segunda-feira, 10 de maio de 2010

Lembranças de Muriqui

No verão de 1975, minha prima Elaine foi passar as férias em Muriqui. Era nosso segundo verão na casa.
Já no primeiro dia na praia, ela ficou interessada num rapaz que jogava volei na rede que ficava em frente à Rua Minas Gerais.
Era um sábado de janeiro e à noite, como de costume, fomos ao maior clube de Muriqui naquela época, onde rolava a "balada".
Elaine foi uma moça muito bonita e logo chamou a atenção do rapaz que ela havia visto na praia. Não demorou nada para os dois começarem a conversar, equanto eu ficava com a Luciene, também minha prima e irmã da Elaine, e meu namorado, Mauro.
Marco era um pouco mais velho que a gente e já dirigia um velho aero-willys do pai dele.
Depois de um tempo Elaine veio nos avisar que iria sair do clube para dar um passeio de carro com o Marco.
Eu, Mauro e Luciene ficamos muito preocupados. Sair de carro com um rapaz que ela nem conhecia! E se ele fosse meio tarado e tentasse fazer algo errado com ela? Nessa época mamãe enchia minha cabeça de fantasmas (não que ela estivesse errada, mas ....) Na intenção de proteger a integridade física e a “honra” de minha prima maluquinha, eu, Mauro e Luciene saímos a pé do clube e fomos procurar o carro dele na praia. Apesar da pouca iluminação da avenida na beira da praia, logo identificamos o carro do Marco parado entre a rua, ainda sem calçamento, e a areia da praia, embaixo de uma árvore. Ficamos os três vigiando para saber o que estava acontecendo e vimos que os dois apenas conversam. Estávamos escondidos atrás de uma árvore, mas queríamos descobrir mais sobre o que estava rolando dentro do carro. Mauro resolveu chegar mais perto. Foi andando meio agachado e quando já estava bem próximo do carro, Marco acendeu o farol. Iluminado pela luz forte, Mauro ainda tentou não ser notados e saiu correndo todo curvado. Elaine o reconheceu e o chamou na maior naturalidade. Ele, morto de vergonha, foi chegando perto da janela sem saber o que dizer. Como explicar que estávamos pensando que o rapaz que estava com ela no carro poderia ser um doido tarado?
Eu e Luciene nos aproximamos contrangidos. Mais do que rapidamente, eu inventei que meu pai havia aparecido no clube e que tinha ficado irado por não encontrar Elaine conosco. Disse que era melhor irmos para casa imediatamente sob pena de criarmos um sério problema com papai e ele poderia nos proibir de frequentar o clube, caso não voltássemos imediatamente para casa.
Marco se prontificou a nos levar em casa. Completamente sem graça, entramos os três no banco de trás e ficamos quietos até chegar à esquina de nossa casa, já que era mais conveniente que papai não ouvisse o som do motor do carro. Descemos do carro e Elaine foi logo querendo entrar em casa para acalmar meu pai. Logo que o carro se afastou, eu Mauro e Luciene tivemos um acesso de riso e contamos para Elaine que toda a história não passava de mentirinha porque estávamos muito preocupados por ela ter saído do clube com um desconhecido. Elaine então nos fez voltar correndo para o clube e foi logo contando a verdade para o Marco. Que vergonha! Ele deu risada de nossa cara dizendo que não imaginava que ele pudesse ser confundido com um tarado.

Elaine acabou passando todo o verão de 1975 em Muriqui e firmou namoro com Marquinho. Ele tinha uma ex-namorada chamada Wilma que não se conformava em presenciar o namoro dele com Elaine. Essa garota aprontou muito, vivia tentando dar um jeito de perturbar a paz da gente. No carnaval ela partiu mesmo para a agressão: primeiro deu uma pisada que obrigou a enfaixar o pé e ter de ficar o dia todo com o pé para cima a fim de conseguir brincar carnaval à noite. No dia seguinte, conseguiu dar uns socos na cintura da Elaine no meio do baile. Ela avançava por entre os braços do Marquinho que tentava segurá-la. Enquanto fingia dançar, deu uma “bundada” que quase derrubou minha prima. Parecia uma louca! Como se isso fosse trazer o namorado de volta.
Marquinhos era um rapaz muito, muito sério; pouco falava e quase nunca sorria. Dar gargalhada então... nem pensar.
A exceção foi no dia em que estávamos os dois casais passando por uma rua a caminho da praia. Primeiro passou um menino de uns sete anos pedalando uma bicicleta. O menino era tão feio que chamou a atenção do Marco e ele comentou com Elaine sobre a feiúra daquela criança. Elaine concordou, mas avisou que se tratava do irmão de uma das meninas da turma. Ele ficou surpreso porque a irmã dele era bem bonitinha.
Continuando em direção à praia, cruzaram com uma menina de cerca de treze anos que, sem querer faltar com a verdade, era mesmo muito feia. Esquálida, rosto muito longo... era complicado. Ele voltou a comentar com Elaine que, mais uma vez concordou com a observação dele, mas avisou que se tratava da irmã da mesma menina da turma. Ele ficou ainda mais surpreso. Como podia ser aquilo? Afinal de contas, a nossa amiga era uma garota bonita...não fazia sentido ter irmãos tão feios. Continuaram seguindo para a praia quando passou uma senhora. Apesar de sua maneira discreta, ele não conseguiu deixar de reparar na feiúra daquela mulher e. mais uma vez, comentou sobre isso com Elaine. Foi quando, dando risada, ela falou que aquela senhora era a mãe da nossa amiga.
Aí ele deu uma gargalhada tão forte que foi preciso interromper a caminhada para se apoiar no muro de uma casa. Eles riram muito porque ele não costumava comentar sobre as pessoas que cruzavam o caminho deles, mas, sabe-se lá porque, nesse dia ele estava mais atento. Era mesmo uma família muito feia. Interessante foi ele comentar justamente sobre os parentes de nossa amiga sem antes saber que eram todos da mesma família.
Eu e Mauro, que vínhamos logo atrás, vimos os dois rindo de forma escandalosa e corremos para saber o por quê de tanto riso. Acabamos caindo na gargalhada e, até hoje, tenho vontade de rir quando lembro dessa passagem.

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