terça-feira, 21 de setembro de 2010

Vestibular e algumas lembranças tristes

1977 - Ano de pré-vestibular. Papai se antecipou e comprou para mim um carro da volkswagen, uma variant 1972. O carro foi pintado de branco e ficou alguns meses parado em Muriqui até que eu completasse 18 anos e tirasse carteira de motorista.

No início desse ano, apesar de ainda faltar um ano para completar o segundo grau, prestei vestibular para engenharia civil e passei para a Universidade Santa Úrsula. A inscrição aconteceu por acaso: eu estava acompanhando meu namorado Jorge para fazer a inscrição no Cesgranrio e resolvi me inscrever também só pra saber como era o "clima" das provas. A inscrição aconteceu sem maiores pretensões, pois eu queria apenas me testar. Optei pelo curso de engenharia civil justamente porque eu não queria passar. Sendo a engenharia é um curso bem disputado eu achava que teria menos chances de passar, evitando a tentação de buscar um jeitinho de me matricular utilizando recursos judiciais. Mas...prevaleu a Lei de Murphy....Passei. Mamãe não se conformava com a minha recusa em tentar segurar a vaga. A essa altura eu já tinha descoberto a minha vocação para a área de comunicação social e não queria mesmo cursar engenharia.

A conseqüência de minha aprovação acabou não sendo boa porque relaxei com relação ao vestibular. Passei o ano seguinte bem tranqüila e sem muita dedicação ao estudo. Depois que tirei carteira de motorista a situação se agravou porque passei a matar a segunda metade das aulas para ir com as amigas de carro à praia da Barra. Quando fiz as provas, no início de 1978, estava bem bronzeada.

1977 foi marcado também por causa de duas mortes que jamais esqueci. A primeira foi da Valéria, uma moça de 19 anos que eu conhecia, mas com quem não tinha amizade. Eu conhecia também os irmãos dela, Márcia e Marcos. Ela morreu logo no início do ano num acidente estúpido em Vila Izabel quando estava no carro do namorado, Jorge Valle, um rapaz que eu também conhecia lá de Muriqui. Nós passamos o carnaval no mesmo grupo, sendo que eu me fantasiei de grega e ela estava num grupo de melindrosas juntamente com outras amigas minhas, Sueli, Selma e Fatinha. O enterro foi chocante e muito triste. A mãe ficou muito estranha depois da morte da Valéria e costumava freqüentar o cemitério para conversar e contar as novidades para a filha junto ao seu túmulo.

Jorge Valle e a família dele ficaram muito mal, o pai, Geraldo Valle, era figura muito presente no Country Clube de Muriqui, assim como o filho Geraldinho e a mãe, Umbelina.

Em agosto, no dia do meu aniversário, aconteceu uma das mortes mais tristes que já vi: a da Ana Beatriz. Bia tinha apenas dez anos de idade. Era um menina muito especial, filha de um casal amigo de meus pais, Kleber e Ivanise. Ela era a caçula de três filhos, sendo que a mais velha tinha 14 anos. Bia era a estrela da família. Apesar da pouca idade, era espertíssima, simpaticíssima, inteligente e já com jeito de mocinha. A casa deles, com campo de futebol e piscina, era freqüentada pela turma mais velha porque ela agitava a todos.

Ela, tão novinha, se preocupava com o isolamento e com os sentimentos da irmã mais velha, mais tímida e menos bonita que ela. Circulava com desenvoltura pelos “points” de Muriqui, sempre com um chicletinho na boca. Bia adorava estrogonofe. Certa vez, no aniversário dela, em fevereiro, um sorveteiro simples da praia de Muriqui se deu ao trabalho de comprar uma boneca e levar na casa dela como presente. Ela realmente conquistava a todos. Todos tinham alguma passagem marcante para lembrar dela com amor e carinho. Era doce como mel.

Bia aproveitou muito as férias de julho de 1977, juntamente com sua melhor amiga, Dalma, da mesma idade e igualmente precoce. Entretanto, no final das férias, ela apareceu com febre. Sua última noite na boate de Muriqui foi marcada por ter ficado muito quieta, sentadinha e encostada num canto enquanto os demais se divertiam.

A volta para o Rio já foi em regime de urgência. Bia foi internada e o diagnóstico muito preocupante – meningohidroencefalite a vírus. Ela chegou a ser operada para colocar uma válvula na cabeça. Como era meu aniversario de 18 anos, tão esperado, organizei na véspera do dia 6 uma pequena festa lá em casa, apenas para os amigos mais chegados. Mamãe chegou a sair de casa no meio da festa para visitar Bia no hospital. Ela voltou com uma boa notícia: o médico disse que não tinha sido necessário implantar a válvula.

No dia seguinte, 6 de agosto de 1977, acordei com o grito de minha mãe ao telefone quando Kleber telefonou para avisar da morte da menina – na verdade, quando abriu a cabecinha dela, o médico percebeu que a situação era muito grave e que a válvula não teria nenhuma valia.

Mamãe foi para a casa da mãe dela, Ivanise, no Grajaú, para consolá-la. Mas quando lá chegou, mamãe percebeu que ela ainda não sabia de nada. Mamãe não teve coragem de contar que ela tinha acabado de perder sua filha caçula e esperou que outra amiga desse a notícia. Ivanise, apesar de ser espírita, nunca conseguiu superar a perda dessa criança. Chegou a ter gravidez psicológica meses depois e acabou por adotar uma outra menina, recém nascida, na certeza de que era a reencarnação da Bia.

Até hoje, mais de trinta anos depois, sinto a emoção a flor da pele quando lembro de Bia viva e depois de sua linda figura deitada num caixão branquinho, de camisola cor-de-rosa e com a cabecinha enfaixada, sem seus lindos e lisinhos cabelos castanhos, cortados para a operação.
Faço desse texto uma homenagem póstuma a uma criança tão deliciosa e inesquecível. Ela iluminou a vida de muita gente e deixou saudades eternas.

Um comentário:

  1. Bom dia.
    Pelo que contou a cima, creio que eu conheça a família da Ivanise, todos eles...
    A menina se chama Ana Eliza, correto?

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