uma conta na New York City Discotheque na data do aniversário da Vânia, quando eu estava em casa sem a menor condição de ira a lugar algum?
Foi uma noite de terror! Fiquei horas armando uma explicação minimamente lógica e aceitável que envolvia minha prima Rosangela, minha tia Hélia e a Márcia Berino. Liguei para Tia Hélia e a fiz repetir a história que inventei umas mil vezes para que, caso fosse necessário, ela confirmasse tudo direitinho. Que sofrimento! Jurei que jamais voltaria a mentir e a enganar quem não merecia. Imaginei meu namoro terminando e o quanto eu sofreria em perder aquele amor. Tomei calmante e esperei que Jorge chegasse.
Tão logo a campainha tocou, corri para a porta. Ele estava sorridente. Eu, tentando disfarçar a ansiedade, perguntei o que ele quis dizer com aquele recado. A resposta me causou um alívio indescritível:
- Ah! Era só para eu não esquecer de dizer que encontrei com seu professor da escola de motorista e ele pediu pra avisar que sua prova prática foi marcada – disse ele mantendo o sorriso.
Juro que aprendi a lição! Nunca mais agi dessa forma.
Poucos dias depois fiz a prova e fui reprovada. Eu já sabia dirigir. Fiz toda a prova sem encostar em qualquer baliza, mas não lembrei de ligar as setas na hora de sair e de entrar na vaga.
Esperei mais quinze dias com o carro já parado na garagem. Quando chegou novamente o dia da prova, pedi para mamãe pagar e passei sem sequer entrar no carro. Sei que contribui para manter um corrupto atuando, mas naquela época não havia tanta consciência de que essas práticas tão comuns no Brasil são tão erradas.
O ano passou, prestei vestibular para o curso que queria, sob protestos de minha mãe que sonhava com uma filha engenheira. Passei para a faculdade de Comunicação Social – com habilitação em Jornalismo. Fui aprovada para a PUC-RJ, para a Universidade Gama Filho e para a Estácio de Sá e, por incrível que possa parecer, optei pela Gama filho em detrimento da PUC. Muito me arrependi disso depois, mas na época a namorada do Robson, a Fátima, falava muito mal do sistema da PUC que não garantia os créditos a cada semestre, o que tornava imprevisível o tempo de duração do curso, além de insistir que a parte de Teologia era muito difícil.
Naquela época a Universidade Gama Filho tinha um bom nível de ensino (não posso afirmar o mesmo sobre a qualidade atual), mas a diferença estava na freqüência, muito menos selecionada que a da PUC. Pode não parecer, mas na hora de montar a necessária rede de relacionamentos profissionais, isso faz bastante diferença.
Infelizmente, Jorge não passou para nenhuma faculdade e voltou a cursar o pré-vestibular. Mal pude comemorar meu sucesso no vestibular para não deixá-lo constrangido.
Ainda no início de 1978 meu namoro com Jorge passou por uma crise que deixou marcas profundas e que transformou meus sentimentos.
Estávamos em Muriqui na semana anterior ao carnaval e precisávamos voltar ao Rio por diferentes razões: eu, para fazer minha matrícula na faculdade e Jorge porque só concebia o carnaval sem namorada e na companhia dos amigos em local distante de Muriqui – nesse caso, Arraial do Cabo.
Combinamos que seguiríamos para o Rio com os dois carros, já que eu voltaria sozinha para Muriqui e ele iria com os amigos para Arraial do Cabo. Eu tinha menos de seis meses de carteira e um carro mais velho; assim, não queria dirigir à noite. Ele insistiu que eu não precisava me preocupar porque ele estaria sempre atrás de mim e me ajudaria em caso de qualquer problema. Por isso, saímos de Muriqui já ao cair da noite.
O que aconteceu foi que ao deixarmos a parte boa da estrada, a recém inaugurada Rio-Santos e alcançarmos a péssima Av. Brasil, ele simplesmente acelerou e sumiu. Eu fiquei assustada e insegura, sozinha naquela estrada escura. Por estar com medo, dirigia o tempo todo procurando as lanternas de um carro Brasília prata escuro e acelerando muito para alcançar qualquer carro que eu achasse ser o dele. Corria muito, muito mais do que seria recomendável, mas não conseguia alcançá-lo. Fiquei com muita raiva do pouco caso que ele demonstrou com aquela atitude. Sentia-me abandonada. Quando cheguei ao Rio, tive vontade de sumir sem dar notícias, mas a raiva era tanta que fui até a rua onde ele morava. A raiva aumentou ainda mais: ele estava no boteco da esquina tranquilamente tomando uma cerveja. Chamei-o até meu carro, disse algumas palavras duras e sumi.
Antes que eu voltasse para Muriqui, nós conversamos e fizemos as pazes, mas eu nunca mais fui a mesma. Aproveitei meu carnaval sem me incomodar com a ausência dele – aliás, adorei brincar com as amigas.
Ele, que percebeu que havia pisado feio na bola, apareceu em Muriqui no meio do carnaval. Convenceu os amigos a deixarem Arraial do Cabo para ir encontrar com as namoradas em Muriqui. Fátima e Vânia estavam passando o carnaval em minha casa. Quando Jorge percebeu que eu estava feliz e satisfeita apesar da ausência dele, ele começou a mudar. Jorge começou a ficar inseguro, ciumento e muito chato.
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