Desde que me entendo por gente, fui apaixonada por carro, ou melhor, por dirigir um carro. Aos dezesseis anos comecei a azucrinar o juízo de meu pai. Sempre que estávamos em Muriqui eu ficava no pé dele pedindo para sair com o carro.
A maior maldade que ele fazia era dizer que eu podia dirigir se eu tirasse o carro da garagem da casa de Muriqui. Era um corredor comprido e muito apertado. Motoristas experientes se atrapalhavam para tirar o carro de ré, e tinha que ser de ré. Papai tinha um opala quatro portas, o câmbio ficava em cima com a alavanca saindo do corpo do volante, o motor tinha 4.1 cilindradas de potência. O carro era enorme e andava muito.
Um dia, estávamos na casa de uma amiga da mamãe que ficava na beira da praia, a Cely, insisti tanto para levar o carro de volta pra casa que ele acabou deixando. Vinha eu na maior pose quando passei pelo barzinho mais movimentado de Muriqui naquela época, mesmo fora de temporada o bar Bambu tinha movimento. Não era uma frequência de alto nível, pelo contrário, era bem simples, mas fora da temporada a homarada gostava de ficar por ali tomando cerveja e jogando sinuca.
Acho que vendo que alguns rapazes me olhavam, fiquei nervosa e me descontrolei; sai acelerando mais do que devia, e com aquele motor super pontente o carro derrapou e foi direto para cima de um poste que ficava na esquina, em frente a outro bar, o Bar da Praia, que estava fechado. Papai pulou pra cima de mim, se pendurou no volante, puxou o freio de mão e o carro parou.
Ele ficou tão nervoso que berrava: “- Desce!”. Eu pedia para ele falar mais baixo porque todos os rapazes que estavam no bar pararam para olhar para aquele carro desgovernado, aquela garota atônita no volante e aquele homem que berrava mandando-a descer. Quanto mais eu pedia para ele falar mais baixo, mais ele berrava: “- Desce! Desce! Desce!”. Interromperam até o jogo de sinuca.
Morta de vergonha, abri a porta do carro e sai, entrando em seguida pela porta de trás. Um vexame.
Numa outra ocasião, meses depois, já tinha aprimorado meus dotes de motorista e já saía sozinha. Resolvi ir até a casa do Jorge (ex-namorado), que ficava na entrada da cidade, e Edinho foi comigo.
Para chegar lá, era necessário pegar uma estrada secundária que liga Muriqui à BR. Jorge não estava em casa e nós voltamos. Eu tinha planejado pegar uma das ruas de acesso ao centro quando mudei de idéia e decidi entrar numa outra rua, só que já estava em cima da entrada. Sem reduzir, puxei o volante para virar à esquerda e o carro derrapou feio. Bateu muito forte com a roda no meio fio e voltou, atravessando a rua e batendo no meio-fio do outro lado. Parei o carro assustada e, junto com meu irmão, percebi que a roda traseira direita tinha sido atingida. Ainda paramos na casa de um amigo dele para pegar um pouco de esponja de aço e tentar disfarçar a marca da batida na roda.
Voltamos para casa e estacionei o carro com tanta tranqüilidade que papai, que estava na varanda, elogiou para mamãe meu jeito de dirigir. Mal sabia ele...
Sentei perto deles e, depois de alguns minutos, da forma mais natural e despreocupada possível falei:
- Ah Papai. Já ia esquecendo de contar. Fui desviar de um caminhão que vinha descendo aquela rua apertada lá perto do Poção e encostei a roda no meio fio – arranhou um pouco.
Ele correu para ver o que tinha acontecido e ficou muito brabo.
- A roda está torta, empenou tudo aqui! Você atingiu a suspensão do carro!
O dano foi grave. Ele tentou dar um jeito, mas achou que não valia a pena trocar a suspensão. Vendeu o carro assim mesmo.
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